Com Emily Watson, Stellan Skarsgard
Duração: 152 min
É um daqueles filmes que, como a fé, não se explicam, sentem-se.
De uma beleza intemporal.
Um filme de paixão, mágico e arrebatador.
Deslumbrante.
Não sou eu que escrevo isto. Aqui, como se procurasse um aval cultural (que não é o caso), limito-me a citar os críticos do "Público", de "O Independente" e do "Expresso" nesses tempos (1997) tão próximos e já tão afastados de nós. O tempo, essa máquina que nos arrasta imparavelmente do vazio para o vazio. O sucesso crítico foi generalizado um pouco por todo o mundo.
Se eu vos proponho esta aventura espiritual é porque alinho com eles e quero partilhá-la com vocês.
Uma história simples e quase banal, mas que se vai densificando gradualmente numa espécie de catarse.
Escócia. Bess, uma jovem ingénua, com perturbações mentais (tem uma história de internamento hospitalar lá para trás), completamente absorvida numa vivência religiosa intensa. Jan, um homem mais velho, nórdico, trabalhador numa plataforma petrolífera ao largo, no Atlântico norte.
O casamento contra o desejo da família e da comunidade religiosa, anglicana, hiperconservadora e hipócrita, que domina ditatorialmente aquela pequena comunidade.
A descoberta do corpo e do prazer daquela jovem até aí intensamente mergulhada na religião, mas profundamente (facciosamente) amorosa.
O recente marido fica paraplégico num acidente na plataforma. É a tragédia imprevista, o desespero da jovem casada. A ruína das suas expectativas de vida a desabrochar para uma outra dimensão. A desordem comportamental instala-se. As preces a Deus, os seus pedidos - ao longo do filme é há um constante o diálogo(?) entre a Bess e o ser supremo - são momentos de calma naquela vida à deriva.
Na pior das expectativas (a incapacidade do prazer sexual) o marido pede-lhe que procure a sexualidade com terceiros e lhe conte. Perversidade ou não. Cada um tem as suas posições. Mas certamente bizarro. E, por amor, a Bess vai entrar nesse jogo perverso. É uma forma de doação(de prazer) ao seu amado por interpostos corpos, em humilhação e degradação. É o sacrifício absoluto de quem ama absolutamente. "Eu amo-te demais" diz ela a certa altura.
Bess será assassinada num cargueiro ao largo, numa dessas buscas de prazer por delegação de Jan. E Jan, de um estado de quase morte, "ressuscita". Mais do que isso, recupera a liberdade do seu corpo (milagre? Who cares?). As últimas sequências são uma espécie de arrumação da ficção dos seus desvios religiosos: o enterro de Bess (na verdade, os enterros) ou o ribombar majestoso dos sinos celestiais em contraposição ao silêncio (ausência) dos sinos naquela igreja sinistra onde a jovem foi educada e onde toda a vida da comunidade é coartada.
Todo o filme foi filmado de câmara na mão, no quadro de um movimento dirigido pelo Lars Von Trier que no ano anterior tinha criado o Dogma 95, um manifesto (10 Mandamentos) que apelava a um cinema ascético, de baixo orçamento, sem rodriguinhos de som ou luz, sem trucagens fotográficas nem filtros. Enfim, o retorno à pureza. Obviamente que durou pouco. Pela essência do cinema. E o próprio voltou a fazer cinema sem condicionates dogmáticas. Aliás já neste filme ele não se inibiu de fazer uma belíssima escolha musical para iniciar cada Capítulo, com nomes e sons tão nossos conhecidos: Rod Stewart, Jethro Tull, Procoll Harum, Leonard Cohen, Elton John, T Rex, Deep Purple e David Bowie.
Um desses filmes posteriores foi também um sucesso de crítica, "Dancer in The Dark" com a grande música islandesa Bjork.
Antes de sair. É impossível ficarmos indiferentes ao desempenho de Emily Watson como Bess. Os seus olhos espantosos, o seu riso, as lágrimas, os diálogos com Deus, tudo remete para uma ordem superior. Milagre há aqui. Só por ela valeria a pena ver o filme. Mas há muito mais.