Cinema à 4ª feira
Sessões de Cinema da Nova Atena
30 abril 2026
Programação até ao fim do ano escolar
29 abril 2026
Uma Vida Difícil, de Dino Risi (1961)
22 abril 2026
Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti (1960)
25 março 2026
Umberto D, de Vittorio de Sica (1952)
08 fevereiro 2026
Johnny Guitar - Nicholas Ray (1954)
01 fevereiro 2026
A Estrada do Tabaco - John Ford (1941)
26 janeiro 2026
O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)
Princípio do século passado. Um jovem tenente italiano, Giovanni Drogo de seu nome (Jacques Perrin) recém saído da escola militar. A sua primeira missão será desempenhada num longínquo território, fora do país. Destino: Forte Bastiano, algures no deserto, lá para o médio oriente profundo (estamos num quadro ficcional sem aderência à realidade histórica), na mais longínqua fronteira do fictício império. A missão daqueles militares desterrados no fim do mundo é impedir a incursão dos temíveis Tártaros, povo lá dos Montes Urais (na Rússia), da Crimeia e também da China, com língua própria e religião muçulmana. O inimigo invisível está lá à espreita no "Estado do Norte". Ou é apenas imaginado? Ou, se calhar, desejado?
Diferentes atitudes e comportamentos na hierarquia militar instalada naquele "posto morto", era assim que os mais velhos lhe chamavam. Alguns oficiais aguardam com toda a atenção, em alerta, a possível invasão, outros pura e simplesmente não acreditam nela. Outros ainda, carreiristas, fazem tudo para ganharem galões em mais um posto e safarem-se dali logo que possível.
Os códigos de honra e disciplina do exército - o omnipresente regulamento - fazem o equilibrio entre os potenciais conflitos e diferenças comportamentais. E o tempo vai passando no conforto institucional e aristocrático do exército. Até tinham um quarteto de música clássica. Dias, meses e anos. Esperam. Todos, em certo sentido, no vazio, aguardam o não representável. Uma abstracção. Uma coisa é certa: nunca ninguém avistou os Tártaros. Será que estão lá? Ou são apenas a projecção do medo de todos e cada um?
Anos depois, Drogo, envelhecido e doente, é dispensado pelo novo comandante, o seu melhor amigo na fortaleza. Traição. Acabou-se. Um sonho de heroísmos frustrados, de medalhas não conquistadas. Na verdade, um pesadelo vivido. Uma vida vazia. Gradualmente vamos apercebendo, naquele "huis clos" - postado no infinito do deserto, esmagador, claustrofóbico (tanto mais quanto, em contradição, a imensidão vazia rodeia aqueles militares) - um microcosmos social que vai perdendo gradualmente a identidade e a normalidade da civilização.
Os personagens vão-se esvaziando num niilismo absurdo, na ausência de sentido, de finalidade. O que estão lá a fazer? O que estão a fazer das suas vidas? A interrogação existencialista na metáfora. Jean-Paul Sartre e Albert Camus cruzaram-se com as interrogações desta ficção. Camus até pelas referências geográficas e de lugar - a Argélia e o deserto ("O Estrangeiro").
O filme foi concebido a partir de um romance com o mesmo título escrito, em 1940 (tempo de guerra), por Dino Buzzati. Jornalista toda a vida no prestigiado e histórico "Corriere della Sera", Buzzati escreveu outras ficções (romances , peças de teatro, poesia...) mas nunca nenhuma delas chegou ao padrão superior desta. Com o tempo o livro foi ganhando visibilidade e reconhecimento académico e intelectual e tornou-se um dos romances europeus de referência do Século XX.
Apesar dos desafios inerentes - como filmar o vazio contínuo, o nada? - Zurlini conseguiu convencer produtores europeus a fazer o filme. Tornou-se numa grande co-produçao internacional (Itália, França e Alemanha). Filmado numa fortaleza no Irão, no meio de lugar algum, no tempo do Xá (a Revolução Iraniana seria em 1979) tinha como actores tantas estrelas europeias quase como grãos de areia do deserto.
A variedade internacional era assim como as equipas de futebol nos nossos dias, uma Torre de Babel linguística - actores italianos, franceses, alemães, espanhóis, suecos e, para fazer a ambientação local, também iranianos. O trabalho de pós-produção aparou toda a cacofonia e pô-los a falar italiano.
Bela realização, câmara delicadamente apropriando-se das personagens e dos lugares - a fortaleza e a sua envolvente, uma cidade antiga destruída e abandonada, constituem um decor imponente, estranho.
"O Deserto dos Tártaros" foi o último filme do realizador. Valerio Zurlini (1926-1982) começou no cinema no pós guerra com curtas metragens documentais. Em 1943 entrou na resistência italiana contra o fascismo e o nazismo. E, como muitos intelectuais italianos seus contemporâneos, foi do PCI. Foi a autor de uma obra pouco extensa mas com qualidade e coerência conceptual a relevar. Os seus filmes estiveram relativamente esquecidos após a sua morte em 1982 mas, no princípio do nosso século, começaram a ser recuperados e redescobertos na Europa, em festivais, ciclos e reposições.
O filme de Zurlini mais conhecido, além deste, é "A Rapariga da Mala" (1961) com a bela mediterrânica Claudia Cardinale e Jacques Perrin, que em "O Deserto dos Tártaros" é o personagem Drogo (foi também produtor do filme). Outros filmes a relembrar são: "Um verão violento (1959) com Jean Louis-Trintignant e " Outono escaldante" (1972) com Alain Delon.
Zurlini fez parte de um grupo espantoso de cineastas italianos desde a Segunda Guerra Mundial até aos anos 70 - "Época de Ouro" a designam - de que relembro só alguns: Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti, Roberto Rossellini, Pier Paolo Pasolini, Vittorio De Sica, Mario Monticelli, Dino Risi, Ettore Scola, Bernardo Bertolucci, uma fartura! E ainda caberiam mais uns bons nomes, mas fiquemos por aqui.
17 janeiro 2026
Padre Padrone - Paolo Taviani e Vittorio Taviani (1977)
1975. Itália. Foi publicado o primeiro livro de um autor chamado Gavino Leda. Retrato autobiográfico pungente e dramático da sua vida até aos vinte anos, controlada de uma forma bárbara, prepotente, brutal e sádica, pelo seu pai (padre padrone, pai mestre) numa aldeia rural da Sardenha. Foi um sucesso estrondoso no mercado editorial italiano, mais de um milhão e meio de exemplares, certamente pela violência daquela história verídica, e obviamente não única, tão próxima, de uma realidade fora da história, subdesenvolvida.
Rapidamente os irmãos Taviani conseguiram os direitos do livro e a cumplicidade criativa do próprio autor/ personagem da história real que ele expôs tão cruamente. Fizeram do livro um filme para a Radiotelevisione Italiana (RAI). Só que a qualidade intrínseca do filme e a pertinência da sua temática (a sua aderência ao real) levaram à sua selecção para o Festival de Cannes de 1977. Espantosamente saiu de lá com a Palma de Ouro e o Prémio da Crítica Internacional, os aplausos generalizados, a crítica encomiástica e a força vital para o sucesso no mercado.
Sardenha, enorme ilha em frente ao continente, no lado ocidental, lá bem no centro do Mediterrâneo. Apesar da história riquíssima de Roma e do Império Romano, nunca aquele povo conseguiu criar uma uniformidade linguística para o todo território. Na Sardenha fala-se sardo e italiano, como noutros territórios italianos se falam outros dialectos e o italiano.
Pois foi nesta ilha que nasceu Gavino Ledda, em 1938. O pai tinha ovelhas e cabras. Toda a economia familiar ligada à terra, na verdade, todos os actos da sua vida e da sua família.
Aos seis anos, o miúdo foi retirado da escola onde tinha iniciado os primeiros passos de educação formal. Os valores da terra em primeiro lugar. Até aos vinte anos, ele viveu afastado do mundo, numa espécie de escravidão familiar, isolado, entorpecido. Analfabeto.
Em 1958, a tropa. Normalmente o serviço militar é um intervalo negativo na vida dos cidadãos comuns. No caso de Gavino foi o seu ponto de fuga para o mundo. A salvação. O deslumbramento. Aproveitou bem as facilidades institucionais. Aprendeu a falar, a ler e os usos e costumes sociais. Auto educou-se. Abriu as asas da mente. Uma revolução no seu íntimo. Até saiu de lá com uma especialização profissional - técnico de rádio.
Em 1962 deixou o exército. O retorno a casa foi a rotura óbvia. Ele já não era o mesmo. O pai continuava o mesmo. O choque foi enorme. O desequilíbrio anterior desaparecera. Agora é um homem contra outro homem. O filho continua o seu processo de libertação sempre em recuperação do tempo perdido. Estuda mais, faz todo o percurso académico (aluno brilhante) e, em 1969, conclui a licenciatura em linguística.
Felizmente ainda é vivo. Teve uma carreira universitária, tornou-se um especialista na sua língua materna, o sardo, e publicou livros, nomeadamente poesia. "Padre Padrone" o livro que ele escreveu poucos anos depois, o primeiro, funcionou como um exorcismo, a rejeição, o esquecimento possível do inferno do seu crescimento.
O filme. Começa a ouvir-se uma litania, uma cantiga infantil. Depois uma percussão cadenciada anuncia a ficção. É Gavino Leda (ele próprio ) então com trinta e cinco anos que se apresenta. Com uma navalha corta os ramos de um pau, uma potencial arma de agressão. A câmara movimenta-se elegantemente para o alto onde está o pai (o actor Omero Antonutti) a quem ele entrega o pau. Distanciamento total. Estamos a contar uma história (real).
Entramos na ficção com o actor a entrar na escola. Vai buscar o filho, arrancá-lo do espaço público, da hipótese de educação. "É meu", diz, reivindicando a propriedade do filho como quem o diz referindo-se à camisa ou às calças. Dele pode fazer o que quiser, deduz-se. E faz. Durante anos o miúdo vai crescendo isolado da família, lá no campo, só em contacto com o pai. É a natureza pura. As cabras e as ovelhas. A sua vida é ritualizada dentro dos usos e costumes milenares do lugar. O primitivismo, a rudeza e até a animalidade. Tenta imigrar para a Alemanha mas não consegue por falta de autorização do pai. Depois é o milagre da tropa. No entanto, o retorno faz-se como se tudo continuasse na mesma. Até à fuga, à ruptura. É a libertação. Durou quase vinte e cinco anos aquela ligação visceral a um mundo que era de outro tempo. No fim, volta Gavino Leda como que a avalizar a história. Foi ali que tudo aconteceu.
Irmãos Taviani. Um duo com uma obra relevante. Infelizmente um deles, Vittorio, já partiu (1929-2018). O outro, Paolo, um bocadinho menos velho, ainda é vivo. Começaram a fazer cinema influenciados pelo neo-realismo e particularmente pelos filmes de Rossellini. O seu cinema só passou a ter reconhecimento de mercado muito tarde. Na verdade, foi o sucesso de "Padre Padrone" que lhes abriu as portas de visibilidade internacional e até lhes proporcionou concretizar projectos fora de Itália.
Alguns dos filmes de referência do duo que passaram por cá, quase todos no "Quarteto" de boa memória, templo de cinema lamentavelmente já passado à história:
"São Miguel tinha um galo" (1972), o movimento anarquista no século XIX italiano, a partir de uma novela de Tolstoi.
"Que viva a revolução" (1974) uma ficção no quadro da unificação italiana no século XIX, com Marcello Mastroianni.
"A noite de São Lourenço" (1982) deu-lhes o Grande Prémio do júri de Cannes.
Em 1987 fizeram um filme muito bonito sobre o cinema, no princípio. "Bom dia Babilónia" é Hollywood em 1916, e o Griffith a filmar a obra-prima "Intolerância". Joaquim de Almeida entra.
"César deve morrer" (2012) teve o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Uma obra meio documental meio ficcional, filmada numa prisão em Roma, com os prisioneiros a ensaiar "Júlio César" de Shakespeare.
Uma pequena curiosidade. O colega que, durante o serviço militar, apoia e orienta Gavino Leda no estudo, é representado por Nanni Moretti, que por essa altura estava a dar os primeiros passos como realizador, ele que desde os anos 80 tem feito alguns dos filmes mais interessantes no cinema europeu - "Palombella Rossa", "Querido Diário", "Temos Papa", "O Caimão", "O Quarto do Filho".
Bird - O fim do sonho - Clint Eastwood (1988)
USA. Anos 40 e 50. O jazz. A "revolução " do bebop. Charlie Parker, o "deus" do saxofone. Clint Eastwood. Música e cinema.
Como se estivéssemos numa jam session (sessão de música de jazz, normalmente pela madrugada fora com os músicos a tocarem para eles, com muita liberdade criativa e desafios mútuos, a competirem em contínua improvisação, a procurarem novos sons) vamos começar pelo Clint Eastwood.
Começou como actor em pequenos papéis em Hollywood, depois de alguma relevância na televisão americana a fazer de cowboy, andou pela Europa, onde criou uma identidade artística forte a partir dos filmes de Sergio Leone, "western spaghetti", a chamada trilogia dos dólares - "Por um punhado de dólares" (1964), "Por mais alguns dólares" (1965) e "O bom, o mau e o vilão" (1966), todos com música de Ennio Morricone.
No regresso à América, gradualmente começou a desenvolver projectos pessoais de realização e actuação. Nos anos 70 e 80 foi o inspetor "Dirty" Harry (um polícia dúbio, parafascista, na altura muito controverso) em vários filmes de sucesso. Gradualmente criou uma "máquina" de produção paralela ao sistema de estúdios (a produtora Malpaso, sua imagem identitária) que deu origem a um leque de filmes incontornáveis, como realizador. De tantos filmes que merecem o nosso entusiasmo, relembro alguns: "Imperdoável", "As pontes de Madison County", "Mystic River", "Million Dollar Baby", " Cartas de Iwo Juma", "Gran Torino".
Clint Eastwood, que já vai nos 95 anos (o último abencerragem do cinema clássico americano), é um amante de jazz (um dos seus oito filhos, Kyle Eastwood, é um belíssimo contrabaixista, que já atuou em Lisboa) e incluiu música de jazz nas bandas sonoras de algumas das suas ficções. Não é, pois, de admirar que ele se tenha empenhado na realização deste filme.
A história da vida de Charlie Parker, o incontornável músico de jazz americano com uma vida curta - apenas 34 anos (1920-1955) - trágica, intensa, caótica, patética. Toxicodependente desde jovem (heroína), suicidário, alcoólico, sujeito a depressões e roçando o descalabro mental, andou sempre pela marginalidade social. Morreu de ataque cardíaco. Foi um dos grandes virtuosos do saxofone. Deixou alguns dos registos fonográficos mais impressionantes da música dos anos 40 e 50. Tocou e gravou muito para o pouco tempo que viveu.
Juntamente com Dizzy Gillespie, trompetista, e outros grandes músicos - Theolonius Monk, Bud Powell, Max Roach, entre outros - Charlie Parker foi um dos "pais" criadores do som bebop - um som novo - ponto fronteira entre o jazz clássico (swing) - do Sidney Bechet (clarinetista ), Louis Armstrong (trompetista), Duke Ellington (pianista) e das big bands dos anos 30 e 40 - e o jazz moderno. Naqueles tempos, ainda de guerra, o bebop foi uma revolução formal do som, com mudanças rítmicas, melódicas e harmónicas. O jazz deixou de ser música para dançar e passou a ser música para ouvir.
Eram tempos em que uma América moralista, preconceituosa e racista (continua, de outras formas) não aceitava aquelas músicas disruptivas, quase todas compostas e tocadas por músicos negros. Só pequenas minorias brancas, artistas e intelectuais, faziam parte daquele universo polarizado no Harlem (bairro negro de Nova York) essencialmente centrado em clubes, alguns dos quais ganharam, ao longo do tempo, estatuto de locais sagrados do jazz - Blue Note, Village Vanguard, Downbeat, Three Deuces, Birdland (sim, precisamente a partir do nome de guerra do Charlie Parker - Bird - e por ele inaugurado).
Um drama biográfico. Clint Eastwood criou uma bela história a partir de dados relevantes da vida do músico. As suas crises, as suas angústias, as suas tragédias, as suas fragilidades, os seus falhanços; mas também momentos de euforia, de realização, de satisfação, de êxito. Um puzzle fascinante, uma matriz fragmentada em flashbacks, um vaivém entre o passado e o presente. Um universo sombrio, muitas vezes ampliado por jogos de luz a insinuar mais do que a mostrar (silhuetas).
Um filme a cores que mais parece a preto e branco, opção do cineasta para nos imergir naquela atmosfera pesada, dramática, de contrastes luminosos difusos, como a alma do Charlie Parker.
O filme centra-se nos últimos anos do músico com toda a sua vida ancorada na última mulher, Chan Parker (Diane Venora), que tudo lhe aturava e tudo lhe perdoava, as bebedeiras, as incongruências, as irresponsabilidades, mesmo as traições amorosas. Apesar de se conhecerem há muito, só viveram juntos uma relação amorosa nos últimos cinco anos da vida dele e tiveram em conjunto dois filhos, um dos quais morreu aos três anos. Era uma apaixonada da música de jazz e sempre viveu nesse ambiente. Após a morte de Charlie Parker casou com outro saxofonista, nada desprezável, pelo contrário, na história do jazz - Phill Woods.
Se Diane Venora (uma actriz de referência nos palcos americanos, nomeadamente no universo shakespeariano) foi merecidamente premiada com um Globo de Ouro, Forest Whitaker transfigurou-se no corpo e alma do Charlie Parker. Foi merecidamente agraciado com o prémio de melhor actor no Festival de Cannes.
E a música. Ao longo das quase três horas de filme, muita da música que ele compôs e tocou inunda o ecrã, para nosso redobrado prazer.
04 janeiro 2026
A Ponte do Rio Kway - David Lean (1957)
Drama fictício inspirado em factos reais. Segunda Guerra Mundial, frente do Pacífico. Os japoneses, que tinham tomado toda aquela extensa área geográfica, começaram em 1940, e terminaram três anos depois, a construção de uma via férrea a unir Tailândia e Birmânia, actual Myanmar - designada a Linha Férrea de Burma, com cerca de 415 Km, fundamental para o projecto, não concretizado, de invasão da Índia, então colónia privilegiada do império britânico.
A informação histórica sobre essa obra é dramática. Terão morrido cerca de cem mil trabalhadores asiáticos, escravos na verdade, e dezasseis mil prisioneiros de guerra, tratados abaixo de cão. Não foi por acaso que ficou também conhecida por linha férrea da morte.
Pierre Boyle, escritor francês - viveu, jovem, na Indochina e Malásia, então parte do império colonial francês - lançou em 1952, um romance centrado na construção de uma ponte nessa via férrea e nos problemas que o exército nipónico enfrentou na sua construção. Grande êxito no mercado literário que despertou obviamente o interesse da produção cinematográfica internacional. O projecto cruzou-se com muitos nomes e hipóteses. John Ford e Howard Hawks estiveram na corrida. E até o Orson Welles. Acabou por sair do circuito interno de Hollywood e ser apropriado (mas com produção americana da Columbia) por David Lean, o realizador inglês que, nessa altura, já tinha uma obra muito interessante e um prestígio (europeu) acumulado. Mas com este filme entrou num patamar muito elevado, recordem o que se seguiu: "Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago", "A filha de Ryan" (já vimos) e "Passagem para a Índia" (já vimos).
Um campo de prisioneiros de guerra, ingleses, canadianos, australianos e alguns americanos. A sua organização, a hierarquização das relações, as suas regras. Um cenário tropical, floresta densa, muito calor, humidade, chuvas intensas.
Grande história.
A construção de uma ponte pelo exército japonês com mão-de-obra inimiga. Os conflitos e ódios em "diálogo" com o inimigo. Um campo de prisioneiros que, como disse um dos personagens, era "uma ilha na selva". O desejo da fuga e os códigos de honra. A tensão constante entre dois mundos muito distintos. O afastamento e a aproximação. Um "jogo" desequilibrado que, a pouco e pouco, tende para os ocidentais. A ponte deixa de ser japonesa e passa a ser inglesa, com direito a placa identificadora e tudo.
A partir do romance foi escrito o argumento, a dois, Carl Foreman e Michael Wilson, mas quem recebeu o Oscar em Hollywood (um dos sete) foi o autor francês do romance. Desfaça-se o equívoco. Os dois argumentistas trabalharam clandestinamente. Estavam expulsos de Hollywood (faziam parte da lista negra dos excluídos) na sequência da caça às bruxas dos anos 50. Só no ano de 1984 foi reposta a justiça em termos públicos. Na entrega dos Óscares desse ano foi oficialmente reconhecida a sua autoria e foram homenageados pelos seus pares - trinta e muitos anos depois. Infelizmente tarde. Wilson já tinha morrido nos anos 70 e Foreman morreu nesse ano.
Grandes actores.
Alec Guiness. A essência do actor inglês. Aqui a fazer de coronel Nicholson. Irritantemente chauvinista, petulante, obcecado, corajoso e, no fim orgulhoso, em contradição com a essência da seus princípios militares e os seus valores nacionalistas. Para ele, depois de construir a ponte não era admissível destruí-la. Deveria continuar pelo tempo como manifesto da superioridade inglesa. Oscar de melhor actor principal.
William Holden, capitão Shears, americano. A fuga é o sentido único da sua vida de prisioneiro, coveiro dos colegas que vão morrendo. Prisioneiro quase que por acidente, falso capitão, é um fura-vidas que só quer fugir do mundo militar. Vai conseguir fugir, mas acabará por voltar (por mais que tente safar-se) num grupo especial para a destruição da ponte.
Sessile Hayakawa, o chefe do campo de prisioneiros. Um japonês culto, que andou pela Europa, fala inglês. Vive num equilíbrio instável entre a intransigência do dominador com um sentido de missão forte e a aderência aos comportamentos ocidentais.
Grande realização.
David Lean já tinha uma carreira bem sustentada. Tinha feito "Breve Encontro" em 1945, ainda hoje uma referência (já vimos) e também duas adaptações de sucesso de Charles Dickens, também com Alec Guiness - "Grandes Esperanças" (1946) e "Oliver Twist" (1948).
Uma realização de grande eficácia. A câmara a servir a história de forma fluida e elegante. A montagem paralela com um sentido dramático. O grande ecrã a fazer justiça ao espaço alargado e húmido da selva.
A música.
É um daqueles casos em que a banda sonora está intrinsecamente colada ao filme. Meia dúzia de notas e está feita a associação. Como se fora uma pele do filme. Há uma pequena história associada. Aquando das filmagens o realizador estava a ter algumas dificuldades na gestão dos movimentos sincopados dos figurantes a representar militares (nas sequências com marcha) e houve alguém que sugeriu que se pudesse uma marcha militar como som de fundo. Foi escolhida uma marcha que já tinha também uma história associada - "Marcha do Coronel Bogley" - composta em 1914. Durante a Primeira Guerra Mundial era tocada e assobiada pelos soldados ingleses e na Segunda Guerra Mundial era cantada com uma letra picante e risível com o título sugestivo "Hitler has only got one ball" (excusa-se tradução).A partir daí tudo estava definido. A banda sonora do filme foi elaborada, com variantes, a partir daquela marcha. Óscar da música.
Óscares.
Sete. Grande consagração, neste caso, com justiça. Passa o tempo e o filme continua a ser uma referência. Continuamos a ser perturbados com as dúvidas que ele levanta, com a ausência de maniqueísmo. Não há verdades absolutas.
Em todas as classificações aparece sempre, com toda a justiça, como um dos grandes filmes da história do cinema.
Ah, o filme dura quase 3 horas, portanto quem quiser traga pipocas!
Até 4ª feira!...Jorge Barata Preto
08 dezembro 2025
Artigo 22 ("Catch 22") - Mike Nichols (1970)
Mike Nichols entrou no mundo do cinema pela porta grande, com fanfarra, foguetes e reconhecimento dos pares. E Óscares. E logo com os dois primeiros filmes que fez na vida.
" Quem tem medo de Virginia Woolf?" (1966), com Elizabeth Taylor e Richard Burton, foi o primeiro. O filme quebrou alguns dos tabus do hipócrita código de moralidade de Hollywood - o célebre Código Hays. Vimo-lo aqui.
"A primeira noite" (1967), foi o segundo, e projectou para o universo da fama (e do proveito) o Dustin Hoffman, a fazer de jovem universitário na descoberta da sua sexualidade, quando já tinha 30 anos na vida real. Na verdade, foi o primeiro papel dele no cinema. Além disso o filme teve como banda sonora algumas das mais belas músicas de Paul Simon, com as harmonias vocais de Art Garfunkel (v.g. "The Sound of Silence ", "Mrs. Robinson"...).
O terceiro filme, foi "Artigo 22". Grande aposta do estúdio Paramount. Investimento substancial. Filme de guerra (sobre a guerra). Do ponto de vista do estúdio e da produção, isto é, do business, um falhanço, porque o mercado não respondeu, mas a passagem do tempo tem vindo a repor justiça na sua avaliação artística. É um filme que saiu na mesma altura de "MASH", de Robert Altman, com o mesmo registo crítico da loucura da guerra (neste caso a guerra da Coreia). Também já vimos.
Em 1961 saiu nos EUA um romance satírico de Joseph Heller, um escritor americano que tinha batido com os costados na segunda guerra mundial. Filho de emigrantes russos, fez missões de bombardeamento na força aérea americana, em Itália.
O tema central circulava em redor dos comportamentos bizarros, desajustados e lunáticos de um conjunto de membros do 256° Esquadrão da força aérea americana, estacionado numa ilha de Itália (Pianosa) em 1944.
A ficção, sátira anti-bélica disruptiva, a partir de memórias pessoais do escritor, ganhou um impacto tremendo nos EUA naqueles anos em que o país estava em vias de mergulhar na tragédia do Vietname. Em poucos anos, tornou-se obra de culto da juventude universitária contestatária do Vietname e obra de referência da literatura americana do século XX. Foi o primeiro livro do autor. Uns anos depois, já na década de noventa, Joseph Heller escreveu a continuação (e o desfecho) de "Artigo 22" com o mesmo humor mordaz, mas lúcido, gloriosamente louco. Os mesmos personagens mais velhos (os que não tinham morrido), mas a mesma leitura satírica, de humor negro, do militarismo. Está traduzido em português - "Hora de fechar".
Catch 22. Jargão militar. Uma situação sem saída, uma armadilha. Um paradoxo.
O capitão John Yossarian (Alan Arkin), piloto de bombardeiros B-25 da Força Aérea Americana, quer ser dispensado pela hierarquia militar de realizar mais combates aéreos. Mas para ser proibido deve ser avaliado pelo médico do esquadrão e declarado inapto para voar - o que seria um diagnóstico automático da insanidade de qualquer piloto, pois só uma pessoa louca aceitaria missões devido ao elevado perigo
Mas...para conseguir o diagnóstico e evitar missões o piloto deve solicitar a avaliação médica...e isso provaria a sua sanidade mental.
A circularidade do paradoxo é a continuidade da situação. A loucura, a insanidade e o absurdo a tomar conta do quartel. Desde o general ao praça. Personagens-tipo, qual delas a mais estranha, a mais apanhada da cabeça. Nuts. O capitão Yossarian, obcecado, não quer voar mais; o coronel Cathcart, outro obcecado, quanto mais missões mais medalhas e louvores na caderneta; o Milo, da intendência, aproveita a guerra em benefício próprio, criando uma verdadeira (e extensa) organização de negócios incluindo a prostituição - ao espírito trumpista; o Major Major, a confusão em pessoa. Com o nome que tinha acabou a comandar a base. Etc. Etc.
A matriz ficcional do filme foi transferida do livro, obviamente com o sentido da medida (o livro é muito extenso, muito denso e com muitas personagens). Da multidão de alienados e lunáticos foram seleccionados alguns, num processo de condensação dramaticamente relevante. O próprio autor do livro teceu rasgados elogios ao argumento.
Mike Nichols (1931-2014), de nome original Michael Igor Peschkowsky (origem russa) fugido da Alemanha nazi com os pais (cada americano é um emigrante ou descendente de emigrantes (independentemente do que o cretino do Trump diga).
Foi sempre um homem de Nova York e do teatro da Broadway (começou como actor de teatro de improvisação, um sucesso, e ao longo da vida fez encenações de referência e teve os maiores prémios na sua carreira) era conhecido como um encenador com o toque de Midas. Onde tocava saía sucesso crítico, popular e financeiro, e com regularidade atravessava a América para fazer uma perninha em Hollywood.
Mike Nichols como cineasta nunca cortou com a sua identidade original como encenador. A essência da palavra e do diálogo e a qualidade suprema dos actores eram determinantes. Para ele, o actor era o centro do filme, era a cola da ficção.
Em "Catch 22" temos um leque substancial de grandes actores, a maioria deles são referência da nossa vivência cultural. Orson Welles, não é preciso dizer nada (é sempre um prazer), aquele general... Martin Balsam, já vindo dos anos 40, fez "12 homens em fúria" de Sidney Lumet. Anthony Perkins, de "Psico" do Hitchcock. Martin Sheen, uns anos depois o soldado do pesadelo de "Apocalypse Now" de Francis Ford Coppola. Jon Voight, em 1969 fez " Cowboy da meia-noite " de John Schlesinger, com Dustin Hoffman.
Para além dos três filmes já citados, Mike Nichols fez mais alguns interessantes (quase sempre a partir de textos teatrais com sucesso na Broadway) e sempre com actores de topo do universo hollywoodiano.
"Conhecimento carnal" (1971) com Jack Nicholson e Candice Bergen. Mais uma vez Mike Nichols irrompeu contra os códigos sexuais hipócritas. O filme foi acusado em muitos sítios de obscenidade.
"Silkwood" (1983), os riscos mortais para a humanidade dos programas nucleares. Meryl Streep em grande.
"Uma mulher de sucesso" (1988), Harrison Ford e Melanie Griffith numa história sobre as questões do feminismo num tempo em que ainda eram mais ou menos marginais.
"A difícil arte de amar" (1986) - já aqui o vimos - com o tandem Meryl Streep /Jack Nicholson.
"Casa de doidas" (1996), uma versão de uma célebre comédia teatral francesa sobre os equívocos da sexualidade. O filme francês "La cage aux folles", de 1978, tinha sido um grande sucesso e a versão americana do Mike Nichols, quase vinte anos depois, não lhe ficou atrás com Robin Williams e Nathan Lane, outro grande actor da Broadway.
"Anjos na América" (2004), uma mini-série filmada a partir de uma peça de teatro de Tony Kushner. Uma ficção espantosa sobre a sida, com Meryl Streep e Al Pacino, onde a matriz teatral não é deliberadamente eliminada.
Voltando ao "Catch 22". Uma ficção paródica, verrinosa, sobre a "sagrada " instituição militar, quixotesca, com algo de cadavre exquis surrealista e de clownesco, a remeter para Jerry Lewis nos seus melhores momentos. A fuga do anti-herói em direcção ao mar (numa ridícula jangada) é a salvação possível. Ou não. Voltará certamente para a base, para fazer mais uns bombardeamentos desnecessários.
A tropa manda!
23 novembro 2025
Gloria - John Cassavetes (1980)
19 novembro 2025
Pollock - Ed Harris (2000)
Agosto de 1949. EUA. A respeitável e popular revista semanal "Life". Artigo de fundo, com reprodução de vários quadros. Título: "Is he the greatest living painter in the United States?" O he era Jackson Pollock.Os quadros eram o resultado do seu trabalho. O artigo é uma peça altamente entusiástica e eufórica sobre o pintor que, naquele tempo, aos trinta e tal anos, estava a abrir e consolidar um caminho próprio. Os críticos de arte e especialistas dariam à sua pintura (e de mais uns tantos pintores) a designação de expressionismo abstracto, o primeiro movimento consolidado de origem norte americana nas artes plásticas.
O segundo (com contribuição relevante de pintores ingleses) ocorreria uns dez anos mais tarde com a pop arte, precisamente em reacção ao expressionismo abstracto - a recuperação do corpo no espaço da tela, a recorrência temática à cultura popular, a afirmação da publicidade e da banda desenhada como matéria prima nuclear do quadro - com nomes tão relevantes como Andy Warhol, Richard Hamilton, Roy Lichtenstein ou Jasper Jones.
Vamos por partes. No fim dos anos 40, vivia-se uma certa efervescência no universo da pintura e escultura na América. Paris estava longe (e em repouso) e as coisas interessantes aconteciam em Nova York (epicentro da vanguarda da pintura) e arredores. Quatro pintores americanos ficaram para a história. Mark Rothko, Willem de Kooning, Arshile Gorky e Jackson Pollock. Americanos é um modo de dizer. Na verdade, só Pollock tinha nascido nos EUA, algures no Arizona. Rothko, na Letónia, Kooning, na Holanda e Gorky, na Arménia. Na diversidade da obra, a identidade estética (a mesma camisola) - o expressionismo abstracto, a negação da figuração, a libertação do gesto, a mancha como forma de afirmação visual.
Jackson Pollock (1912-1956) foi, de todos, o que mais fundo e visceralmente penetrou nesse processo de procura e desnudamento da alma. Obviamente as coisas não lhe correram bem. Como a maioria dos grandes criadores, durante muitos anos andou à procura. Falsos caminhos e atalhos curtos. Muitos tropeções. Retornos. Insistências. Até que vislumbrou uma luz. Fim dos anos 40, princípio dos anos 50, o sucesso bate à porta, o reconhecimento dos pares (e dos críticos) dá-lhe um prazer especial e alguma paz na sua alma atormentada.
A sua pintura era impulsiva. A sua técnica, na verdade, não era técnica. Drip painting (pintura por gotejamento) ou action painting, as tintas projectadas sobre as telas estendidas no chão, camada atrás de camada, o informalismo levado às últimas consequências. E a epifania aconteceu. A revelação assumiu forma. O resultado foram umas dezenas de telas que marcaram o imaginário cultural do nosso tempo. E perduram.
Mas a felicidade não estava lá.
Em 1945 Jackson Pollock casou com Lee Krasner, uma colega pintora que meteu a sua própria carreira entre parêntesis para o apoiar, e de que maneira. Era uma pintora abstracta. Morreu em 1984, com a obra em crescimento de reconhecimento. Apesar da segurança e orientação proporcionadas pela parceira (que acreditava nele e assumiu um sentido de missão), a vida não lhe era fácil. Os fantasmas pessoais assombravam-no. O álcool era o seu conforto, paliativo das dores da alma. A alienação o seu estado tendencial. Ia de um extremo ao outro facilmente. Da euforia à depressão. Da agitação à paralisia. Bipolaridade. Recorria à psicanálise, mas não ajudava muito.
Ed Harris pegou nos dados reais dos últimos anos da vida de Pollock, do anonimato à consagração, com a decadência final. Um drama biográfico.
Os últimos anos da vida passou-os o pintor numa propriedade rural que comprou com o apoio de Peggy Guggenheim (a brilhante e riquíssima marchand e mecenas, que foi casada com Max Ernst e adquiriu uma enorme colecção de arte do Século XX, inclusive muitos Pollock) junto de Springs, uma cidadezinha na grande envolvente de Nova York (Long Island), onde naqueles anos vivia uma alargada colónia de artistas, escritores e intelectuais americanos, nomeadamente o grande escritor Philip Roth, leitura imprescindível para percebermos melhor o tempo actual na América.
Ed Harris é um óptimo actor americano, sólido, consistente. Tem uma longa carreira , associada a alguns êxitos. Foi nomeado quatro vezes para o Oscar (lembrem-se de "As Horas", com a Meryl Streep, que já aqui vimos). Conseguiu obter meios financeiros e apoios para este filme que foi claramente um projecto de empenho pessoal, que ele abraçou na totalidade, como produtor, realizador e actor (ele faz de Jackson Pollock com claros efeitos miméticos). E as coisas correram muito bem.
Um filme sereno sobre uma personalidade angustiada, selvagem, em conflito, com o mundo, consigo próprio. A mulher, por mais militante e apoiante da sua causa, foi perdendo a capacidade de acompanhar e encaixar a sua deriva pessoal. Ele arranjou uma amante, naturalmente. Ela foi para a Europa. A morte precoce aconteceu da forma mais natural. Bêbado, a conduzir o seu Oldsmobile convertível, com a amante e uma amiga, espatifou-se contra uma árvore, capotou, a um quilómetro e meio de casa. Tinha 44 anos. Morreu ele e a amiga. A amante escapou e, no futuro, foi fazendo render o peixe nas televisões e nos jornais e revistas contando a sua história com Pollock. É a vida! Suicídio? Mero acidente? Provavelmente a constatação de que a sua energia vital se tinha esgotado, de que a traição à sua mulher tinha ultrapassado os limites da decência.
Do ponto de vista cinematográfico pode dizer-se que, para primeiro filme como realizador, Ed Harris não se saiu nada mal. Bem desenvolvido o perfil do pintor entre a sua juventude em Greenwich Village (já alcoolizado, amante do jazz, fanático do Gene Krupa, baterista espalhafatoso mas de grande talento) e a sua maturidade em Long Island, os seus excessos alcoólicos, as suas manifestações escabrosas mesmo junto da high society bem pensante nova iorquina, potencial compradora dos seus quadros.
Belas sequências do pintor ante a tela vazia (angústia) ou na rota da descoberta da sua identidade pictórica, o gesto, a projecção da tinta.
Com muitos actores de referência a fazerem uma perninha (certamente por amizade), o filme é centrado no casal, no vaivém de afectos, violência e inconsistência do pintor e infinita paciência da mulher. Ed Harris a reproduzir gestos e acções de Pollock como se fosse ele, Marcia Gay Harden a ser a alavanca de suporte e projecção do talento do marido.
Como este filme tão bem demonstra, o mundo ficou mais rico com a obra que Jackson Pollock deixou.
09 novembro 2025
À volta da meia noite - Bertrand Tavernier (1986)
Duração: 133 min
Fim dos anos 50. Dale Turner (Dexter Gordon), um músico americano de jazz, talentoso saxofonista, negro, segue o caminho de muitos colegas seus no pós-guerra. Foge à pressão social e política na América. Na verdade, foge do racismo. Muda-se para Paris, onde consegue (sobre)viver tocando em "caveaux" e clubes de jazz. Alcoolizado ("please, one more verre de vin rouge"), pedrado, vai espalhando o seu talento pela noite fora, à deriva, sem eira nem beira.
Francis (François Cluzet) aparece do vazio da noite escura. Jovem francês, designer gráfico, autor de cartazes de filmes, completamente apaixonado pela música e o som incantatório de Turner, mas com problemas de dinheiro, ouve o seu astro da rua em frente ao "caveau" "Blue Note" (o mesmo nome do célebre clube de Nova York, que ainda existe), o som a sair pelas janelas. À chuva. A pura militância. Após um primeiro encontro, na rua, a aproximação transforma-se gradualmente em amizade.
A adoração torna-se proteção. Também à custa da sua filha, adolescente, um bocado abandonada. O jovem, procura ajudar o músico a controlar os excessos alcoólicos (e outros), trata dele como se fora o seu pai.
A proteção que o jovem francês proporciona ao músico, o universo familiar com que o envolve, ajuda-o gradualmente a controlar os excessos.
A passagem do tempo faz os seus milagres. Recuperado e reequilibrado, Dale Turner regressa às origens. Nova York, onde deixou uma filha, e onde sonha retomar a carreira, reencontrar os seus parceiros músicos no universo frenético da noite, nas jam sessions dos clubes mais emblemáticos - "Village Vanguard", "Birdland", "Blue Note" e outros mais. Do sonho ao pesadelo, um percurso curto. O jovem francês regressa a Paris, mas Dale já não. Elipse. Provavelmente o apelo das drogas e do álcool foi mais forte. Passado pouco tempo Francis recebe um telegrama de Nova York. Dale tinha falecido. Cansado da vida. Fim do ciclo.
Já desde a I Guerra Mundial que o jazz tinha ganho alguma expressão na Europa, particularmente Paris. Com o fim da II Guerra Mundial, muitos músicos, que tinham chegado incorporados no exército americano, acabaram por ficar pela Europa.
Nos anos 50 muitos dos músicos que já tinham uma história nos EUA, acabaram por vir e fixar-se no velho continente. Auto expatriados. Aqui tinham liberdade, a indiferença à cor da pele (a larga maioria era negra), o respeito e admiração dos fãs. Grandes músicos como Dexter Gordon (sim, o nosso "herói", viveu na Europa 15 anos, entre Paris e Copenhaga), Thad Jones, Kenny Drew, Ben Webster e Stuff Smith fixaram-se na Escandinávia, Stan Getz e Don Byas, em Espanha, Bill Coleman, Bud Powell, Kenny Clarke, Sidney Bechet, Steve Lacy, Johnny Griffin, Archie Shepp, em França, Art Farmer, na Áustria.
"Round Midnight" é o título original do filme. E é, também, uma das músicas mais conhecidas e tocadas da história do jazz. É um standard com milhentas interpretações, reinterpretações, reformulações e variações. Saiu da imaginação do Theolonius Monk, em 1943, um pianista genial com um som próprio, sua imagem de marca, como se a música soasse desafinada, dissonante, com falta de técnica. Pura ilusão.
No filme, "Round Midnight" é, juntamente com toda a outra música (e é muita), arranjada e produzida por Herbie Hancock, grande pianista do quinteto de Miles Davis nos anos 60. Hancock também faz uma perninha como actor (Eddie) aliás como outros músicos de topo (John McLaughlin - guitarra, Wayne Shorter - saxofones, Ron Carter - contrabaixo, Tony Williams - bateria) e muitos mais.
E, para nossa surpresa, temos o Martin Scorsese (para mim, juntamente com o Francis Ford Coppola, o maior realizador nosso contemporâneo) a fazer uma perninha como ator - o manager de Dale na América, que o vai buscar ao aeroporto e trata de tudo para ele voltar a tocar em Nova York.
Sendo uma ficção, o filme foi feito a partir das memórias de um outro personagem francês (Francis Paudras), da sua relação com outro grande músico da história do jazz, o pianista Bud Powell, um virtuoso, com mais uns episódios da vida do Lester Young, outro saxofonista seminal, que fez as gravações de referência com a enorme Billie Holliday.
Bud Powell foi, com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Theolonius Monk e alguns outros, um dos que fez a revolução sonora no jazz dos anos 50, a que se convencionou chamar Bebop.
Este revolucionário pianista era algo instável, sofria de problemas mentais (foi sujeito a internamentos hospitalares e à terapia dos eletrochoques) e era "agarrado" à heroína, quadro pesado de vida, com comportamentos erráticos.
Pois nos anos 50, também ele se mudou para Paris e foi aí que se tornou amigo de Francis Paudras, um amante de jazz que o ajudou na sua reabilitação. Este fã francês escreveu um livro "La danse des Infidèles", onde registou a história que constituiu a matriz base para a ficção de Bertrand Tavernier.
Bertrand Tavernier (1941-2021), um bom cineasta francês, acertou na mouche com o filme. Mais do que tudo, um gesto de amor pelo jazz e certamente de recuperação de memórias da sua juventude em Paris. As cores pesadas, saturadas muitas vezes cinzentas ou negras, são o enquadramento adequado da atmosfera onde circulam os seus personagens , um certo mal-estar com a vida, uma fuga para a frente, uma tragédia previsível. Mas uma grande obra de cinema.
Programação até ao fim do ano escolar
Depois de passarmos os quatro filmes ("Rocco e Seus Irmãos", "Uma vida difícil", "O homem a quem chamaram cavalo...
-
Com Meryl Streep, Julianne Moore, Nicole Kidman Duração: 110m Da literatura para o cinema. O tempo está a avançar. Sem pausas. Por saltos. R...
-
Com Gregory Peck, Ava Gardner, Susan Hayward Duração: 117m Ernest Hemingway. É sempre um prazer renovado reencontrarmo-nos com a sua ficção,...
-
Com James Dean, Julie Harris, Raymond Massey Durante: 118 min A seguir a T. Williams, John Steinbeck. Kazan escolhia bem os seus parceiros a...







