Cinema à 4ª feira
Sessões de Cinema da Nova Atena
19 junho 2026
13 junho 2026
Perfume de Mulher - Martin Brest (1992)
Duração: 2h37m
Dino Risi. E vão três. Entendamo-nos. Três filmes. Ainda que goste muito do seu cinema, não é fixação. Aconteceu. Há umas semanas passámos "Um Dia Difícil". Há quinze dias vimos "Ultrapassagem" e hoje "Perfume de Mulher". Só que este é outro perfume. Também de mulher, mas americano, "Scent of a woman". Remake de um filme feito pelo Dino Risi, em 1974, com o mesmo título no mercado português, com o grande Vittorio Gassman que, em Cannes, conquistou o prémio de Melhor Actor. Foi um sucesso, premiado e criticamente elogiado. Dezoito anos depois, foi a vez de Hollywood. Com regularidade acontecem situações dessas - o cinema americano apropriar-se de filmes europeus e fazer a sua versão.
Dino Risi tinha ido buscar o argumento a uma short story, publicada em 1969, de um escritor e jornalista italiano chamado Giovanni Arpino. Martin Brest usou a mesma matriz ficcional transferindo-a para o universo americano (História, lugares, idiossincrasias) mas, na essência, o argumento manteve a história original.
Frank (Al Pacino) é um coronel aposentado. Cegou por um acidente militar. Na verdade por irresponsabilidade e desleixo no manuseamento de granadas. É um personagem irascível, rabugento, machista, mal educado, com tiques comportamentais e acessos de violência. Andou pelo Vietname e fez parte da entourage militar do presidente Johnson, pelo menos é o que ele diz cheio de bazófia. Não aceita nada bem o quadro limitado da sua vida, a restrição visual, como se diz agora. Assume uma lista de coisas a fazer antes de se suicidar. Aprecia os prazeres da vida. As suas paixões são caras - mulheres e Ferraris. Quer ter um fim de semana inesquecível, de arromba, antes de acabar com tudo.
Charlie (Chris O'Donnell) é um jovem estudante, certinho, que precisa de dinheiro para se aguentar. Está a aprender a vida. Estuda num colégio de topo, antigo, com peso institucional de respeito, escolhido pelos ricos e snobs. Ele está lá com o apoio de uma bolsa de estudo e tem que trabalhar uns fins de semana para se safar. É apanhado numa situação complicada quando, por mero acaso, juntamente com um colega (Philip Seymour Hoffman, mesmo miúdo já um grande actor), é testemunha acidental de uma partida de mau gosto feita por colegas ao Director do colégio.
Com o peso do ocorrido a minar-lhe a cabeça e com medo da penalização que possa sofrer na segunda-feira seguinte, é contratado para fazer de ama-seca do coronel no fim-de-semana.
Dia de Acção de Graças, o Thanksgiving Day, feriado nacional na América desde Abraham Lincoln. Dia da família, de gratidão pelas coisas boas recebidas ao longo do ano. É na quarta quinta-feira de Novembro e é, juntamente com o 4 de Julho (Dia da Independência), o feriado mais importante da América. A sobrinha de Frank sai de casa com a família e deixa-o entregue ao jovem Charlie. Tudo aponta para correr mal. O reformado é bruto e mal educado com o miúdo. Exagera no bourbon e nas obscenidades. E altera todos os dados combinados. Era pressuposto ficar em casa, mas os seus planos são outros e arrasta com ele o jovem.
New York é o destino. O programa é de topo. Viagem em primeira, alojamento em hotel cinco estrelas, refeições nos melhores restaurantes. Deambula pelos locais de prazer da grande metrópole numa espampanante limousine. Visita a família de um irmão. Desastre absoluto. Trata mal a família. Os sobrinhos contam um pouco da história dele. O acidente, o egoísmo, o militarismo primário. Quando se vai embora assume para o irmão, como que desculpando-se: "Eu não presto. Já não sirvo para nada."
Gradualmente o miúdo vai-se sentindo solidário com aquele personagem de excessos. Fica siderado com a exibição de dança quando ele executa, com a precisão de um relógio e a agilidade de um felino, o tango de Carlos Gardel "Por una cabeza". É parceiro irresponsável e conivente de Frank na corrida desvairada com um Ferrari pelas ruas desertas e abandonadas junto à Ponte de Brooklyn.
O jovem Charlie acaba por evitar que Frank ponha fim à sua vida. Este acaba por contribuir para que Charlie não fique marcado disciplinarmente no colégio. Troca por troca.
No fim cada um vai à sua vida. Frank retorna a casa e até tenta ser simpático para os filhos da sobrinha, provavelmente alimentando a esperança de uma história com a professora acabada de conhecer, depois de ter criado no seu imaginário de cego expectativas elevadas. A sua habilidade inata para identificar os perfumes das mulheres poderá trazer-lhe o benefício esperado. Quem sabe?...
O miúdo vai regressar ao colégio no pressuposto de que irá prosseguir os estudos em Harvard por indicação do Director. Ou não? O poder do dinheiro é muitas vezes perverso. E a vingança pode estar do outro lado da esquina. Pelo menos fica com o orgulho de não ter sido delator. Uma lição de vida. Já não é mau.
Al Pacino. A essência da representação. Aquele rosto neutro, vazio. Aquele corpo à procura de lugar. Aquela personagem de mal com o mundo, que se quer matar, mas o que quer mesmo é que alguém goste dele. Quem ousará afirmar que o seu Frank não é cego? Que é tudo a fingir?
Ao fim de não sei quantas citações para o Oscar - como Actor Principal e Actor Secundário - (lembremos "Serpico", "O Padrinho", "Um Dia de Cão" e "Justiça para Todos") finalmente Oscar de Melhor Actor. Mais do que merecido. Prazer absoluto.
Martin Brest foi o realizador. Poucos filmes, mas alguns que deixaram marca. Profissionalismo seguro.
Só duas referências.
Em 1984 fez "O caça polícias", blockbuster que projectou Eddie Murphy para a estratosfera do reconhecimento mundial e encheu de dólares os bolsos dos produtores.
Em 1998 em "Conhece Joe Black?", uma ficção espiritual um bocado bizarra (mortos-vivos pelo meio) suportada magnificamente por Anthony Hopkins e Brad Pitt.
"Perfume de Mulher", uma jornada inesquecível. É impossível não alinharmos com aquele duo tão diferente entre si. Acompanhemos o "ceguinho" (era assim que dizíamos quando éramos novos; podemos até recordar as melodias desafinadas que muitos tocavam para pedir esmola - mas isso é outra história.) no seu percurso de adiamento da morte. Pode ser que encontre as dádivas do amor envoltas num perfume inebriante. Às vezes há milagres.
31 maio 2026
Ultrapassagem - Dino Risi (1962)
Duração: 1h45m
Roma, 15 de Agosto, feriado religioso (lá como cá, Dia da Assunção de Nossa Senhora). Cidade deserta.
Bruno (Vittorio Gassman), um quarentão, bem vivido, engatatão, cheio de arrogância. Um fura-vidas. É um tipo superficial, falso, egoísta e vazio. Na verdade, é um infeliz.
Passeia-se pela cidade no seu Lancia Aurelia Sport já um bocado gasto. Não respeita regras. Acelera em grande. Avança pelo sentido proibido com a normalidade do Xico esperto. No seu percurso exibicionista pelas ruas da cidade, conhece Roberto (Jean-Louis Trintignant), um jovem estudante de direito, tímido, ingénuo e complexado.
Com a sua lábia irresistível, Bruno convence (na verdade, força) Roberto a sair da cidade com ele e irem por aí, a acelerar. Saem de Roma para norte, e acabam em Viareggio, na Toscana, trezentos e tal quilómetros depois. Deriva. Uma viagem sem rumo determinado. O carro, centro da vida. Metafórico símbolo de poder. Dino Risi explica: "A Itália da guerra é a terra da bicicleta ou dos que andam a pé; depois veio a 'motorina' (motorizada, a lambreta) e, por fim, 'la machina', o fabuloso automóvel".
Encontros e desencontros acidentais, com reencontros familiares pelo meio. O distanciamento a partir do discurso interior de Roberto ("O que é que estou aqui a fazer"? Não quero ir."). Mas a resistência inicial gradualmente transformou-se em anuimento e até parceria. Cada um com o seu passado, os equívocos, as contas por ajustar, os fantasmas. Como um road movie, em certo sentido, é a circulação em contínuo pela estrada que liberta os quadros ficcionais - os encontros, as memórias, as famílias, os engates... - e da comédia se vai, em mutação gradual, ao encontro do drama, da tragédia. Pelo meio vamo-nos cruzando com os pequenos e grandes contrastes da sociedade italiana, muitas vezes entre o ridículo e o riso. E o twist e as cantigas italianas do tempo.
O jovem Roberto gradualmente vai perdendo a sua ingenuidade, a sua virgindade. Vai-se tornando, em certo sentido, uma réplica de Bruno. Mas teve pouca sorte. Tudo acabou dramaticamente na ultrapassagem. Nem os deuses lhe valeram. Teve pouca sorte. Mercúrio não o protegeu. Foi escolhido por Letum.
Não estávamos à espera de um conto moral. Eric Rohmer, contemporâneo de Dino Risi, ali ao lado, em França, naquela década filmou vários que ficaram célebres. Quem não se lembra de "A minha noite em casa de Maud" (1969), precisamente com Jean-Louis Trintignant , um pouco mais velho, e "O Joelho de Claire" (1970)?
Para o espectador actual - nós - o prazer (afectivo) da distância temporal, da memória.
A Brigitte Bardot, sex symbol europeu daquele tempo, emblema identitário do estouvado Bruno. Uma foto bem visível no tablier da máquina desportiva.
Antonioni, o cineasta contemporâneo de Dino Risi, cujo cinema estava nos antípodas da comédia italiana, portanto de Risi, citado pelo Bruno, aliás de uma forma certeira. A certa altura diz ele para o seu jovem companheiro de viagem: "Aquela coisa que está muito na moda hoje, a alienação. Viste 'O Eclipse' de Antonioni? Que seca. Adormeci. Grande realizador, o Antonioni.".
Private joke de Dino Risi, obviamente. Naqueles tempos a criatividade no cinema italiano era enorme e muito variada, cabia lá tudo - Antonioni e Fellini, Pasolini e Ettore Scola, Sergio Leone e Rossellini, Luigi Visconti e Luigi Commencini, e por aí fora.
Já agora, na despedida da casa da infância do jovem Roberto, uma tia perguntando ansiosa se eles lá em Roma conheciam a Sofia Loren, como se fosse a vizinha do lado.
Revisitação de Dino Risi (1916-2008). Já aqui passou "Uma Vida Difícil" (1961) com Alberto Sordi. Nesta altura (princípio da década de 60) já ele tinha alcançado um estatuto de reconhecimento, com alguns sucessos de mercado. Fazia longas-metragens desde 1955, depois de um período de aprendizagem com curtas-metragens documentais. Acabou por ter uma carreira longa e prolífica.
De origem burguesa da Itália do norte, durante a guerra esteve refugiado na Suiça, licenciou-se em psiquiatria, mas acabou por enveredar pelos filmes. Foi certamente aquele lado da sua formação (chegou a praticar) que acabou por enformar a essência do seu cinema, dos argumentos que escolheu e co-escreveu. Foi um soberbo retratista da sociedade italiana, das suas peculiaridades e estereótipos. Manuseou a "alma italiana" - rindo, sorrindo, com simpatia ou desprezo, com bonomia ou azedume - com um bisturi afiadíssimo que, às vezes, deitava sangue. O seu cinema era um espelho muito cintilante do zeitgeist da Itália do seu tempo.
Dino Risi foi figura maior da commedia all'italiana, "bufão vigoroso despudoradamente explorando a sátira social". Opiniões estudiosas e especializadas põem-no no topo juntamente com Mario Monicelli.
"Ultrapassagem" (tal como "Uma Vida Difícil") figura entre os filmes de referência desse período riquíssimo do cinema italiano que começou nos anos 50 e foi até à década de 70.
24 maio 2026
Eva - Joseph L. Mankiewicz (1950)
1950. Ano de grande qualidade em Hollywood.
Dois filmes incontornáveis. Verdadeiras jóias da história do cinema.
"Sunset Boulevard" ("O Crepúsculo dos Deuses") de Billy Wilder, com a grande Gloria Swanson (já vimos).
Se este é um retrato impiedoso, mas lúcido, sobre Hollywood, em Los Angeles, o outro, "Eva" é o equivalente sobre o universo da Broadway, em Nova Iorque.
Cinema e teatro. Actores. O palco e os bastidores. Carreirismo e oportunismo. Conspirações. Egos à deriva. Competição. Rivalidade. Auge e decadência. Hipocrisia e fragilidade.
Sinopse. Eva Harrington (Anne Baxter), jovem, bonita, aspirante a actriz. Infiltra-se no camarim da diva do teatro Margo Channing (Bette Davis). Falsa inocente. Fala, fala e fala, conta histórias tristes de fazer chorar a calçada (mentiras, saberemos mais tarde). A estrela tem bom coração. Resolve ajudá-la. Protege-a. Contrata-a para a sua "entourage" pessoal.
Foi o pior que lhe podia acontecer. Eva vai-se infiltrando no universo íntimo da prima dona absoluta Margo. Conhece os amigos e amigas. Faz chantagem. Manipula. Não tem escrúpulos. O seu objectivo perverso é usar a grande dama como trampolim de ascensão. E consegue. Transforma-se em estrela que substitui a anterior. Uma espécie de transferência num ciclo repetitivo quase com um sentido biológico. O velho dá lugar ao novo. E assim sucessivamente. Tomou o lugar e a vida daquela que idolatrava. E, no fim, já outra candidata se aproxima.
Cito João Bénard da Costa: "A última imagem do filme mostra-nos Phoebe (Barbara Bates), com o casaco de peles de Eva Harrington e o "Sarah Siddons Award" na mão, avançando solenemente para um espelho com seis faces, seguida pela câmara que nos dá a ver as múltiplas imagens dela, distribuindo sorrisos e agradecendo imaginários aplausos." Fim.
Tudo é contado em flashback, a duas vozes. Addison DeWitt (George Sanders), um crítico teatral cínico e com muita vivência, e Karen Richards (Celeste Holm), mulher do dramaturgo amigo da estrela, vão contando as peripécias, expondo o jogo.
Tudo começa numa requintada, mas simultaneamente triste cerimónia, alguém lhe chamou um ritual necrófilo. Entrega do "Sarah Siddons Award", o prémio da melhor actriz de teatro do ano. A consagração de Eva como estrela teatral em ascensão.
Gradualmente vai-se conhecendo como tudo começou, se desenvolveu, quais os personagens envolvidos e os jogos de bastidores ocorridos. E as coisas não foram nada decentes. Na verdade, num jogo de pequenas e grandes hipocrisias, (quase) todos enganaram todos.
Grande recital de representação a quatro vozes femininas - Bette Davis, Anne Baxter, Celeste Holm e Thelma Ritter - fora as outras, femininas e masculinas. E George Sanders, esse actor genial a fazer papéis de canalha e de vilão. O Oscar assentou-lhe que nem uma luva. As palavras que saíam da sua boca, ainda que muitas vezes acertadas, às vezes, com a delicadeza do florete, feriam como facas.
Neste tabuleiro de grandes actrizes e actores, uma premonição. A personagem de Marilyn Monroe quase não entra na história, ela que confundia waiter com butler ou sable com Gable. A certa altura o crítico teatral atira-lhe "I can see your career rising east like the sun." ("Vejo a tua carreira a erguer-se a nascente, como o sol."). Da ficção para a realidade, assim aconteceu à actriz, para prazer de todos nós. Bastava "Quanto Mais Quente Melhor" de Billy Wilder, "O Pecado Mora ao Lado" também de Billy Wilder e "Os Homens Preferem as Louras" de Howard Hawks.
Já agora mais um desvio, uma informação curiosa. A magnífica Anne Baxter era neta de Frank Lloyd Wright, o grande arquitecto americano que marcou o século XX e também tem que ver com as memórias do cinema. Hitchcock, numa das suas obras-primas, "Intriga Internacional" (1959), usou como décor marcante para a ficção uma casa com um design futurista explicitamente inspirado na Casa da Cascata, um dos projectos realizados mais brilhantes daquele mestre.
Também King Vidor, outro dos grandes clássicos de Hollywood fez, em 1949, "Vontade Indómita" com Gary Cooper a fazer de arquitecto ousado nas ideias e conceitos, criado ficcionalmente a partir de Frank Lloyd Wright.
Já passámos os dois filmes.
"Eva" foi durante muitos anos uma referência maximalista dos prémios de Hollywood. Teve quatorze indicações para Oscar, acabando por ganhar seis, nomeadamente melhor filme, melhor realizador, melhor argumentista e melhor actor secundário (George Sanders). Surpreendentemente quer Bette Davis como Anne Baxter que tinham sido nomeadas para o Oscar de melhor actriz (algo anormal, no mesmo filme) acabaram por ir para casa de mãos a abanar.
Só muitos anos depois outro filme teria igual número de nomeações - "Titanic" (1997), de James Cameron.
Uma ficção que privilegia as palavras, com diálogos espantosos e sequências brilhantes. Mankiewicz era um mestre da escrita. Mas também um maravilhoso jogo de imagens, que se colam, se contradizem, se sobrepõem. Um filme superlativo.
Joseph L Mankiewicz (1909-1993). Uma das figuras de Hollywood clássico, juntamente com o irmão mais velho.
Este, Herman J. Mankiewicz (1897-1953), foi um dos grandes argumentistas do cinema americano (foi ele o parceiro de escrita de Orson Welles de "O Mundo a Seus Pés" e ganharam o Oscar).
Joseph, o irmão mais novo teve uma carreira multifacetada - produtor, argumentista e realizador - deixando para a história algumas preciosidades.
Como se escreve numa das enciclopédias de cinema de referência "...provou ser um dos mais inteligentes e refinados realizadores de Hollywood... privilegiando ficções com argumentos inteligentes e sagazes, muitas vezes com diálogos sarcásticos, extraindo dos seus actores performances maravilhosas.".
Além de "Eva", lembro mais alguns filmes dele.
Dois já vimos - "Júlio César" (1953), Marlon Brando no apogeu, e "Bruscamente no Verão Passado (1959), a partir de Tennessee Williams.
Mas não esquecer "A Condessa Descalça" (1954), Ava Garner e Humphrey Bogart, ou "O Americano Tranquilo" (1956), a partir de Graham Green (já vimos uma segunda versão e não é de deitar à rua).
E foi ele que pegou em "Cleópatra" (1963) - quando a produção estava a afundar - e o levou a bom porto, depois de muitas confusões, paragens, desistências, substituição de realizador e de actores, mudança de estúdio e birras e escândalos envolvendo as superstars Elizabeth Taylor e Richard Burton.
"Eva" resistiu ao tempo. As autoridades americanas consideram o filme cultural, histórica e esteticamente significativo e incluem-no nos cem filmes mais importantes da história do cinema. americano.
17 maio 2026
A Noite Americana - François Truffaut (1973)
Nos manuais de cinema anglo-saxónicos é "Day for Night", os franceses chamam-lhe "La Nuit Américaine".
Técnica cinematográfica de rodagem de cenas durante o dia como se fossem cenas nocturnas, usando filtros especiais. O fingimento como projecto. A essência do cinema. Desde George Méliès.Tudo é diferente do que parece, tudo é artifício. A encenação do real e do imaginário, nos tempos actuais cada vez mais cada vez mais verosímil e barato.
Um filme em rodagem nos estúdios Victorine em Nice.
Título: "Je vous présente Pamela".
Um rapaz francês (Alphonse - Jean- Pierre Léaud) conhece em Inglaterra uma jovem inglesa (Pamela - Jacqueline Bisset). Apaixonam-se e casam. Três meses depois ele leva-a a conhecer os pais - Alexandre e Séverine - na Riviera francesa. Prosperidade, bom gosto. Normalidade burguesa...Mas anormalidade nos sentimentos. O pai dele e a jovem mulher dele envolvem-se num processo escandaloso, apaixonam-se e fogem.
Alexandre irá atrás deles. A sede de vingança é enorme.
Trama de telenovela nos seus excessos dramáticos, nos seus contornos trágicos, com lógica de best seller.
Genérico. A preto e branco. A ficha técnica. O nome dos actores, dos técnicos, de todos os que, em equipa, fazem um filme, dos produtores e do realizador. No lado direito do ecrã passa o registo visual da banda de som.
Depois, um longo plano-sequência (uma cena inteira é filmada num único take, sem cortes de montagem, registando a acção em tempo real) numa praça. Um traveling (movimento físico da câmera no espaço, sobre um trilho ou carris) acompanha o movimento das pessoas. Passos apressados, vaivém, um carrinho de bébé, um cão, um autocarro, a entrada do metro, um personagem que sai do metro, um carro desportivo que se aproxima. Sempre em contínuo, a câmara aproxima-se de outro personagem que caminha em sentido contrário e se encontra com o do metro. Este vira-se e atinge-o com uma bofetada. Coupez, corta, ouve-se uma voz (provavelmente a do realizador). A câmara sobe elegantemente em contre plongé e revela tudo. Estamos numa praça recriada em estúdio, azáfama, com figurantes por todo os lados mais os técnicos e os equipamentos, uma parafernália...e as coisas não correram bem. Vão ter que fazer uma nova take, e outra, e outra... até ficar como o realizador quer. A cena terá que ser refeita com mudança do fim da história porque um dos actores entretanto morre num acidente. Coisas da vida e do cinema.
O realizador, os actores, os técnicos e mais uma catrefada de gente que entra e sai. Um mundo em pulsação, em diferentes velocidades, perguntas, excitações, actos falhados, alterações de última hora. Interrupções. Enganos. Tudo é possível. É a essência de fazer cinema.
Pelo meio há as histórias cruzadas das pessoas que fazem o filme. Os sonhos do realizador (Truffaut, ele mesmo, a fazer o papel de Ferrand, o realizador), enquanto criança, a roubar cartazes de "O Mundo a Seus Pés" do Orson Welles.
Os caprichos do actor que faz de Alphonse, uma criança grande, que consome filmes e tem grandes dúvidas existenciais. A namorada fugiu com o cascadeur inglês que quase nada tinha a ver com a história. Bem merecido, o chato que ele era...
As antigas estrelas que, nos bons velhos tempos, andaram por Hollywood, a recordar petites histoires deliciosas.
As histórias de cama acidentais e os amores imprevistos. A revelação inesperada dos interesses amorosos do velho galã.
François Truffaut (1934-1984). Vida relativamente curta mas uma carreira bem cheia. Fez 21 filmes, mais umas curtas-metragens, e muitos deles preencheram o imaginário da nossa geração.
Teve uma infância solitária, difícil e infeliz. Filho de pai incógnito, andou por reformatórios. Muito jovem começou a refugiar-se no mundo de fantasia do cinema. Consumidor exaustivo de filmes, acabou por ser protegido por André Bazin, seu pai adoptivo, na verdade, o "pai" de todos os jovens cineastas franceses da "Nouvelle Vague" - além de Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette, Alain Resnais, Éric Rohmer e mais alguns.
No interim, teve mais problemas pessoais. Desertou do serviço militar e esteve preso.
Quando se safou do poder jugular da tropa, começou a escrever em contínuo sobre cinema para os "Cahiers du Cinéma" e outras revistas francesas. Na essência muito poucos realizadores franceses (e mesmo europeus) se safaram do veneno da sua pena, num estilo feroz e cáustico. Para ele, naqueles anos 50, os filmes franceses eram convencionais, pretensiosos e artificiais. Em contrapartida, os filmes americanos - John Ford, Howard Hawks, Nicholas Ray, Alfred Hitchcock, entre outros - eram vivos, audazes, intensos, expressando uma identidade autoral, o realizador. Foi a célebre Teoria do Autor.
Quando tinha vinte e sete anos, fez o seu primeiro filme de fundo e subiu em grande velocidade as escadas da fama, do sucesso e do dinheiro. "Os 400 golpes", a história de um jovem de 12 anos, rebelde , delituoso, com problemas de integração e sociabilidade. Na verdade o filme tinha um forte conteúdo autobiográfico. A personagem - Antoine Doinel - interpretada pelo jovem Jean-Pierre Léaud era o alter ego do jovem François Truffaut. Este continuou, durante vinte anos, à medida que o actor ia crescendo, a fazer filmes que eram a hipotética evolução da sua história pessoal. Fez mais cinco filmes (um dos quais média-metragem) com Antoine Doinel/Jean-Pierre Léaud. Em 1979 "Amor em fuga" termina o ciclo Doinel, com sucesso comercial.
Depois de "400 Golpes" foi fazendo filmes que eram muito o espelho da sua França. Contradição de fundo. Ele que cresceu a alimentar-se dos filmes americanos - "O que me levou aos filmes foi a enxurrada de filmes americanos em Paris, após a libertação" - criou uma obra genuinamente francesa mesmo quando usava como matriz básica livros de escritores americanos - fez vários policiais.
O segundo filme foi "Disparem sobre o pianista" (1960), um policial a partir de um escritor americano, David Goodis. Fascinado por Hitchcock, ao longo da carreira fez mais uns thrillers a partir de histórias anglo-saxónicas transferidas, com as necessárias adaptações, para o universo francês.
Em 1962 fez o célebre "Jules e Jim" , dois homens e uma mulher (Jeanne Moreau) em ménage à trois. Imoralidade ou amor?
"A Noiva Estava de Luto" (1967?). Jeanne Moreau, outra vez, em assassina profissional.
"A história de Adele H." (1975), um projecto muito interessante sobre o amor louco. Uma filha de Victor Hugo obsessivamente apaixonada por um oficial inglês, sem eco do lado de lá.
"O Homem que Gostava de Mulheres " (1977). No funeral de um homem, a presença de um número inusitado de mulheres, que tinham sido suas amantes. Recordações.
"O Último Metro " (1980), Catherine Deneuve e Gérard Depardieu numa bela história em Paris ocupada pelos nazis.
"A Mulher do Lado" (1981), outra vez Depardieu, desta vez com Fanny Ardant, que foi a última parceira do realizador, numa boa história de (des)encontros amorosos.
Tal como em "A noite Americana ", Truffaut entrou em outros filmes dele como actor, nomeadamente "O Quarto Verde", uma ficção algo mórbida sobre o amor aos nossos mortos. Em 1977 Steven Spielberg convidou-o para fazer de cientista francês no célebre "Encontros Imediatos do Terceiro Grau". Estreará brevemente o último filme do cineasta americano, que volta tematicamente ao mesmo tema - os OVNI.
Voltando a "A Noite Americana". Fim da produção. Cada um volta para casa. Alguns vão logo para o próximo filme. Outros irão aguardar novos contratos das produtoras, outros vão inscrever-se no desemprego. Uma espécie de intervalo no ciclo de vida de cada um. O estúdio fica vazio. É triste.
O realizador vai certamente fazer a montagem. Quando o filme estrear já nada cabe a nenhum daqueles personagens que acompanhamos. O público decidirá e pode ser que o sucesso bata à porta. Neste caso, tudo se conjugou favoravelmente, o mercado, a crítica e as instituições - "A Noite Americana" foi galardoado em Hollywood com o Oscar do melhor filme estrangeiro de 1974.
13 maio 2026
E Deram-lhe uma Espingarda - Dalton Trumbo (1971)
Princípio dos anos 70. Relembremos o contexto político mundial do tempo. Vietname. Os EUA gradualmente atolados num quadro de guerra doloroso, uma calamidade. Passados poucos anos os soldados americanos iriam abandonar aquelas paragens com o rabo entre as pernas, feridos na honra, com um enorme défice de orgulho.
Foi neste contexto que surgiu "E Deram-lhe uma Espingarda". Primeiro e único filme de Dalton Trumbo, como realizador, que, como argumentista, deixou um marco indelével na história de Hollywood. Lá iremos.
Em 1939 foi editada uma ficção de Dalton Trumbo com o título "E Deram-lhe uma Espingarda". Era um rebelde, estava já a consolidar a sua longa e atribulada carreira de argumentista em Hollywood, mas paralelamente era romancista com algum sucesso. Este era um romance clara e assumidamente pacifista, anti-guerra. Relembremos que nesse ano começou o segundo pesadelo mundial do Século XX.
Primeira Guerra Mundial (primeiro pesadelo). Último dia antes da rendição alemã. Joe Bonham, soldado americano, é atingido em cheio por um projéctil de artilharia. Pouca sorte. Acorda (miraculosamente) numa cama de um hospital militar sem olhos, sem ouvidos, sem braços, sem pernas, sem rosto. Um pedaço de corpo. Um homem prisioneiro nos destroços da sua carne. Um homúnculo. Um morto-vivo. Em estado vegetativo. Mas com a consciência de si. O seu quadro mental sobreviveu incólume à destruição do seu corpo. A sua capacidade de memória perdurou. Um milagre. E agora?
Aquela massa amorfa já teve uma vida. Nas regressões da sua mente propulsionadas pelos analgésicos com que os médicos e enfermeiras anestesiam a sua dor, entre a realidade e a fantasia, vai-se conhecendo a essência da sua vida, a família, a igreja, a namorada. Flashbacks. Mas também os seus sonhos, frustrações, devaneios e medos. Reminiscências. A medicação (certamente ópio) vai libertando o seu Id (inconsciente). Delira. Na deriva da sua mente até vai interagir com Jesus Cristo.
Apesar daquele quadro aterrador, consegue comunicar com as pessoas que tomam conta dele. Percutindo a cabeça na travesseira, utiliza o código Morse que tinha aprendido em miúdo. Diálogo difícil. Ele tem consciência do seu estado irreparável. Um freak. Quer morrer, quer que o matem ou que exponham o seu corpo em espectáculos de feira, miserável "troféu" de guerra. Claro que o exército não atende as suas súplicas. Vão continuar a mantê-lo nos esconsos hospitalares, bem escondido de todos. Resta-lhe continuar a apelar em vão. SOS. SOS. "Matem-me" "Matem-me". Sem eco, sem resposta.
Todo o percurso mental de Joe, caótico, não linear, misturando memórias, impressões sensoriais e emoções é feito como um fluxo de consciência, desordenado, subjectivo.
Por outro lado a organização da imagética ficcional faz uma partição entre o agora - o que resta de Joe na solidão de um quarto hospitalar - (a preto e branco) e as suas recordações, devaneios, regressões e fantasias (a cores).
Dalton Trumbo titulou a sua ficção a partir de um slogan de recrutamento militar americano durante a Primeira Grande Guerra, "Johnny Get Your Gun".
Dalton Trumbo. O realizador do filme, o argumentista de muitos filmes de referência da história do cinema americano. O escritor do livro. Foi um dos criadores mais importantes de Hollywood das décadas de ouro. Um intelectual de esquerda, talentoso e prolífico escritor, foi perseguido pela pandilha mccarthista nos anos 40. Esteve preso quase um ano, condenado por desobediência civil ao Congresso dos EUA (por se ter recusado à delação) e, metido na lista negra, foi proibido de trabalhar em Hollywood. Exilou-se no México, mas o seu talento era tão grande que, mesmo nesses horríveis anos negros, continuou a escrever para os estúdios, criando, sob pseudónimo, muitos argumentos transformados em filmes.
Começou a escrever em Hollywood em 1936 e continuou até ao princípio dos anos 70. O último argumento que escreveu foi "Papillon", que já aqui vimos. Mas em 1960 escreveu "Spartacus" para Stanley Kubrick (também já vimos) e "Exodus" para Otto Preminger. Escreveu para Vincent Minelli "Adeus Ilusões" (1965). E para William Wyler "Férias em Roma" (1953).
Nunca mais acabava, indicar todos os filmes que escreveu. Só mais um, pelo lado risível e irónico da situação. Em 1956 o argumento de "O rapaz e o touro", de Irving Rapper, um realizador banal, foi ganho por Robert Rich que, inexplicavelmente, ninguém conhecia em Hollywood e não foi buscar o Oscar. Era Dalton Trumbo, que vivia do outro lado da fronteira.
A riqueza da personalidade e as histórias associadas ao Dalton Trumbo nos tempos áureos de Hollywood até mereceram um filme sobre ele, precisamente "Trumbo" feito há uns anos por Jay Roach. Muito interessante.
"Metallica". Não estou a delirar ou com uma neurose freudiana, e também não houve qualquer "colagem" acidental de textos. Explico-me. Em 1989 os "Metallica", que felizmente ainda andam por aí, cheios de energia e qualidade, fizeram um videoclipe de "One", uma das músicas identitárias do grupo, incorporando sequências do filme. Acabaram por comprar os direitos e editá-lo em DVD.
Espantosamente, com imprevisto sucesso de mercado, o filme - que, no seu lançamento, tinha tido uma carreira simpática - ressuscitou e tornou-se um "filme de culto". A cinefilia em dívida para com o heavy metal, o rock da pesada. Demos graças.
Também nas artes pode haver milagres.
06 maio 2026
O Homem a Quem Chamaram Cavalo - Elliot Silverstein (1970)
Fiquemo-nos pelos povos que os "descobridores" encontraram, os indígenas, os nativos, os índios, os peles-vermelhas, os selvagens como os brancos os chamavam (a maioria desses brancos era a pior escumalha - assassinos, ladrões, marginais - degredada da Europa).
O processo civilizacional americano foi, em última instância, um processo de eliminação gradual e sistemática das populações autóctones pelos emigrantes europeus.
À medida que o país ia ganhando identidade e o poder político e militar se ia consolidando, as populações autónomas iam sendo dizimadas de forma sistemática ou, mal menor, iam sendo deslocadas à força das suas terras originais para reservas longínquas, em marchas forçadas de dias e dias em condições horríveis que acabavam com muitas mortes por fadiga e doenças.
John Morgan (Richard Harris), um aristocrata inglês de modos refinados e comportamento aventureiro. Muita fortuna e enorme vazio existencial. Em 1821 faz uma expedição de caça ao Dakota no centro do território americano. As coisas correram mal. O grupo de caçadores foi atacado por índios Sioux, originários e viventes naquele espaço há séculos. Foi o único que sobreviveu. Capturado, salvo pela estranheza (para os índios) do seu cabelo louro - ao longo dos séculos, pequenos incidentes têm tido efeitos incríveis no sentido da História - foi oferecido de presente à mãe do chefe da tribo "Mãos Amarelas".
O choque é profundo. Um aristocrata britânico escravizado pelos índios no centro da América. Transformado em animal de carga e criado das mulheres. Ridicularizado por todos.
Encontra no acampamento outro branco cativo, Batise, um francês que só pensa fugir. Na verdade ele era o único elo de comunicação de Morgan com a tribo. Este também tenta fugir e é punido. Mas gradualmente acaba por ir aceitando o seu novo mundo. Uma espécie de fusão cultural entre um antes e um agora. Aculturação.
Num conflito com outra tribo, quase por acaso, transforma-se em herói ao matar índios inimigos.
Apaixona-se pela irmã do chefe, mas para ficar com ela tem que passar pela prova suprema de coragem, um teste à dor. Um ritual sádico imposto pela tradição.
A união amorosa termina tragicamente e o lorde inglês afasta-se da tribo, pressupostamente para regressar a Inglaterra.
Num filme destes a partir de um referencial real - os Sioux - e num quadro alargado de análise antropológica, levantam-se questões pertinentes: o que é verdade e o que é ficcional? o que foi inventado? o que foi deturpado?
Aparentemente o sacrifício (sequência fulcral e identitária do desenvolvimento dramático da ficção) foi inventado ou, pelo menos, forçado, não fazia parte dos rituais iniciáticos dos Sioux. Pelo menos houve da parte da produção a preocupação de reproduzir o quadro vivencial dos índios. Nem tudo é perfeito e Hollywood tem os seus próprios mecanismos de afirmação e criação ficcional. O mercado é que manda.
Richard Harris. Actor irlandês de qualidade superior. Carreira longa (fez filmes ao longo de quarenta anos). Já nos últimos anos da sua vida, entrou nos dois primeiros "Harry Potter" (Alvo Dumbledore), criando uma forte identidade junto do público juvenil.
Muitos e variados personagens ele encarnou na longa lista de filmes em que entrou, desde "Revolta na Bounty" com Marlon Brando, até "Gladiador" com Russell Crowe. Tanto alinhava em projectos de grande público como "Os Canhões de Navarone" como em filmes de arte e ensaio como "O Deserto Vermelho" de Michelangelo Antonioni.
A sua personagem John Morgan marcou a sua identidade como actor.
Judith Anderson. Actriz australiana com uma história riquíssima e longa nos palcos australianos, americanos e ingleses, com prática de Shakespeare, Tchekhov, Pirandello, Eugene O'Neill e outros grandes autores teatrais. Mas, pontualmente, era atraída pelo cinema, participando em obras que ficaram no imaginário do século XX: "Rebecca" de Hitchcock (já vimos), "Laura" de Otto Preminger e "Gata em Telhado de Zinco" (já vimos) de Richard Brooks, a partir de Tennessee Williams (já vimos).
Aqui faz de índia sénior, uma espécie de referência dos Sioux para o "invasor".
Elliot Silverstein, o realizador, não é propriamente um nome sonante no universo criador do cinema americano. Foi essencialmente um realizador de televisão. Numa carreira longa, com muitas séries e filmes para consumo televisivo, fez alguns saltos até Hollywood e em seis filmes que lá fez acertou na mouche em dois. Um foi este "O Homem a Quem Chamaram Cavalo" e o outro foi "Cat Ballou" ("A Mulher Felina") que, em 1965 valeu o Oscar a Lee Marvin (um pistoleiro bêbado impagável) que estrelou com a então jovem Jane Fonda, uma comédia desopilante sobre as mitologias do Oeste.
Os realizadores de Hollywood devem ao interesse militante de Elliot Silverstein a validação por Hollywood, em 1964, do "Director's Cut", isto é o direito dos autores dos filmes à versão (montagem) final de acordo com as suas ideias e a sua concepção artística. Nem sempre as coisas correm bem no universo dos filmes e há na história do cinema múltiplos casos em que o filme que vai para o mercado é a versão dos produtores e não a que o autor considera o "seu" filme, muitas vezes atropelando escandalosamente o projecto inicial. Basta lembrar nos anos 40 e 50 os filmes do Orson Welles que, com excepção de "Citizen Kane", foram sempre amputados ou adulterados às ordens dos estúdios.
"O Homem a Quem Chamaram Cavalo" faz parte de um conjunto de filmes que, nos anos 60 e 70, o cinema americano produziu num processo de revisão crítica da história do Oeste americano, da relação entre os brancos e os índios.
Há historiadores do cinema que consideram que esse revisionismo do "western" começa em 1956 com "A Desaparecida" de John Ford, considerado um dos filmes maiores da história do cinema, com o John Wayne desesperadamente procurando recuperar uma sobrinha, Nathalie Wood, raptada pelos Comanches e que, naturalmente, "se tinha tornado um deles".
Arthur Penn fez "O Pequeno Grande Homem" (1970) onde a ficção se cruza com a batalha de Little Big Horn que uma coligação de Sioux e Cheyennes venceu, derrotando o general Custer (já vimos).
Ralph Nelson fez "O Soldado Azul" (1970) a partir de um massacre índio em Sand Creek em 1874, entendido na altura como uma alegoria à guerra do Vietname.
Um dos últimos filmes de John Ford (ele que se tinha fartado de "matar" índios nas suas ficções) foi um acto de contrição. "O Grande Combate" (1964) é a marcha de uma tribo Cheyenne de volta às suas terras de origem a partir de uma reserva para onde tinham sido desterrados pelo poder branco.
Fizeram-se mais alguns filmes pró-índios, mas sem grande importância, até porque estava no fim a idade gloriosa do "western".
Face ao sucesso de mercado de "O Homem a Quem Chamaram Cavalo", Hollywood não dormiu, como nunca dorme, sempre atenta ao tilintar dos dólares. Foram feitos mais dois filmes sobre a ligação entre os Sioux e John Morgan em 1976 e 1983, igualmente com o Richard Harris, mas já tinha passado o élan. Nada de especial. Passaram à história sem lastro.
30 abril 2026
Programação até ao fim do ano escolar
29 abril 2026
Uma Vida Difícil - Dino Risi (1961)
22 abril 2026
Rocco e Seus Irmãos - Luchino Visconti (1960)
25 março 2026
Umberto D - Vittorio de Sica (1952)
08 fevereiro 2026
Johnny Guitar - Nicholas Ray (1954)
01 fevereiro 2026
A Estrada do Tabaco - John Ford (1941)
26 janeiro 2026
O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)
Princípio do século passado. Um jovem tenente italiano, Giovanni Drogo de seu nome (Jacques Perrin) recém saído da escola militar. A sua primeira missão será desempenhada num longínquo território, fora do país. Destino: Forte Bastiano, algures no deserto, lá para o médio oriente profundo (estamos num quadro ficcional sem aderência à realidade histórica), na mais longínqua fronteira do fictício império. A missão daqueles militares desterrados no fim do mundo é impedir a incursão dos temíveis Tártaros, povo lá dos Montes Urais (na Rússia), da Crimeia e também da China, com língua própria e religião muçulmana. O inimigo invisível está lá à espreita no "Estado do Norte". Ou é apenas imaginado? Ou, se calhar, desejado?
Diferentes atitudes e comportamentos na hierarquia militar instalada naquele "posto morto", era assim que os mais velhos lhe chamavam. Alguns oficiais aguardam com toda a atenção, em alerta, a possível invasão, outros pura e simplesmente não acreditam nela. Outros ainda, carreiristas, fazem tudo para ganharem galões em mais um posto e safarem-se dali logo que possível.
Os códigos de honra e disciplina do exército - o omnipresente regulamento - fazem o equilibrio entre os potenciais conflitos e diferenças comportamentais. E o tempo vai passando no conforto institucional e aristocrático do exército. Até tinham um quarteto de música clássica. Dias, meses e anos. Esperam. Todos, em certo sentido, no vazio, aguardam o não representável. Uma abstracção. Uma coisa é certa: nunca ninguém avistou os Tártaros. Será que estão lá? Ou são apenas a projecção do medo de todos e cada um?
Anos depois, Drogo, envelhecido e doente, é dispensado pelo novo comandante, o seu melhor amigo na fortaleza. Traição. Acabou-se. Um sonho de heroísmos frustrados, de medalhas não conquistadas. Na verdade, um pesadelo vivido. Uma vida vazia. Gradualmente vamos apercebendo, naquele "huis clos" - postado no infinito do deserto, esmagador, claustrofóbico (tanto mais quanto, em contradição, a imensidão vazia rodeia aqueles militares) - um microcosmos social que vai perdendo gradualmente a identidade e a normalidade da civilização.
Os personagens vão-se esvaziando num niilismo absurdo, na ausência de sentido, de finalidade. O que estão lá a fazer? O que estão a fazer das suas vidas? A interrogação existencialista na metáfora. Jean-Paul Sartre e Albert Camus cruzaram-se com as interrogações desta ficção. Camus até pelas referências geográficas e de lugar - a Argélia e o deserto ("O Estrangeiro").
O filme foi concebido a partir de um romance com o mesmo título escrito, em 1940 (tempo de guerra), por Dino Buzzati. Jornalista toda a vida no prestigiado e histórico "Corriere della Sera", Buzzati escreveu outras ficções (romances , peças de teatro, poesia...) mas nunca nenhuma delas chegou ao padrão superior desta. Com o tempo o livro foi ganhando visibilidade e reconhecimento académico e intelectual e tornou-se um dos romances europeus de referência do Século XX.
Apesar dos desafios inerentes - como filmar o vazio contínuo, o nada? - Zurlini conseguiu convencer produtores europeus a fazer o filme. Tornou-se numa grande co-produçao internacional (Itália, França e Alemanha). Filmado numa fortaleza no Irão, no meio de lugar algum, no tempo do Xá (a Revolução Iraniana seria em 1979) tinha como actores tantas estrelas europeias quase como grãos de areia do deserto.
A variedade internacional era assim como as equipas de futebol nos nossos dias, uma Torre de Babel linguística - actores italianos, franceses, alemães, espanhóis, suecos e, para fazer a ambientação local, também iranianos. O trabalho de pós-produção aparou toda a cacofonia e pô-los a falar italiano.
Bela realização, câmara delicadamente apropriando-se das personagens e dos lugares - a fortaleza e a sua envolvente, uma cidade antiga destruída e abandonada, constituem um decor imponente, estranho.
"O Deserto dos Tártaros" foi o último filme do realizador. Valerio Zurlini (1926-1982) começou no cinema no pós guerra com curtas metragens documentais. Em 1943 entrou na resistência italiana contra o fascismo e o nazismo. E, como muitos intelectuais italianos seus contemporâneos, foi do PCI. Foi a autor de uma obra pouco extensa mas com qualidade e coerência conceptual a relevar. Os seus filmes estiveram relativamente esquecidos após a sua morte em 1982 mas, no princípio do nosso século, começaram a ser recuperados e redescobertos na Europa, em festivais, ciclos e reposições.
O filme de Zurlini mais conhecido, além deste, é "A Rapariga da Mala" (1961) com a bela mediterrânica Claudia Cardinale e Jacques Perrin, que em "O Deserto dos Tártaros" é o personagem Drogo (foi também produtor do filme). Outros filmes a relembrar são: "Um verão violento (1959) com Jean Louis-Trintignant e " Outono escaldante" (1972) com Alain Delon.
Zurlini fez parte de um grupo espantoso de cineastas italianos desde a Segunda Guerra Mundial até aos anos 70 - "Época de Ouro" a designam - de que relembro só alguns: Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti, Roberto Rossellini, Pier Paolo Pasolini, Vittorio De Sica, Mario Monticelli, Dino Risi, Ettore Scola, Bernardo Bertolucci, uma fartura! E ainda caberiam mais uns bons nomes, mas fiquemos por aqui.
17 janeiro 2026
Padre Padrone - Paolo Taviani e Vittorio Taviani (1977)
1975. Itália. Foi publicado o primeiro livro de um autor chamado Gavino Leda. Retrato autobiográfico pungente e dramático da sua vida até aos vinte anos, controlada de uma forma bárbara, prepotente, brutal e sádica, pelo seu pai (padre padrone, pai mestre) numa aldeia rural da Sardenha. Foi um sucesso estrondoso no mercado editorial italiano, mais de um milhão e meio de exemplares, certamente pela violência daquela história verídica, e obviamente não única, tão próxima, de uma realidade fora da história, subdesenvolvida.
Rapidamente os irmãos Taviani conseguiram os direitos do livro e a cumplicidade criativa do próprio autor/ personagem da história real que ele expôs tão cruamente. Fizeram do livro um filme para a Radiotelevisione Italiana (RAI). Só que a qualidade intrínseca do filme e a pertinência da sua temática (a sua aderência ao real) levaram à sua selecção para o Festival de Cannes de 1977. Espantosamente saiu de lá com a Palma de Ouro e o Prémio da Crítica Internacional, os aplausos generalizados, a crítica encomiástica e a força vital para o sucesso no mercado.
Sardenha, enorme ilha em frente ao continente, no lado ocidental, lá bem no centro do Mediterrâneo. Apesar da história riquíssima de Roma e do Império Romano, nunca aquele povo conseguiu criar uma uniformidade linguística para o todo território. Na Sardenha fala-se sardo e italiano, como noutros territórios italianos se falam outros dialectos e o italiano.
Pois foi nesta ilha que nasceu Gavino Ledda, em 1938. O pai tinha ovelhas e cabras. Toda a economia familiar ligada à terra, na verdade, todos os actos da sua vida e da sua família.
Aos seis anos, o miúdo foi retirado da escola onde tinha iniciado os primeiros passos de educação formal. Os valores da terra em primeiro lugar. Até aos vinte anos, ele viveu afastado do mundo, numa espécie de escravidão familiar, isolado, entorpecido. Analfabeto.
Em 1958, a tropa. Normalmente o serviço militar é um intervalo negativo na vida dos cidadãos comuns. No caso de Gavino foi o seu ponto de fuga para o mundo. A salvação. O deslumbramento. Aproveitou bem as facilidades institucionais. Aprendeu a falar, a ler e os usos e costumes sociais. Auto educou-se. Abriu as asas da mente. Uma revolução no seu íntimo. Até saiu de lá com uma especialização profissional - técnico de rádio.
Em 1962 deixou o exército. O retorno a casa foi a rotura óbvia. Ele já não era o mesmo. O pai continuava o mesmo. O choque foi enorme. O desequilíbrio anterior desaparecera. Agora é um homem contra outro homem. O filho continua o seu processo de libertação sempre em recuperação do tempo perdido. Estuda mais, faz todo o percurso académico (aluno brilhante) e, em 1969, conclui a licenciatura em linguística.
Felizmente ainda é vivo. Teve uma carreira universitária, tornou-se um especialista na sua língua materna, o sardo, e publicou livros, nomeadamente poesia. "Padre Padrone" o livro que ele escreveu poucos anos depois, o primeiro, funcionou como um exorcismo, a rejeição, o esquecimento possível do inferno do seu crescimento.
O filme. Começa a ouvir-se uma litania, uma cantiga infantil. Depois uma percussão cadenciada anuncia a ficção. É Gavino Leda (ele próprio ) então com trinta e cinco anos que se apresenta. Com uma navalha corta os ramos de um pau, uma potencial arma de agressão. A câmara movimenta-se elegantemente para o alto onde está o pai (o actor Omero Antonutti) a quem ele entrega o pau. Distanciamento total. Estamos a contar uma história (real).
Entramos na ficção com o actor a entrar na escola. Vai buscar o filho, arrancá-lo do espaço público, da hipótese de educação. "É meu", diz, reivindicando a propriedade do filho como quem o diz referindo-se à camisa ou às calças. Dele pode fazer o que quiser, deduz-se. E faz. Durante anos o miúdo vai crescendo isolado da família, lá no campo, só em contacto com o pai. É a natureza pura. As cabras e as ovelhas. A sua vida é ritualizada dentro dos usos e costumes milenares do lugar. O primitivismo, a rudeza e até a animalidade. Tenta imigrar para a Alemanha mas não consegue por falta de autorização do pai. Depois é o milagre da tropa. No entanto, o retorno faz-se como se tudo continuasse na mesma. Até à fuga, à ruptura. É a libertação. Durou quase vinte e cinco anos aquela ligação visceral a um mundo que era de outro tempo. No fim, volta Gavino Leda como que a avalizar a história. Foi ali que tudo aconteceu.
Irmãos Taviani. Um duo com uma obra relevante. Infelizmente um deles, Vittorio, já partiu (1929-2018). O outro, Paolo, um bocadinho menos velho, ainda é vivo. Começaram a fazer cinema influenciados pelo neo-realismo e particularmente pelos filmes de Rossellini. O seu cinema só passou a ter reconhecimento de mercado muito tarde. Na verdade, foi o sucesso de "Padre Padrone" que lhes abriu as portas de visibilidade internacional e até lhes proporcionou concretizar projectos fora de Itália.
Alguns dos filmes de referência do duo que passaram por cá, quase todos no "Quarteto" de boa memória, templo de cinema lamentavelmente já passado à história:
"São Miguel tinha um galo" (1972), o movimento anarquista no século XIX italiano, a partir de uma novela de Tolstoi.
"Que viva a revolução" (1974) uma ficção no quadro da unificação italiana no século XIX, com Marcello Mastroianni.
"A noite de São Lourenço" (1982) deu-lhes o Grande Prémio do júri de Cannes.
Em 1987 fizeram um filme muito bonito sobre o cinema, no princípio. "Bom dia Babilónia" é Hollywood em 1916, e o Griffith a filmar a obra-prima "Intolerância". Joaquim de Almeida entra.
"César deve morrer" (2012) teve o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Uma obra meio documental meio ficcional, filmada numa prisão em Roma, com os prisioneiros a ensaiar "Júlio César" de Shakespeare.
Uma pequena curiosidade. O colega que, durante o serviço militar, apoia e orienta Gavino Leda no estudo, é representado por Nanni Moretti, que por essa altura estava a dar os primeiros passos como realizador, ele que desde os anos 80 tem feito alguns dos filmes mais interessantes no cinema europeu - "Palombella Rossa", "Querido Diário", "Temos Papa", "O Caimão", "O Quarto do Filho".
-
Com Dexter Gordon, François Cluzet, Herbie Hancock Duração: 2h13m Fim dos anos 50. Dale Turner (Dexter Gordon), um músico americano de jazz,...
-
Com Meryl Streep, Julianne Moore, Nicole Kidman Duração: 110m Da literatura para o cinema. O tempo está a avançar. Sem pausas. Por saltos. R...
-
Com Gregory Peck, Ava Gardner, Susan Hayward Duração: 117m Ernest Hemingway. É sempre um prazer renovado reencontrarmo-nos com a sua ficção,...













