26 janeiro 2026

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m.

Princípio do século passado. Um jovem tenente italiano, Giovanni Drogo de seu nome (Jacques Perrin) recém saído da escola militar. A sua primeira missão será desempenhada num longínquo território, fora do país. Destino: Forte Bastiano, algures no deserto, lá para o médio oriente profundo (estamos num quadro ficcional sem aderência à realidade histórica), na mais longínqua fronteira do fictício império. A missão daqueles militares desterrados no fim do mundo é impedir a incursão dos temíveis Tártaros, povo lá dos Montes Urais (na Rússia), da Crimeia e também da China, com língua própria e religião muçulmana. O inimigo invisível está lá à espreita no "Estado do Norte". Ou é apenas imaginado? Ou, se calhar, desejado?

Diferentes atitudes e comportamentos na hierarquia militar instalada naquele "posto morto", era assim que os mais velhos lhe chamavam. Alguns oficiais aguardam com toda a atenção, em alerta, a possível invasão, outros pura e simplesmente não acreditam nela. Outros ainda, carreiristas, fazem tudo para ganharem galões em mais um posto e safarem-se dali logo que possível.

Os códigos de honra e disciplina do exército - o omnipresente regulamento - fazem o equilibrio entre os potenciais conflitos e diferenças comportamentais. E o tempo vai passando no conforto institucional e aristocrático do exército. Até tinham um quarteto de música clássica. Dias, meses e anos. Esperam. Todos, em certo sentido, no vazio, aguardam o não representável. Uma abstracção. Uma coisa é certa: nunca ninguém avistou os Tártaros. Será que estão lá? Ou são apenas a projecção do medo de todos e cada um?

Anos depois, Drogo, envelhecido e doente, é dispensado pelo novo comandante, o seu melhor amigo na fortaleza. Traição. Acabou-se. Um sonho de heroísmos frustrados, de medalhas não conquistadas. Na verdade, um pesadelo vivido. Uma vida vazia. Gradualmente vamos apercebendo, naquele "huis clos" - postado no infinito do deserto, esmagador, claustrofóbico (tanto mais quanto, em contradição, a imensidão vazia rodeia aqueles militares) - um microcosmos social que vai perdendo gradualmente a identidade e a normalidade da civilização.

Os personagens vão-se esvaziando num niilismo absurdo, na ausência de sentido, de finalidade. O que estão lá a fazer? O que estão a fazer das suas vidas? A interrogação existencialista na metáfora. Jean-Paul Sartre e Albert Camus cruzaram-se com  as interrogações desta ficção. Camus até pelas referências geográficas e de lugar - a Argélia e o deserto ("O Estrangeiro").

O filme foi concebido a partir de um romance com o mesmo título escrito, em 1940 (tempo de guerra), por Dino Buzzati. Jornalista toda a vida no prestigiado e histórico "Corriere della Sera", Buzzati escreveu outras ficções (romances , peças de teatro, poesia...) mas nunca nenhuma delas chegou ao padrão superior desta. Com o tempo o livro foi ganhando visibilidade e reconhecimento académico e intelectual e tornou-se um dos romances europeus de referência do Século XX.

Apesar dos desafios inerentes - como filmar o vazio contínuo, o nada? - Zurlini conseguiu convencer produtores europeus a fazer o filme. Tornou-se numa grande co-produçao internacional (Itália, França e Alemanha). Filmado numa fortaleza no Irão, no meio de lugar algum, no tempo do Xá (a Revolução Iraniana seria em 1979) tinha como actores tantas estrelas europeias quase como grãos de areia do deserto.

A variedade internacional era assim como as equipas de futebol nos nossos dias, uma Torre de Babel linguística - actores italianos, franceses, alemães, espanhóis, suecos e, para fazer a ambientação local, também iranianos. O trabalho de pós-produção aparou toda a cacofonia e pô-los a falar italiano.
Bela realização, câmara delicadamente apropriando-se das personagens e dos lugares - a fortaleza e a sua envolvente, uma cidade antiga destruída e abandonada, constituem um decor imponente, estranho.
"O Deserto dos Tártaros" foi o último filme do realizador. Valerio Zurlini (1926-1982) começou no cinema no pós guerra com curtas metragens documentais. Em 1943 entrou na resistência italiana contra o fascismo e o nazismo. E, como muitos intelectuais italianos seus contemporâneos, foi do PCI. Foi a autor de uma obra pouco extensa mas com qualidade e coerência conceptual a relevar. Os seus filmes estiveram relativamente esquecidos após a sua morte em 1982 mas, no princípio do nosso século, começaram a ser recuperados e redescobertos na Europa, em festivais, ciclos e reposições.

O filme de Zurlini mais conhecido, além deste, é "A Rapariga da Mala" (1961) com a bela mediterrânica Claudia Cardinale e Jacques Perrin, que em "O Deserto dos Tártaros" é o personagem Drogo (foi também produtor do filme). Outros filmes a relembrar são: "Um verão violento (1959) com Jean Louis-Trintignant e " Outono escaldante" (1972) com Alain Delon.

Zurlini fez parte de um grupo espantoso de cineastas italianos desde a Segunda Guerra Mundial até aos anos 70 - "Época de Ouro"  a designam - de que relembro só alguns: Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti, Roberto Rossellini, Pier Paolo Pasolini, Vittorio De Sica, Mario Monticelli, Dino Risi, Ettore Scola, Bernardo Bertolucci, uma fartura! E ainda caberiam mais uns bons nomes, mas fiquemos por aqui.

17 janeiro 2026

Padre Padrone - Paolo Taviani e Vittorio Taviani (1977)

C/ Omero Antonutti, Savero Marconi, Nanni Moretti. 109 min. 1977

1975. Itália. Foi publicado o primeiro livro de um autor chamado Gavino Leda. Retrato autobiográfico pungente e dramático da sua vida até aos vinte anos, controlada de uma forma bárbara, prepotente, brutal e sádica, pelo seu pai (padre padrone, pai mestre) numa aldeia rural da Sardenha. Foi um sucesso estrondoso no mercado editorial italiano, mais de um milhão e meio de exemplares, certamente pela violência daquela história verídica, e obviamente não única, tão próxima, de uma realidade fora da história, subdesenvolvida.

Rapidamente os irmãos Taviani conseguiram os direitos do livro e a cumplicidade criativa do próprio autor/ personagem da história real que ele expôs tão cruamente. Fizeram do livro um filme para a Radiotelevisione Italiana (RAI). Só que a qualidade intrínseca do filme e a pertinência da sua temática (a sua aderência ao real) levaram à sua selecção para o Festival de Cannes de 1977. Espantosamente saiu de lá com a Palma de Ouro e o Prémio da Crítica Internacional, os aplausos generalizados, a crítica encomiástica e a força vital para o sucesso no mercado.

Sardenha, enorme ilha em frente ao continente, no lado ocidental, lá bem no centro do Mediterrâneo. Apesar da história riquíssima de Roma e do Império Romano, nunca aquele povo conseguiu criar uma uniformidade linguística para o todo território. Na Sardenha fala-se sardo e italiano, como noutros territórios italianos se falam outros dialectos e o italiano.

Pois foi nesta ilha que nasceu Gavino Ledda, em 1938. O pai tinha ovelhas e cabras. Toda a economia familiar ligada à terra, na verdade, todos os actos da sua vida e da sua família.

Aos seis anos, o miúdo foi retirado da escola onde tinha iniciado os primeiros passos de educação formal. Os valores da terra em primeiro lugar. Até aos vinte anos, ele viveu afastado do mundo, numa espécie de escravidão familiar, isolado, entorpecido. Analfabeto.

Em 1958, a tropa. Normalmente o serviço militar é um intervalo negativo na vida dos cidadãos comuns. No caso de Gavino foi o seu ponto de fuga para o mundo. A salvação. O deslumbramento. Aproveitou bem as facilidades institucionais. Aprendeu a falar, a ler e os usos e costumes sociais. Auto educou-se. Abriu as asas da mente. Uma revolução no seu íntimo. Até saiu de lá com uma especialização profissional - técnico de rádio.

Em 1962 deixou o exército. O retorno a casa foi a rotura óbvia. Ele já não era o mesmo. O pai continuava o mesmo. O choque foi enorme. O desequilíbrio anterior desaparecera. Agora é um homem contra outro homem. O filho continua o seu processo de libertação sempre em recuperação do tempo perdido. Estuda mais, faz todo o percurso académico (aluno brilhante) e, em 1969, conclui a licenciatura em linguística.

Felizmente ainda é vivo. Teve uma carreira universitária, tornou-se um especialista na sua língua materna, o sardo, e publicou livros, nomeadamente poesia. "Padre Padrone" o livro que ele escreveu poucos anos depois, o primeiro, funcionou como um exorcismo, a rejeição, o esquecimento possível do inferno do seu crescimento.

O filme. Começa a ouvir-se uma litania, uma cantiga infantil. Depois uma percussão cadenciada anuncia a ficção. É Gavino Leda (ele próprio ) então com trinta e cinco anos que se apresenta. Com uma navalha corta os ramos de um pau, uma potencial arma de agressão. A câmara movimenta-se elegantemente para o alto onde está o pai (o actor Omero Antonutti) a quem ele entrega o pau. Distanciamento total. Estamos a contar uma história (real).

Entramos na ficção com o actor a entrar na escola. Vai buscar o filho, arrancá-lo do espaço público, da hipótese de educação. "É meu", diz, reivindicando a propriedade do filho como quem o diz referindo-se à camisa ou às calças. Dele pode fazer o que quiser, deduz-se. E faz. Durante anos o miúdo vai crescendo isolado da família, lá no campo, só em contacto com o pai. É a natureza pura. As cabras e as ovelhas. A sua vida é ritualizada dentro dos usos e costumes milenares do lugar. O primitivismo, a rudeza e até a animalidade. Tenta imigrar para a Alemanha mas não consegue por falta de autorização do pai. Depois é o milagre da tropa. No entanto, o retorno faz-se como se tudo continuasse na mesma. Até à fuga, à ruptura. É a libertação. Durou quase vinte e cinco anos aquela ligação visceral a um mundo que era de outro tempo. No fim, volta Gavino Leda como que a avalizar a história. Foi ali que tudo aconteceu.

Irmãos Taviani. Um duo com uma obra relevante. Infelizmente um deles, Vittorio, já partiu (1929-2018). O outro, Paolo, um bocadinho menos velho, ainda é vivo. Começaram a fazer cinema influenciados pelo neo-realismo e particularmente pelos filmes de Rossellini. O seu cinema só passou a ter reconhecimento de mercado muito tarde. Na verdade, foi o sucesso de "Padre Padrone" que lhes abriu as portas de visibilidade internacional e até lhes proporcionou concretizar projectos fora de Itália.

Alguns dos filmes de referência do duo que passaram por cá, quase todos no "Quarteto" de boa memória, templo de cinema lamentavelmente já passado à história:

"São Miguel tinha um galo" (1972), o movimento anarquista no século XIX italiano, a partir de uma novela de Tolstoi.

"Que viva a revolução" (1974) uma ficção no quadro da unificação italiana no século XIX, com Marcello Mastroianni.

"A noite de São Lourenço" (1982) deu-lhes o Grande Prémio do júri de Cannes.

Em 1987 fizeram um filme muito bonito sobre o cinema, no princípio. "Bom dia Babilónia" é Hollywood em 1916, e o Griffith a filmar a obra-prima "Intolerância". Joaquim de Almeida entra.

"César deve morrer" (2012) teve o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Uma obra meio documental meio ficcional, filmada numa prisão em Roma, com os prisioneiros a ensaiar "Júlio César" de Shakespeare.

Uma pequena curiosidade. O colega que, durante o serviço militar, apoia e orienta Gavino Leda no estudo, é representado por Nanni Moretti, que por essa altura estava a dar os primeiros passos como realizador, ele que desde os anos 80 tem feito alguns dos filmes mais interessantes no cinema europeu - "Palombella Rossa", "Querido Diário", "Temos Papa", "O Caimão", "O Quarto do Filho".

Bird - O fim do sonho " - Clint Eastwood

C/Forest Whitaker, Diane Venora...2H41M. 1988

USA. Anos 40 e 50. O jazz. A "revolução " do bebop. Charlie Parker, o "deus" do saxofone. Clint Eastwood. Música e cinema.

Como se estivéssemos numa jam session (sessão de música de jazz, normalmente pela madrugada fora com os músicos a tocarem para eles, com muita liberdade criativa e desafios mútuos, a competirem em contínua improvisação, a procurarem novos sons) vamos começar pelo Clint Eastwood.

Começou como actor em pequenos papéis em Hollywood, depois de alguma relevância na televisão americana a fazer de cowboy, andou pela Europa, onde criou uma identidade artística forte a partir dos filmes de Sergio Leone, "western spaghetti", a chamada trilogia dos dólares - "Por um punhado de dólares" (1964), "Por mais alguns dólares" (1965) e "O bom, o mau e o vilão" (1966), todos com música de Ennio Morricone.

No regresso à América, gradualmente começou a desenvolver projectos pessoais de realização e actuação. Nos anos 70 e 80 foi o inspetor "Dirty" Harry (um polícia dúbio, parafascista, na altura muito controverso) em vários filmes de sucesso. Gradualmente criou uma "máquina" de produção paralela ao sistema de estúdios (a produtora Malpaso, sua imagem identitária) que deu origem a um leque de filmes incontornáveis, como realizador. De tantos filmes que merecem o nosso entusiasmo, relembro alguns: "Imperdoável", "As pontes de Madison County", "Mystic River", "Million Dollar Baby", " Cartas de Iwo Juma", "Gran Torino".

Clint Eastwood, que já vai nos 95 anos (o último abencerragem do cinema clássico americano), é um amante de jazz (um dos seus oito filhos, Kyle Eastwood, é um belíssimo contrabaixista, que já atuou em Lisboa) e incluiu música de jazz nas bandas sonoras de algumas das suas ficções. Não é, pois, de admirar que ele se tenha empenhado na realização deste filme.

A história da vida de Charlie Parker, o incontornável músico de jazz americano com uma vida curta - apenas 34 anos (1920-1955) - trágica, intensa, caótica, patética. Toxicodependente desde jovem (heroína), suicidário, alcoólico, sujeito a depressões e roçando o descalabro mental, andou sempre pela marginalidade social. Morreu de ataque cardíaco. Foi um dos grandes virtuosos do saxofone. Deixou alguns dos registos fonográficos mais impressionantes da música dos anos 40 e 50. Tocou e gravou muito para o pouco tempo que viveu.

Juntamente com Dizzy Gillespie, trompetista, e outros grandes músicos - Theolonius Monk, Bud Powell, Max Roach, entre outros - Charlie Parker foi um dos "pais" criadores do som bebop - um som novo - ponto fronteira entre o jazz clássico (swing) - do Sidney Bechet (clarinetista ), Louis Armstrong (trompetista), Duke Ellington (pianista) e das big bands dos anos 30 e 40 - e o jazz moderno. Naqueles tempos, ainda de guerra, o bebop foi uma revolução formal do som, com mudanças rítmicas, melódicas e harmónicas. O jazz deixou de ser música para dançar e passou a ser música para ouvir.

Eram tempos em que uma América moralista, preconceituosa e racista (continua, de outras formas) não aceitava aquelas músicas disruptivas, quase todas compostas e tocadas por músicos negros. Só pequenas minorias brancas, artistas e intelectuais, faziam parte daquele universo polarizado no Harlem (bairro negro de Nova York) essencialmente centrado em clubes, alguns dos quais ganharam, ao longo do tempo, estatuto de locais sagrados do jazz - Blue Note, Village Vanguard, Downbeat, Three Deuces, Birdland (sim, precisamente a partir do nome de guerra do Charlie Parker - Bird - e por ele inaugurado).

Um drama biográfico. Clint Eastwood criou uma bela história a partir de dados relevantes da vida do músico. As suas crises, as suas angústias, as suas tragédias, as suas fragilidades, os seus falhanços; mas também momentos de euforia, de realização, de satisfação, de êxito. Um puzzle fascinante, uma matriz fragmentada em flashbacks, um vaivém entre o passado e o presente. Um universo sombrio, muitas vezes ampliado por jogos de luz a insinuar mais do que a mostrar (silhuetas).

Um filme a cores que mais parece a preto e branco, opção do cineasta para nos imergir naquela atmosfera pesada, dramática, de contrastes luminosos difusos, como a alma do Charlie Parker.

O filme centra-se nos últimos anos do músico com toda a sua vida ancorada na última mulher, Chan Parker (Diane Venora), que tudo lhe aturava e tudo lhe perdoava, as bebedeiras, as incongruências, as irresponsabilidades, mesmo as traições amorosas. Apesar de se conhecerem há muito, só viveram juntos uma relação amorosa nos últimos cinco anos da vida dele e tiveram em conjunto dois filhos, um dos quais morreu aos três anos. Era uma apaixonada da música de jazz e sempre viveu nesse ambiente. Após a morte de Charlie Parker casou com outro saxofonista, nada desprezável, pelo contrário, na história do jazz - Phill Woods.

Se Diane Venora (uma actriz de referência nos palcos americanos, nomeadamente no universo shakespeariano) foi merecidamente premiada com um Globo de Ouro, Forest Whitaker transfigurou-se no corpo e alma do Charlie Parker. Foi merecidamente agraciado com o prémio de melhor actor no Festival de Cannes.

E a música. Ao longo das quase três horas de filme, muita da música que ele compôs e tocou inunda o ecrã, para nosso redobrado prazer.

04 janeiro 2026

A Ponte do Rio Kway - David Lean (1957)

C/ Alec Guiness, William Holden, Jack Hawkins, Sessile Hayakawa. 2h 41m

Drama fictício inspirado em factos reais. Segunda Guerra Mundial, frente do Pacífico. Os japoneses, que tinham tomado toda aquela extensa área geográfica, começaram em 1940, e terminaram três anos depois, a construção de uma via férrea a unir Tailândia e Birmânia, actual Myanmar - designada a Linha Férrea de Burma, com cerca de 415 Km, fundamental para o projecto, não concretizado, de invasão da Índia, então colónia privilegiada do império britânico.

A informação histórica sobre essa obra é dramática. Terão morrido cerca de cem mil trabalhadores asiáticos, escravos na verdade, e dezasseis mil prisioneiros de guerra, tratados abaixo de cão. Não foi por acaso que ficou também conhecida por linha férrea da morte.

Pierre Boyle, escritor francês - viveu, jovem, na Indochina e Malásia, então parte do império colonial francês - lançou em 1952, um romance centrado na construção de uma ponte nessa via férrea e nos problemas que o exército nipónico enfrentou na sua construção. Grande êxito no mercado literário que despertou obviamente o interesse da produção cinematográfica internacional. O projecto cruzou-se com muitos nomes e hipóteses. John Ford e Howard Hawks estiveram na corrida. E até o Orson Welles. Acabou por sair do circuito interno de Hollywood e ser apropriado (mas com produção americana da Columbia) por David Lean, o realizador inglês que, nessa altura, já tinha uma obra muito interessante e um prestígio (europeu) acumulado. Mas com este filme entrou num patamar muito elevado, recordem o que se seguiu: "Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago", "A filha de Ryan" (já vimos) e "Passagem para a Índia" (já vimos).

Um campo de prisioneiros de guerra, ingleses, canadianos, australianos e alguns americanos. A sua organização, a hierarquização das relações, as suas regras. Um cenário tropical, floresta densa, muito calor, humidade, chuvas intensas.

Grande história.

A construção de uma ponte pelo exército japonês com mão-de-obra inimiga. Os conflitos e ódios em "diálogo" com o inimigo. Um campo de prisioneiros que, como disse um dos personagens, era "uma ilha na selva". O desejo da fuga e os códigos de honra. A tensão constante entre dois mundos muito distintos. O afastamento e a aproximação. Um "jogo" desequilibrado que, a pouco e pouco, tende para os ocidentais. A ponte deixa de ser japonesa e passa a ser inglesa, com direito a placa identificadora e tudo.

A partir do romance foi escrito o argumento, a dois, Carl Foreman e Michael Wilson, mas quem recebeu o Oscar em Hollywood (um dos sete) foi o autor francês do romance. Desfaça-se o equívoco. Os dois argumentistas trabalharam clandestinamente. Estavam expulsos de Hollywood (faziam parte da lista negra dos excluídos) na sequência da caça às bruxas dos anos 50. Só no ano de 1984 foi reposta a justiça em termos públicos. Na entrega dos Óscares desse ano foi oficialmente reconhecida a sua autoria e foram homenageados pelos seus pares - trinta e muitos anos depois. Infelizmente tarde. Wilson já tinha morrido nos anos 70 e Foreman morreu nesse ano.

Grandes actores.

Alec Guiness. A essência do actor inglês. Aqui a fazer de coronel Nicholson. Irritantemente chauvinista, petulante, obcecado, corajoso e, no fim orgulhoso, em contradição com a essência da seus princípios militares e os seus valores nacionalistas. Para ele, depois de construir a ponte não era admissível destruí-la. Deveria continuar pelo tempo como manifesto da superioridade inglesa. Oscar de melhor actor principal.

William Holden, capitão Shears, americano. A fuga é o sentido único da sua vida de prisioneiro, coveiro dos colegas que vão morrendo. Prisioneiro quase que por acidente, falso capitão, é um fura-vidas que só quer fugir do mundo militar. Vai conseguir fugir, mas acabará por voltar (por mais que tente safar-se) num grupo especial para a destruição da ponte.

Sessile Hayakawa, o chefe do campo de prisioneiros. Um japonês culto, que andou pela Europa, fala inglês. Vive num equilíbrio instável entre a intransigência do dominador com um sentido de missão forte e a aderência aos comportamentos ocidentais.

Grande realização.

David Lean já tinha uma carreira bem sustentada. Tinha feito "Breve Encontro" em 1945, ainda hoje uma referência (já vimos) e também duas adaptações de sucesso de Charles Dickens, também com Alec Guiness - "Grandes Esperanças" (1946) e "Oliver Twist" (1948).

Uma realização de grande eficácia. A câmara a servir a história de forma fluida e elegante. A montagem paralela com um sentido dramático. O grande ecrã a fazer justiça ao espaço alargado e húmido da selva.

A música.

É um daqueles casos em que a banda sonora está intrinsecamente colada ao filme. Meia dúzia de notas e está feita a associação. Como se fora uma pele do filme. Há uma pequena história associada. Aquando das filmagens o realizador estava a ter algumas dificuldades na gestão dos movimentos sincopados dos figurantes a representar militares (nas sequências com marcha) e houve alguém que sugeriu que se pudesse uma marcha militar como som de fundo. Foi escolhida uma marcha que já tinha também uma história associada - "Marcha do Coronel Bogley" - composta em 1914. Durante a Primeira Guerra Mundial era tocada e assobiada pelos soldados ingleses e na Segunda Guerra Mundial era cantada com uma letra picante e risível com o título sugestivo "Hitler has only got one ball" (excusa-se tradução).

A partir daí tudo estava definido. A banda sonora do filme foi elaborada, com variantes, a partir daquela marcha. Óscar da música.

Óscares.

Sete. Grande consagração, neste caso, com justiça. Passa o tempo e o filme continua a ser uma referência. Continuamos a ser perturbados com as dúvidas que ele levanta, com a ausência de maniqueísmo. Não há verdades absolutas.

Em todas as classificações aparece sempre, com toda a justiça, como um dos grandes filmes da história do cinema.

Ah, o filme dura quase 3 horas, portanto quem quiser traga pipocas!

Até 4ª feira!...
Jorge Barata Preto

31 dezembro 2025

Cinema às Quartas - Programação para o 2º trimestre

Caros amigos:

Aqui vai a programação para o segundo trimestre:

"A Ponte do Rio Kway" (1957) - David Lean.
Segunda Guerra Mundial. Frente Pacífico (Birmânia). Prisioneiros ingleses e americanos são obrigados pelo exército japonês a construir uma ponte, vital para o esforço de guerra nipónico. Resistência passiva - invocados os códigos de honra. Finalmente, após cedências, começa a construção. Nesse processo vão-se revelando os sonhos, as aspirações, as frustrações, as contradições e a resistência dos prisioneiros. Uma história de pequenos heroísmos e afirmações de orgulho. Foi recheada, merecidamente, de Óscares. Com uma música (marcha militar) que entrou no nosso imaginário e que uma cadeia nacional de supermercados resolveu há uns tempos inserir na sua publicidade televisiva - lamentável é o mínimo que se pode dizer.

"Bird - O Fim do Sonho" (1988) - Clint Eastwood.
O jazz. A essência do Jazz. Charlie Parker. Morreu aos 35 anos - em 1955 - mas teve uma vida intensa, caótica, apaixonante, delirante e... trágica. Morreu de overdose de heroína, consumido pelo álcool.
Saxofonista genial, a sua música marcou o seu tempo dentro da (quase) marginalidade da música negra . O Be Bop era o som do jazz (que ele reinventou), a alma da improvisação pela noite dentro, em frenéticas jam sessions, em total liberdade criativa. Clint Eastwood pegou na história da vida do músico como se fora um puzzle, pouco a pouco harmonizando  peças separadas, no tempo e na vida, completando um retrato comovente do grande músico, com  a contribuição esplêndida de Forest Whitaker.

"Padre Padrone" (1977). Paolo e Vittorio Taviani.
A Sardenha antiga, fora do tempo e das conquistas civilizacionais do Século XX. Sim. Ainda há disso. Um menino de seis anos, pastor de ovelhas e um pai para quem ele é mão-de-obra escrava, sua extensão natural na economia primitiva da casa. A ignorância e a violência como situações normais. O jovem foi lutando contra o pai e contra tudo até aos vinte anos. Finalmente a liberdade. Comovente até às lágrimas. Grande obra, a partir do livro autobiográfico do miúdo (Gavino Ledda), que mereceu todos os encómios na altura, tendo ganho a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

"O Deserto dos Tártaros" (1976). Valerio Zurlini.
O romance com o mesmo título é de 1940 e considerado uma obra-prima da literatura italiana do século XX, obra suprema de Dino Buzzati, um jornalista e escritor italiano de créditos superiores. Uma remota fortaleza num deserto (não há precisão geográfica), um corpo militar em contínua vigilância de uma hipotética invasão. O inimigo são os Tártaros (das estepes da Ásia Central, como poderia ser outro povo). A espera torna-se modo de vida ad infinitum, as regras militares são aplicadas com  o rigor institucional. O jovem oficial Giovanni Frigo vai para lá na expectativa da glória, das medalhas e louvores. A passagem do tempo. A monotonia. A claustrofobia. O envelhecimento. Nada acontece. A espera vã. Quando os Tártaros atacam já Frigo é velho. É dispensado. Vida em vão, sonhos inúteis. Metáfora poderosa.

"A Estrada do Tabaco" (1941). John Ford.
John Ford outra vez a dissecar a América profunda sua contemporânea. Aqui foi buscar a história ao Erskine Caldwell, escritor profundamente conhecedor das idiossincrasias sulistas, ele que escreveu um conjunto de ficções sobre os brancos pobres do sul americano. "A Estrada do Tabaco", escrito em 1932, no contexto da grande depressão, tornou-se um clássico da literatura americana. Lá, nos confins da Geórgia, os camponeses empobrecidos abandonados pelo sistema político e financeiro, em crise profunda de identidade. Truculento e sórdido quanto baste. O código de moralidade de Hollywood obrigou a limpar muito o argumento. Mas, mesmo assim, é um John Ford de primeira água.

"Johnny Guitar" (1955). Nicholas Ray.
Um dos filmes míticos da história do cinema. Um western. Uma produção barata (Série B) como os estúdios faziam em quantidades industriais nesses tempos empolgantes de Hollywood, para manter ocupados actores e técnicos. O mercado absorvia tudo. A Europa e o fascínio da sua intelligentsia pelo cinema americano, criaram gradualmente a adesão e o culto do filme. Cinema-ópera, a utilização da elipse, a originalidade de duas mulheres inimigas no western (tradicionalmente coisa de homens), algumas das mais belas peças de diálogo da história do cinema, um lirismo arrebatador, etc. etc.
O cinema moderno estava lá. O Nicholas Ray contribuiria com outros filmes para esse movimento. Imperdível.

"Umberto D" (1952). Vittorio De Sica.
Uma leitura nada meiga da Itália a seguir à guerra. Neo-realismo em estado puro. Quase todos actores não profissionais. Uma história de miséria encapotada. Um homem reformado, já idoso, tenta desesperadamente manter o seu quarto alugado que compartilha com o seu cão. As rendas estão atrasadas. Vamos acompanhando o duo pelas ruas da cidade. A poesia da sobrevivência. A dignidade não se perde. O poder político de Itália da altura zangou-se. O filme fez sangue. Mostrou demasiado da porcaria que acompanhou o pós guerra na Itália democrata cristã.

"Rocco e Seus Irmãos" (1960). Luchino Visconti.
O aristocrata Visconti a fazer jus às suas posições políticas (andou pelo PC italiano), com uma leitura muito crua da bipolaridade italiana. Sul, campo, atrasado. Norte, fábricas, desenvolvido.
Uma família procura em Milão o que não tem lá na terrinha meridional. Cinco irmãos e os seus destinos. Drama realista onde raia o pessimismo. Não é fácil o ajustamento a novos padrões sociais. Na verdade é a emigração no quadro do mesmo país. O desenraizamento cultural gera os pequenos e grandes dramas. Alain Delon a consolidar o seu papel de grande actor do cinema europeu.

"Uma Vida Difícil" (1961). Dino Risi.
A comédia italiana. Nua e crua. O modo de ser italiano, requintadamente mostrado, nos anos 50 e 60 do século passado, por uma plêiade notável de cineastas. Dino Riso foi dos maiores e melhores. 
Um homem com valores, idealismo, ética. Esteve na resistência italiana a lutar contra Hitler e Mussolini. Por não abdicar dos seus valores, foi perdendo tudo na vida, incluindo a sua mulher. Depois tenta reajustar-se à realidade mais comezinha da vida. Alberto Sordi, entre o sério e o jocoso numa bela história trágico-cómica. 

"O Homem a Quem Chamaram Cavalo" (1970). Elliot Silverstein. 
Os índios do lado de lá. Retrato realista da vida e cultura da tribo Sioux, no início do século XIX. Um aristocrata inglês numa expedição no Dakota é capturado pelos índios e escravizado. Gradualmente vai perdendo a sua identidade e vai-se aculturando. Apaixona-se pela irmã do chefe. Os afectos também contam. É de cá ou é de lá? Vai ter que provar sujeitando-se aos rituais da tribo. Que futuro lhe reserva a vida? Bela e comovente história com o enorme actor Richard Harris.

"E Deram-lhe uma Espingarda" (1971). Dalton Trumbo.
Dalton Trumbo foi uma das personalidades mais marcantes de Hollywood nos bons velhos tempos. Como argumentista o cinema deve-lhe  obras-primas. Foi um dos que foi perseguido e marginalizado nos anos 50 no processo miserável de caça às bruxas (Hollywood Ten). Paralelamente à sua actividade de argumentista foi romancista de mérito. Em 1939  escreveu um romance pacifista "Johnny Got his Gun" que trinta e tal anos depois deu origem a este filme, que ele próprio realizou (o único na sua vida). Um soldado que perdeu os braços, as pernas e o rosto (um destroço humano), mas que não perdeu a lucidez. O que lhe resta? Lembranças, memórias e desejos num vazio amargo, sem futuro. Terrível e comovente.

O critério da escolha foi qualidade na diferença. Alguns clássicos e outros assim-assim, mas todos filmes muito interessantes. As expectativas estão criadas -  lá estaremos no início do ano.

Um Bom Natal e um Bom Ano!
Jorge Barata Preto 

08 dezembro 2025

Artigo 22 ("Catch 22") - Mike Nichols (1970)

Artigo 22 ("Catch 22") - Mike Nichols. C/Alan Arkin, Orson Welles, Art Garfunkel, Anthony Perkins. 117 M. 1970

Mike Nichols entrou no mundo do cinema pela porta grande, com fanfarra, foguetes e reconhecimento dos pares. E Óscares. E logo com os dois primeiros filmes que fez na vida.

" Quem tem medo de Virginia Woolf?" (1966), com Elizabeth Taylor e Richard Burton, foi o primeiro. O filme quebrou alguns dos tabus do hipócrita código de moralidade de Hollywood - o célebre Código Hays. Vimo-lo aqui.

"A primeira noite" (1967), foi o segundo, e projectou para o universo da fama (e do proveito) o Dustin Hoffman, a fazer de jovem universitário na descoberta da sua sexualidade, quando já tinha 30 anos na vida real. Na verdade, foi o primeiro papel dele no cinema. Além disso o filme teve como banda sonora algumas das mais belas músicas de Paul Simon, com as harmonias vocais de Art Garfunkel (v.g. "The Sound of Silence ", "Mrs. Robinson"...).

O terceiro filme, foi "Artigo 22". Grande aposta do estúdio Paramount. Investimento substancial. Filme de guerra (sobre a guerra). Do ponto de vista do estúdio e da produção, isto é, do business, um falhanço, porque o mercado não respondeu, mas a passagem do tempo tem vindo a repor justiça na sua avaliação artística. É um filme que saiu na mesma altura de "MASH", de Robert Altman, com o mesmo registo crítico da loucura da guerra (neste caso a guerra da Coreia). Também já vimos.

Em 1961 saiu nos EUA um romance satírico de Joseph Heller, um escritor americano que tinha batido com os costados na segunda guerra mundial. Filho de emigrantes russos, fez missões de bombardeamento na força aérea americana, em Itália.

O tema central circulava em redor dos comportamentos bizarros, desajustados e lunáticos de um conjunto de membros do 256° Esquadrão da força aérea americana, estacionado numa ilha de Itália (Pianosa) em 1944.

A ficção, sátira anti-bélica disruptiva, a partir de memórias pessoais do escritor, ganhou um impacto tremendo nos EUA naqueles anos em que o país estava em vias de mergulhar na tragédia do Vietname. Em poucos anos, tornou-se obra de culto da juventude universitária contestatária do Vietname e obra de referência da literatura americana do século XX. Foi o primeiro livro do autor. Uns anos depois, já na década de noventa, Joseph Heller escreveu a continuação (e o desfecho) de "Artigo 22" com o mesmo humor mordaz, mas lúcido, gloriosamente louco. Os mesmos personagens mais velhos (os que não tinham morrido), mas a mesma leitura satírica, de humor negro, do militarismo. Está traduzido em português - "Hora de fechar".

Catch 22. Jargão militar. Uma situação sem saída, uma armadilha. Um paradoxo.

O capitão John Yossarian (Alan Arkin), piloto de bombardeiros B-25 da Força Aérea Americana, quer ser dispensado pela hierarquia militar de realizar mais combates aéreos. Mas para ser proibido deve ser avaliado pelo médico do esquadrão e declarado inapto para voar - o que seria um diagnóstico automático da insanidade de qualquer piloto, pois só uma pessoa louca aceitaria missões devido ao elevado perigo

Mas...para conseguir o diagnóstico e evitar missões o piloto deve solicitar a avaliação médica...e isso provaria a sua sanidade mental.

A circularidade do paradoxo é a continuidade da situação. A loucura, a insanidade e o absurdo a tomar conta do quartel. Desde o general ao praça. Personagens-tipo, qual delas a mais estranha, a mais apanhada da cabeça. Nuts. O capitão Yossarian, obcecado, não quer voar mais; o coronel Cathcart, outro obcecado, quanto mais missões mais medalhas e louvores na caderneta; o Milo, da intendência, aproveita a guerra em benefício próprio, criando uma verdadeira (e extensa) organização de negócios incluindo a prostituição - ao espírito trumpista; o Major Major, a confusão em pessoa. Com o nome que tinha acabou a comandar a base. Etc. Etc.

A matriz ficcional do filme foi transferida do livro, obviamente com o sentido da medida (o livro é muito extenso, muito denso e com muitas personagens). Da multidão de alienados e lunáticos foram seleccionados alguns, num processo de condensação dramaticamente relevante. O próprio autor do livro teceu rasgados elogios ao argumento.

Mike Nichols (1931-2014), de nome original Michael Igor Peschkowsky (origem russa) fugido da Alemanha nazi com os pais (cada americano é um emigrante ou descendente de emigrantes (independentemente do que o cretino do Trump diga).

Foi sempre um homem de Nova York e do teatro da Broadway (começou como actor de teatro de improvisação, um sucesso, e ao longo da vida fez encenações de referência e teve os maiores prémios na sua carreira) era conhecido como um encenador com o toque de Midas. Onde tocava saía sucesso crítico, popular e financeiro, e com regularidade atravessava a América para fazer uma perninha em Hollywood.

Mike Nichols como cineasta nunca cortou com a sua identidade original como encenador. A essência da palavra e do diálogo e a qualidade suprema dos actores eram determinantes. Para ele, o actor era o centro do filme, era a cola da ficção.

Em "Catch 22" temos um leque substancial de grandes actores, a maioria deles são referência da nossa vivência cultural. Orson Welles, não é preciso dizer nada (é sempre um prazer), aquele general... Martin Balsam, já vindo dos anos 40, fez "12 homens em fúria" de Sidney Lumet. Anthony Perkins, de "Psico" do Hitchcock. Martin Sheen, uns anos depois o soldado do pesadelo de "Apocalypse Now" de Francis Ford Coppola. Jon Voight, em 1969 fez " Cowboy da meia-noite " de John Schlesinger, com Dustin Hoffman.

Para além dos três filmes já citados, Mike Nichols fez mais alguns interessantes (quase sempre a partir de textos teatrais com sucesso na Broadway) e sempre com actores de topo do universo hollywoodiano.

"Conhecimento carnal" (1971) com Jack Nicholson e Candice Bergen. Mais uma vez Mike Nichols irrompeu contra os códigos sexuais hipócritas. O filme foi acusado em muitos sítios de obscenidade.

"Silkwood" (1983), os riscos mortais para a humanidade dos programas nucleares. Meryl Streep em grande.

"Uma mulher de sucesso" (1988), Harrison Ford e Melanie Griffith numa história sobre as questões do feminismo num tempo em que ainda eram mais ou menos marginais.

"A difícil arte de amar" (1986) - já aqui o vimos - com o tandem Meryl Streep /Jack Nicholson.

"Casa de doidas" (1996), uma versão de uma célebre comédia teatral francesa sobre os equívocos da sexualidade. O filme francês "La cage aux folles", de 1978, tinha sido um grande sucesso e a versão americana do Mike Nichols, quase vinte anos depois, não lhe ficou atrás com Robin Williams e Nathan Lane, outro grande actor da Broadway.

"Anjos na América" (2004), uma mini-série filmada a partir de uma peça de teatro de Tony Kushner. Uma ficção espantosa sobre a sida, com Meryl Streep e Al Pacino, onde a matriz teatral não é deliberadamente eliminada.

Voltando ao "Catch 22". Uma ficção paródica, verrinosa, sobre a "sagrada " instituição militar, quixotesca, com algo de cadavre exquis surrealista e de clownesco, a remeter para Jerry Lewis nos seus melhores momentos. A fuga do anti-herói em direcção ao mar (numa ridícula jangada) é a salvação possível. Ou não. Voltará certamente para a base, para fazer mais uns bombardeamentos desnecessários.

A tropa manda!

23 novembro 2025

Gloria - John Cassavetes (1980)


Com Gena Rowlands, John Adames
Duração: 123 min

Ela e ele. Mais uma história de um casal, como em milhares de ficções? Não. Não é um casal ou um par amoroso. São uma mulher adulta e um puto. Se quisermos, um casal muito especial.

Gloria Swenson (Gena Rowlands) é uma mulher adulta, endurecida pela vida. Americana WASP (White Anglo-Saxon Protestant). Adivinha-se que já tem uma história para contar. Foi namorada de um gangster e tem uma relação de proximidade com os meios mafiosos. Habita no Bronx, bairro pesado de Nova York. Desiludida do amor, endurecida pela vida. O que ela quer é que não a chateiem. Não gosta de crianças. Não tem instintos maternais. Vive a sua vidinha.

Phil Dawn (John Adames), um miúdo de seis anos, vizinho de Gloria. Filho de um casal de porto-riquenhos, que é assassinado a sangue frio (mais a sua irmã) por gangsters, porque o pai, contabilista da organização, traiu e deu informações privilegiadas ao FBI e à CIA. No quadro de boas relações de vizinhança, os pais pediram a Gloria para ficar com o pequeno. Tudo se precipita. Os pais e a irmã são assassinados e Gloria fica sozinha com um miúdo que nada lhe dizia e um livro contendo informações perigosas sobre o grupo marginal. "É só um sonho" dizia ela, para libertar a tensão quando, na verdade, queria dizer pesadelo. Ainda por cima o pequeno Phil era impertinente, rebelde, orgulhoso e "machista", reprodução da sua educação familiar. Uma carga de trabalhos.

De um momento para o outro o quadro de normalidade transforma-se radicalmente. O assassínio da família e a ameaça de morte do filho. A sobrevivência no desespero. A fuga. Gloria "arrasta" o miúdo pelos bairros e ruas escuras e sórdidas de Nova York, num perigoso jogo do gato e do rato com os profissionais do crime. A partir de uma certa altura a sobrevivência passa pela defesa agressiva. Gloria não hesita em usar uma arma, em matar, mais do que uma vez. Vai muito para além do que alguma vez imaginou. A sobrevivência leva  à  auto descoberta. Há sempre um superavit de energia vital, escondido lá no fundo, pronto a funcionar, uma energia nervosa, em palpitação. 
Neste percurso de descoberta de Gloria, com avanços e recuos, há também um processo de descoberta do outro (o miúdo). Os afectos libertam-se, a aproximação afectiva entre a mulher adulta e a criança acontece, o futuro pode trazer alguma esperança. Já não é mau.

Filme de John Cassavetes (1929-1989), a partir de um argumento que ele escreveu e vendeu aos estúdios da Columbia. Gena Rowlands, a sua mulher de uma vida, indicada para actriz principal, conseguiu convencer os big bosses  da Columbia para que fosse ele a realizar. Não se pense que terá sido fácil. É que John Cassavetes era um personagem particular no universo do cinema americano. Um pé dentro do sistema de Hollywood e outro pé e - certamente mais de metade do corpo e toda a cabeça - fora do sistema. 

Dentro do sistema. Quando jovem actor tinha feito séries e filmes para a televisão em Nova York, mantendo sempre a chama viva do teatro. No início da década de 60, foi atraído a Hollywood onde fez dois filmes, mas não se deu bem com a máquina industrial, naqueles anos já a emperrar, mas aproveitava as vantagens e benefícios como actor. "A semente do Diabo" do Roman Polanski, "Os doze indomáveis patifes" do Robert Aldrich e "Os assassinos" do Don Siegel, a partir de uma short story do Hemingway, são alguns filmes de referência em que ele teve um papel importante como actor. Em Hollywood ganhava o dinheiro que, em Nova York, lhe permitia fazer os seus filmes não-Hollywood.

Fora do sistema. No fim dos anos 50 e  décadas de 60 e 70, em Nova York, John Cassavetes foi talvez o personagem mais destacado de uma espécie de nouvelle vague americana, um cinema informal, de proximidade, com histórias e personagens reais, sem filtros, pessoas comuns envolvidas em circunstâncias incomuns. Ele, com um grupo de actores que lhe eram próximos - a mulher,  Gena Rowlands,  o Ben Gazzara, o Peter Falk (lembram-se do detective  Columbo na televisão?) - foi fazendo um conjunto de filmes que marcaram a identidade daquele cinema moderno, pulsante, com vida, ainda que imperfeito. Orçamentos limitados, meios técnicos reduzidos, uma postura de desenrasca, estilo quase artesanal e muita criatividade. Mesmo fora do sistema foi candidato a Óscares com três filmes - "Rostos" (1968) e "Uma mulher sob influência" (1974) e "Gloria".
"Gloria" teve o Leão de Ouro, em Veneza, ex-aequo com "Atlantic City" de Louis Malle.

As histórias de quase todos os seus filmes eram ancoradas numa personagem feminina, representada pela actriz Gena Rowlands (1930-2024), sua mulher, sua musa e parceira na aventura cinematográfica. Actriz de grande qualidade, mas independente quanto baste, como o marido. Também fez papéis em filmes e séries na televisão (ganhou Emmys), e não entrou no sistema de Hollywood (na altura este já não tinha o glamour das décadas passadas e os graus de liberdade eram cada vez maiores), embora participasse em bastantes filmes (em 2015 foi homenageada com o Oscar Honorário). Nova York era a sua praia e o marido o seu referencial, o seu cúmplice. Com ele fez oito filmes e ficou para a história do cinema. Também filmou, entre outros, com o Woody Allen e o William Friedkin e, na fase final da carreira, fez vários filmes com o seu filho, Nick Cassavetes.

Pois o John Cassavetes pegou no seu argumento (com uma matriz ficcional do film noir) com o know-how acumulado em muitos anos de cinema - como realizador e actor - e conhecimento das regras do jogo dos estúdios. História consistente, improvisação quanto baste, filmagem e montagem segundo os cânones. Narrativa normalizada. Algumas sequências inverosímeis pelo meio (os encontros e desencontros entre Gloria e os gangsters na matriz densa da grande cidade). O resultado, sólido e consistente, foi compensado pelo reconhecimento crítico e público e pelo sucesso de bilheteira.

Depois do genérico, uma série de quadros com uma perspectiva quase impressionista de Nova York, uma sequência de planos panorâmicos. Noite. Os arranha-céus, as grandes avenidas. Grandes planos genéricos, em plongé, sobre a cidade, a massa urbana densa na noite, um grande estádio de futebol americano iluminado, a Estátua da Liberdade, as pontes do rio Hudson. Depois o dia. Um autocarro, as pessoas com ar cansado, uma passageira que sai e se aproxima de casa. Os encontros imprevistos e indesejáveis. A tensão. O perigo nas ruas e nos prédios. A família do miúdo a adivinhar o pior.

Depois é todo um jogo de afastamento e aproximação,  avanços e recuos, um vaivém no dédalo da cidade, a procura de uma solução difícil de encontrar. Os obstáculos a ultrapassar. O espectador vai "agarrado" àquele duo insólito, umas vezes crente, outras na expectativa do pior. Mas aquela travessia do inferno tem um sentido, começa a ter um sentido. Num meio tão violento e intransigente, o "milagre" acontece. Em Pittsburgh, lá nos domínios da indústria do ferro e do aço, a trezentas e tal milhas de Nova York, Gloria e Phil encontram-se para o futuro. Será possível? Tenhamos esperança.

19 novembro 2025

Pollock - Ed Harris (2000)

Com Ed Harris, Marcia Gay Harden, Val Kilmer
Duração: 122 min

Agosto de 1949. EUA. A respeitável e popular revista semanal "Life". Artigo de fundo, com reprodução de vários quadros. Título: "Is he the greatest living painter in the United States?" O he era Jackson Pollock.Os quadros eram o resultado do seu trabalho. O artigo é uma peça altamente entusiástica e eufórica sobre o pintor que, naquele tempo, aos trinta e tal anos, estava a abrir e consolidar um caminho próprio. Os críticos de arte e especialistas dariam à sua pintura (e de mais uns tantos pintores) a designação de expressionismo abstracto, o primeiro movimento consolidado de origem norte americana nas artes plásticas.

O segundo (com contribuição relevante de pintores ingleses) ocorreria uns dez anos mais tarde com a pop arte, precisamente em reacção ao expressionismo abstracto - a recuperação do corpo no espaço da tela, a recorrência temática à cultura popular, a afirmação da publicidade e da banda desenhada como matéria prima nuclear do quadro - com nomes tão relevantes como Andy Warhol, Richard Hamilton, Roy Lichtenstein ou Jasper Jones.

Vamos por partes. No fim dos anos 40, vivia-se uma certa efervescência no universo da pintura e escultura na América. Paris estava longe (e em repouso) e as coisas interessantes aconteciam em Nova York (epicentro da vanguarda da pintura) e arredores. Quatro pintores americanos ficaram para a história. Mark Rothko, Willem de Kooning, Arshile Gorky e Jackson Pollock. Americanos é um modo de dizer. Na verdade, só Pollock tinha nascido nos EUA, algures no Arizona. Rothko, na Letónia, Kooning, na Holanda e Gorky, na Arménia. Na diversidade da obra, a identidade estética (a mesma camisola) - o expressionismo abstracto, a negação da figuração, a libertação do gesto, a mancha como forma de afirmação visual.

Jackson Pollock (1912-1956) foi, de todos, o que mais fundo e visceralmente penetrou nesse processo de procura e desnudamento da alma. Obviamente as coisas não lhe correram bem. Como a maioria dos grandes criadores, durante muitos anos andou à procura. Falsos caminhos e atalhos curtos. Muitos tropeções. Retornos. Insistências. Até que vislumbrou uma luz. Fim dos anos 40, princípio dos anos 50, o sucesso bate à porta, o reconhecimento dos pares (e dos críticos) dá-lhe um prazer especial e alguma paz na sua alma atormentada.

A sua pintura era impulsiva. A sua técnica, na verdade, não era técnica. Drip painting (pintura por gotejamento) ou action painting, as tintas projectadas sobre as telas estendidas no chão, camada atrás de camada, o informalismo levado às últimas consequências. E a epifania aconteceu. A revelação assumiu forma. O resultado foram umas dezenas de telas que marcaram o imaginário cultural do nosso tempo. E perduram.

Mas a felicidade não estava lá.

Em 1945 Jackson Pollock casou com Lee Krasner, uma colega pintora que meteu a sua própria carreira entre parêntesis para o apoiar, e de que maneira. Era uma pintora abstracta. Morreu em 1984, com a obra em crescimento de reconhecimento. Apesar da segurança e orientação proporcionadas pela parceira (que acreditava nele e assumiu um sentido de missão), a vida não lhe era fácil. Os fantasmas pessoais assombravam-no. O álcool era o seu conforto, paliativo das dores da alma. A alienação o seu estado tendencial. Ia de um extremo ao outro facilmente. Da euforia à depressão. Da agitação à paralisia. Bipolaridade. Recorria à psicanálise, mas não ajudava muito.

Ed Harris pegou nos dados reais dos últimos anos da vida de Pollock, do anonimato à consagração, com a decadência final. Um drama biográfico.

Os últimos anos da vida passou-os o pintor numa propriedade rural que comprou com o apoio de Peggy Guggenheim (a brilhante e riquíssima marchand e mecenas, que foi casada com Max Ernst e adquiriu uma enorme colecção de arte do Século XX, inclusive muitos Pollock) junto de Springs, uma cidadezinha na grande envolvente de Nova York (Long Island), onde naqueles anos vivia uma alargada colónia de artistas, escritores e intelectuais americanos, nomeadamente o grande escritor Philip Roth, leitura imprescindível para percebermos melhor o tempo actual na América.

Ed Harris é um óptimo actor americano, sólido, consistente. Tem uma longa carreira , associada a alguns êxitos. Foi nomeado quatro vezes para o Oscar (lembrem-se de "As Horas", com a Meryl Streep, que já aqui vimos). Conseguiu obter meios financeiros e apoios para este filme que foi claramente um projecto de empenho pessoal, que ele abraçou na totalidade, como produtor, realizador e actor (ele faz de Jackson Pollock com claros efeitos miméticos). E as coisas correram muito bem.

Um filme sereno sobre uma personalidade angustiada, selvagem, em conflito, com o mundo, consigo próprio. A mulher, por mais militante e apoiante da sua causa, foi perdendo a capacidade de acompanhar e encaixar a sua deriva pessoal. Ele arranjou uma amante, naturalmente.  Ela foi para a Europa. A morte precoce aconteceu da forma mais natural. Bêbado, a conduzir o seu Oldsmobile convertível, com a amante e uma amiga, espatifou-se contra uma árvore, capotou, a um quilómetro e meio de casa. Tinha 44 anos. Morreu ele e a amiga. A amante escapou e, no futuro, foi fazendo render o peixe nas televisões e nos jornais e revistas contando a sua história com Pollock. É a vida! Suicídio? Mero acidente? Provavelmente a constatação de que a sua energia vital se tinha esgotado, de que a traição à sua mulher tinha ultrapassado os limites da decência.

Do ponto de vista cinematográfico pode dizer-se que, para primeiro filme como realizador, Ed Harris não se saiu nada mal. Bem desenvolvido o perfil do pintor entre a sua juventude em Greenwich Village (já alcoolizado, amante do jazz, fanático do Gene Krupa, baterista espalhafatoso mas de grande talento) e a sua maturidade em Long Island, os seus excessos alcoólicos, as suas manifestações escabrosas mesmo junto da high society bem pensante nova iorquina, potencial compradora dos seus quadros.

Belas sequências do pintor ante a tela vazia (angústia) ou na rota da descoberta da sua identidade pictórica, o gesto, a projecção da tinta.

Com muitos actores de referência a fazerem uma perninha (certamente por amizade), o filme é centrado no casal, no vaivém de afectos, violência e inconsistência do pintor e infinita paciência da mulher. Ed Harris a reproduzir gestos e acções de Pollock como se fosse ele, Marcia Gay Harden a ser a alavanca de suporte e projecção do talento do marido.

Como este filme tão bem demonstra, o  mundo ficou mais rico com a obra que Jackson Pollock deixou. 

09 novembro 2025

À volta da meia noite - Bertrand Tavernier (1986)

Com Dexter Gordon, François Cluzet, Herbie Hancock
Duração: 133 min

Fim dos anos 50. Dale Turner (Dexter Gordon), um músico americano de jazz, talentoso saxofonista, negro, segue o caminho de muitos colegas seus no pós-guerra. Foge à pressão social e política na América. Na verdade, foge do racismo. Muda-se para Paris, onde consegue (sobre)viver tocando em "caveaux" e clubes de jazz. Alcoolizado ("please, one more verre de vin rouge"), pedrado, vai espalhando o seu talento pela noite fora, à deriva, sem eira nem beira.

Francis (François Cluzet) aparece do vazio da noite escura. Jovem francês, designer gráfico, autor de cartazes de filmes, completamente apaixonado pela música e o som incantatório de Turner, mas com problemas de dinheiro, ouve o seu astro da rua em frente ao "caveau" "Blue Note" (o mesmo nome do célebre clube de Nova York, que ainda existe), o som a sair pelas janelas. À chuva. A pura militância. Após um primeiro encontro, na rua, a aproximação transforma-se gradualmente em amizade.

A adoração torna-se proteção. Também à custa da sua filha, adolescente, um bocado abandonada. O jovem, procura ajudar o músico a controlar os excessos alcoólicos (e outros), trata dele como se fora o seu pai.

A proteção que o jovem francês proporciona ao músico, o universo familiar com que o envolve, ajuda-o gradualmente a controlar os excessos.

A passagem do tempo faz os seus milagres. Recuperado e reequilibrado, Dale Turner regressa às origens. Nova York, onde deixou uma filha, e onde sonha retomar a carreira, reencontrar os seus parceiros músicos no universo frenético da noite, nas jam sessions dos clubes mais emblemáticos - "Village Vanguard", "Birdland", "Blue Note" e outros mais. Do sonho ao pesadelo, um percurso curto. O jovem francês regressa a Paris, mas Dale já não. Elipse. Provavelmente o apelo das drogas e do álcool foi mais forte. Passado pouco tempo Francis recebe um telegrama de Nova York. Dale tinha falecido. Cansado da vida. Fim do ciclo.

Já desde a I Guerra Mundial que o jazz tinha ganho alguma expressão na Europa, particularmente Paris. Com o fim da II Guerra Mundial, muitos músicos, que tinham chegado incorporados no exército americano, acabaram por ficar pela Europa.

Nos anos 50 muitos dos músicos que já tinham uma história nos EUA, acabaram por vir e fixar-se no velho continente. Auto expatriados. Aqui tinham liberdade, a indiferença à cor da pele (a larga maioria era negra), o respeito e admiração dos fãs. Grandes músicos como Dexter Gordon (sim, o nosso "herói", viveu na Europa 15 anos, entre Paris e Copenhaga), Thad Jones, Kenny Drew, Ben Webster e Stuff Smith fixaram-se na Escandinávia, Stan Getz e Don Byas, em Espanha, Bill Coleman, Bud Powell, Kenny Clarke, Sidney Bechet, Steve Lacy, Johnny Griffin, Archie Shepp, em França, Art Farmer, na Áustria.

"Round Midnight" é o título original do filme. E é, também, uma das músicas mais conhecidas e tocadas da história do jazz. É um standard com milhentas interpretações, reinterpretações, reformulações e variações. Saiu da imaginação do Theolonius Monk, em 1943, um pianista genial com um som próprio, sua imagem de marca, como se a música soasse desafinada, dissonante, com falta de técnica. Pura ilusão.

No filme, "Round Midnight" é, juntamente com toda a outra música (e é muita), arranjada e produzida por Herbie Hancock, grande pianista do quinteto de Miles Davis nos anos 60. Hancock também faz uma perninha como actor (Eddie) aliás como outros músicos de topo (John McLaughlin - guitarra, Wayne Shorter - saxofones, Ron Carter - contrabaixo, Tony Williams - bateria) e muitos mais.

E, para nossa surpresa, temos o Martin Scorsese (para mim, juntamente com o Francis Ford Coppola, o maior realizador nosso contemporâneo) a fazer uma perninha como ator - o manager de Dale na América, que o vai buscar ao aeroporto e trata de tudo para ele voltar a tocar em Nova York.

Sendo uma ficção, o filme foi feito a partir das memórias de um outro personagem francês (Francis Paudras), da sua relação com outro grande músico da história do jazz, o pianista Bud Powell, um virtuoso, com mais uns episódios da vida do Lester Young, outro saxofonista seminal, que fez as gravações de referência com a enorme Billie Holliday.

Bud Powell foi, com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Theolonius Monk e alguns outros, um dos que fez a revolução sonora no jazz dos anos 50, a que se convencionou chamar Bebop.

Este revolucionário pianista era algo instável, sofria de problemas mentais (foi sujeito a internamentos hospitalares e à terapia dos eletrochoques) e era "agarrado" à heroína, quadro pesado de vida, com comportamentos erráticos.

Pois nos anos 50, também ele se mudou para Paris e foi aí que se tornou amigo de Francis Paudras, um amante de jazz que o ajudou na sua reabilitação. Este fã francês escreveu um livro "La danse des Infidèles", onde registou a história que constituiu a matriz base para a ficção de Bertrand Tavernier.
Bertrand Tavernier (1941-2021), um bom cineasta francês, acertou na mouche com o filme. Mais do que tudo, um gesto de amor pelo jazz e certamente de recuperação de memórias da sua juventude em Paris. As cores pesadas, saturadas muitas vezes cinzentas ou negras, são o enquadramento adequado da atmosfera onde circulam os seus personagens , um certo mal-estar com a vida, uma fuga para a frente, uma tragédia previsível. Mas uma grande obra de cinema.

05 novembro 2025

Dia Mundial do Cinema

No dia 5 de Novembro celebra-se o Dia Mundial do Cinema.

Pretexto para partilhar convosco a minha visão sobre esta fabulosa máquina de sonhos que nos fascina como nenhuma outra.

Já atravessou três séculos. Foi há muitos anos, mas não tantos assim, em termos civilizacionais, esclareça-se. O registo histórico é preciso. O ponto zero está identificado. Paris foi o centro.

28 de Dezembro de 1895. No Grand Café, os inventores, irmãos Auguste e Louis Lumière vão apresentar o primeiro espetáculo cinematográfico. Pequenos filmes registando fait divers da grande cidade. A curiosidade é enorme. O comboio que se aproxima da estação, a saída de operários da fábrica, um cão que salta. Sucesso, efeitos de ilusão que perturbam os espectadores. Pânico. Abriu-se  para a humanidade uma enorme  porta de sonhos, o imaginário à solta. A lanterna mágica dos tempos modernos. Atracção universal. O cinema como registo do real, jornal de atualidades, documentário da sociedade, dos reis e presidentes, dos acontecimentos sociais, dos fait divers, dos grandes acidentes, de histórias pessoais. 

Depois foi a via mágica, a féerie fantástica. Georges Méliès, um ilusionista de profissão, foi o "inventor" do cinema como ficção. "Voyage dans la lune" um delírio visual, a imaginação à solta. 
Os franceses orgulham-se de serem os criadores do cinema, mas foi na América que as coisas aconteceram a valer. 

No fluxo migratório da Europa para os EUA, intenso no fim do século XIX, o cinema foi na bagagem (provavelmente no fundo imundo dos porões dos navios). Os nickelodeons (primitivas e pequenas salas de cinema do início do século XX) espalharam-se aos milhares pelo vasto e quase virgem território americano. Nova York era o centro da produção até que foi "descoberta" a Califórnia - sol, luz, clima amigo. A futura Hollywood instala-se gradualmente onde eram campos de pêssegos e maçãs. A história passa a ser outra. 

Nos primeiros vinte e tal anos do Século XX tudo acontece, ainda que no silêncio. As tecnologias só chegariam à voz no declinar da segunda década. Mas foi um tempo maravilhoso. Tudo era possível para saciar a fome de imagens animadas, de ficções, de que as pessoas cada vez se alimentavam mais. Era barato, ajudava a sonhar. Cada filme era uma conquista. David Wark Griffith foi a grande referência desses tempos. Os seus melodramas faziam chorar as pedras da calçada. Com ele, a linguagem, a gramática e os códigos do cinema ficaram definidas para sempre. Com ele também ficou claro como o cinema pode ter um sentido perverso. "O nascimento de uma nação", de 1915, é uma saga sobre a guerra civil americana (mais de três horas), com uma visão racista e segregacionista, que exalta o Ku Klux Klan. Griffith não se safou da revolução sonora. Ficou pelo caminho, mas tem um lugar incontestável na história do cinema.

Felizmente que outras coisas boas aconteciam. Charlie Chaplin (mantém-se ainda no centro do nosso imaginário), Buster Keaton e mais uma meia dúzia de cómicos, com as suas tropelias, as suas máscaras, as perseguições desenfreadas, faziam rir milhões de pessoas por todo o lado. No início do sonoro apareceriam os irmãos Marx. Humor radical. A destruição do sentido da palavra, o absurdo verbal, a desconstrução dos sentidos, o nonsense. O puro prazer.

Mas Hollywood ainda não era o centro do mundo cinematográfico. Na Alemanha pré-nazi apareceu o cinema expressionista, com uma perspectiva sombria sobre o homem, quase anunciadora do que estava para vir, com muita gente que uns anos depois fugia à besta totalitária e foi reforçar o poder criativo de Hollywood. 

Os países nórdicos (Suécia e Dinamarca) criaram um cinema de grande força visual, com a natureza a assumir um lugar importante, muitas vezes a partir das sagas épicas do imaginário nacional. 

E os franceses, sempre mais intelectualizados, desenvolviam filmes avant-garde, surrealismo, subjetividade, maneirismos, esteticismo (o jovem Buñuel mais o jovem Dali fizeram "Un chien andalou" e "L'age d'or" que são referências perduráveis).

Os russos. Após 1917, com Lenine a dar força política ("De todas as artes, o cinema é para nós a mais importante"), o cinema assumiu um papel estrutural na consolidação da revolução, com objetivos de pedagogia e formação das massas. O cinema revolucionário produziu alguns nomes incontornáveis.
Dziga Vertov  e o cinema-olho (o cinema documental e a arte da montagem). Eisenstein, do mudo ao sonoro fez "O Couraçado Potemkin", "Alexander Nevski" e "Ivan, o Terrível".

1927. Ponto fronteira. O primeiro filme sonoro (na verdade só muito parcialmente). "O cantor de jazz". Como se fosse um selo identificativo da essência do cinema, o preto cantor de jazz era um branco, o ator Al Jolson. Fake. Falso. A fingir. O cinema é a arte do fake. Cada vez mais. Mas neste caso um falso intrinsecamente incrustado na essência do cidadão americano-tipo - o racismo.

Muitas vedetas não resistiram ao sonoro. Greta Garbo, apesar de sueca, passou, e Marlene Dietrich, importada da Alemanha, também, mas John Gilbert, vedeta masculina suprema do mudo, afundou-se. Rudolph Valentino, o símbolo sexual, o amante latino, foi apanhado na curva da vida e morreu cedo. O seu funeral foi grandioso, provocando histeria em massa. Idolatria. O cinema maior que a vida.

Anos 30, 40 e 50. As três décadas de ouro de Hollywood. Os estúdios (Paramount, Universal, Fox, MGM, Columbia, Warner...), os produtores mogul, emigrantes quase todos do centro europeu, (Zukor, Fox, Cohn, Mayer, Zanuck, Goldwyin, Warner...). Os escritores. Os realizadores. Os atores. E as estrelas. O star-system. Hollywood como um sistema fabril, com um ritmo de produção febril. Talento a rodos.  Muita gente subutilizada. O sucesso dava para pagar bem a todos. Com especializações. Muitos conseguiam fugir à banalização, outros conseguiram construir obras-primas, assim quase às escondidas.
Dentro das regras, mas muitas vezes forçando-as, realizadores que ficaram na história. Só alguns casos: John Ford, Howard Hawks, King Vidor, Billy Wilder, Nicholas Ray, George Cukor, Fritz Lang, Frank Capra, Orson Welles, Douglas Sirk.

E os atores?

Clark Gable, Cary Grant, Gary Cooper, Humphrey Bogart, Henry Fonda, James Stewart, John Wayne, Kirk Douglas, Charlton Heston, Burt Lancaster. Juntem à lista mais uns da vossa preferência.

E as atrizes?

Marlene Dietrich, Katherine Hepburn, Greta Garbo (abandonou cedo as lides), Betty Davis, Vivien Leigh, Ava Gardner, Ingrid Bergman, Lauren Bacall, Rita Hayworth e poderíamos continuar por aí fora.

Mas o cinema nunca funcionou contra o real.

Na Europa, com a ascensão dos fascismos, foi transformado num veículo privilegiado de "educação" do povo. Mussolini e os épicos sobre o império romano e umas histórias melosas para entreter as massas e alimentar as utopias fascistas. 

E Hitler e Goebbels. O cinema como manipulação, propaganda e ideologia. Os nazis tornaram-no um poderoso meio de mobilização política. A estética nazi. Leni Riefenstahl, uma mulher, foi a talentosa mestra de cerimónias com dois filmes de propaganda sobre a superioridade alemã, tão brilhantes 
(ainda hoje) como horripilantes. O fascínio do mal.

Nos anos 50, após a dureza da guerra, o sonho foi-se desfazendo, Hollywood foi-se banalizando e a televisão foi conquistando espaço visual. O cinema sofreu e bem. Muito menos filmes, as vedetas foram envelhecendo e outras desaparecendo dramaticamente (Marilyn Monroe). Outros atores ganharam lugar. Marlon Brando e James  Dean. Elizabeth Taylor, Paul Newman, Dustin Hoffman,  Robert Redford, só para citar alguns. Outros grandes filmes vieram para nosso contentamento, das fontes normais, particularmente dos EUA. 

Nesses tempos o mundo cinéfilo ocidental "descobria" o cinema japonês. Mas só depois da derrota da guerra e da ocupação americana. Akira Kurosawa, Mizoguchi, Ozu.  Mas, qual prenda escondida, o cinema japonês já tinha uma história de quantidade, qualidade e muitos realizadores de topo. Só que não chegavam ao Ocidente. E, na verdade, continua a ser assim, nós só vamos conhecendo pontualmente as produções japonesas. Às vezes quase por acidente. Aqui há uns anos houve o fenómeno Nagisa Oshima, com o sucesso de "O império dos sentidos". Depois ainda vimos dele o magnífico "Feliz Natal, Mr. Lawrence".

Já agora, por associação de ideias sobre o desconhecido, falemos do cinema da Índia. Produz muitas centenas de filmes por ano, alimenta uma máquina produtiva e artística enorme. É  designado Bollyhood concentrado na antiga Bombaim, com as ficções faladas (e cantadas, imagem de marca) na língua hindi. Há outras indústrias regionais especializadas noutras línguas que fazem mais umas centenas. A Índia é um continente com não sei quantas línguas e identidades sociais e culturais. É, em certo sentido, um mistério.

Ainda mais mistério. Na Nigéria, desde os anos 80, fazem-se anualmente muitas centenas de filmes que alimentam o mercado nigeriano e as redondezas africanas, em circuito fechado. Como é possível? Eu não sabia.

Voltemos ao fio condutor. À crise de Hollywood pode associar-se,  por antítese, a Nouvelle Vague francesa. Nos anos 50, uma malta nova educada no fascínio pelo cinema americano (a Cinemateca de Paris como centro de aprendizagem, discussão e ideias), "impôs" nos Cahiers du Cinéma a identidade de autor a cineastas que eram apenas a peça principal da máquina produtiva de Hollywood (John Ford, Alfred Hitchcock, Howard Hawks, Anthony Mann, Nicholas Ray, Orson Welles). Este pessoal começa a sair da escrita e a entrar na imagem. Começa a fazer filmes fora das regras, baratos, libertos de amarras, com ideias novas. Em poucos anos havia um conjunto de criadores notáveis - Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Alain Resnais, Claude Chabrol.

E na outra Europa, aparecia um cinema de resistência no bloco leste. Na Checoslováquia, na Polónia, na Hungria, lutava-se contra a boçalidade ideológica, as amarras do pensamento dos regimes controlados por Moscovo. Alguns filmes conseguiam ser mostrados do lado de cá, mas poucos. Roman Polanski safou-se para ocidente, da Polónia. Milos Forman ("Voando sobre um ninho de cucos") também, da Checoslováquia.

Mas nos EUA, Hollywood não estava adormecida. Apenas a reformular modos de ação. Novas formas de trabalhar, novos meios, novas ideias.

E nos anos 70 aparece uma nova geração de cineastas, com cinefilia no sangue, arejada por ideias europeias (sim, a Nouvelle Vague foi importante) e começa a dar cartas.

Fazem parte da nossa geração.

Acompanhámo-los quando começaram a aparecer, vibrámos com eles, decepcionámo-nos algumas vezes, mas criaram alguns dos mais importantes e referenciais filmes da nossa vida. 

Robert Altman ("MASH", "Nashville"), Hal Ashby ("Ensina-me a viver", "O regresso dos heróis"), Peter Bogdanovich ("A última sessão de cinema", "Daisy Miller"), George Lucas ("American Graffiti", "A guerra das estrelas"), Francis Ford Coppola ("O padrinho", "Apocalypse Now"), Steven Spielberg ("Tubarão", "Encontros imediatos do terceiro grau") e Martin Scorsese ("Taxi Driver", "O touro enraivecido").

Estes são apenas alguns nomes dessa geração notável.

Assim um pouco à parte, temos que meter o Woody Allen. Fora do sistema, com o centro nevrálgico em Nova York, construiu com o ritmo dos ponteiros do relógio, uma ampla e notável obra.

No livro seminal sobre o cinema americano desse tempo, sintomaticamente intitulado "Easy Riders, Raging Bulls", o autor, Peter Biskind, faz uma boa síntese desse universo de criação: "Quando 'Easy Rider', filme de baixo orçamento sobre motards, chocou Hollywood com o seu sucesso em 1969, nasceu uma nova era em Hollywood. Talentosos jovens cineastas como Scorsese, Coppola e Spielberg, mais uma nova geração de atores, incluindo De Niro, Pacino e Nicholson, tornaram-se figuras poderosas que iriam fazer os clássicos modernos como "O Padrinho", "Chinatown", "Taxi Driver" e "O Tubarão". 'Easy Riders, Raging Bulls' aborda o universo vibrante e selvagem que era Hollywood nesses anos - uma celebração ousada, descarada de sexo, drogas e rock 'n' roll (quer no ecrã como fora dele) e um clima em que a inovação e a experimentação reinavam sobre tudo."

E pronto, fico pelos anos 80. Para o ano há mais. Como se fosse um daqueles filmes aos episódios dos anos 20 que alimentavam os sonhos das massas...(to be continued). 

The End.





02 novembro 2025

O fabuloso destino de Amélie Poulain - Jean-Pierre Jeunet (2001)


Com Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Rufus
Duração: 122 min

Não é feliz a vida da jovem Amélie (Audrey Tautou). Também não teve uma infância feliz. Cresceu para dentro, isolada no seu mundo. A mãe morreu. O pai sobreviveu à mãe, adorando um mausoléu dedicado à mulher morta. Após deixar a vida de subúrbio, a jovem e inocente Amélie muda-se para Paris, para Montmartre, onde começa a trabalhar num café. 

Os seus olhos inocentes abarcam o mundo. Um dia o encontro acidental de uma caixa na casa de banho da casa onde morava, leva-a a procurar o antigo morador para lha devolver. Sem razão aparente, esse encontro despoleta na jovem uma pequena revolução. Uma nova visão do mundo. Um sentido sustentado para a vida. Uma missão. A dedicação a quem precisa. Personagens mais ou menos bizarras, marginais, anormais. Pequenos gestos, grandes afectos. Uma boa samaritana. Mas, e ela, não terá direito ao amor?

Nos seus encontros afetivos, mais ou menos pungentes, mais ou menos bizarros aproxima-se do misterioso Nino (Mathieu Kassovitz), que coleciona fotografias esquecidas e abandonadas nas cabines automáticas de photomaton. Trabalha em part-time num comboio fantasma e num peep-show. Mais um pobre-diabo a (sobre)viver, mesmo pelas vias mais miseráveis da pornografia. A felicidade é possível. Há que acreditar nela, lutar por ela. Em última instância  acreditar que é possível um mundo melhor. Ela teve sorte, fez a sua sorte 

Comédia romântica, filme singular, delicado. Uma fábula moderna. Um enorme puzzle. Um jogo. Como se fosse uma banda desenhada, a partir de um conto infantil. 

Sendo um filme já do século XXI, é uma pequena homenagem ao cinema francês dos anos 30 e 40, o realismo poético francês. Fusão do realismo com uma atmosfera lírica e fatalista, sombria. Tudo acontecia num universo mais ou menos marginal ou antissocial. A felicidade estava à vista mas sempre adiada. Jean Renoir, Jean Vigo ("L' Atalante"), Marcel Carné  foram cineastas de referência desse cinema. Jean Gabin foi o grande actor.

Jean-Pierre Jeunet, é o realizador e argumentista. O seu universo de referência é o cinema de animação. Também faz publicidade, vídeos musicais (Jean Michael Jarre). As suas temáticas são do universo fantástico com umas incidências surrealistas, por vezes perturbadoras.

O primeiro filme que fez, "Delicatessen" (1991), entra pelo humor negro num quadro arrepiante. Num mundo apocalíptico, a fome tudo determina. Um açougueiro vai matando pessoas para alimentar os seus inquilinos. Argumento bizarro, no mínimo.

O seu sucesso (vários Césares do cinema francês) levou Hollywood a convidá-lo a fazer "Alien - A ressurreição" (1997), a continuação da história espacial perturbadora que tinha sido lançada por Ridley Scott em 1979.

Das pequenas preciosidades que fazem deste filme um pequeno diamante lapidado, há também a música. Banda sonora composta por Yann Tiersen, um compositor de vanguarda , multi-instrumentista. As suas raízes vão até Eric Satie do princípio do século XX, mas a sua identidade é minimalista. Steve Reich, Michael Nyman e Philip Glass são as influências assumidas. Dois anos depois fez também a banda sonora de "Good Bye, Lenine", que já aqui passou.

Passados vinte e tantos anos, é significativo que o filme resistiu ao tempo. Os personagens ganharam mais afectividade aos nossos olhos. A delicadeza deles quase os espatifa, mas o sentido positivo da ficção ajuda-os a ganhar espaço num mundo cada vez mais hostil. Há um fumo de esperança.

25 outubro 2025

Os Incorruptíveis Contra a Droga ("The French Connection") - William Friedkin (1971)


C/Gene Hackman, Roy Scheider, Fernando Rey
Duração: 99 min

Citação: "Os Incorruptíveis Contra a Droga (The French Connection) é um brilhante policial, no qual Gene Hackman é o infatigável Jimmy 'Popeye' Doyle, polícia que odeia figadalmente os traficantes de droga.

Na noite dos Óscares, este filme tornou-se inesquecível para o próprio Hackman, consagrado como melhor ator, bem como para o próprio realizador William Friedkin, talvez mais célebre por ter feito O Exorcista (The Exorcist, 1973), que também levou para casa o tão apreciado boneco dourado."

Um bilhete de identidade do filme e pano para mangas sobre o realizador.

William Friedkin, um percurso mais ou menos normal nos anos 60 e 70. Do pequeno ecrã para o grande ecrã. Ganhou tarimba durante uns anos numa estação de televisão local da cidade onde nasceu, Chicago. Começou com um filme veículo para o par musical Sonny e Cher, cuja música traz certamente boas memórias para muitos de nós.

Foi fazendo uns filmes pouco notados e em 1971 acerta na mouche. "Os Incorruptíveis Contra a Droga". Cinco Óscares e a consagração. E as coisas continuaram a correr-lhe bem. O filme seguinte foi nem mais nem menos "O Exorcista". Demónio. Possessão. Sobrenatural. Terror. Usando como matriz um caso paranormal avalizado pela igreja católica americana, fez sucesso comercial mundial enorme, um blockbuster, servido por grandes atores - Ellen Burstyn ( no ano a seguir ganhou o Óscar com o filme de Martin Scorsese "Alice já não mora aqui") e Max Von Sydow que fez alguns dos filmes de referência de Ingmar Bergman. De então para cá já houve não sei quantas continuações, remakes, variantes, etc. e tal.

William Friedkin não tem uma obra muito extensa até porque, a partir de uma certa altura, dispersou-se, apostou na encenação de espetáculos operáticos com sucesso. Mas pessoalmente penso que há outros dois filmes dele que merecem a pena.

Em 1977 fez "O comboio do medo", um remake de um dos grandes filmes franceses dos anos 50, "O salário do medo" de Henry-George Clouzot. Uma história brilhante sobre o transporte de uma carga de nitroglicerina por um longo trajeto acidentado, algures na América do Sul. Yves Montand num papel incrível de luta constante contra a morte. Ao mínimo descuido, a catástrofe.

Pois vinte e tal anos depois William Friedkin pegou na mesma ficção (um romance francês do início da década de 50) e fez um filme muito interessante.

O outro filme que aqui destaco é "A Caça" de 1980. Al Pacino faz um dos melhores papéis da sua carreira, na minha opinião, numa matriz policial nos meios homossexuais sado-masoquistas. Um serial killer à solta, um polícia obcecado, gradualmente a afundar-se na confusão de valores, crenças e identidade sexual. Na altura, o filme foi fortemente atacado pelas comunidades gay (ia demasiado ao fundo, abria demasiadas janelas, expunha demais), mas gradualmente tem estado a ser recuperado na memória cinematográfica. Um dia hei-de revê-lo.

Voltemos ao filme e completemos o seu bilhete de identidade.

Nova York. Uma equipa de detectives - Popeye Doyle (Gene Hackman) e Buddy Russo (Roy Scheider) procuram interceptar uma rede de narcotráfico, a designada French Connection, com o centro decisional em Marselha. No perigoso jogo do gato e do rato, pelas avenidas, ruas e becos de Nova York um dos criminosos tenta eliminar Doyle. A partir daí o polícia bom quanto baste mas com princípios e regras um bocado fluídos, à sua maneira, liberta o estado selvagem da sua alma. Entra numa espiral de violência.

Baseado em factos e personagens reais, é um filme másculo, entre o suspense e a ação. Nada impede aquela missão "sagrada" de Doyle. Num dos cartazes de publicidade do filme estava escrito: "Doyle is bad news - but a good cop". À maneira dele, claro. Não há sentidos proibidos. Aquela perseguição automóvel, grande manifesto de exibicionismo cinematográfico, é assim uma espécie de exaltação. Como se fosse um grande chuto. Uma explosão de energia reprimida.

Nova York é o espaço entrópico por excelência. Desordenado, caótico. Os personagens circulam, vigiam-se, reconhecem-se, controlam-se. Cidade suja, desordenada, mas próxima dos personagens, às vezes como um grande quadro expressionista.

Gene Hackman. Toda a energia da ficção nele absorvida. O seu detective Doyle porta consigo a missão do bem, mesmo que por vias tortuosas. Todo ele exposto na essência das suas imperfeições. Óscar para melhor ator. Mais do que merecido para um ator que já começou tarde, estava longe do modelo de galã, mas era fabuloso, mesmo em papéis secundários.

Tinha 95 anos, estava retirado já há uns bons anos, sofria de Alzheimer e fomos surpreendidos pela sua morte algo estranha. Em 26 de Fevereiro ele e a mulher foram encontrados sem vida na casa que partilhavam no Novo México. Terá morrido de insuficiência cardíaca.

E Fernando Rey. A sua personagem é o líder da rede europeia da droga. De Marselha a Nova York, o requinte comportamental, a inteligência prática, o sentido de humor. Desapareceu e nunca foi condenado. Lembre-se que foi um dos atores de referência de Luís Buñuel, com quem fez filmes da nossa memória como "Tristana", "Viridiana", "Este obscuro objeto do desejo" ou "O charme discreto da burguesia".

Com este filme prestemos uma pequena homenagem ao enorme talento de Gene Hackman. Paz à sua alma.

23 outubro 2025

Cabaret - Bob Fosse (1972)

Com Liza Minnelli, Joel Gray, Michael York, Helmut Griem
Duração: 124 min

Da Literatura. Christopher Isherwood. Escritor inglês. (1904-1986), naturalizado americano. Romancista, dramaturgo, argumentista. Com uma obra substancial e de qualidade, a sua identidade ficou "presa" ao livro ("Adeus Berlim") que escreveu a partir das suas vivências em Berlim no início dos anos 30 - tal como muitos outros intelectuais expatriados, nomeadamente Auden, Stephen Spender, Paul Bowles ou o alemão Bertold Brecht - presenciando/vivendo os desvarios da besta nazi. Também o "Memorial do Convento" ficou agarrado à identidade do José Saramago. E, no entanto, ambos escreveram outras obras de elevada qualidade. C. Isherwood tem uma parte da sua obra traduzida para português, nomeadamente "Um homem singular" (1964) que deu um óptimo filme há não muitos anos.

Em 1931, o jovem intelectual inglês já com obra publicada, homossexual, foi para Berlim fugindo à perseguição institucional britânica aos "maus costumes" (lembro o caso escandaloso de Oscar Wilde umas décadas atrás). Naquele universo - a República de Weimar (1918-1933) era um pequeno paraíso intelectual e vivencial - nocturno, libertino e aberto ao prazer (divine decadence, diz um personagem) encontra uma cantora inglesa com quem partilha o quarto e muitas derivas da vida. Foi a partir dessa experiência que ele escreveu uma pequena novela "Sally Bowles" mais tarde integrada no livro "Adeus Berlim" que acabou por ser a essência do filme.

Do cinema. O livro de Isherwood deu mais tarde origem a uma versão teatral na Broadway e, no início da década de 70 (quase 40 anos), o interesse chegou a Hollywood. Mais uma vez os códigos dos bons costumes a bloquear a criação artística - homossexualidade, aborto... Ainda bem que o projecto se encontrou com Bob Fosse, ou, se calhar foi ao contrário. Um profissional de topo na Broadway, coreógrafo, bailarino e encenador, com umas incursões esporádicas em Hollywood, . A coisa resultou em cheio. Com os necessários ajustamentos. A cantora inglesa passa a americana, mas na essência manteve-se a matriz da história e dos personagens. Tudo circula em torno de um Cabaret - Kit Kat Club, uma espécie de pequeno mundo fechado reflexo do mundo exterior em processo de implosão: o poder crescente dos nazis, as relações amorosas abertas, a violência institucional, o medo, a decadência...Life is a Cabaret.

O jovem intelectual acaba por sair - na verdade fugir - em 1933 quando Hitler ganha as eleições. Como ele fugiram muitos mais. Felizmente. Bertolt Brecht, por exemplo, acabou por chegar à América, apesar da sua posição assumidamente anticapitalista. E a vida continua no Kit Kat até que os nazis acabem com o que eles chamavam degradação. Mas, como a heroína cantava, Money makes the world go around, com ou sem nazis.

Dos actores. Como num musical dos tempos áureos de Hollywood, Bob Fosse conduz as histórias amorosas cruzadas através de um tecido sempre entrecortado pelos shows no cabaret, com coreografias electrizantes, algumas vezes usando montagem paralela com um sentido dramático. Belíssimas músicas, óptimos números dançados, humor quanto baste. Berlim, naqueles tempos, criou uma forte identidade artística em torno dos espaços nocturnos, com grandes peças musicais criadas por músicos tão importantes como Kurt Weil, Hans Eisler, ...Quem queira conhecer aquele universo sonoro tem as gravações da Ute Lemper que, felizmente, já cantou por cá algumas vezes.

Liza Minnelli foi a personagem charneira de toda a ficção. Cantora e bailarina, incorporou a personagem da Sally Bowles. Frágil e gigante simultaneamente, vivia naquele mundo à procura de um sonho - tornar-se estrela de cinema nos estúdios da UFA, naqueles tempos em que o cinema alemão produzia alguns dos filmes incontornáveis da história do cinema v.g. "O anjo azul" (1925) com a Marlene Dietrich. Liza Minnelli, qual Louise Brooks, ícone do cinema dos anos 20, domina o ecrã.

Joel Grey, o outro polo. O mestre de cerimónias no cabaret. O condutor do espectáculo e, em registo figurativo, metafórico, o anunciador do mal que pairava no ar e estava prestes a perverter a vida do mundo. Brilhante e comovente. A Broadway em Hollywood.

Já agora alguns dos outros. Michael York, na altura muito presente em filmes da nossa memória. Veste a pele do C. Isherwood. Homossexual não assumido, mas na verdade, sempre mais disponível para o outro lado (é interessante a forma como B. Fosse trata a sua relação com o aristocrata alemão, casado, mas só de fachada.

Helmut Griem encarna o nobre alemão, playboy e com o sonho da felicidade em África. Ficou na (pequena) história do cinema pelos filmes de Visconti - "Os malditos " e "Ludwig".

Dos Óscares. Naquele ano as coisas foram muito sérias na atribuição dos Óscares. Além deste filme competiam "Fim de semana alucinante" (John Boorman), "O Padrinho" (F.F. Coppola) e "Autópsia de um crime " (Mankiewicz). ... Pois "Cabaret" só ganhou 8 Óscares. Impressionante. É obra. Obviamente o da melhor actriz foi para a Minnelli, o do melhor actor secundário foi para o Joel Gray, o da melhor direcção para o Bob Fosse, etc.etc. Para memória: o Óscar do melhor actor foi para Marlon Brando em "O Padrinho".

E agora? As memórias estão despertas, as expectativas abertas. Mesmo quem tenha visto o filme no seu tempo garante o prazer do reencontro. Nada se perdeu.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...