Cinema à 4ª feira
Sessões de Cinema da Nova Atena
23 novembro 2025
Gloria - John Cassavetes (1980)
19 novembro 2025
Pollock - Ed Harris (2000)
Agosto de 1949. EUA. A respeitável e popular revista semanal "Life". Artigo de fundo, com reprodução de vários quadros. Título: "Is he the greatest living painter in the United States?" O he era Jackson Pollock.Os quadros eram o resultado do seu trabalho. O artigo é uma peça altamente entusiástica e eufórica sobre o pintor que, naquele tempo, aos trinta e tal anos, estava a abrir e consolidar um caminho próprio. Os críticos de arte e especialistas dariam à sua pintura (e de mais uns tantos pintores) a designação de expressionismo abstracto, o primeiro movimento consolidado de origem norte americana nas artes plásticas.
O segundo (com contribuição relevante de pintores ingleses) ocorreria uns dez anos mais tarde com a pop arte, precisamente em reacção ao expressionismo abstracto - a recuperação do corpo no espaço da tela, a recorrência temática à cultura popular, a afirmação da publicidade e da banda desenhada como matéria prima nuclear do quadro - com nomes tão relevantes como Andy Warhol, Richard Hamilton, Roy Lichtenstein ou Jasper Jones.
Vamos por partes. No fim dos anos 40, vivia-se uma certa efervescência no universo da pintura e escultura na América. Paris estava longe (e em repouso) e as coisas interessantes aconteciam em Nova York (epicentro da vanguarda da pintura) e arredores. Quatro pintores americanos ficaram para a história. Mark Rothko, Willem de Kooning, Arshile Gorky e Jackson Pollock. Americanos é um modo de dizer. Na verdade, só Pollock tinha nascido nos EUA, algures no Arizona. Rothko, na Letónia, Kooning, na Holanda e Gorky, na Arménia. Na diversidade da obra, a identidade estética (a mesma camisola) - o expressionismo abstracto, a negação da figuração, a libertação do gesto, a mancha como forma de afirmação visual.
Jackson Pollock (1912-1956) foi, de todos, o que mais fundo e visceralmente penetrou nesse processo de procura e desnudamento da alma. Obviamente as coisas não lhe correram bem. Como a maioria dos grandes criadores, durante muitos anos andou à procura. Falsos caminhos e atalhos curtos. Muitos tropeções. Retornos. Insistências. Até que vislumbrou uma luz. Fim dos anos 40, princípio dos anos 50, o sucesso bate à porta, o reconhecimento dos pares (e dos críticos) dá-lhe um prazer especial e alguma paz na sua alma atormentada.
A sua pintura era impulsiva. A sua técnica, na verdade, não era técnica. Drip painting (pintura por gotejamento) ou action painting, as tintas projectadas sobre as telas estendidas no chão, camada atrás de camada, o informalismo levado às últimas consequências. E a epifania aconteceu. A revelação assumiu forma. O resultado foram umas dezenas de telas que marcaram o imaginário cultural do nosso tempo. E perduram.
Mas a felicidade não estava lá.
Em 1945 Jackson Pollock casou com Lee Krasner, uma colega pintora que meteu a sua própria carreira entre parêntesis para o apoiar, e de que maneira. Era uma pintora abstracta. Morreu em 1984, com a obra em crescimento de reconhecimento. Apesar da segurança e orientação proporcionadas pela parceira (que acreditava nele e assumiu um sentido de missão), a vida não lhe era fácil. Os fantasmas pessoais assombravam-no. O álcool era o seu conforto, paliativo das dores da alma. A alienação o seu estado tendencial. Ia de um extremo ao outro facilmente. Da euforia à depressão. Da agitação à paralisia. Bipolaridade. Recorria à psicanálise, mas não ajudava muito.
Ed Harris pegou nos dados reais dos últimos anos da vida de Pollock, do anonimato à consagração, com a decadência final. Um drama biográfico.
Os últimos anos da vida passou-os o pintor numa propriedade rural que comprou com o apoio de Peggy Guggenheim (a brilhante e riquíssima marchand e mecenas, que foi casada com Max Ernst e adquiriu uma enorme colecção de arte do Século XX, inclusive muitos Pollock) junto de Springs, uma cidadezinha na grande envolvente de Nova York (Long Island), onde naqueles anos vivia uma alargada colónia de artistas, escritores e intelectuais americanos, nomeadamente o grande escritor Philip Roth, leitura imprescindível para percebermos melhor o tempo actual na América.
Ed Harris é um óptimo actor americano, sólido, consistente. Tem uma longa carreira , associada a alguns êxitos. Foi nomeado quatro vezes para o Oscar (lembrem-se de "As Horas", com a Meryl Streep, que já aqui vimos). Conseguiu obter meios financeiros e apoios para este filme que foi claramente um projecto de empenho pessoal, que ele abraçou na totalidade, como produtor, realizador e actor (ele faz de Jackson Pollock com claros efeitos miméticos). E as coisas correram muito bem.
Um filme sereno sobre uma personalidade angustiada, selvagem, em conflito, com o mundo, consigo próprio. A mulher, por mais militante e apoiante da sua causa, foi perdendo a capacidade de acompanhar e encaixar a sua deriva pessoal. Ele arranjou uma amante, naturalmente. Ela foi para a Europa. A morte precoce aconteceu da forma mais natural. Bêbado, a conduzir o seu Oldsmobile convertível, com a amante e uma amiga, espatifou-se contra uma árvore, capotou, a um quilómetro e meio de casa. Tinha 44 anos. Morreu ele e a amiga. A amante escapou e, no futuro, foi fazendo render o peixe nas televisões e nos jornais e revistas contando a sua história com Pollock. É a vida! Suicídio? Mero acidente? Provavelmente a constatação de que a sua energia vital se tinha esgotado, de que a traição à sua mulher tinha ultrapassado os limites da decência.
Do ponto de vista cinematográfico pode dizer-se que, para primeiro filme como realizador, Ed Harris não se saiu nada mal. Bem desenvolvido o perfil do pintor entre a sua juventude em Greenwich Village (já alcoolizado, amante do jazz, fanático do Gene Krupa, baterista espalhafatoso mas de grande talento) e a sua maturidade em Long Island, os seus excessos alcoólicos, as suas manifestações escabrosas mesmo junto da high society bem pensante nova iorquina, potencial compradora dos seus quadros.
Belas sequências do pintor ante a tela vazia (angústia) ou na rota da descoberta da sua identidade pictórica, o gesto, a projecção da tinta.
Com muitos actores de referência a fazerem uma perninha (certamente por amizade), o filme é centrado no casal, no vaivém de afectos, violência e inconsistência do pintor e infinita paciência da mulher. Ed Harris a reproduzir gestos e acções de Pollock como se fosse ele, Marcia Gay Harden a ser a alavanca de suporte e projecção do talento do marido.
Como este filme tão bem demonstra, o mundo ficou mais rico com a obra que Jackson Pollock deixou.
09 novembro 2025
À volta da meia noite - Bertrand Tavernier (1986)
Duração: 133 min
Fim dos anos 50. Dale Turner (Dexter Gordon), um músico americano de jazz, talentoso saxofonista, negro, segue o caminho de muitos colegas seus no pós-guerra. Foge à pressão social e política na América. Na verdade, foge do racismo. Muda-se para Paris, onde consegue (sobre)viver tocando em "caveaux" e clubes de jazz. Alcoolizado ("please, one more verre de vin rouge"), pedrado, vai espalhando o seu talento pela noite fora, à deriva, sem eira nem beira.
Francis (François Cluzet) aparece do vazio da noite escura. Jovem francês, designer gráfico, autor de cartazes de filmes, completamente apaixonado pela música e o som incantatório de Turner, mas com problemas de dinheiro, ouve o seu astro da rua em frente ao "caveau" "Blue Note" (o mesmo nome do célebre clube de Nova York, que ainda existe), o som a sair pelas janelas. À chuva. A pura militância. Após um primeiro encontro, na rua, a aproximação transforma-se gradualmente em amizade.
A adoração torna-se proteção. Também à custa da sua filha, adolescente, um bocado abandonada. O jovem, procura ajudar o músico a controlar os excessos alcoólicos (e outros), trata dele como se fora o seu pai.
A proteção que o jovem francês proporciona ao músico, o universo familiar com que o envolve, ajuda-o gradualmente a controlar os excessos.
A passagem do tempo faz os seus milagres. Recuperado e reequilibrado, Dale Turner regressa às origens. Nova York, onde deixou uma filha, e onde sonha retomar a carreira, reencontrar os seus parceiros músicos no universo frenético da noite, nas jam sessions dos clubes mais emblemáticos - "Village Vanguard", "Birdland", "Blue Note" e outros mais. Do sonho ao pesadelo, um percurso curto. O jovem francês regressa a Paris, mas Dale já não. Elipse. Provavelmente o apelo das drogas e do álcool foi mais forte. Passado pouco tempo Francis recebe um telegrama de Nova York. Dale tinha falecido. Cansado da vida. Fim do ciclo.
Já desde a I Guerra Mundial que o jazz tinha ganho alguma expressão na Europa, particularmente Paris. Com o fim da II Guerra Mundial, muitos músicos, que tinham chegado incorporados no exército americano, acabaram por ficar pela Europa.
Nos anos 50 muitos dos músicos que já tinham uma história nos EUA, acabaram por vir e fixar-se no velho continente. Auto expatriados. Aqui tinham liberdade, a indiferença à cor da pele (a larga maioria era negra), o respeito e admiração dos fãs. Grandes músicos como Dexter Gordon (sim, o nosso "herói", viveu na Europa 15 anos, entre Paris e Copenhaga), Thad Jones, Kenny Drew, Ben Webster e Stuff Smith fixaram-se na Escandinávia, Stan Getz e Don Byas, em Espanha, Bill Coleman, Bud Powell, Kenny Clarke, Sidney Bechet, Steve Lacy, Johnny Griffin, Archie Shepp, em França, Art Farmer, na Áustria.
"Round Midnight" é o título original do filme. E é, também, uma das músicas mais conhecidas e tocadas da história do jazz. É um standard com milhentas interpretações, reinterpretações, reformulações e variações. Saiu da imaginação do Theolonius Monk, em 1943, um pianista genial com um som próprio, sua imagem de marca, como se a música soasse desafinada, dissonante, com falta de técnica. Pura ilusão.
No filme, "Round Midnight" é, juntamente com toda a outra música (e é muita), arranjada e produzida por Herbie Hancock, grande pianista do quinteto de Miles Davis nos anos 60. Hancock também faz uma perninha como actor (Eddie) aliás como outros músicos de topo (John McLaughlin - guitarra, Wayne Shorter - saxofones, Ron Carter - contrabaixo, Tony Williams - bateria) e muitos mais.
E, para nossa surpresa, temos o Martin Scorsese (para mim, juntamente com o Francis Ford Coppola, o maior realizador nosso contemporâneo) a fazer uma perninha como ator - o manager de Dale na América, que o vai buscar ao aeroporto e trata de tudo para ele voltar a tocar em Nova York.
Sendo uma ficção, o filme foi feito a partir das memórias de um outro personagem francês (Francis Paudras), da sua relação com outro grande músico da história do jazz, o pianista Bud Powell, um virtuoso, com mais uns episódios da vida do Lester Young, outro saxofonista seminal, que fez as gravações de referência com a enorme Billie Holliday.
Bud Powell foi, com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Theolonius Monk e alguns outros, um dos que fez a revolução sonora no jazz dos anos 50, a que se convencionou chamar Bebop.
Este revolucionário pianista era algo instável, sofria de problemas mentais (foi sujeito a internamentos hospitalares e à terapia dos eletrochoques) e era "agarrado" à heroína, quadro pesado de vida, com comportamentos erráticos.
Pois nos anos 50, também ele se mudou para Paris e foi aí que se tornou amigo de Francis Paudras, um amante de jazz que o ajudou na sua reabilitação. Este fã francês escreveu um livro "La danse des Infidèles", onde registou a história que constituiu a matriz base para a ficção de Bertrand Tavernier.
Bertrand Tavernier (1941-2021), um bom cineasta francês, acertou na mouche com o filme. Mais do que tudo, um gesto de amor pelo jazz e certamente de recuperação de memórias da sua juventude em Paris. As cores pesadas, saturadas muitas vezes cinzentas ou negras, são o enquadramento adequado da atmosfera onde circulam os seus personagens , um certo mal-estar com a vida, uma fuga para a frente, uma tragédia previsível. Mas uma grande obra de cinema.
05 novembro 2025
Dia Mundial do Cinema
02 novembro 2025
O fabuloso destino de Amélie Poulain - Jean-Pierre Jeunet (2001)
25 outubro 2025
Os Incorruptíveis Contra a Droga ("The French Connection") - William Friedkin (1971)
C/Gene Hackman, Roy Scheider, Fernando Rey
Citação: "Os Incorruptíveis Contra a Droga (The French Connection) é um brilhante policial, no qual Gene Hackman é o infatigável Jimmy 'Popeye' Doyle, polícia que odeia figadalmente os traficantes de droga.
Na noite dos Óscares, este filme tornou-se inesquecível para o próprio Hackman, consagrado como melhor ator, bem como para o próprio realizador William Friedkin, talvez mais célebre por ter feito O Exorcista (The Exorcist, 1973), que também levou para casa o tão apreciado boneco dourado."
Um bilhete de identidade do filme e pano para mangas sobre o realizador.
William Friedkin, um percurso mais ou menos normal nos anos 60 e 70. Do pequeno ecrã para o grande ecrã. Ganhou tarimba durante uns anos numa estação de televisão local da cidade onde nasceu, Chicago. Começou com um filme veículo para o par musical Sonny e Cher, cuja música traz certamente boas memórias para muitos de nós.
Foi fazendo uns filmes pouco notados e em 1971 acerta na mouche. "Os Incorruptíveis Contra a Droga". Cinco Óscares e a consagração. E as coisas continuaram a correr-lhe bem. O filme seguinte foi nem mais nem menos "O Exorcista". Demónio. Possessão. Sobrenatural. Terror. Usando como matriz um caso paranormal avalizado pela igreja católica americana, fez sucesso comercial mundial enorme, um blockbuster, servido por grandes atores - Ellen Burstyn ( no ano a seguir ganhou o Óscar com o filme de Martin Scorsese "Alice já não mora aqui") e Max Von Sydow que fez alguns dos filmes de referência de Ingmar Bergman. De então para cá já houve não sei quantas continuações, remakes, variantes, etc. e tal.
William Friedkin não tem uma obra muito extensa até porque, a partir de uma certa altura, dispersou-se, apostou na encenação de espetáculos operáticos com sucesso. Mas pessoalmente penso que há outros dois filmes dele que merecem a pena.
Em 1977 fez "O comboio do medo", um remake de um dos grandes filmes franceses dos anos 50, "O salário do medo" de Henry-George Clouzot. Uma história brilhante sobre o transporte de uma carga de nitroglicerina por um longo trajeto acidentado, algures na América do Sul. Yves Montand num papel incrível de luta constante contra a morte. Ao mínimo descuido, a catástrofe.
Pois vinte e tal anos depois William Friedkin pegou na mesma ficção (um romance francês do início da década de 50) e fez um filme muito interessante.
O outro filme que aqui destaco é "A Caça" de 1980. Al Pacino faz um dos melhores papéis da sua carreira, na minha opinião, numa matriz policial nos meios homossexuais sado-masoquistas. Um serial killer à solta, um polícia obcecado, gradualmente a afundar-se na confusão de valores, crenças e identidade sexual. Na altura, o filme foi fortemente atacado pelas comunidades gay (ia demasiado ao fundo, abria demasiadas janelas, expunha demais), mas gradualmente tem estado a ser recuperado na memória cinematográfica. Um dia hei-de revê-lo.
Voltemos ao filme e completemos o seu bilhete de identidade.
Nova York. Uma equipa de detectives - Popeye Doyle (Gene Hackman) e Buddy Russo (Roy Scheider) procuram interceptar uma rede de narcotráfico, a designada French Connection, com o centro decisional em Marselha. No perigoso jogo do gato e do rato, pelas avenidas, ruas e becos de Nova York um dos criminosos tenta eliminar Doyle. A partir daí o polícia bom quanto baste mas com princípios e regras um bocado fluídos, à sua maneira, liberta o estado selvagem da sua alma. Entra numa espiral de violência.
Baseado em factos e personagens reais, é um filme másculo, entre o suspense e a ação. Nada impede aquela missão "sagrada" de Doyle. Num dos cartazes de publicidade do filme estava escrito: "Doyle is bad news - but a good cop". À maneira dele, claro. Não há sentidos proibidos. Aquela perseguição automóvel, grande manifesto de exibicionismo cinematográfico, é assim uma espécie de exaltação. Como se fosse um grande chuto. Uma explosão de energia reprimida.
Nova York é o espaço entrópico por excelência. Desordenado, caótico. Os personagens circulam, vigiam-se, reconhecem-se, controlam-se. Cidade suja, desordenada, mas próxima dos personagens, às vezes como um grande quadro expressionista.
Gene Hackman. Toda a energia da ficção nele absorvida. O seu detective Doyle porta consigo a missão do bem, mesmo que por vias tortuosas. Todo ele exposto na essência das suas imperfeições. Óscar para melhor ator. Mais do que merecido para um ator que já começou tarde, estava longe do modelo de galã, mas era fabuloso, mesmo em papéis secundários.
Tinha 95 anos, estava retirado já há uns bons anos, sofria de Alzheimer e fomos surpreendidos pela sua morte algo estranha. Em 26 de Fevereiro ele e a mulher foram encontrados sem vida na casa que partilhavam no Novo México. Terá morrido de insuficiência cardíaca.
E Fernando Rey. A sua personagem é o líder da rede europeia da droga. De Marselha a Nova York, o requinte comportamental, a inteligência prática, o sentido de humor. Desapareceu e nunca foi condenado. Lembre-se que foi um dos atores de referência de Luís Buñuel, com quem fez filmes da nossa memória como "Tristana", "Viridiana", "Este obscuro objeto do desejo" ou "O charme discreto da burguesia".
Com este filme prestemos uma pequena homenagem ao enorme talento de Gene Hackman. Paz à sua alma.
23 outubro 2025
Cabaret - Bob Fosse (1972)
Da Literatura. Christopher Isherwood. Escritor inglês. (1904-1986), naturalizado americano. Romancista, dramaturgo, argumentista. Com uma obra substancial e de qualidade, a sua identidade ficou "presa" ao livro ("Adeus Berlim") que escreveu a partir das suas vivências em Berlim no início dos anos 30 - tal como muitos outros intelectuais expatriados, nomeadamente Auden, Stephen Spender, Paul Bowles ou o alemão Bertold Brecht - presenciando/vivendo os desvarios da besta nazi. Também o "Memorial do Convento" ficou agarrado à identidade do José Saramago. E, no entanto, ambos escreveram outras obras de elevada qualidade. C. Isherwood tem uma parte da sua obra traduzida para português, nomeadamente "Um homem singular" (1964) que deu um óptimo filme há não muitos anos.
Em 1931, o
jovem intelectual inglês já com obra publicada, homossexual, foi para Berlim
fugindo à perseguição institucional britânica aos "maus costumes"
(lembro o caso escandaloso de Oscar Wilde umas décadas atrás). Naquele universo
- a República de Weimar (1918-1933) era um pequeno paraíso intelectual e
vivencial - nocturno, libertino e aberto ao prazer (divine decadence, diz um
personagem) encontra uma cantora inglesa com quem partilha o quarto e muitas
derivas da vida. Foi a partir dessa experiência que ele escreveu uma pequena
novela "Sally Bowles" mais tarde integrada no livro "Adeus
Berlim" que acabou por ser a essência do filme.
Do cinema. O
livro de Isherwood deu mais tarde origem a uma versão teatral na Broadway e, no
início da década de 70 (quase 40 anos), o interesse chegou a Hollywood. Mais
uma vez os códigos dos bons costumes a bloquear a criação artística -
homossexualidade, aborto... Ainda bem que o projecto se encontrou com Bob
Fosse, ou, se calhar foi ao contrário. Um profissional de topo na Broadway,
coreógrafo, bailarino e encenador, com umas incursões esporádicas em Hollywood,
. A coisa resultou em cheio. Com os necessários ajustamentos. A cantora inglesa
passa a americana, mas na essência manteve-se a matriz da história e dos
personagens. Tudo circula em torno de um Cabaret - Kit Kat Club, uma espécie de
pequeno mundo fechado reflexo do mundo exterior em processo de implosão: o
poder crescente dos nazis, as relações amorosas abertas, a violência
institucional, o medo, a decadência...Life is a Cabaret.
O jovem
intelectual acaba por sair - na verdade fugir - em 1933 quando Hitler ganha as
eleições. Como ele fugiram muitos mais. Felizmente. Bertolt Brecht, por
exemplo, acabou por chegar à América, apesar da sua posição assumidamente
anticapitalista. E a vida continua no Kit Kat até que os nazis acabem com o que
eles chamavam degradação. Mas, como a heroína cantava, Money makes the world go
around, com ou sem nazis.
Dos actores.
Como num musical dos tempos áureos de Hollywood, Bob Fosse conduz as histórias
amorosas cruzadas através de um tecido sempre entrecortado pelos shows no
cabaret, com coreografias electrizantes, algumas vezes usando montagem paralela
com um sentido dramático. Belíssimas músicas, óptimos números dançados, humor
quanto baste. Berlim, naqueles tempos, criou uma forte identidade artística em
torno dos espaços nocturnos, com grandes peças musicais criadas por músicos tão
importantes como Kurt Weil, Hans Eisler, ...Quem queira conhecer aquele
universo sonoro tem as gravações da Ute Lemper que, felizmente, já cantou por
cá algumas vezes.
Liza Minnelli
foi a personagem charneira de toda a ficção. Cantora e bailarina, incorporou a
personagem da Sally Bowles. Frágil e gigante simultaneamente, vivia naquele
mundo à procura de um sonho - tornar-se estrela de cinema nos estúdios da UFA,
naqueles tempos em que o cinema alemão produzia alguns dos filmes
incontornáveis da história do cinema v.g. "O anjo azul" (1925) com a
Marlene Dietrich. Liza Minnelli, qual Louise Brooks, ícone do cinema dos anos
20, domina o ecrã.
Joel Grey, o
outro polo. O mestre de cerimónias no cabaret. O condutor do espectáculo e, em
registo figurativo, metafórico, o anunciador do mal que pairava no ar e estava
prestes a perverter a vida do mundo. Brilhante e comovente. A Broadway em
Hollywood.
Já agora alguns
dos outros. Michael York, na altura muito presente em filmes da nossa memória.
Veste a pele do C. Isherwood. Homossexual não assumido, mas na verdade, sempre
mais disponível para o outro lado (é interessante a forma como B. Fosse trata a
sua relação com o aristocrata alemão, casado, mas só de fachada.
Helmut Griem
encarna o nobre alemão, playboy e com o sonho da felicidade em África. Ficou na
(pequena) história do cinema pelos filmes de Visconti - "Os malditos
" e "Ludwig".
Dos Óscares.
Naquele ano as coisas foram muito sérias na atribuição dos Óscares. Além deste
filme competiam "Fim de semana alucinante" (John Boorman), "O
Padrinho" (F.F. Coppola) e "Autópsia de um crime " (Mankiewicz). ... Pois "Cabaret" só ganhou 8 Óscares. Impressionante. É obra.
Obviamente o da melhor actriz foi para a Minnelli, o do melhor actor secundário
foi para o Joel Gray, o da melhor direcção para o Bob Fosse, etc.etc. Para
memória: o Óscar do melhor actor foi para Marlon Brando em "O
Padrinho".
E agora? As memórias estão despertas, as expectativas abertas. Mesmo quem tenha visto o filme no seu tempo garante o prazer do reencontro. Nada se perdeu.
19 outubro 2025
As vinhas da ira - Jonh Ford (1940)
Um livro, um escritor. Um filme, um realizador. John Steinbeck, Prémio Nobel da Literatura (1962). Com este romance (1939) venceu o Pulitzer e ganhou uma enorme visibilidade no panorama social e político da América em crise profunda. John Ford, a essência do cinema em muitas e diversificadas obras-primas, em mais de cinquenta anos de filmes, do mudo ao sonoro.
Fez parte do pequeno grupo de grandes cineastas que começou no cinema mudo e continuou em registo elevado no cinema sonoro. Deixou para a história para aí uma dúzia de obras imorredouras.
Mais três nomes incontornáveis que fizeram percurso similar com sucesso: Howard Hawks, Raoul Walsh (tal como Ford, zarolho, como Fritz Lang, fugido aos nazis e, já agora, como Nicholas Ray, mais para a frente) e Cecil B. De Mille. Não houve muitos mais.
"As Vinhas da Ira" é uma dessas obras, que ainda agora nos dá o prazer do grande cinema.
Anos 30. Após ter estado preso por homicídio involuntário, Tom Joad (Henry Fonda) regressa a casa no estado de Oklahoma na altura da grande crise climática que durante anos afectou uma parte importante do interior da América. A grande depressão. A ganância dos bancos, associada aos interesses de grandes grupos agrícolas, contribuiu para o resto. Sem possibilidade de sobrevivência, milhares e milhares de famílias abandonam aqueles lugares onde viviam há gerações e vão à procura da terra prometida (a conotação bíblica atravessa toda a ficção). Califórnia é o destino. De lá chegavam aos "nickelodeons" e aos ecrãs espalhados pela América, os sonhos, os desejos e as fantasias inimagináveis com o Rodolpho Valentino ou a Mary Pickford, o Douglas Fairbanks ou a Gloria Swanson, fabricados por Hollywood.
Mas, como sempre, a realidade é mais dura que a imaginação. A viagem é difícil, os incidentes são múltiplos, morrem pessoas. A família Joad luta unida, em torno de Ma Joad (Jane Darwell, extraordinária personagem, agregadora da família), alimenta a esperança de dias melhores, mas… como é óbvio, não há terra prometida.
John Steinbeck criou com este livro um dos retratos mais espantosos e dramáticos da luta do homem contra os obstáculos, naturais e sociais, da sua resistência e do seu orgulho. Toda a sua obra, com um discurso linear e objetivo continua a ser importante. Felizmente tem sido reeditada pelos "Livros do Brasil".
Steinbeck teve sorte com Hollywood. John Ford nessa altura já possuía um currículo cheio de coisas boas. Tinha começado lá no fundo, pau para toda a obra, apoiando um irmão mais velho que era realizador, nos tempos de afirmação e consolidação dos estúdios e em que o cinema procurava identidade artística, e em 1917 começou ele a fazer filmes.
Fez muitas coboiadas (já velhote identificava-se assim: "I am John Ford, I make westerns"), muitos outros géneros (o habitual, histórias para entreter o povinho, dramas, comédias, polícias e ladrões) e foi criando gradualmente uma imagem de grande competência e eficácia. Já com o sonoro bem estabelecido, em 1935, ganha Óscares com um filme sobre a Irlanda, país que será uma referência para ele até ao fim da vida. Era filho de irlandeses e disso se orgulhava. Fez alguns filmes na Irlanda, nomeadamente o que lhe deu os últimos Óscares - "O homem tranquilo".
John Ford foi criando a sua própria lenda no star system de Hollywood. Era um personagem bizarro, controverso, sádico, com fúrias lendárias. Tinha o seu grupo privilegiado de atores e colaboradores sem fazer distinções entre as estrelas Henry Fonda, James Stewart ou John Wayne e outros pequenos atores, amigos, que o acompanharam décadas entre simples figurações e umas linhas de diálogo. Tinha as suas próprias regras do jogo e poder no sistema para as impor. Era uma mistura estranha de conservador e democrata. Queixava-se dos excessos de Hollywood, demasiado sexo e violência. Na essência era um individualista empedernido, que dizia: "A verdade da minha vida é cá comigo e não se metam nisso."
Antes de fazer "As Vinhas da Ira", fez "Cavalgada Heroica" (1939), um clássico inquestionável que pôs no imaginário do espectador de cinema o John Wayne, em certo sentido uma "criação" do John Ford que, ao longo do tempo, o iria utilizar em múltiplas obras-primas. Lembremos algumas: "Homens para Queimar" (1945), "Forte Apache" (1948), "Os dominadores" (1949), "Rio Grande" (1950), "O homem tranquilo" (1952), "A Desaparecida" (1956), "O homem que matou Liberty Valance" (1962), "A taberna do irlandês" (1963).
Fiquemos por aqui e voltemos a "As Vinhas da Ira". Darryl Zanuck, o histórico produtor de Hollywood, comprou os direitos de autor do livro e pôs a máquina do estúdio a funcionar. Aparentemente o filme não era para ser feito por Ford, mas acabou por lhe ir parar às mãos. "Tudo aquilo me agradou - ser sobre pessoas simples - e a história era similar à fome na Irlanda, quando tiraram as terras às pessoas e as deixaram a vaguear nas ruas e a morrer à fome", disse ele mais tarde.
Daqui resultou um dos vértices da filmografia de Ford, mas há tantos. Claramente um Ford engagé, socialmente comprometido, como logo a seguir com "A estrada do Tabaco", a partir de Erskine Caldwell. Nesses anos teve Óscares com "As Vinhas da Ira" e "O Vale era Verde".
Andrew Sarris, um crítico e analista privilegiado do cinema americano, (cúmplice militante dos Cahiers du Cinéma franceses, nos anos 60, na defesa da teoria do autor - atribuir ao realizador a essência do filme) sintetizou bem John Ford: "Nenhum outro cineasta americano tem uma visão tão vasta da paisagem do passado da América, dos mundos de Lincoln, Lee, Twain e O'Neil, das três grandes guerras, do westerns e das migrações transatlânticas, dos índios sem cavalos do vale de Mohawk e das cavalgadas dos Sioux e dos Comanches do Oeste, das incursões irlandesas e espanholas e da política em equilíbrio instável das cidades poliglotas e dos estados fronteiriços."
Se Andrew Sarris foi tão eloquente na definição do universo fordiano, que dizer do enorme Orson Welles que, quando lhe perguntaram quais os cineastas americanos que mais o atraíram e influenciaram, a sua resposta (uma boutade, certamente enunciada com a voz profunda e colocada como se fosse uma tirada shakespeariana) teve o sentido redundante do absoluto: "Os velhos mestres. Isto é: John Ford, John Ford e John Ford."
Faz parte dos livros que quando o jovem Orson Welles (vindo do teatro e da rádio) estava a preparar o "O Mundo a Seus Pés", viu vezes sem conta a "Cavalgada Heroica", onde disse tudo ter aprendido sobre cinema. Aprendeu magnificamente.
Este filme de John Ford, apesar das décadas de idade, ainda tem o condão de nos posicionar no lado certo dos valores do homem. Aquele desabafo final do personagem do Henry Fonda (antes de fugir) para a mãe é forte.
Mas não nos iludamos. Os netos daqueles personagens que ficaram no Oklahoma e nos outros estados vizinhos foram os que puseram Trump no poder e são atualmente os seus grandes sustentáculos.
12 outubro 2025
Roma, Cidade aberta - Roberto Rosselini (1945)
1944. Roma ainda está ocupada pelos nazis. A resistência luta de todas as formas e feitios. Diferentes ideias políticas, posições ideológicas contraditórias (católicos versus comunistas), mas união contra o inimigo/ocupante comum a abater. O padre Pietro (Aldo Fabrizi) é um colaborador activo da resistência, portador de mensagens e de apoio financeiro. A Gestapo captura-o e tenta forçá-lo a trair. Resistiu heroicamente. Acabará fuzilado.
História de um militante comunista, membro da resistência, procurado pela Gestapo (Marcello Pagliero) que, acossado pelos alemães, foge de casa em Roma e procura um esconderijo nos arredores da capital. Traído pela namorada, é alvo de uma tentativa de salvação por parte de Pina (Anna Magnani), noiva do seu melhor amigo, Francesco, e pelo padre Pellegrini (Aldo Fabrizi), mas morre torturado pelos alemães.
História de resistência, em certo sentido antecipando o próximo futuro político de Itália - um padre e um comunista aliados numa causa comum.
Anna Magnani, vinda do music-hall, a revelar-se uma actriz de uma densidade dramática arrebatadora - a sequência da sua morte às mãos dos nazis é das mais prodigiosas na obra de Rossellini. Ganhou o passaporte para Hollywood. Onde fez coisas importantes.
"Roma Cidade Aberta" é considerado um dos marcos inquestionáveis da história do cinema formando, juntamente com "Paisà - Libertação" e "Alemanha, Ano Zero", a chamada Trilogia da Guerra de Rossellini. Os manuais e as revistas de cinema dos anos 50 estão cheios de artigos e discussões mais ou menos académicas sobre o filme e o chamado neorealismo. Muitos atribuem a "Roma Cidade Aberta" o início daquele movimento estético, artístico e cinematográfico. Na verdade, dois anos antes, Visconti tinha feito o seu primeiro filme, "Obsessão", a partir do livro policial americano "O Carteiro toca sempre duas vezes" e é mais ou menos consensual que foi o primeiro filme neorealista. Mas é um facto que o filme de Rossellini constituiu uma espécie de separação entre um antes (o cinema fascista de Mussolini, escapista e propagandístico) e um depois (a dessacralização do cinema, uma forte influência documental, secura narrativa, a representação crua e realista das dificuldades económicas e sociais da época, com sets de filmagem reais, muitos actores não profissionais e temas duros, reflectindo as dificuldades das pessoas no caos de destruição da guerra - pobreza, desemprego, miséria...).
Depois de acontecimentos mais ou menos bizarros, o filme foi totalmente ignorado aquando da estreia, depois começou a captar alguma curiosidade intelectual e, quase por um passe de mágica, estreou nos EUA (o primeiro filme italiano após a guerra no mercado americano). Espantosamente foi um sucesso. A partir daí é outra história.
Mas Rossellini tem como cineasta uma história um pouco nebulosa. Em jovem tinha feito umas curtas metragens e três filmes de guerra para o poder fascista que, independentemente, de argumentos mais ou menos elegantes mais ou menos forçados, foram instrumentos ideológicos do poder fascista.
Depois de "Roma Cidade Aberta" a sua carreira esteve longe de ser linear. Mantendo sempre uma linha estética de cinema pobre, apostando na autenticidade, acabou, por opção pessoal a fazer filmes para a televisão com uma forte incidência em temas e personagens cristãos. Pelo meio - durante sete anos - houve a história amorosa e cinematográfica (escandalosa) com a Ingrid Bergman. Quando ela regressou ao star system glamouroso de Hollywood, com cinco filmes de Rossellini no currículo ("Stromboli", "Viagem a Itália" e "Europa 51"...), um divórcio e três filhos para sustentar, Rossellini continuou na Europa fazendo cinema pobre, simples e cristão. A televisão foi o seu meio privilegiado.
Jean-Luc Godard, na sua juventude de crítico de cinema, escreveu "Todos os caminhos levam a 'Roma Cidade Aberta". Já passaram umas boas dezenas de anos e só podemos concordar e, mais uma vez, deixarmo-nos enredar pelas suas personagens, lugares e situações. O padre Pietro é para mim um exemplo notável de crente nos homens, apesar de todos os pecados.
O Papa Francisco considerava este filme um dos seus favoritos. A propósito, será que a Igreja tem papa depois da sua morte? Não se dá por ele.
05 outubro 2025
O Leopardo - Luchino Visconti (1963)
Tudo acontece na Sicília. Tudo se passa entre dois momentos.
Começo. Genérico. Plano fixo sobre um portão que separa um palácio da sua envolvente. A linha de separação define aquele mundo. Para dentro o fausto, o requinte, o bom gosto, a luxúria dos poderosos aristocratas. Para fora, a miséria, a fome, a subserviência do povo embrutecido há muitos séculos.
Fim. Sequência. Um homem alquebrado, doente, vazio, arrasta-se, de madrugada por ruas degradadas, escuras e perde-se no fim da noite. Vem de uma grandiosa festa aristocrática, vai para a morte, anunciada (figurativamente). É o príncipe de Salina.
1860, grande agitação política e militar um pouco por toda a Europa (por cá também). Garibaldi inicia o movimento de unificação de Itália. Meio militar, meio guerrilha, muito entusiasmo e enorme desorganização. Anarquistas, carbonários, maçons, mercenários, tudo cabia lá. Muitos mortos, muitos assassínios. Muitas injustiças. Mesmo assim, imparável. O processo de unificação de uma multitude de Estados autónomos durou dez anos, com a igreja (os Estados eclesiásticos) pelo meio a ter um papel pouco digno.
É neste contexto de guerra civil, caldeirão efervescente, da chegada de Garibaldi à Sicília que tudo aconteceu. Em cerca de um mês, os "1000 de Garibaldi", camisas vermelhas no corpo, esfarrapados, muito entusiasmo e coragem, grande indisciplina e irresponsabilidade, tomaram o poder na ilha aos Bourbon. Aquela campanha ficou conhecida como a grande insurreição do sul. O romantismo associado era tão grande que até o grande Alexandre Dumas, escritor imaculado, se uniu aos libertadores com um navio, dinheiro e armas. Pequenas mitologias que ficaram para a história.
Fujamos à confusão exterior, aos estilhaços das bombas, e entremos no palácio. Uma família participa da missa privada. É o príncipe de Salina (Burt Lancaster), mais a mulher, os filhos e outras adjacências familiares. É assim como é há centenas de anos. A continuidade, os rituais. A norma dos comportamentos cimentados por gerações. Superfície visível. Mais abaixo é que as coisas são mais complexas. O príncipe tem lá fora a sua amante, a sua sexualidade. Nenhum dos filhos dele lhe merece grandes expectativas no futuro, pelo que transfere para o seu sobrinho Tancredi (Alain Delon) o seu empenho. O príncipe percebe que a sociedade está a mudar e mostra resistência, mas compreensão. Ajusta-se. Nas conversas de caça ele expõe com clareza o que pensa da Sicília, do poder e, em última instância, do homem. "Para que as coisas permaneçam iguais é preciso que tudo mude".
Por uma questão de segurança da família, mudam-se todos da capital - Palermo - para uma outra propriedade majestosa da família, Donafugata. Passam pelos bloqueios das tropas garibaldinas porque têm poder e influência para isso. Os coitados do Zé povinho - para quem estava a ser feita a revolução - são impedidos, claro.
As relações entre as pessoas aí são quase medievais. O povo acolhe a família como se fosse de outro mundo. Senhores e escravos. Nesse contexto, seguros da instabilidade militar, repetem-se os rituais de poder, reproduzem-se os dogmas. Com fausto e presunção.
O sobrinho querido (Tancredi) - que, há umas semanas era ardoroso revolucionário e agora estava perfeitamente enquadrado no novo establishment político - encontra a mulher para o seu futuro, Angelica (Claudia Cardinale), filha do senhor lá do sítio, um arrivista, chico esperto, burgesso quanto baste, que gradualmente vai comprando as propriedades aos grandes senhores do passado, D.Calogero (Paolo Stopa). O príncipe tem que pactuar e encaixar (a sua inteligência política era enorme) porque aquele representa o futuro, nomeadamente para a sua família.
Tudo termina - o filme e, figurativamente, aquela época naquele lugar - com um grande e espaventoso baile onde, em pequenos pormenores, se vislumbram os artifícios, os ridículos, as idiossincrasias e as hipocrisias da aristocracia. Um tour de force deslumbrante, redundante, barroco, como se fosse a última manifestação de vida daquele mundo indolente, em declínio. O príncipe aguentou, mas em dor e melancolia. Ele sabe que aquilo não tem futuro.
Filme esplendoroso do Luchino Visconti, retratando um mundo que era também o seu e da sua família há centenas de anos. Uma câmara muitas vezes móvel, elegante, com a leveza das valsas do baile final. Sequências notáveis do ponto de vista da linguagem cinematográfica (o aparecimento de Angélica pela primeira vez no salão de festas da família do príncipe; dinâmica dos planos, o jogo das imagens determina o natural e previsível desenrolar da ficção).
O filme foi feito a partir do livro homónimo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, saído uns anos antes (1958), uma espécie de memorial sobre Dom Fabrizio Salina (Príncipe de Lampedusa), avô do escritor.
E os actores, meu Deus. Burt Lancaster, a fazer um príncipe notável, com o olhar autoritário, a pose segura e o rigor da ancestralidade europeia, ele que vinha lá de Hollywood, onde a seguir a um policial vinha uma coboiada e logo depois uma comédia de costumes.
Alain Delon, jovem querubim do cinema francês, com um dos muitos bons papéis que fez no cinema europeu (já tinha feito com o Visconti "Rocco e seus irmãos", também com a Cardinale), a par de muitas e diversificadas porcarias, mais ou menos indigestas. Lamentavelmente abandonou-nos no início deste último Agosto.
Claudia Cardinale. Esta foi embora há duas semanas. Juntamente com Anna Magnani, Sofia Loren e Gina Lollobrigida, Claudia Cardinale fez parte das grandes estrelas do cinema italiano que alimentaram o imaginário da nossa juventude. Teve uma carreira polvilhada de grandes filmes, trabalhou com alguns dos melhores realizadores e teve uma longa vida. Que descanse em paz.
Dediquemos respeitosamente esta sessão ao Alain Delon e à Claudia Cardinale.
Tenhamos o prazer de os acompanhar por quase três horas de grande cinema.
11 junho 2025
As Neves de Kilimanjaro - Henry King (1952)
Duração: 117m
Ernest Hemingway. É sempre um prazer renovado reencontrarmo-nos com a sua ficção, mesmo que por via indireta, intermediada pelo cinema.
A sua vida, relativamente curta (morreu aos 61 anos por iniciativa própria - um tiro na cabeça) foi cheia de vivências extremas, exóticas e aventureiras; era emocionalmente instável e sujeito a estados de depressão. Americano do centro do continente, Illinois, foi um cidadão do mundo, privilegiado, amante dos prazeres da vida, talentoso, viajante, defensor da liberdade.
A sua obra é, em certo sentido, um espelho da sua vida. A I Guerra Mundial, a Guerra Civil de Espanha, a II Guerra Mundial. Jornalista, correspondente de guerra, escritor. Paris é uma referência da sua vida e Espanha a paixão. África foi um espaço de fascínio. Andou por lá em caçadas ("As verdes colinas de África", de 1935, é uma não-ficção a partir de um safari que ele fez na Tanzânia, acompanhado pela segunda mulher, Pauline Pfeiffer). Cuba (Finca Vigia) foi a sua terra adoptiva nos últimos vinte e três anos de vida. Lá viveu e se esgotou. Criou e alimentou as suas mitologias domésticas nos bares de Havana, embebedando-se com mojitos e, no mar ao largo, em aventuras piscatórias que foram a matriz para a sua obra-prima "O Velho e o Mar".
"As Neves de Kilimanjaro" é uma short story escrita em 1936. Já tinha publicado "O sol também se levanta/Siesta" (1926) e "Adeus às armas" (1929). O seu nome já contava, já era uma referência da ficção escrita americana. Obviamente muito do que ele passou para o texto é da sua experiência, das suas aventuras, dos seus amores, das suas fixações (caçadas e touradas), do seu sentido lúdico, da sua postura no mundo. Na verdade, o escritor Harry Street da história deste filme é o escritor Ernest Hemingway da História.
África. Nos anos trinta do século passado tinha uma outra configuração e identidade. As colónias portuguesas, inglesas, francesas, belgas e alemãs preenchiam o mapa do grande continente. Era a herança, em certo sentido, do Mapa Cor de Rosa, essa imposição dos "amigos" ingleses aos portugueses, da ligação entre Angola e Moçambique, lá nos idos anos noventa do século XIX. Passados mais de cem anos, África já não é aquela África mas, infelizmente, uma África muito pior. Formalmente a colonização acabou, na realidade a miséria é generalizada e a exploração das populações pelas elites locais é escandalosa.
"As Neves de Kilimanjaro" é a Tanzânia dos animais selvagens em liberdade, dos cheiros quentes e dos sons do fundo da savana.
Um safari que correu mal. Harry Street (Gregory Peck), caçador gravemente ferido, escritor com obra de sucesso, tem uma perna gangrenada, está a delirar. Nada de bom é expectável. Os sinais são claros. Os abutres aguardam nas árvores, as hienas rondam no acampamento. Está acompanhado pela mulher Helen (Susan Hayward).
Nos delírios da febre vêm-lhe à memória recordações do passado - amores mal resolvidos, atos falhados, expectativas não consumadas, cedências fáceis aos valores de mercado.
Como se fora a confissão dos seus pecados. A prestação de contas perante um ser superior, como se fora a confissão. O acampamento está próximo de Ngage Nagai, a Casa de Deus (em masai, a língua local), a seis mil e tal metros de altura, cume ocidental do Kilimanjaro, a montanha mais alta de África, junto à fronteira com o Quénia. Metáfora óbvia.
Em flashbacks, vamos acompanhando as viagens mentais do escritor pelo seu passado. As mulheres que amou, os locais que frequentou, as opções que assumiu. Determinante na organização da ficção é a relação com Cynthia (Ava Gardner), a mulher que ele encontrou em Paris, amou em África e perdeu para sempre na guerra civil de Espanha.
No original, escrito pelo Hemingway, o escritor morre com a gangrena. No filme, Darryl F. Zanuck, big boss da Twenty Century Fox, obrigou o realizador a dar-lhe vida para o futuro, com um avião a aterrar na savana a tempo de o transferir para um hospital (a lógica de mercado a impor as suas regras). Além de que o estúdio teve que argumentar forte e feio com cortes e alterações impostas pelos "bons costumes" do Código Hays. Hipocrisia.
O realizador do filme, em Technicolor, foi Henry King, um daqueles autores clássicos que vêm lá muito de trás, dos anos vinte, do cinema mudo. Entre filmes mudos e sonoros fez mais de cem. Na verdade atravessou toda a história do cinema clássico americano. Como norma, fez filmes de todos os géneros, de histórias de amor aos westerns, do policial à comédia. O último filme que fez foi em 1962 e não foi nada despiciendo. Foi "Terna é a noite", a partir do livro homónimo do F. Scott Fitzgerald.
Foi candidato a Óscares mas nunca obteve nenhum. Assinale-se que foi um dos 36 fundadores da Academia de Hollywood, que todos os anos atribui os Óscares. Já o conhecemos há uns meses quando aqui passámos "O Sol Também Brilha"/ "Fiesta", também a partir de Ernest Hemingway, feito uns anos depois, outra vez com a Ava Gardner. As touradas em Pamplona, lembram-se?
A música tem a autoria de um artista incontornável da grande história de Hollywood, Bernard Hermann. É indissociável de Alfred Hitchcock. Contribuiu com a sua imaginação musical para filmes tão paradigmáticos do mestre inglês como: "Psico", "Intriga Internacional", "O Homem que Sabia Demais", "Vertigo". Só para citar alguns.
Mas o seu génio musical fez parceria com outros grandes realizadores, nomeadamente Orson Welles, Robert Wise, Joseph Mankiewicz, Nicholas Ray, Fred Zinnemann, Raoul Walsh. Nos anos 70 escreveu para o Brian de Palma e fez a banda sonora de "Taxi Driver" do Martin Scorsese. Já agora, François Truffaut, o cineasta francês amante do cinema americano, foi buscar a sua música para dois filmes seus nos anos 60.
O homem está sempre a tempo de se regenerar, encontrar o caminho certo da vida. O nosso caçador/escritor tem pelo menos mais uma chance. Se calhar vai apontar ao lado. O escritor real, o Hemingway, apontou ao coração, cansado da vida. Não falhou.
04 junho 2025
As Horas - Stephen Daldry (2002)
Com Meryl Streep, Julianne Moore, Nicole Kidman
Da literatura para o cinema. O tempo está a avançar. Sem pausas. Por saltos. Ritmo e cadência uniformes. Tic tac. Tic tac. "The Hours". Foi o título inicial do romance "Mrs. Dalloway" da Virginia Woolf. Confusão? Nem por isso. Vamos por partes.
1. Literatura. Michael Cunningham é um escritor americano da nossa geração (nasceu em 1952). Obra consistente, não muito ampla. Sensibilidade homo. Os temas básicos são os do nosso tempo. Permito-me copiar, com agradecimento, o que a Helena Vasconcelos escreveu no "Público" (Suplemento Cultural "Ípsilon") há precisamente um ano, numa entrevista ao escritor quando esteve em Lisboa no lançamento de "Dia", o seu último romance (papinha toda feita, com a qualidade e o rigor analítico de uma óptima crítica literária): "Desde o sucesso alcançado com 'As Horas' (1998), onde é convocado o fantasma de Virginia Woolf, (...) tem escalpelizado a existência dos seus personagens - ansiosos, frustrados, eroticamente perturbados, alienados no seio de famílias e de comunidades específicas, atraídos por drogas e pela ideia de suicídio, dados a visões e propensos ao desastre - com o zelo de um antropólogo que observa à lupa uma parte da espécie humana...".
O título daquela peça jornalística era: "O poeta trágico da banalidade humana". Retenhamos o conceito de antropólogo, o que estuda a natureza humana.
A partir daqui já sabemos ao que vamos. Mas, antes, saliente-se que a obra de Michael Cunningham tem sido praticamente toda publicada em Portugal - pela Editora Gradiva - desde o seu primeiro romance "Uma casa no fim do mundo" (1990). Atingiu o auge com "As Horas" que, em 1999, lhe valeu o Prémio Pulitzer e referências elogiosas, prémios e consagrações um pouco por todo o mundo.
2. Cinema. Pois foi a "As Horas" que o Stephen Daldry foi buscar a matéria-prima para o seu filme. Uma história que são histórias. Três ficções numa ficção. Três mulheres e três tempos. Uma mulher - a escritora Virginia Woolf - referência das outras mulheres (personagens ficcionais), onde tudo vai desembocar. Três épocas diferentes ao longo do século XX. Três mulheres. Apesar de separadas no tempo, há algo que as liga e vai influenciar o seu destino. Estamos no quadro da pura ficção.
1923. Grã-Bretanha, a escritora inglesa Virginia Woolf (Nicole Kidman), recuperando de um esgotamento nervoso, frágil, escreve o romance "Mrs. Dalloway" que se tornará uma das suas obras-chave e referência da literatura do século XX. Comportamentos apáticos, deambulatórios. Estranhos. O marido a fazer o seu enquadramento de segurança, terra-a-terra, paciente. Muito paciente.
1951, Los Angeles, Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa jovem, grávida, deprimida. Para escapar à rotina pouco feliz da sua vida, alimenta o vazio lendo "Mrs. Dalloway". Tem já um filho. Procura um significado para a sua vida. Vive uma sexualidade enganada no quadro das convenções sociais.
2001. Nova Iorque. Clarissa Vaughan (Meryl Streep), editora, vive com uma companheira, cuida delicadamente de Richard, seu amigo, antigo amante ocasional, homossexual, escritor famoso que vai receber um prémio de consagração e está a morrer de sida. Entretém-se a preparar uma festa de celebração (e certamente de despedida) para o seu amigo. Mas, não haverá festa. Richard resolverá a coisa à sua maneira e, para surpresa nossa, saberemos que ele foi o miúdo filho de Laura, lá no início da década de 50.
Clarissa, para evitar encarar as complexidades da vida, vai-a preenchendo de preocupações menores, de fait divers. Richard chama-lhe Mrs. Dalloway, como a personagem da ficção de Virginia Woolf (uma socialite de meia idade que procura organizar uma festa).
As vivências destas três mulheres vão saltando no tempo, fazendo pontes, tendo como elo comum o livro. De uma forma ou outra, cada uma questiona o significado da vida, a razão essencial de estarmos aqui, os equívocos, os desvios, os atropelos da vida.
Tudo começa pelo suicídio de Virginia Woolf. Sussex, Grã Bretanha, 1941. Cansada da vida, desajustada, apática (vozes... ouve vozes) enfia-se pelas águas de um rio adentro. Duas cartas de despedida, uma para o marido Leonard Woolf, outra para a irmã Vanessa Bell. Cena inicial e cena final. As horas... as horas... Não aguentou mais o tempo.
Foi David Hare quem pegou na ficção de Michael Cunningham e, a partir dela, criou o texto a filmar. É um homem de palco. Dramaturgo reconhecido e premiado, com mais de vinte peças teatrais de forte teor sócio-político, as suas posições e posturas públicas são claramente progressistas. Foi nomeado para os Óscares pelo argumento.
Stephen Daldry, foi o realizador. Mas a sua identidade criou-se nos palcos, como encenador. Poucos filmes, mas qualidade inquestionável. Em 2001 fez "Billy Elliot " (o seu primeiro filme), uma história absorvente sobre a luta contra preconceitos sociais e familiares de um jovem bailarino. Sucesso retumbante, inesperado.
Em 2008 fez "O Leitor", que deu o Oscar a Kate Winslet. O argumento foi também do David Hare e igualmente nomeado para Oscar (uma boa parceria). Foi produtor executivo e realizador de um episódio da série "The Crown", que dá um óptimo retrato das idiossincrasias e dos podres da monarquia inglesa.
A banda sonora foi feita por Philip Glass, meu herói pessoal das músicas. Puseram-lhe o selo de minimalista, mas a sua música tem uma sonoridade encantatória. As suas sinfonias, as suas óperas, as suas peças, as suas bandas sonoras (para filmes) são uma ilha de prazer num mundo cada vez mais cacofónico. Quem quiser fruir do prazer da sua música pode começar por "The Photographer" (1983) e continuar com "Songs from Liquid Days" (1988) uma parceria com vários artistas pop/rock (Paul Simon, David Byrne, Laurie Anderson...), lindíssimo.
E as actrizes? Não vale a pena destaques. Cada uma num escalão superior. Desta vez o sistema privilegiou a Nicole Kidman com o Oscar da melhor actriz (poderiam ter sido as outras). O filme teve ao todo nove nomeações, além de ter vencido Globos de Ouro.
Em síntese, imperdível.
21 maio 2025
O homem que queria ser rei - John Huston (1975)
Apogeu do
Império Britânico na Índia do fim do século XlX. Dois soldados
ingleses (Sean Connery e Michael Caine) expulsos do exército imperial -
pequenos aldrabōes, ladrões rascas, miseráveis traficantes de armas - metem-se
a caminho de um lugar longínquo, inóspito e de difícil acesso, o Kafiristão,
algures nos contornos montanhosos do Afeganistão.
É um deles (Michael Caine),
perturbado e em sofrimento, que conta a bizarra aventura na redacção de um
jornal na Índia, a um jornalista (Christopher Plummer), Rudyard Kipling
himself.
Em flashback, o espectador vai
acompanhando o percurso daqueles degenerados até às terras onde dominou
Alexandre da Macedónia (século IV AC). Quando lá chegam - brancos e com
espingardas - são endeusados pela população com todos os benefícios adequados. É
o paraíso, nas terras do fim do mundo. Um acidente feliz altera para melhor as
expectativas. Numa guerra com um povo vizinho um deles é atingido por uma
flecha, bloqueada pela bandoleira em volta do corpo. Não é ferido, não há
sangue. É divino. É associado a Alexandre, o grande. Tudo corre pelo melhor,
com uns "milagres" maçónicos pelo meio...até ao inevitável confronto
com a realidade comezinha. Afinal, ele sangra. É um impostor. A justiça
religiosa local é radical. Em ritual sádico, é executado pela população.
Miraculosamente o seu amigo consegue safar-se para contar para as gerações
futuras aquela incrível história.
Sob o fundo de uma aventura
exótica onde tudo é diferente dos usos e costumes ocidentais - atenção à
sequência inicial onde somos confrontados com as diferenças oriente/ocidente -
uma bela ficção sobre a ganância, o poder, a religião e os contrastes
civilizacionais, de uma forma risível, mas encantatória.
Argumento, escrito pelo
próprio John Huston em colaboração, a partir de
uma short story, com o mesmo título, de Rudyard Kipling. Tudo
na ficção remete para o universo daquele escritor inglês, nascido na Índia, que
viveu na época de maior fausto e extensão do império colonial inglês
(1865-1936).
O homem é ele e as
suas circunstâncias como escreveu o filósofo espanhol Ortega y
Gasset. Totalmente adequado a Kipling e à sua obra. À distância dos anos
pode-se compreender, mas não esquecer. Toda a sua obra enfatiza, mesmo que
implicitamente, a grandeza dominadora e assumidamente superior dos ingleses
face aos povos colonizados. Mesmo nos livros para os adolescentes que o
tornaram célebre - "O livro da selva", "O novo livro da
selva" - está sempre subjacente a superioridade do homem branco
(inglês), bem como em "Kim", romance de referência.
Prémio Nobel da Literatura
em 1907, a ele se deve o célebre poema If que, jovens, líamos com enlevo
e certamente alguns de vocês encaixilharam lá no quarto onde
estudavam. Se...isto, se aquilo... (exaltações moralistas, um manual de boas
maneiras)... cujo final
apoteótico é
Yours is the Earth and everything that’s in
it,
And—which is more—you’ll be
a Man, my son!
Se calhar vale a pena reler.
Recordar é viver.
John Huston (1906-1987) era
um homem das Arábias. Filho de um dos grandes actores dos tempos de
consolidação de Hollywood (Walter Huston), teve uma adolescência de
estoira-vergas. Andou pelo México envolvido nos conflitos da guerra civil dos
anos 20. Uns anos depois andou a absorver a cultura da Europa - Inglaterra,
França. Com talento para a escrita e a representação, estacionou naturalmente
em Hollywood, com o apoio do pai e seus amigos dos estúdios. Escreveu
argumentos, foi actor e, quando chegou a sua vez aproveitou-a de mãos
cheias. Em 1942, pegou no livro policial de Dashiell Hammett, "O Falcão de
Malta" e entrou directamente pela porta grande de Hollywood. O
filme chamou-se "Relíquia Macabra", com Humphrey Bogart a vestir a
pele do detective Sam Spade. É um filme de culto, daqueles sempre à
mão para rever com prazer.
John Huston, que estava a
criar uma imagem que não mais o abandonou - impulsivo, imprevisível, provocador
- interrompeu uma carreira que praticamente não iniciara, para participar no
esforço de guerra contra os nazis e os japoneses. A ele se devem três
documentários filmados na Europa e no Pacífico, considerados importantes
documentos históricos.
Regressado a Hollywood,
retomou uma carreira de realizador com muitos filmes brilhantes, outros
assim-assim e outros "alimentares" meramente para pagar as contas
elevadas de charutos e whisky. Já no fim da carreira fez patetices como "Annie"
e " Fuga para a vitória", onde até entrava o Pelé e o Bobby Moore -
quem gosta de futebol sabe quem eram.
Mas isso não apaga o seu
inquestionável lugar na história de Hollywood com filmes tão marcantes e
incontornáveis como: "Quando a cidade dorme", "A rainha
africana", "Moby Dick", "Os Inadaptados", "O Tesouro
de Sierra Madre", "A Honra dos Padrinhos". Fiquemos por aqui,
mas há mais uns títulos.
Além do mais ainda fazia com
regularidade uma perninha como actor em filmes de outros. Só um caso de
referência: "Chinatown" do Romain Polanski.
Mais um dado importante
para situar John Huston do lado decente da história. Em 1947 foi,
juntamente com Humphrey Bogart, um dos mais activos e
esclarecidos opositores às perseguições do senador McCarthy, excrescência
fascista em Hollywood e na política americana.
Já agora, foi o pai da actriz da
nossa geração Angelica Huston.
Acompanhar aquele par de
pequenos aldrabões, mas simpáticos, na procura do céu na terra é um prazer
anunciado. Preparem-se porque a viagem é dura, mas bela. Além do mais,
divertida.
Gloria - John Cassavetes (1980)
Com Gena Rowlands, John Adames Duração: 123 min Ela e ele. Mais uma história de um casal, como em milhares de ficções? Não. Não é um casal o...
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Com Gregory Peck, Ava Gardner, Susan Hayward Duração: 117m Ernest Hemingway. É sempre um prazer renovado reencontrarmo-nos com a sua ficção,...
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Com James Dean, Julie Harris, Raymond Massey Durante: 118 min A seguir a T. Williams, John Steinbeck. Kazan escolhia bem os seus parceiros a...


