Mostrar mensagens com a etiqueta Clint Eastwood. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Clint Eastwood. Mostrar todas as mensagens

17 janeiro 2026

Bird - O fim do sonho - Clint Eastwood (1988)

Com Forest Whitaker, Diane Venora. Duração: 2h41m

USA. Anos 40 e 50. O jazz. A "revolução " do bebop. Charlie Parker, o "deus" do saxofone. Clint Eastwood. Música e cinema.

Como se estivéssemos numa jam session (sessão de música de jazz, normalmente pela madrugada fora com os músicos a tocarem para eles, com muita liberdade criativa e desafios mútuos, a competirem em contínua improvisação, a procurarem novos sons) vamos começar pelo Clint Eastwood.

Começou como actor em pequenos papéis em Hollywood, depois de alguma relevância na televisão americana a fazer de cowboy, andou pela Europa, onde criou uma identidade artística forte a partir dos filmes de Sergio Leone, "western spaghetti", a chamada trilogia dos dólares - "Por um punhado de dólares" (1964), "Por mais alguns dólares" (1965) e "O bom, o mau e o vilão" (1966), todos com música de Ennio Morricone.

No regresso à América, gradualmente começou a desenvolver projectos pessoais de realização e actuação. Nos anos 70 e 80 foi o inspetor "Dirty" Harry (um polícia dúbio, parafascista, na altura muito controverso) em vários filmes de sucesso. Gradualmente criou uma "máquina" de produção paralela ao sistema de estúdios (a produtora Malpaso, sua imagem identitária) que deu origem a um leque de filmes incontornáveis, como realizador. De tantos filmes que merecem o nosso entusiasmo, relembro alguns: "Imperdoável", "As pontes de Madison County", "Mystic River", "Million Dollar Baby", " Cartas de Iwo Juma", "Gran Torino".

Clint Eastwood, que já vai nos 95 anos (o último abencerragem do cinema clássico americano), é um amante de jazz (um dos seus oito filhos, Kyle Eastwood, é um belíssimo contrabaixista, que já atuou em Lisboa) e incluiu música de jazz nas bandas sonoras de algumas das suas ficções. Não é, pois, de admirar que ele se tenha empenhado na realização deste filme.

A história da vida de Charlie Parker, o incontornável músico de jazz americano com uma vida curta - apenas 34 anos (1920-1955) - trágica, intensa, caótica, patética. Toxicodependente desde jovem (heroína), suicidário, alcoólico, sujeito a depressões e roçando o descalabro mental, andou sempre pela marginalidade social. Morreu de ataque cardíaco. Foi um dos grandes virtuosos do saxofone. Deixou alguns dos registos fonográficos mais impressionantes da música dos anos 40 e 50. Tocou e gravou muito para o pouco tempo que viveu.

Juntamente com Dizzy Gillespie, trompetista, e outros grandes músicos - Theolonius Monk, Bud Powell, Max Roach, entre outros - Charlie Parker foi um dos "pais" criadores do som bebop - um som novo - ponto fronteira entre o jazz clássico (swing) - do Sidney Bechet (clarinetista ), Louis Armstrong (trompetista), Duke Ellington (pianista) e das big bands dos anos 30 e 40 - e o jazz moderno. Naqueles tempos, ainda de guerra, o bebop foi uma revolução formal do som, com mudanças rítmicas, melódicas e harmónicas. O jazz deixou de ser música para dançar e passou a ser música para ouvir.

Eram tempos em que uma América moralista, preconceituosa e racista (continua, de outras formas) não aceitava aquelas músicas disruptivas, quase todas compostas e tocadas por músicos negros. Só pequenas minorias brancas, artistas e intelectuais, faziam parte daquele universo polarizado no Harlem (bairro negro de Nova York) essencialmente centrado em clubes, alguns dos quais ganharam, ao longo do tempo, estatuto de locais sagrados do jazz - Blue Note, Village Vanguard, Downbeat, Three Deuces, Birdland (sim, precisamente a partir do nome de guerra do Charlie Parker - Bird - e por ele inaugurado).

Um drama biográfico. Clint Eastwood criou uma bela história a partir de dados relevantes da vida do músico. As suas crises, as suas angústias, as suas tragédias, as suas fragilidades, os seus falhanços; mas também momentos de euforia, de realização, de satisfação, de êxito. Um puzzle fascinante, uma matriz fragmentada em flashbacks, um vaivém entre o passado e o presente. Um universo sombrio, muitas vezes ampliado por jogos de luz a insinuar mais do que a mostrar (silhuetas).

Um filme a cores que mais parece a preto e branco, opção do cineasta para nos imergir naquela atmosfera pesada, dramática, de contrastes luminosos difusos, como a alma do Charlie Parker.

O filme centra-se nos últimos anos do músico com toda a sua vida ancorada na última mulher, Chan Parker (Diane Venora), que tudo lhe aturava e tudo lhe perdoava, as bebedeiras, as incongruências, as irresponsabilidades, mesmo as traições amorosas. Apesar de se conhecerem há muito, só viveram juntos uma relação amorosa nos últimos cinco anos da vida dele e tiveram em conjunto dois filhos, um dos quais morreu aos três anos. Era uma apaixonada da música de jazz e sempre viveu nesse ambiente. Após a morte de Charlie Parker casou com outro saxofonista, nada desprezável, pelo contrário, na história do jazz - Phill Woods.

Se Diane Venora (uma actriz de referência nos palcos americanos, nomeadamente no universo shakespeariano) foi merecidamente premiada com um Globo de Ouro, Forest Whitaker transfigurou-se no corpo e alma do Charlie Parker. Foi merecidamente agraciado com o prémio de melhor actor no Festival de Cannes.

E a música. Ao longo das quase três horas de filme, muita da música que ele compôs e tocou inunda o ecrã, para nosso redobrado prazer.

01 janeiro 2024

Gran torino - Clint Eastwood (2008)

Com Clint Eastwood, Bee Vang
Duração: 116m

O Johnny Guitar fica para a próxima. Hoje vamos conhecer outro grande cowboy que ganhou a sua identidade como grande actor americano com os filmes de Sergio Leone, western spaghetti filmados aqui no deserto espanhol. Lembro por exemplo «Por um punhado de dólares». Mas a sua história é riquíssima como realizador. Já vai com quase 90 anos e continua a surpreender-nos. «Gran Torino» é um desses casos. A América no seu pior. Ódio, medo, violência e xenofobia. O que o Trump tem exaltado. O americano profundo. Mas há quem perceba e resista, como o nosso herói do filme, o próprio Eastwood como actor. «Gran Torino» é objectivamente um dos mais importantes filmes americanos da década. A eficácia narrativa e a história fluída. Os filmes do Eastwood são de longe mais justos e moralmente intocáveis do que as suas posições políticas. Contradições. Quem não as tem?

01 abril 2023

As Pontes de Madison County - Clint Eastwood (1995)

Com Clint Eastwood, Meryl Streep. 1995. 135 min

Encontro abençoado entre duas das referências incontornáveis do cinema americano das últimas décadas.

Uma história de quatro dias de mútua atração e êxtase entre duas pessoas com mundos e vivências muito diferentes.

Verão de 1965. Uma mulher num rancho, casada, com dois filhos, algures no Estado do Iowa (centro/oeste dos EUA entre os rios Missouri e Mississippi). Francesca de seu nome, nascida em Itália. Trazida para os EUA pelo marido, soldado americano na Segunda Guerra Mundial. Tem o mundo truncado pela continuidade indefinida das searas de trigo e dos campos de milho e pelo ritmo anual das colheitas.

Um homem que chega. Fotógrafo profissional da National Geographic. Vai fazer uma reportagem sobre as pontes cobertas em madeira que fazem parte daquele universo rural desde o século XVIII. Robert é o seu nome e tem muito mundo na sua vida.

Do encontro acidental à paixão tórrida foi uma questão de horas. Quatro dias depois tudo estava acabado , como se fosse a canção do Chico Buarque... e tudo acabou na quarta-feira. Mas não. A memória. As recordações. Os sonhos. Tudo isso perdurou no coração dela até ao momento final da sua vida. É disso que é feita esta história contada em flashback através da leitura dos diários deixados pela Francesca aos dois filhos.

Naqueles quatro dias em que o marido e os dois filhos se ausentaram para irem a uma feira agrícola, aquela mulher que tinha uma vida decente, equilibrada, programada pelos usos e costumes lá da terra, como que sai de si. A Itália perdida da sua juventude. Os interesses culturais (a ópera, os blues, a literatura). O corpo mais ou menos entorpecido a ressuscitar o desejo.

À medida que os filhos vão lendo os diários (ambos refletindo as limitações da sua educação naquele universo fechado) vão aceitando a evidência dos factos. A mãe tinha vivido aquilo. Choque e admiração. Da intransigência à aceitação. Cada um deles percebe (mas se calhar nada vai acontecer) que eles próprios têm que agitar os seus quadros de vida familiar, que sabemos não serem nada bons.

Obviamente que a Francesca não foi ter com o Robert. Não era louca. Não teve coragem. Como ela dizia, receava as mudanças.

Retomou a normalidade do dia a dia. Ficou com as memórias e os sonhos. Nós ficamos com uma história belíssima contada a um ritmo lento, pausado, próprio daqueles sítios em que quase nada acontece.

A Streep e o Eastwood dão-nos uma lição de representação e cinema. A contenção dela naquele processo de revivificação e a normalidade daquele fotógrafo que ali encontra o que no fundo de si procurava há décadas. Cinema de excelência na melhor tradição dos clássicos. Quarenta anos antes e esta história poderia ter sido filmada pelo John Ford. Querem melhor elogio?

A rapariga da mala - Valerio Zurlini (1961)

Com Claudia Cardinale, Jacques Perrin... Duração: 1h53m "Um drama de amor com fundo de Verdi e de luta de classes numa Itália onde come...