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01 janeiro 2024

O grande magnata - Elia Kazan (1976)

Com Robert de Niro, Jack Nicholson, Tony Curtis, Jeanne Moreau, Robert Mitchum, Theresa Russell
Duração: 122 min

Elia Kazan a emparceirar com F. Scott Fitzgerald. Um dos cineastas mais reconhecidos da história do cinema - lá iremos - e um dos escritores americanos mais conhecidos do grande público, ainda que a sua obra não tenha sido muito ampla. Mas quem não leu ou não conhece "O Grande Gatsby"? E "Terna é a Noite"? Ou " Este Lado do Paraíso"? Os bons velhos tempos da jazz age. Escreveu bastantes contos (para sobreviver), e andou por Hollywood a escrever para o cinema e a embebedar-se, que era uma sua especialidade não literária. O mundo do cinema, e as suas personagens, deram-lhe inspiração para alguma da sua ficção, nomeadamente para o último romance que não acabou - morreu com quarenta e tal anos - " The Love of the Last Tycoon" mas que foi completado por Edmund Wilson, amigo escritor, a partir de notas e apontamentos deixados.

Teve uma vida complicada. Decadentismo, excentricidades, alcoolismo, a mulher Zelda (também escritora) com graves problemas psiquiátricos (esquizofrenia) e uma certa errância. Muito do material dramático usado nas suas ficções era apropriado da sua vivência tumultuosa e instável com a mulher.

O tycoon (magnata, rico, poderoso, quero, posso e mando) da ficção vestia a pele de um personagem real de Hollywood daqueles tempos heróicos, que deixou escrita para a história do cinema páginas inapagáveis: Irving Thalberg (senhor todo-poderoso da MGM, mas começou na Universal). Produtor entre 1921 e 1936 (fez a ponte complicada do mudo para o sonoro), morreu de tuberculose com 37 anos, mas deixou uma marca profunda em todo o sistema de produção de Hollywood. Era chamado o 'wonder boy ' de Hollywood. Pois o Fitzgerald, que certamente se cruzou muitas vezes com ele nos estúdios, palcos, bares e mansões opulentas de Hollywood, tomou-o como modelo do seu personagem Monroe Stahr.

Elia Kazan. Basta três ou quatro títulos para o identificar, mesmo fora do mundo da cinefilia: 'Um Eléctrico Chamado Desejo', 'Há Lodo no Cais', 'A Leste do Paraíso ', 'Esplendor na Relva'. Nós próprios já nos cruzámos com ele aqui.

O Kazan (que, já em pré-reforma, se tornou romancista) terminou a sua carreira cinematográfica com este filme (antes do cinema tinha sido um notável encenador teatral em Nova Iorque). Hollywood foi a sua casa durante décadas, conhecia como poucos o seu glamour e a sua podridão, os seus heróis e a sua miséria. Ele próprio não se saiu bem do episódio mais degradante da história do cinema americano - denunciou colegas na purga Mccarthista dos anos 50. Nobody is perfect, como dizia o personagem do filme do Billy Wilder, mas o Kazan foi demasiado imperfeito.

Nada no livro lhe era desconhecido, trunfo adicional para a conceção do filme. Apesar de meio retirado, o seu nome ainda era respeitável no sistema. Conseguiu reunir um grupo alargado de atores notável. Um elenco de luxo. Uns vindos lá de trás, dos bons velhos tempos (Ray Milland, Tony Curtis, Robert Mitchum), outros já na liderança dos novos tempos de Coppola,  Scorsese e  Spielberg (Robert de Niro, Jack Nicholson). E até a francesa Jeanne Moreau aterrou em Hollywood para servi-lo.

Mas antes disso ainda contou com o Harold Pinter para lhe escrever o argumento a partir do livro. Que luxo. Dramaturgo excelentíssimo no teatro inglês, com sucesso nas grandes capitais mundiais e também com traquejo de argumentista a partir de outros escritores ("A amante do Tenente Francês", por exemplo). Mais tarde (2005) Harold Pinter foi Prémio Nobel da Literatura e, por esses tempos, um pacifista politicamente controverso, com posições nem sempre compreensíveis.

Anos 30. Hollywood. Estúdio de cinema. Sequência a preto-e-branco. Filme de gangsters. Um assassinato em grande estilo. São as rushes (material filmado em bruto) das filmagens daquele dia. O grande produtor Monroe Stahr vai tomar decisões, o que cortar, o que refilmar, o que alterar no guião. Era o senhor absoluto. A ele tudo chegava, tudo ele decidia. Mas era um homem solitário. Vivia no vazio. A mulher tinha sido uma grande estrela do cinema, mas morreu jovem. Vivia da memória dela, fascínio mais criado no seu imaginário do que alimentado pelo que tinha sido a vida em comum.

Um encontro acidental no estúdio com uma jovem desconhecida desperta-lhe o passado. A sósia da mulher morta, torna-se fixação. Jogo perigoso e dúbio de aproximação/afastamento. A jovem misteriosa vai e vem numa indecisão gerada pelo medo. A vida dele é o estúdio, ela percebeu. Acaba por sair em segurança, casando com um terceiro.

No fim, o grande produtor, o rei e senhor daquele mundo de sonhos embalados em celulóide, onde as idiossincrasias pessoais são inchadas, arrasta-se pelos estúdios delirante: "não te quero perder". Engolido pelo silêncio escuro do estúdio, o seu poder omnipotente transmutou-se no vazio.

A sua vida é como a sua casa em construção. Falta o telhado.

Saída do mundo do cinema em grande de um enorme criador. Prazer para nós com esta história que é também uma belíssima ilustração do cinema naqueles anos de construção de Hollywood (década de 30). É o star system em formação, a bipolarização New York (dólares) / Los Angeles (filmes), os produtores deus ex-machina, a organização industrial da produção nos estúdios, os sonhos feitos e desfeitos de milhares de jovens candidatos a estrelas.

09 fevereiro 2022

Esplendor na Relva - Elia Kazan (1961)

Com Natalie Wood, Warren Beatty, Pat Hingle
Duração: 124m

Último Kazan. Mais um belíssimo drama. Mais uma história da América profunda, que continua nos nossos dias se calhar ainda mais perversa e perturbadora se analisarmos o universo que apoia Trump. O bem e o mal. Os pobres e os ricos. As convenções sociais castradoras. A tensão sexual é o leit motiv. Entre o desejo e a repressão os personagens de Beatty e da Natalie não podem ser felizes. Não devemos. Não. Não...diz a menina, na verdade querendo. No fim cada um vai para o seu lado. É a vida. Pura e dura.

Kazan criou outro grande ator de cinema. Depois de Brando e Dean, agora Warren Beatty. Fez aqui o seu primeiro filme e Natalie Wood... Ah. Prestem atenção ao ator que faz de pai de Beatty - Pat Hingle. Daqueles atores que fizeram dezenas de filmes em papéis secundários... mas aqui absolutamente extraordinário.

Mais uma vez uma história de um dramaturgo de referência - William Inge. Foram feitos vários filmes a partir de peças teatrais dele: Bus stop com a M. Monroe ou Picnic do Joshua Logan são referências do cinema de Hollywood do fim dos anos 50.

Adeus ao Kazan, genial cineasta... mas traiu amigos e colaboradores no tempo do Mccarthismo.

Como no filme do B. Wilder - Quanto mais quente melhor - Nobody is perfect. Muitos não lhe perdoaram a fraqueza.

02 fevereiro 2022

A Leste do Paraíso - Elia Kazan (1954)

Com James Dean, Julie Harris, Raymond Massey
Durante: 118 min

A seguir a T. Williams, John Steinbeck. Kazan escolhia bem os seus parceiros artísticos. Uns anos depois Steinbeck era Prémio Nobel da Literatura (1962). A obra dele é certamente um dos prazeres de muitos de nós. As Vinhas da Ira, A um Deus Desconhecido, A leste do Paraíso. Fora todos os outros editados pela Livros do Brasil. As Vinhas da Ira tinha sido já transformado em filme pelo John Ford com o Henry Fonda. Ficção de caráter social. Uma leitura seca sobre a América do século XX. Como aqui. Conflito familiar na América profunda dos anos da primeira guerra mundial. Um mundo do passado contra um mundo futuro. E a família. As feridas familiares. Pais e filhos. Uma mãe que cortou com as convenções e um filho que procura compreender. Os fantasmas à deriva. A mãe qual fantasma recuperado do tempo a questionar o equilíbrio familiar (falso). E o filho - James Dean - qual arquétipo do filho à deriva à procura do passado que lhe foi elidido. Melodrama puro e duro. A culpa. A Bíblia como reguladora dos desvios humanos. A ausência de comunicação - "Fale comigo pai". É impossível ficar indiferente à força das situações e ao dramatismo dos personagens. O cinema atinge aqui um dos cumes. A sequência inicial é uma autêntica aula de cinema. Esta lá tudo. É esta lá James Dean. Mais uma formatação do Actors Studio e da metodologia do Stanislavsky. Como o Brando. Dean foi um cometa, apareceu do nada e esvaiu-se no nada. Carne fundida no metal do Porsche com que se desfez a muitos quilómetros à hora. 24 anos e acabou-se. Três filmes e uma assinatura indelével na história do cinema. Aqui era o personagem (ou era ele próprio?) à procura do reconhecimento no contexto familiar.

Tão afirmativo com inseguro. É sempre um fascínio revê-lo. Aqui vemo-lo na exuberância do cinemascope a cores que o Kazan usou pela primeira vez. Parece que o tempo não passou. Para nosso prazer renovado.

A rapariga da mala - Valerio Zurlini (1961)

Com Claudia Cardinale, Jacques Perrin... Duração: 1h53m "Um drama de amor com fundo de Verdi e de luta de classes numa Itália onde come...