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01 janeiro 2024

Por quem os sinos dobram - Sam Wood (1943)

Com Ingrid Bergman, Gary Cooper, Karina Paxinou, Akim Tamiroff.
Duração: 1h30m

Hemingway (1898-1961) e Espanha. Relação amorosa continuada, alimentada até ao último suspiro. O livro derradeiro do grande escritor, antes de se despedir voluntariamente da vida - enfiou com um balázio na cabeça - foi "O verão perigoso". Touros, toureiros e touradas. Trabalho jornalístico de fôlego para a revista americana "Life". Vários meses acompanhando o "duelo" nas trincheiras entre Luis Miguel Dominguin e Antonio Ordoñez, dois toureiros rivais, dos maiores da história da tauromaquia espanhola. O fascínio do embate do homem com a besta,  a linha difusa entre a vida e a morte. A coragem e  solidão do toureiro nas praças de touros plenas da efervescência e fanatismo das multidões.

Vindo lá da América profunda (Illinois),  Hemingway tornou-se, no entanto, um homem do mundo, fascinado pela Europa. Jovem aprendiz das letras, tinha andado pela I Grande Guerra como motorista de ambulâncias da Cruz Vermelha (Itália). Passados uns anos voltou à frente de batalha na Guerra Civil de Espanha (1936-39), como correspondente de guerra. Pelo meio tinha vivido a década prodigiosa dos anos 20, em Paris, onde culturalmente tudo acontecia. Lá estavam (ou por lá passavam) muitos jovens que marcaram a escrita do século XX - os americanos Ezra Pound, Scott Fitzgeral e Gertrude Stein foram alguns desses.

O fascínio das touradas e de Espanha já tinha apropriado a escrita do Hemingway com "Fiesta" (1926). Mas a experiência vivida no confronto, na loucura fratricida da guerra civil, foi de outra dimensão. O resultado, em termos ficcionais, foi "Por quem os sinos dobram". Grande sucesso e aclamação. Todos os referenciais da escrita de Hemingway lá estão explanados. Economia de linguagem, palavra depurada, ausência de artificialismos, procura de pureza de valores, decência  e ética de comportamentos.

Peço emprestada uma opinião a Amos Oz (esse grande escritor israelita que, se ainda fosse vivo, estaria envergonhado e amargurado, com o que Israel está a fazer aos palestinianos). Em "Uma história de amor e trevas", livro de memórias, recorda: "Naquela época li quatro ou cinco vezes 'Por quem os sinos dobram', de Ernest Hemingway, um romance cheio de mulheres fatais e homens taciturnos, sem esperança, que escondiam uma alma de poeta atrás de uma aparência dura."

Robert Jordan (Gary Cooper), um americano já maduro de idade, é um especialista em explosivos. É pressuposto pertencer às Brigadas Internacionais ("Por vuestra libertad y la nuestra" era o seu grito de guerra), força paramilitar que agregou os voluntários estrangeiros que lutaram do lado dos republicanos na guerra civil (1936-38), cerca de quarenta mil, muitos dos quais não sairam vivos daquele inferno.

Maria (Ingrid Bergman) jovem espanhola violada pelos nacionalistas, que lhe assassinaram os pais e miraculosamente sobrevivente. Vive com um grupo de refugiados algures na montanha longe das frentes de guerra. O casal Pablo e Pilar (uma mulher de armas) vão dirimindo as tensões entre si e entre os membros do grupo. Os valores e as intenções daquela gente não são claros. Republicanos ou franquistas? Destruir a ponte ou não? A coragem, o medo e a cobardia vão aflorando. Foram apanhados na curva da vida. A sobrevivência é o que importa. A traição espreita.

A chegada do Inglês (era assim para os espanhóis, embora ele fosse americano) criou tensões. Tem um desígnio, uma missão - estourar com uma ponte ferroviária de grande importância estratégica para os republicanos.

O inevitável acontece. O americano apaixona-se por Maria e vice-versa.

Ele, tem a consciência de que a sobrevivência é uma hipótese ínfima. Ela, agarra-se desesperadamente ao sonho. A América, a paz, a fuga àquele universo tresloucado. O amor com carácter de urgência, como escreveu o poeta Daniel Filipe em "A invenção do amor". Tiveram o prazer efémero da vida no prazer escondido daqueles poucos dias. Melhor que nada.

Hemingway cita em epígrafe John Donne (poeta inglês do século XVII): "A morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti." 

Na verdade, dobraram por Jordan e pelos milhares e milhares de mortos naquela guerra tão bárbara, selvagem e absurda, mesmo aqui ao lado.

Emílio Mola, general relevante dos nacionalistas (aparentemente eliminado por Franco, para evitar a concorrência ao poder), escreveu: "É necessário espalhar o terror eliminando sem escrúpulos ou hesitação todos aqueles que não pensam como nós." 

Mas do outro lado a atitude era similar e ainda mais complexa. Padres e freiras desapareciam aos milhares em execuções sumárias e os ajustes de contas entre grupos ideologicamente diferentes (v.g. comunistas versus anarquistas) na frente republicana eram mato. Uma loucura!...

Hollywood pegou nesta ficção e deu-lhe identidade fílmica. Tinha todos os ingredientes para resultar - uma história dramática na Espanha sanguínea, uma trama amorosa apelativa, um escritor já com um enorme prestígio mundial. A isso juntou um factor determinante, os actores. As estrelas. Ingrid Bergman e  Gary Cooper. E a coisa resultou em cheio. Sucesso de mercado.

Um filme com todos os contornos clássicos, campo/contra-campo, a gramática do cinema funcional, filmado a cores e com óptimas sequências. E o rosto belo da jovem sueca, múltiplas vezes deliberadamente privilegiado pela câmara - a beleza de um rosto juvenil na loucura suicidária dos espanhóis.

O realizador foi Sam Wood, um tarefeiro de Hollywood, que fez a maior parte dos filmes (e foram muitos) para o caixote do lixo da história, com excepção de poucos. Este é um deles e, já agora, "Uma noite na ópera" e "Um dia nas corridas", ambos com os Irmãos Marx.

Contradição das contradições. Sam Wood era politicamente um hiper conservador, um radical. Um falcão, na gíria da política de Washington. Em 1947 deu com a boca no trombone denunciando colegas de Hollywood como infiltrados comunistas. 

Como fez este filme, quatro anos antes, a partir de um livro de Hemingway, anti fascista, vigiado pelo FBI como comunista? E não traiu a essência do livro. Só os deuses poderão responder. Certamente um milagre do cinema, sem efeitos especiais, e de longa duração. Saliento que são duas horas e meia. Organizem as vossas vidas na quarta-feira. O prazer recompensa.

01 maio 2023

Um dia nas corridas - Sam Wood (1937)

Com Irmãos Marx, Maureen O'Sullivan, Margaret Dumont. 1937. 111 min

Ponto de ordem ao e-mail: eu sou marxista. Não, não, não. Ninguém faça juízos de valor. O outro Marx, Karl de seu nome, não é para aqui chamado, independentemente do seu papel inapagável na história do mundo nos últimos 150 anos. Eu sou marxista enquanto fã incondicional dos irmãos Marx, que nasceram, ainda no século XIX, duas gerações depois do senhor das barbas imponentes. Judeus, nova-iorquinos, filhos de um casal franco-alemão. Três irmãos, (mais um no início, mas que mais para a frente se deixou de comédias) que desde o fim dos anos 20  fizeram algumas das comédias mais loucas (no bom sentido) da história do cinema.

Iniciaram-se como artistas de variedades, circulando pela América em espectáculos de vaudeville e burlesco. Mais para a frente têm a afirmação na Broadway e não resistiram ao fascínio de Hollywood. Em 1929, fizeram o primeiro filme "The Cocoanuts" a partir de uma comédia que eles representavam com sucesso em Nova York.

"Um dia nas corridas" é já da fase madura (sétimo filme) , dirigido por um realizador respeitável (Sam Wood) e a história é bem normal dentro dos padrões mais ou menos tipificados daquela altura: um sanatório com dívidas, na Flórida, em vias de ser abocanhando por especuladores imobiliários. Corridas de cavalos como hipótese de salvação do sanatório se os bons ganharem. Um médico que, na verdade, é veterinário, um jogo de equívocos muito próprio dos Marx. Um jovem casal, muito bonzinho a lutar pelo bem. Etc. e tal.

Obviamente tudo acaba bem para nosso gáudio depois de largas gargalhadas perante as múltiplas situações burlescas, surreais, bizarras e satíricas. O ritmo é delirante, frenético. E o fim é apoteótico de música e dança negra, algo quase irreal, se pensarmos na história da segregação racial nos EUA, fortíssima naquela altura. Quase revolucionário, se usássemos as referências do outro Marx. Ou isto anda tudo ligado?

Cada um dos Marx é uma personagem identificável desde o primeiro filme. O nome de guerra de cada um não era o seu nome civil.

Groucho - civilmente chamava-se Julius - óculos redondos, bigode enorme pintado e sobrancelhas maiores que um telhado, era o pinga-amor, com o andar projetado para a frente. Grandes citações, frases retóricas. Sempre à procura da mulher rica.

Chico. O charmoso de chapéu tirolês, falava inglês à italiana e tocava piano. Atenção ao dedinho.

Harpo. O mudo que não era mudo e que se fazia entender pelos seus códigos especiais - as cornetas, os assobios e o que mais necessário. Era o mimo, o artista da pantomima, um exímio tocador de harpa que experimentava sempre que o pretexto se apresentava. Então se fosse com uma orquestra era ouro sobre azul.

Perante isto, ouso escrever, vamos ver e recuar umas boas décadas até aquele tempo em que tudo era possível, com a poética desbragada dos Marx.

A rapariga da mala - Valerio Zurlini (1961)

Com Claudia Cardinale, Jacques Perrin... Duração: 1h53m "Um drama de amor com fundo de Verdi e de luta de classes numa Itália onde come...