30 dezembro 2023

Vontade indómita - King Vidor (1949)

Com Gary Cooper, Patricia Neal, Raymond Massey
Duração: 114 min

Um melodrama que termina bem num quadro ascencional metafórico quanto baste, mas a simbologia está lá. A felicidade encontra-se no céu. Mas para lá se chegar não foi fácil. Pelo contrário.

Um arquitecto de ideias revolucionárias, visionário, inamovível nas suas convicções estéticas e arquitetónicas, fora dos cânones.

Uma jovem jornalista filha de arquiteto senior - referência estética e conceptual dos modelos arquitetónicos de sucesso - em desacordo estético com o pai.

Um self made man proprietário de um jornal (Banner) assim tipo Correio da Manhã, paladino de ideias e valores conservadores, com um especialista reacionariamente militante na área da arquitetura.

Ficção sado-masoquista escreveu alguém e com razão. Também ficção sobre o(s) poder(es) da imprensa, das corporações...

Ideias versus compromissos, pragmatismo versus idealismo, liberdade de criação versus utilidade pública, orgulho versus solidão e compromisso versus exclusão.

Howard Roark, o jovem arquitecto (o Gary Cooper já não era jovem, mas o star system funcionava assim, e bem) engoliu pedras para chegar ao topo daquele arranha-céus em construção com que termina a ficção. Conseguiu impor os seus sonhos, conseguiu ganhar um jogo que durante anos o esmagou.

Patricia Neal, que não acreditava no amor, acabou enleada pelos seus poderosos braços com a vida facilitada pelo suicídio heróico do seu marido. Raymond Massey que numa interpretação brilhante põe a nu a complexidade da alma humana. Começa como um aviltante patrão de jornal (sem ética nem princípios) a destruir o que não concordava e termina a entregar ao arquitecto revolucionário projetos arquitectónicos para o futuro, ele que sabe que a sua mulher está destinada pelos deuses àquele.

Tirando alguns artifícios de escrita na história do argumento, obviamente os enredos amorosos, o arquitecto que enformou a personagem foi o Frank Lloyd Wright, americano, pioneiro da arquitetura moderna, paladino da arquitetura orgânica, de harmonização entre as pessoas e o ambiente. Teve uma vida muito longa e a ele se devem algumas das criações icónicas com que provavelmente alguns de vocês se cruzaram (direta ou indiretamente). Eu já visitei em Nova York o belíssimo  Guggenheim Museum, mostruário de arte do século XX. Indiretamente, via Hitchcock, já andei por uma réplica/variante do Fallingwatter (Casa da Cascata) via "Intriga Internacional" acompanhando as desventuras do coitado do Cary Grant.

Pois o Frank Lloyd Wright, que estava longe da contenção, escreveu que... "o génio permite ao homem superior ignorar todas as restrições morais ou éticas". Estamos conversados. Se não há bitolas de referência... podemos acabar mal.

Um filme de King Vidor (de origem húngara) e está tudo dito, ele que foi um dos grandes realizadores de Hollywood - sucessos no cinema mudo e no cinema sonoro. Como John Ford, um dos pilares incontornáveis da história do cinema.

Apesar do seu estatuto privilegiado em Hollywood fez muitos e diferentes filmes. Nos anos vinte fez clássicos como "A multidão" e "Aleluia", espantosamente um filme só com negros (o nosso amigo tinha consciência social e poder de argumentação face aos big moguls de Hollywood). Fez muitas coboiadas, das quais resultaram clássicos como "Duelo ao sol" e projetos megalómanos como "Guerra e Paz".

Ah. A banda sonora. Quem tenha, há umas semanas, visto uma série sobre a música no cinema (Canal 2), sabe que Max Steiner foi um dos autores citados. Austríaco de nascimento, criou durante décadas o som de Hollywood para centenas de filmes. Muitas e muitas horas, Múltiplas nomeações e três Oscares. Só três referências emblemáticas: "E tudo o vento levou", "King Kong" e "O tesouro da Serra Madre". Neste filme é muito forte o papel dramático que a banda sonora assume na definição ou ênfase das situações. Partitura ora atroante ora poética.

Mergulhemos, pois, num grande clássico do cinema. No catálogo do "Ciclo de Cinema Americano dos Anos 40",  João Benard da Costa é, como habitualmente, enfático, categórico - "Vontade Indómita" é o melhor filme americano de 1949. Se não foi, anda por lá perto.

05 dezembro 2023

Deus sabe quanto amei - Vincent Minnelli (1958)

Com Shirley McLaine, Frank Sinatra, Dean Martin, Arthur Kennedy
Duração: 137 min

Por vezes a humanidade toca o seu próprio chão e nós sentimos que há um outro som possível para a verdade. Minnelli consegue dizê-lo da forma mais subtil e fulgurante. Por isso o aroma de morte que envolve as cenas de ameaçada felicidade é mais terrível do que muitas tragédias. É a sensação de uma injustiça infinita, de um escândalo inteiramente insuportável. Tanta vida, tanto amor afinal para coisa nenhuma. Mas são coisas tão nenhumas como esta que ainda nos fazem chorar."

Quem escreveu isto, em 2002, foi Eduardo Prado Coelho e com ele estou em absoluto acordo. Noutros contextos nem sempre tínhamos as mesmas posições e discordávamos radical e publicamente quanto ao Jean Luc Godard que ele considerava quase um deus. Eu... reconhecia a sua importância para a história do cinema, mas já não estava disponível para muitas das coisas que ele fez como filmes. Mantenho a opinião de então. Águas passadas. Infelizmente já nos abandonou.

A América profunda, organizada nos seus eixos morais e sociais, com uma camada exterior elegante a esconder por baixo do tapete as porcarias e outras coisas mais subtis. O conservadorismo como modo de vida. As hierarquias (e os rituais) sociais a marcarem a vivência. 

Um militar veterano (Frank Sinatra) regressa a uma pequena cidade, após 16 anos fora. Andou pela guerra. Romancista em crise existencial, descrente do seu talento, o whisky como força possível na sua letargia. Amargo. Tem contas a ajustar com o irmão mais velho. E com aquela sociedade bafienta e hipócrita. 

Ginnie (Shirley MacLaine), uma jovem sem eira nem beira, à deriva, acidentalmente ligada ao retornado, após monumental bebedeira. Namorada (?) de um gangster rasca que, no fim, dramaticamente tudo precipitará. Amor incondicional. Excessos em tudo - na maquilhagem, na generosidade, na ingenuidade... no amor. Coitada. Vai acabar mal. 

Um irmão pusilânime (Arthur Kennedy) , bem instalado no status local. Vazio nos afectos familiares, procura fora de casa as compensações. Em meio pequeno tudo se sabe. A hipocrisia é a pele que o cobre. 

Um jogador profissional (Dean Martin), a correr para coisa nenhuma, alcoólico sem remédio. Tem alguma ponta de vergonha, mas a sua história não acabará bem. 

Uma professora puritana, complicada da cabeça, organizada ao milímetro para preencher os seus vazios, com um mundo curto e fechado, desperdiça a oportunidade de amor que lhe foi oferecida. 

Dos jogos de relações entre os personagens vai-se criando uma matriz complexa de aproximação e afastamento num universo que é opressivo. As jovens querem pôr-se a mexer, o romancista irá certamente voltar para uma grande cidade, o irmão continuará lá porque é o mundo que o fez, mas a Ginnie (admirável Shirley McLaine) também vai ficar lá para sempre, enterrada, assassinada às portas da sua felicidade pelo gangster de pacotilha que com ela tinha vindo de Chicago. 

Essa penúltima sequência, que dá o destino a toda a ficção, é absolutamente espantosa, alucinante, um tour de force de montagem cinematográfica, as personagens entre a multidão numa feira popular, uma perseguição que acabará com a morte da jovem numa espécie de união final de corpos  (quase que ritualizada) entre dois parceiros que nunca poderiam sê-lo em vida. 

Outra citação sobre a Ginnie, do João Bénard da Costa, o Director da Cinemateca durante muitos anos (infelizmente já desaparecido) com um estilo de escrita barroco, gongórico, hiperbólico: "Aquela cujo amor nos faz tanta pena (para citar um poeta português) é o centro deste filme prodigioso e o mais bonito personagem que o cinema alguma vez inventou." 

Há que relativizar, mas que o filme é um daqueles incontornáveis e que o Minnelli é um dos grandes criadores da história do cinema e que a música do Elmer Bernstein, etc e tal. Nunca  mais sairíamos do registo dos panegíricos. Limitem-nos a fruí-lo com todo o prazer.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...