Duração: 114 min
Um melodrama que termina bem num
quadro ascencional metafórico quanto baste, mas a simbologia está lá. A
felicidade encontra-se no céu. Mas para lá se chegar não foi fácil. Pelo
contrário.
Um arquitecto de ideias
revolucionárias, visionário, inamovível nas suas convicções estéticas e
arquitetónicas, fora dos cânones.
Uma jovem jornalista filha de
arquiteto senior - referência estética e conceptual dos modelos arquitetónicos
de sucesso - em desacordo estético com o pai.
Um self made man proprietário de
um jornal (Banner) assim tipo Correio da Manhã, paladino de ideias e valores
conservadores, com um especialista reacionariamente militante na área da
arquitetura.
Ficção sado-masoquista escreveu
alguém e com razão. Também ficção sobre o(s) poder(es) da imprensa, das
corporações...
Ideias versus compromissos,
pragmatismo versus idealismo, liberdade de criação versus utilidade pública,
orgulho versus solidão e compromisso versus exclusão.
Howard Roark, o jovem arquitecto
(o Gary Cooper já não era jovem, mas o star system funcionava assim, e bem)
engoliu pedras para chegar ao topo daquele arranha-céus em construção com que
termina a ficção. Conseguiu impor os seus sonhos, conseguiu ganhar um jogo que
durante anos o esmagou.
Patricia Neal, que não acreditava
no amor, acabou enleada pelos seus poderosos braços com a vida facilitada pelo
suicídio heróico do seu marido. Raymond Massey que numa interpretação brilhante
põe a nu a complexidade da alma humana. Começa como um aviltante patrão de
jornal (sem ética nem princípios) a destruir o que não concordava e termina a
entregar ao arquitecto revolucionário projetos arquitectónicos para o futuro,
ele que sabe que a sua mulher está destinada pelos deuses àquele.
Tirando alguns artifícios de
escrita na história do argumento, obviamente os enredos amorosos, o arquitecto
que enformou a personagem foi o Frank Lloyd Wright, americano, pioneiro da
arquitetura moderna, paladino da arquitetura orgânica, de harmonização entre as
pessoas e o ambiente. Teve uma vida muito longa e a ele se devem algumas das
criações icónicas com que provavelmente alguns de vocês se cruzaram (direta ou
indiretamente). Eu já visitei em Nova York o belíssimo Guggenheim Museum, mostruário de arte do
século XX. Indiretamente, via Hitchcock, já andei por uma réplica/variante do
Fallingwatter (Casa da Cascata) via "Intriga Internacional"
acompanhando as desventuras do coitado do Cary Grant.
Pois o Frank Lloyd Wright, que
estava longe da contenção, escreveu que... "o génio permite ao homem
superior ignorar todas as restrições morais ou éticas". Estamos
conversados. Se não há bitolas de referência... podemos acabar mal.
Um filme de King Vidor (de origem
húngara) e está tudo dito, ele que foi um dos grandes realizadores de Hollywood
- sucessos no cinema mudo e no cinema sonoro. Como John Ford, um dos pilares
incontornáveis da história do cinema.
Apesar do seu estatuto
privilegiado em Hollywood fez muitos e diferentes filmes. Nos anos vinte fez
clássicos como "A multidão" e "Aleluia", espantosamente um
filme só com negros (o nosso amigo tinha consciência social e poder de argumentação
face aos big moguls de Hollywood). Fez muitas coboiadas, das quais resultaram
clássicos como "Duelo ao sol" e projetos megalómanos como
"Guerra e Paz".
Ah. A banda sonora. Quem tenha, há
umas semanas, visto uma série sobre a música no cinema (Canal 2), sabe que Max
Steiner foi um dos autores citados. Austríaco de nascimento, criou durante
décadas o som de Hollywood para centenas de filmes. Muitas e muitas horas,
Múltiplas nomeações e três Oscares. Só três referências emblemáticas: "E
tudo o vento levou", "King Kong" e "O tesouro da Serra
Madre". Neste filme é muito forte o papel dramático que a banda sonora
assume na definição ou ênfase das situações. Partitura ora atroante ora
poética.
Mergulhemos, pois, num grande
clássico do cinema. No catálogo do "Ciclo de Cinema Americano dos Anos
40", João Benard da Costa é, como
habitualmente, enfático, categórico - "Vontade Indómita" é o melhor
filme americano de 1949. Se não foi, anda por lá perto.