Por vezes a humanidade toca o seu próprio chão e nós sentimos que há um outro som possível para a verdade. Minnelli consegue dizê-lo da forma mais subtil e fulgurante. Por isso o aroma de morte que envolve as cenas de ameaçada felicidade é mais terrível do que muitas tragédias. É a sensação de uma injustiça infinita, de um escândalo inteiramente insuportável. Tanta vida, tanto amor afinal para coisa nenhuma. Mas são coisas tão nenhumas como esta que ainda nos fazem chorar."
Quem escreveu isto, em 2002, foi Eduardo Prado Coelho e com ele estou em absoluto acordo. Noutros contextos nem sempre tínhamos as mesmas posições e discordávamos radical e publicamente quanto ao Jean Luc Godard que ele considerava quase um deus. Eu... reconhecia a sua importância para a história do cinema, mas já não estava disponível para muitas das coisas que ele fez como filmes. Mantenho a opinião de então. Águas passadas. Infelizmente já nos abandonou.
A América profunda, organizada nos seus eixos morais e sociais, com uma camada exterior elegante a esconder por baixo do tapete as porcarias e outras coisas mais subtis. O conservadorismo como modo de vida. As hierarquias (e os rituais) sociais a marcarem a vivência.
Um militar veterano (Frank Sinatra) regressa a uma pequena cidade, após 16 anos fora. Andou pela guerra. Romancista em crise existencial, descrente do seu talento, o whisky como força possível na sua letargia. Amargo. Tem contas a ajustar com o irmão mais velho. E com aquela sociedade bafienta e hipócrita.
Ginnie (Shirley MacLaine), uma jovem sem eira nem beira, à deriva, acidentalmente ligada ao retornado, após monumental bebedeira. Namorada (?) de um gangster rasca que, no fim, dramaticamente tudo precipitará. Amor incondicional. Excessos em tudo - na maquilhagem, na generosidade, na ingenuidade... no amor. Coitada. Vai acabar mal.
Um irmão pusilânime (Arthur Kennedy) , bem instalado no status local. Vazio nos afectos familiares, procura fora de casa as compensações. Em meio pequeno tudo se sabe. A hipocrisia é a pele que o cobre.
Um jogador profissional (Dean Martin), a correr para coisa nenhuma, alcoólico sem remédio. Tem alguma ponta de vergonha, mas a sua história não acabará bem.
Uma professora puritana, complicada da cabeça, organizada ao milímetro para preencher os seus vazios, com um mundo curto e fechado, desperdiça a oportunidade de amor que lhe foi oferecida.
Dos jogos de relações entre os personagens vai-se criando uma matriz complexa de aproximação e afastamento num universo que é opressivo. As jovens querem pôr-se a mexer, o romancista irá certamente voltar para uma grande cidade, o irmão continuará lá porque é o mundo que o fez, mas a Ginnie (admirável Shirley McLaine) também vai ficar lá para sempre, enterrada, assassinada às portas da sua felicidade pelo gangster de pacotilha que com ela tinha vindo de Chicago.
Essa penúltima sequência, que dá o destino a toda a ficção, é absolutamente espantosa, alucinante, um tour de force de montagem cinematográfica, as personagens entre a multidão numa feira popular, uma perseguição que acabará com a morte da jovem numa espécie de união final de corpos (quase que ritualizada) entre dois parceiros que nunca poderiam sê-lo em vida.
Outra citação sobre a Ginnie, do João Bénard da Costa, o Director da Cinemateca durante muitos anos (infelizmente já desaparecido) com um estilo de escrita barroco, gongórico, hiperbólico: "Aquela cujo amor nos faz tanta pena (para citar um poeta português) é o centro deste filme prodigioso e o mais bonito personagem que o cinema alguma vez inventou."
Há que relativizar, mas que o filme é um daqueles incontornáveis e que o Minnelli é um dos grandes criadores da história do cinema e que a música do Elmer Bernstein, etc e tal. Nunca mais sairíamos do registo dos panegíricos. Limitem-nos a fruí-lo com todo o prazer.
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