23 outubro 2025

Cabaret - Bob Fosse (1972)

Com Liza Minnelli, Joel Gray, Michael York, Helmut Griem
Duração: 124 min

Da Literatura. Christopher Isherwood. Escritor inglês. (1904-1986), naturalizado americano. Romancista, dramaturgo, argumentista. Com uma obra substancial e de qualidade, a sua identidade ficou "presa" ao livro ("Adeus Berlim") que escreveu a partir das suas vivências em Berlim no início dos anos 30 - tal como muitos outros intelectuais expatriados, nomeadamente Auden, Stephen Spender, Paul Bowles ou o alemão Bertold Brecht - presenciando/vivendo os desvarios da besta nazi. Também o "Memorial do Convento" ficou agarrado à identidade do José Saramago. E, no entanto, ambos escreveram outras obras de elevada qualidade. C. Isherwood tem uma parte da sua obra traduzida para português, nomeadamente "Um homem singular" (1964) que deu um óptimo filme há não muitos anos.

Em 1931, o jovem intelectual inglês já com obra publicada, homossexual, foi para Berlim fugindo à perseguição institucional britânica aos "maus costumes" (lembro o caso escandaloso de Oscar Wilde umas décadas atrás). Naquele universo - a República de Weimar (1918-1933) era um pequeno paraíso intelectual e vivencial - nocturno, libertino e aberto ao prazer (divine decadence, diz um personagem) encontra uma cantora inglesa com quem partilha o quarto e muitas derivas da vida. Foi a partir dessa experiência que ele escreveu uma pequena novela "Sally Bowles" mais tarde integrada no livro "Adeus Berlim" que acabou por ser a essência do filme.

Do cinema. O livro de Isherwood deu mais tarde origem a uma versão teatral na Broadway e, no início da década de 70 (quase 40 anos), o interesse chegou a Hollywood. Mais uma vez os códigos dos bons costumes a bloquear a criação artística - homossexualidade, aborto... Ainda bem que o projecto se encontrou com Bob Fosse, ou, se calhar foi ao contrário. Um profissional de topo na Broadway, coreógrafo, bailarino e encenador, com umas incursões esporádicas em Hollywood, . A coisa resultou em cheio. Com os necessários ajustamentos. A cantora inglesa passa a americana, mas na essência manteve-se a matriz da história e dos personagens. Tudo circula em torno de um Cabaret - Kit Kat Club, uma espécie de pequeno mundo fechado reflexo do mundo exterior em processo de implosão: o poder crescente dos nazis, as relações amorosas abertas, a violência institucional, o medo, a decadência...Life is a Cabaret.

O jovem intelectual acaba por sair - na verdade fugir - em 1933 quando Hitler ganha as eleições. Como ele fugiram muitos mais. Felizmente. Bertolt Brecht, por exemplo, acabou por chegar à América, apesar da sua posição assumidamente anticapitalista. E a vida continua no Kit Kat até que os nazis acabem com o que eles chamavam degradação. Mas, como a heroína cantava, Money makes the world go around, com ou sem nazis.

Dos actores. Como num musical dos tempos áureos de Hollywood, Bob Fosse conduz as histórias amorosas cruzadas através de um tecido sempre entrecortado pelos shows no cabaret, com coreografias electrizantes, algumas vezes usando montagem paralela com um sentido dramático. Belíssimas músicas, óptimos números dançados, humor quanto baste. Berlim, naqueles tempos, criou uma forte identidade artística em torno dos espaços nocturnos, com grandes peças musicais criadas por músicos tão importantes como Kurt Weil, Hans Eisler, ...Quem queira conhecer aquele universo sonoro tem as gravações da Ute Lemper que, felizmente, já cantou por cá algumas vezes.

Liza Minnelli foi a personagem charneira de toda a ficção. Cantora e bailarina, incorporou a personagem da Sally Bowles. Frágil e gigante simultaneamente, vivia naquele mundo à procura de um sonho - tornar-se estrela de cinema nos estúdios da UFA, naqueles tempos em que o cinema alemão produzia alguns dos filmes incontornáveis da história do cinema v.g. "O anjo azul" (1925) com a Marlene Dietrich. Liza Minnelli, qual Louise Brooks, ícone do cinema dos anos 20, domina o ecrã.

Joel Grey, o outro polo. O mestre de cerimónias no cabaret. O condutor do espectáculo e, em registo figurativo, metafórico, o anunciador do mal que pairava no ar e estava prestes a perverter a vida do mundo. Brilhante e comovente. A Broadway em Hollywood.

Já agora alguns dos outros. Michael York, na altura muito presente em filmes da nossa memória. Veste a pele do C. Isherwood. Homossexual não assumido, mas na verdade, sempre mais disponível para o outro lado (é interessante a forma como B. Fosse trata a sua relação com o aristocrata alemão, casado, mas só de fachada.

Helmut Griem encarna o nobre alemão, playboy e com o sonho da felicidade em África. Ficou na (pequena) história do cinema pelos filmes de Visconti - "Os malditos " e "Ludwig".

Dos Óscares. Naquele ano as coisas foram muito sérias na atribuição dos Óscares. Além deste filme competiam "Fim de semana alucinante" (John Boorman), "O Padrinho" (F.F. Coppola) e "Autópsia de um crime " (Mankiewicz). ... Pois "Cabaret" só ganhou 8 Óscares. Impressionante. É obra. Obviamente o da melhor actriz foi para a Minnelli, o do melhor actor secundário foi para o Joel Gray, o da melhor direcção para o Bob Fosse, etc.etc. Para memória: o Óscar do melhor actor foi para Marlon Brando em "O Padrinho".

E agora? As memórias estão despertas, as expectativas abertas. Mesmo quem tenha visto o filme no seu tempo garante o prazer do reencontro. Nada se perdeu.

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