Da Literatura. Christopher Isherwood. Escritor inglês. (1904-1986), naturalizado americano. Romancista, dramaturgo, argumentista. Com uma obra substancial e de qualidade, a sua identidade ficou "presa" ao livro ("Adeus Berlim") que escreveu a partir das suas vivências em Berlim no início dos anos 30 - tal como muitos outros intelectuais expatriados, nomeadamente Auden, Stephen Spender, Paul Bowles ou o alemão Bertold Brecht - presenciando/vivendo os desvarios da besta nazi. Também o "Memorial do Convento" ficou agarrado à identidade do José Saramago. E, no entanto, ambos escreveram outras obras de elevada qualidade. C. Isherwood tem uma parte da sua obra traduzida para português, nomeadamente "Um homem singular" (1964) que deu um óptimo filme há não muitos anos.
Em 1931, o
jovem intelectual inglês já com obra publicada, homossexual, foi para Berlim
fugindo à perseguição institucional britânica aos "maus costumes"
(lembro o caso escandaloso de Oscar Wilde umas décadas atrás). Naquele universo
- a República de Weimar (1918-1933) era um pequeno paraíso intelectual e
vivencial - nocturno, libertino e aberto ao prazer (divine decadence, diz um
personagem) encontra uma cantora inglesa com quem partilha o quarto e muitas
derivas da vida. Foi a partir dessa experiência que ele escreveu uma pequena
novela "Sally Bowles" mais tarde integrada no livro "Adeus
Berlim" que acabou por ser a essência do filme.
Do cinema. O
livro de Isherwood deu mais tarde origem a uma versão teatral na Broadway e, no
início da década de 70 (quase 40 anos), o interesse chegou a Hollywood. Mais
uma vez os códigos dos bons costumes a bloquear a criação artística -
homossexualidade, aborto... Ainda bem que o projecto se encontrou com Bob
Fosse, ou, se calhar foi ao contrário. Um profissional de topo na Broadway,
coreógrafo, bailarino e encenador, com umas incursões esporádicas em Hollywood,
. A coisa resultou em cheio. Com os necessários ajustamentos. A cantora inglesa
passa a americana, mas na essência manteve-se a matriz da história e dos
personagens. Tudo circula em torno de um Cabaret - Kit Kat Club, uma espécie de
pequeno mundo fechado reflexo do mundo exterior em processo de implosão: o
poder crescente dos nazis, as relações amorosas abertas, a violência
institucional, o medo, a decadência...Life is a Cabaret.
O jovem
intelectual acaba por sair - na verdade fugir - em 1933 quando Hitler ganha as
eleições. Como ele fugiram muitos mais. Felizmente. Bertolt Brecht, por
exemplo, acabou por chegar à América, apesar da sua posição assumidamente
anticapitalista. E a vida continua no Kit Kat até que os nazis acabem com o que
eles chamavam degradação. Mas, como a heroína cantava, Money makes the world go
around, com ou sem nazis.
Dos actores.
Como num musical dos tempos áureos de Hollywood, Bob Fosse conduz as histórias
amorosas cruzadas através de um tecido sempre entrecortado pelos shows no
cabaret, com coreografias electrizantes, algumas vezes usando montagem paralela
com um sentido dramático. Belíssimas músicas, óptimos números dançados, humor
quanto baste. Berlim, naqueles tempos, criou uma forte identidade artística em
torno dos espaços nocturnos, com grandes peças musicais criadas por músicos tão
importantes como Kurt Weil, Hans Eisler, ...Quem queira conhecer aquele
universo sonoro tem as gravações da Ute Lemper que, felizmente, já cantou por
cá algumas vezes.
Liza Minnelli
foi a personagem charneira de toda a ficção. Cantora e bailarina, incorporou a
personagem da Sally Bowles. Frágil e gigante simultaneamente, vivia naquele
mundo à procura de um sonho - tornar-se estrela de cinema nos estúdios da UFA,
naqueles tempos em que o cinema alemão produzia alguns dos filmes
incontornáveis da história do cinema v.g. "O anjo azul" (1925) com a
Marlene Dietrich. Liza Minnelli, qual Louise Brooks, ícone do cinema dos anos
20, domina o ecrã.
Joel Grey, o
outro polo. O mestre de cerimónias no cabaret. O condutor do espectáculo e, em
registo figurativo, metafórico, o anunciador do mal que pairava no ar e estava
prestes a perverter a vida do mundo. Brilhante e comovente. A Broadway em
Hollywood.
Já agora alguns
dos outros. Michael York, na altura muito presente em filmes da nossa memória.
Veste a pele do C. Isherwood. Homossexual não assumido, mas na verdade, sempre
mais disponível para o outro lado (é interessante a forma como B. Fosse trata a
sua relação com o aristocrata alemão, casado, mas só de fachada.
Helmut Griem
encarna o nobre alemão, playboy e com o sonho da felicidade em África. Ficou na
(pequena) história do cinema pelos filmes de Visconti - "Os malditos
" e "Ludwig".
Dos Óscares.
Naquele ano as coisas foram muito sérias na atribuição dos Óscares. Além deste
filme competiam "Fim de semana alucinante" (John Boorman), "O
Padrinho" (F.F. Coppola) e "Autópsia de um crime " (Mankiewicz). ... Pois "Cabaret" só ganhou 8 Óscares. Impressionante. É obra.
Obviamente o da melhor actriz foi para a Minnelli, o do melhor actor secundário
foi para o Joel Gray, o da melhor direcção para o Bob Fosse, etc.etc. Para
memória: o Óscar do melhor actor foi para Marlon Brando em "O
Padrinho".
E agora? As memórias estão despertas, as expectativas abertas. Mesmo quem tenha visto o filme no seu tempo garante o prazer do reencontro. Nada se perdeu.
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