"Call me Ishmael".
Assim começa o filme. Assim começa o livro. Este é o personagem que deixou para
o futuro o testemunho da tragédia. O único que se salvou do grande desastre no
mar.
"O mar é como um espelho
onde cada homem se encontra a si próprio". Ishmael vai ao encontro do seu
destino. Da terra para o mar. Do Oeste para leste. Movimento inverso ao da
história americana daqueles tempos - a conquista do Oeste, a ligação entre as
duas costas do país.
New Bedford, porto na costa
oriental do território americano. Juntamente com Nantucket, foi o centro da
indústria baleeira americana (âmbar, óleo, ossos, espermacete, etc.)
concentrada no Massachusetts. Durante dezenas de anos, os açorianos
desempenharam um papel importante na história da caça à baleia a partir
daqueles portos americanos.
Ishmael, quando chega passa pela
prova de fogo para pertencer àquela comunidade de marinheiros, gente rude,
beberrona, mas valente. Contam histórias heroicas mais ou menos inventadas,
participam em rituais - aquele sermão na capela (o travelling sobre as paredes
com as placas dos que foram devorados pelo mar; o sermão anunciador do mal do
mar, esse ser vivo incontrolável) - e contam reverentemente a
"história" de Ahab (vulto que divisamos na sombra, como se fora um
fantasma).
Numa expedição, no ano anterior,
uma baleia arrancou a perna do capitão do navio baleeiro "Pequod",
Ahab, homem duro, amargo e obsessivo. No seu íntimo há apenas um objetivo:
vingança. A sua ira é, em certo sentido, a ira de Deus. O seu destino é
eliminar o mal, figurativamente a baleia branca que ousou atacá-lo,
estropiá-lo. Missão apocalíptica que gradualmente vai fugindo da realidade, do
bom senso. A escuridão instala-se na mente de todos, mesmo do imediato Starbuck
que, no início, ainda tentou ser contrapoder aos desvarios do capitão. No fim,
tudo será perdido nas profundezas do mar.
Ishmael acaba por ser contratado
para o barco de Ahab, em equipa com Queequeg, um arpoeiro, vindo do Pacífico
(sabe-se lá como), personagem bizarra, com uma dignidade real, sinal de que nas
tripulações não havia condicionantes - brancos, pretos, índios, o que calhasse
para fazer trabalho de escravo. O sermão de despedida na igreja é
suficientemente dramático para percebermos que o que espera aqueles homens é
muito sério. O mar como ente vivo, sugador de corpos e almas. Os dados estavam
lançados quando um certo Elias (as conotações bíblicas são constantes), com ar
alucinado, interpela o par Ishmael e Queequeg e os avisa do mal que vai
acontecer, amaldiçoando o barco e a sua tripulação. Mas não há volta a dar - o
mar espera por eles. A baleia espera pela loucura de Ahab. A perdição está no
horizonte. É o destino.
O mar. O desconhecido. Finalmente
Ishmael (e o espectador) conhece Ahab. Imponente, na sua perna de pau, e
obcecado. Sem descurar o negócio (a tripulação abate uma baleia e recolhe dela
as matérias-primas), procura deliberadamente encontrar a baleia branca do seu
descontentamento. O seu sentido de vingança não se desvia uma milha. Na deriva
da viagem vai para o Pacífico pelo sul da África (Cabo da Boa Esperança), sem
justificação aparente. Procura a sua presa. Até que, finalmente, se dá o
encontro. Aquela personagem, demencial, obcecada, transfigura-se num terrível
guerreiro. Arrisca a sua vida e a da tripulação. Os seus homens, que estavam em
vias de amotinar-se, são galvanizados pela força bruta e incontornável da
irracionalidade. Vão apoiar o seu capitão. A disciplina de bordo a sobrepor-se
ao bom senso. O combate é violento, todos eles alinham naquele duelo desigual.
Todos, e o barco também, acabarão despedaçados pela ira da baleia, engolidos em
vórtice pelo mar insondável. Ishmael foi o único que sobreviveu para contar.
Ironicamente usando um caixão como barco (mandado fazer ao carpinteiro de bordo
pelo seu amigo arpoeiro).
John Huston foi o realizador.
Antes já tinha feito filmes de referência da história do cinema, depois
continuaria a fazer filmes importantes até quase à sua morte (com algumas
concessões pelo meio, e até algumas patetices), como “The Dead" (1987) uma
bela adaptação do conto homónimo de James Joyce incluído no seu famoso
"Gente de Dublin", estrelado pela sua filha Angelica Huston.
Gregory Peck, uma vedeta do star
system de Hollywood, faz um coeso, denso e perturbado Ahab, obcecado por uma
ideia mais forte que ele. Aquela morte com o corpo preso na baleia (qual Cristo
na cruz) é uma bela metáfora. Orson Welles, como pregador, faz uns minutos
espantosos no sermão de despedida. As suas palavras exaltadas, telúricas, como
que prenunciam o que vai acontecer.
O argumento foi escrito a meias
entre o próprio John Huston e Ray Bradbury, escritor de dominância fantástica.
A ele devemos "Fahrenheit 451", que deu o belíssimo filme do
Truffaut, e "Crónicas Marcianas". Mas eu não vou muito à bola com
ficção científica.
O livro. Romance de Herman
Melville. Muita da sua essência foi alimentada pela sua experiência pessoal
como marinheiro, durante alguns anos. Escritor americano (1819-1891), viveu
naquele tempo em que os EUA ganharam a identidade territorial que se consolidou
ao longo do século XX - a conquista do Oeste e a guerra civil americana
(1861-1865).
O livro, editado em 1851, esteve
adormecido algumas décadas e só em pleno século XX foi ressuscitado com sucesso
crescente (William Faulkner escreveu que gostaria de tê-lo escrito).
Gradualmente tornou-se um livro de referência da cultura americana. Obviamente
tal matéria-prima não podia escapar ao cinema.
Herman Melville foi
"absorvido" pela enormidade de "Moby Dick" mas, para além
daquele livro, foi um escritor de uma qualidade evidente. Noutros tempos deu-me
gozo ler "Bartleby, o escrivão" e "Billy Budd" duas short
stories muito interessantes e de leitura bem mais leve do que "Moby
Dick", uma ficção densa, dramática, com o peso de um tratado sobre o bem e
o mal, o profano e o sagrado.