22 novembro 2024

Moby Dick - John Huston (1956)

Gregory Peck, Richard Basehart, Orson Welles
Duração: 106 min

"Call me Ishmael". Assim começa o filme. Assim começa o livro. Este é o personagem que deixou para o futuro o testemunho da tragédia. O único que se salvou do grande desastre no mar.

"O mar é como um espelho onde cada homem se encontra a si próprio". Ishmael vai ao encontro do seu destino. Da terra para o mar. Do Oeste para leste. Movimento inverso ao da história americana daqueles tempos - a conquista do Oeste, a ligação entre as duas costas do país.

New Bedford, porto na costa oriental do território americano. Juntamente com Nantucket, foi o centro da indústria baleeira americana (âmbar, óleo, ossos, espermacete, etc.) concentrada no Massachusetts. Durante dezenas de anos, os açorianos desempenharam um papel importante na história da caça à baleia a partir daqueles portos americanos.

Ishmael, quando chega passa pela prova de fogo para pertencer àquela comunidade de marinheiros, gente rude, beberrona, mas valente. Contam histórias heroicas mais ou menos inventadas, participam em rituais - aquele sermão na capela (o travelling sobre as paredes com as placas dos que foram devorados pelo mar; o sermão anunciador do mal do mar, esse ser vivo incontrolável) - e contam reverentemente a "história" de Ahab (vulto que divisamos na sombra, como se fora um fantasma).

Numa expedição, no ano anterior, uma baleia arrancou a perna do capitão do navio baleeiro "Pequod", Ahab, homem duro, amargo e obsessivo. No seu íntimo há apenas um objetivo: vingança. A sua ira é, em certo sentido, a ira de Deus. O seu destino é eliminar o mal, figurativamente a baleia branca que ousou atacá-lo, estropiá-lo. Missão apocalíptica que gradualmente vai fugindo da realidade, do bom senso. A escuridão instala-se na mente de todos, mesmo do imediato Starbuck que, no início, ainda tentou ser contrapoder aos desvarios do capitão. No fim, tudo será perdido nas profundezas do mar.

Ishmael acaba por ser contratado para o barco de Ahab, em equipa com Queequeg, um arpoeiro, vindo do Pacífico (sabe-se lá como), personagem bizarra, com uma dignidade real, sinal de que nas tripulações não havia condicionantes - brancos, pretos, índios, o que calhasse para fazer trabalho de escravo. O sermão de despedida na igreja é suficientemente dramático para percebermos que o que espera aqueles homens é muito sério. O mar como ente vivo, sugador de corpos e almas. Os dados estavam lançados quando um certo Elias (as conotações bíblicas são constantes), com ar alucinado, interpela o par Ishmael e Queequeg e os avisa do mal que vai acontecer, amaldiçoando o barco e a sua tripulação. Mas não há volta a dar - o mar espera por eles. A baleia espera pela loucura de Ahab. A perdição está no horizonte. É o destino.

O mar. O desconhecido. Finalmente Ishmael (e o espectador) conhece Ahab. Imponente, na sua perna de pau, e obcecado. Sem descurar o negócio (a tripulação abate uma baleia e recolhe dela as matérias-primas), procura deliberadamente encontrar a baleia branca do seu descontentamento. O seu sentido de vingança não se desvia uma milha. Na deriva da viagem vai para o Pacífico pelo sul da África (Cabo da Boa Esperança), sem justificação aparente. Procura a sua presa. Até que, finalmente, se dá o encontro. Aquela personagem, demencial, obcecada, transfigura-se num terrível guerreiro. Arrisca a sua vida e a da tripulação. Os seus homens, que estavam em vias de amotinar-se, são galvanizados pela força bruta e incontornável da irracionalidade. Vão apoiar o seu capitão. A disciplina de bordo a sobrepor-se ao bom senso. O combate é violento, todos eles alinham naquele duelo desigual. Todos, e o barco também, acabarão despedaçados pela ira da baleia, engolidos em vórtice pelo mar insondável. Ishmael foi o único que sobreviveu para contar. Ironicamente usando um caixão como barco (mandado fazer ao carpinteiro de bordo pelo seu amigo arpoeiro).

John Huston foi o realizador. Antes já tinha feito filmes de referência da história do cinema, depois continuaria a fazer filmes importantes até quase à sua morte (com algumas concessões pelo meio, e até algumas patetices), como “The Dead" (1987) uma bela adaptação do conto homónimo de James Joyce incluído no seu famoso "Gente de Dublin", estrelado pela sua filha Angelica Huston.

Gregory Peck, uma vedeta do star system de Hollywood, faz um coeso, denso e perturbado Ahab, obcecado por uma ideia mais forte que ele. Aquela morte com o corpo preso na baleia (qual Cristo na cruz) é uma bela metáfora. Orson Welles, como pregador, faz uns minutos espantosos no sermão de despedida. As suas palavras exaltadas, telúricas, como que prenunciam o que vai acontecer.

O argumento foi escrito a meias entre o próprio John Huston e Ray Bradbury, escritor de dominância fantástica. A ele devemos "Fahrenheit 451", que deu o belíssimo filme do Truffaut, e "Crónicas Marcianas". Mas eu não vou muito à bola com ficção científica.

O livro. Romance de Herman Melville. Muita da sua essência foi alimentada pela sua experiência pessoal como marinheiro, durante alguns anos. Escritor americano (1819-1891), viveu naquele tempo em que os EUA ganharam a identidade territorial que se consolidou ao longo do século XX - a conquista do Oeste e a guerra civil americana (1861-1865).

O livro, editado em 1851, esteve adormecido algumas décadas e só em pleno século XX foi ressuscitado com sucesso crescente (William Faulkner escreveu que gostaria de tê-lo escrito). Gradualmente tornou-se um livro de referência da cultura americana. Obviamente tal matéria-prima não podia escapar ao cinema.

Herman Melville foi "absorvido" pela enormidade de "Moby Dick" mas, para além daquele livro, foi um escritor de uma qualidade evidente. Noutros tempos deu-me gozo ler "Bartleby, o escrivão" e "Billy Budd" duas short stories muito interessantes e de leitura bem mais leve do que "Moby Dick", uma ficção densa, dramática, com o peso de um tratado sobre o bem e o mal, o profano e o sagrado.

Rever um filme de 1956, com um conjunto de sequências de efeitos especiais brilhantes (o confronto entre os homens e a baleia) numa altura em que efeitos especiais são um produto quase desqualificado na produção de cinema (banalização electrónica), é um gozo adicional na fruição do filme do John Huston.

06 novembro 2024

Os cavalos também se abatem - Sidney Pollack (1969)

Com Jane Fonda, Michael Sarrazin, Susannah York, Bruce Dern, Gig Young
Duração: 120 min

Memória pessoal. Eu, jovem estudante de 14 ou 15 anos, na Biblioteca Itinerante da Gulbenkian. A minha curiosidade literária era alimentada de forma cúmplice pelo bibliotecário ambulante. A assobiar para o lado (os pides podiam aparecer) introduziu-me ao José Gomes Ferreira (tão esquecida a sua poesia), ao Hemingway (para a vida), ao Bertolt Brecht (obviamente era ainda muito cedo, mas fiquei agradecido), ao Jean Paul Sartre (as peças de teatro, o existencialismo só mais tarde), ao Camus ("A peste"). Um dia, passou-me para as mãos o livro “Os cavalos também se abatem" de um autor americano, Horace McCoy (Livros de Bolso Europa-América). A leitura foi certamente penosa, já não me recordo. Mas fiquei impressionado. Naquele tempo em que ia criando o meu mundo interior, provavelmente ainda nem tinha conhecimento da grande depressão dos anos 20 e 30. Na verdade, tinha pouco conhecimento de tudo. Mas foi uma experiência.

Salto no tempo. Uns anos depois em Lisboa, já com o vírus do cinema na alma, apanho com o filme feito a partir do livro, em sessão para estudantes (Monumental? Império?). Sidney Pollack, o realizador, era apenas um nome. Se calhar, já sabia quem era a Jane Fonda. O filme confirmou a leitura de uns anos antes.

Outro salto no tempo. Hoje, outra vez. Rever o filme ao fim destes anos todos. Medo da decepção. O que fez o tempo ao filme?

Que alívio. As emoções estão lá. O know how cinematográfico do realizador deu coerência e força àquela história quase inverosímil (na América tudo pode acontecer por mais anómalo e trágico que seja. Veja-se o Trump).

Tempo de mágoa. A grande depressão, com o crash bolsista de 1929, deixou a sociedade americana de pantanas.  Desemprego, falências em catadupa, fome. Miséria. O sistema capitalista em questão. Ruptura por dentro. Como foi possível? Neste quadro tão perturbado valia tudo. Para conseguir comer as pessoas iam além do desespero. Havia sempre alguém que com isso ganhava.

Desse tempo triste ficou a memória das maratonas de dança. Por um hipotético prémio final homens e mulheres prestavam-se ao espectáculo degradante de dançar dias e dias. Enquanto aguentavam tinham comida e bebida garantidas. O espectáculo era a sua resistência física e psicológica, em posturas cada vez mais patéticas.

Naquele frenesim, no ritmo alucinado dos corpos, bonecos articulados, mortos-vivos, no absurdo merry go round daquela massa humana amarfanhada, sempre impulsionada pelo animador de serviço (como nas feiras portuguesas a impingir tachos e panelas), está a tragédia individual. A actriz shakespeareana que não encontra um palco para a sua arte, o candidato a cowboy num western de segunda em Hollywood, o jovem casal que quer sobreviver para conseguir que o bebé nasça, o miúdo da América profunda que nem sabe como chegou à pista, a desiludida da vida, amargurada, que não aguenta mais.

Alucinação, crueldade, absurdo, paroxismo, amargura. Tragédia. É aquele o espírito americano?

No fim, quando a personagem feminina (Jane Fonda) já desistiu e pede ao seu parceiro que acabe com ela (estranha fusão suicídio/homicídio) o espectador volta ao início. Os cavalos também se abatem, não é verdade? No início, numa sequência bela, um cavalo corre em liberdade, até que ocorre o acidente. Parte a pata. Resta-lhe a morte. Metáfora.

Sidney Pollack, nessa altura jovem realizador de ideias arejadas e talento quanto baste ("África minha", "Tootsie") fez um belíssimo filme. Sequências prodigiosas dos dançarinos no espaço fechado da pista, a dualidade da prisão interior versus a liberdade do mar logo ali em frente, brilhantes sequências de fundido encadeado mostrando a aceleração do tempo.

Voltando ao autor. Horace McCoy. O típico self-made man. Andou pela Europa na I Guerra Mundial, foi motorista, caixeiro-viajante, jornalista desportivo. Começou a escrever contos policiais (hardboiled stories) e aventurou-se pelo romance social.Escreveu mais alguns romances nos anos 30 e 40. "Os cavalos também se abatem" foi o primeiro. Foi vender o seu talento de escrita para Hollywood, como outros escritores mais reconhecidos (Fitzgerald, Faulkner). Até à sua morte lá escreveu filmes para muito boa gente que consta da história do cinema (com h grande).

Mas olhem bem para os actores. Como eles incorporaram as suas personagens. A jovem Jane Fonda (que naquela altura circulava entre Paris e Hollywood), a Susannah York (já nessa altura firmada grande actriz inglesa) ou o desconhecido Gig Young, o mestre de cerimónias daquele circo bizarro, merecidamente oscarizado.

Depois disto só posso acrescentar que a grandeza do cinema está ali tanto como a miséria humana. É sempre bom reflectir sobre estas coisas.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...