Memória pessoal. Eu, jovem
estudante de 14 ou 15 anos, na Biblioteca Itinerante da Gulbenkian. A minha
curiosidade literária era alimentada de forma cúmplice pelo bibliotecário
ambulante. A assobiar para o lado (os pides podiam aparecer) introduziu-me ao
José Gomes Ferreira (tão esquecida a sua poesia), ao Hemingway (para a vida),
ao Bertolt Brecht (obviamente era ainda muito cedo, mas fiquei agradecido), ao
Jean Paul Sartre (as peças de teatro, o existencialismo só mais tarde), ao
Camus ("A peste"). Um dia, passou-me para as mãos o livro “Os cavalos
também se abatem" de um autor americano, Horace McCoy (Livros de Bolso
Europa-América). A leitura foi certamente penosa, já não me recordo. Mas fiquei
impressionado. Naquele tempo em que ia criando o meu mundo interior,
provavelmente ainda nem tinha conhecimento da grande depressão dos anos 20 e
30. Na verdade, tinha pouco conhecimento de tudo. Mas foi uma experiência.
Salto no tempo. Uns anos depois
em Lisboa, já com o vírus do cinema na alma, apanho com o filme feito a partir
do livro, em sessão para estudantes (Monumental? Império?). Sidney Pollack, o
realizador, era apenas um nome. Se calhar, já sabia quem era a Jane Fonda. O
filme confirmou a leitura de uns anos antes.
Outro salto no tempo. Hoje, outra
vez. Rever o filme ao fim destes anos todos. Medo da decepção. O que fez o
tempo ao filme?
Que alívio. As emoções estão lá.
O know how cinematográfico do realizador deu coerência e força àquela história
quase inverosímil (na América tudo pode acontecer por mais anómalo e trágico
que seja. Veja-se o Trump).
Tempo de mágoa. A grande
depressão, com o crash bolsista de 1929, deixou a sociedade americana de
pantanas. Desemprego, falências em
catadupa, fome. Miséria. O sistema capitalista em questão. Ruptura por dentro.
Como foi possível? Neste quadro tão perturbado valia tudo. Para conseguir comer
as pessoas iam além do desespero. Havia sempre alguém que com isso ganhava.
Desse tempo triste ficou a
memória das maratonas de dança. Por um hipotético prémio final homens e
mulheres prestavam-se ao espectáculo degradante de dançar dias e dias. Enquanto
aguentavam tinham comida e bebida garantidas. O espectáculo era a sua resistência
física e psicológica, em posturas cada vez mais patéticas.
Naquele frenesim, no ritmo
alucinado dos corpos, bonecos articulados, mortos-vivos, no absurdo merry go
round daquela massa humana amarfanhada, sempre impulsionada pelo animador de
serviço (como nas feiras portuguesas a impingir tachos e panelas), está a
tragédia individual. A actriz shakespeareana que não encontra um palco para a
sua arte, o candidato a cowboy num western de segunda em Hollywood, o jovem
casal que quer sobreviver para conseguir que o bebé nasça, o miúdo da América
profunda que nem sabe como chegou à pista, a desiludida da vida, amargurada,
que não aguenta mais.
Alucinação, crueldade, absurdo,
paroxismo, amargura. Tragédia. É aquele o espírito americano?
No fim, quando a personagem
feminina (Jane Fonda) já desistiu e pede ao seu parceiro que acabe com ela
(estranha fusão suicídio/homicídio) o espectador volta ao início. Os cavalos
também se abatem, não é verdade? No início, numa sequência bela, um cavalo
corre em liberdade, até que ocorre o acidente. Parte a pata. Resta-lhe a morte.
Metáfora.
Sidney Pollack, nessa altura
jovem realizador de ideias arejadas e talento quanto baste ("África
minha", "Tootsie") fez um belíssimo filme. Sequências
prodigiosas dos dançarinos no espaço fechado da pista, a dualidade da prisão
interior versus a liberdade do mar logo ali em frente, brilhantes sequências de
fundido encadeado mostrando a aceleração do tempo.
Voltando ao autor. Horace McCoy. O típico self-made man. Andou
pela Europa na I Guerra Mundial, foi motorista, caixeiro-viajante, jornalista
desportivo. Começou a escrever contos policiais (hardboiled stories) e
aventurou-se pelo romance social.Escreveu mais alguns romances nos anos 30 e
40. "Os cavalos também se abatem" foi o primeiro. Foi vender o seu
talento de escrita para Hollywood, como outros escritores mais reconhecidos
(Fitzgerald, Faulkner). Até à sua morte lá escreveu filmes para muito boa gente
que consta da história do cinema (com h grande).
Mas olhem bem para os actores.
Como eles incorporaram as suas personagens. A jovem Jane Fonda (que naquela
altura circulava entre Paris e Hollywood), a Susannah York (já nessa altura
firmada grande actriz inglesa) ou o desconhecido Gig Young, o mestre de
cerimónias daquele circo bizarro, merecidamente oscarizado.
Depois disto só posso acrescentar que a grandeza do cinema está ali tanto como a miséria humana. É sempre bom reflectir sobre estas coisas.
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