26 janeiro 2026

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m.

Princípio do século passado. Um jovem tenente italiano, Giovanni Drogo de seu nome (Jacques Perrin) recém saído da escola militar. A sua primeira missão será desempenhada num longínquo território, fora do país. Destino: Forte Bastiano, algures no deserto, lá para o médio oriente profundo (estamos num quadro ficcional sem aderência à realidade histórica), na mais longínqua fronteira do fictício império. A missão daqueles militares desterrados no fim do mundo é impedir a incursão dos temíveis Tártaros, povo lá dos Montes Urais (na Rússia), da Crimeia e também da China, com língua própria e religião muçulmana. O inimigo invisível está lá à espreita no "Estado do Norte". Ou é apenas imaginado? Ou, se calhar, desejado?

Diferentes atitudes e comportamentos na hierarquia militar instalada naquele "posto morto", era assim que os mais velhos lhe chamavam. Alguns oficiais aguardam com toda a atenção, em alerta, a possível invasão, outros pura e simplesmente não acreditam nela. Outros ainda, carreiristas, fazem tudo para ganharem galões em mais um posto e safarem-se dali logo que possível.

Os códigos de honra e disciplina do exército - o omnipresente regulamento - fazem o equilibrio entre os potenciais conflitos e diferenças comportamentais. E o tempo vai passando no conforto institucional e aristocrático do exército. Até tinham um quarteto de música clássica. Dias, meses e anos. Esperam. Todos, em certo sentido, no vazio, aguardam o não representável. Uma abstracção. Uma coisa é certa: nunca ninguém avistou os Tártaros. Será que estão lá? Ou são apenas a projecção do medo de todos e cada um?

Anos depois, Drogo, envelhecido e doente, é dispensado pelo novo comandante, o seu melhor amigo na fortaleza. Traição. Acabou-se. Um sonho de heroísmos frustrados, de medalhas não conquistadas. Na verdade, um pesadelo vivido. Uma vida vazia. Gradualmente vamos apercebendo, naquele "huis clos" - postado no infinito do deserto, esmagador, claustrofóbico (tanto mais quanto, em contradição, a imensidão vazia rodeia aqueles militares) - um microcosmos social que vai perdendo gradualmente a identidade e a normalidade da civilização.

Os personagens vão-se esvaziando num niilismo absurdo, na ausência de sentido, de finalidade. O que estão lá a fazer? O que estão a fazer das suas vidas? A interrogação existencialista na metáfora. Jean-Paul Sartre e Albert Camus cruzaram-se com  as interrogações desta ficção. Camus até pelas referências geográficas e de lugar - a Argélia e o deserto ("O Estrangeiro").

O filme foi concebido a partir de um romance com o mesmo título escrito, em 1940 (tempo de guerra), por Dino Buzzati. Jornalista toda a vida no prestigiado e histórico "Corriere della Sera", Buzzati escreveu outras ficções (romances , peças de teatro, poesia...) mas nunca nenhuma delas chegou ao padrão superior desta. Com o tempo o livro foi ganhando visibilidade e reconhecimento académico e intelectual e tornou-se um dos romances europeus de referência do Século XX.

Apesar dos desafios inerentes - como filmar o vazio contínuo, o nada? - Zurlini conseguiu convencer produtores europeus a fazer o filme. Tornou-se numa grande co-produçao internacional (Itália, França e Alemanha). Filmado numa fortaleza no Irão, no meio de lugar algum, no tempo do Xá (a Revolução Iraniana seria em 1979) tinha como actores tantas estrelas europeias quase como grãos de areia do deserto.

A variedade internacional era assim como as equipas de futebol nos nossos dias, uma Torre de Babel linguística - actores italianos, franceses, alemães, espanhóis, suecos e, para fazer a ambientação local, também iranianos. O trabalho de pós-produção aparou toda a cacofonia e pô-los a falar italiano.
Bela realização, câmara delicadamente apropriando-se das personagens e dos lugares - a fortaleza e a sua envolvente, uma cidade antiga destruída e abandonada, constituem um decor imponente, estranho.
"O Deserto dos Tártaros" foi o último filme do realizador. Valerio Zurlini (1926-1982) começou no cinema no pós guerra com curtas metragens documentais. Em 1943 entrou na resistência italiana contra o fascismo e o nazismo. E, como muitos intelectuais italianos seus contemporâneos, foi do PCI. Foi a autor de uma obra pouco extensa mas com qualidade e coerência conceptual a relevar. Os seus filmes estiveram relativamente esquecidos após a sua morte em 1982 mas, no princípio do nosso século, começaram a ser recuperados e redescobertos na Europa, em festivais, ciclos e reposições.

O filme de Zurlini mais conhecido, além deste, é "A Rapariga da Mala" (1961) com a bela mediterrânica Claudia Cardinale e Jacques Perrin, que em "O Deserto dos Tártaros" é o personagem Drogo (foi também produtor do filme). Outros filmes a relembrar são: "Um verão violento (1959) com Jean Louis-Trintignant e " Outono escaldante" (1972) com Alain Delon.

Zurlini fez parte de um grupo espantoso de cineastas italianos desde a Segunda Guerra Mundial até aos anos 70 - "Época de Ouro"  a designam - de que relembro só alguns: Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti, Roberto Rossellini, Pier Paolo Pasolini, Vittorio De Sica, Mario Monticelli, Dino Risi, Ettore Scola, Bernardo Bertolucci, uma fartura! E ainda caberiam mais uns bons nomes, mas fiquemos por aqui.

17 janeiro 2026

Padre Padrone - Paolo Taviani e Vittorio Taviani (1977)

C/ Omero Antonutti, Savero Marconi, Nanni Moretti. 109 min. 1977

1975. Itália. Foi publicado o primeiro livro de um autor chamado Gavino Leda. Retrato autobiográfico pungente e dramático da sua vida até aos vinte anos, controlada de uma forma bárbara, prepotente, brutal e sádica, pelo seu pai (padre padrone, pai mestre) numa aldeia rural da Sardenha. Foi um sucesso estrondoso no mercado editorial italiano, mais de um milhão e meio de exemplares, certamente pela violência daquela história verídica, e obviamente não única, tão próxima, de uma realidade fora da história, subdesenvolvida.

Rapidamente os irmãos Taviani conseguiram os direitos do livro e a cumplicidade criativa do próprio autor/ personagem da história real que ele expôs tão cruamente. Fizeram do livro um filme para a Radiotelevisione Italiana (RAI). Só que a qualidade intrínseca do filme e a pertinência da sua temática (a sua aderência ao real) levaram à sua selecção para o Festival de Cannes de 1977. Espantosamente saiu de lá com a Palma de Ouro e o Prémio da Crítica Internacional, os aplausos generalizados, a crítica encomiástica e a força vital para o sucesso no mercado.

Sardenha, enorme ilha em frente ao continente, no lado ocidental, lá bem no centro do Mediterrâneo. Apesar da história riquíssima de Roma e do Império Romano, nunca aquele povo conseguiu criar uma uniformidade linguística para o todo território. Na Sardenha fala-se sardo e italiano, como noutros territórios italianos se falam outros dialectos e o italiano.

Pois foi nesta ilha que nasceu Gavino Ledda, em 1938. O pai tinha ovelhas e cabras. Toda a economia familiar ligada à terra, na verdade, todos os actos da sua vida e da sua família.

Aos seis anos, o miúdo foi retirado da escola onde tinha iniciado os primeiros passos de educação formal. Os valores da terra em primeiro lugar. Até aos vinte anos, ele viveu afastado do mundo, numa espécie de escravidão familiar, isolado, entorpecido. Analfabeto.

Em 1958, a tropa. Normalmente o serviço militar é um intervalo negativo na vida dos cidadãos comuns. No caso de Gavino foi o seu ponto de fuga para o mundo. A salvação. O deslumbramento. Aproveitou bem as facilidades institucionais. Aprendeu a falar, a ler e os usos e costumes sociais. Auto educou-se. Abriu as asas da mente. Uma revolução no seu íntimo. Até saiu de lá com uma especialização profissional - técnico de rádio.

Em 1962 deixou o exército. O retorno a casa foi a rotura óbvia. Ele já não era o mesmo. O pai continuava o mesmo. O choque foi enorme. O desequilíbrio anterior desaparecera. Agora é um homem contra outro homem. O filho continua o seu processo de libertação sempre em recuperação do tempo perdido. Estuda mais, faz todo o percurso académico (aluno brilhante) e, em 1969, conclui a licenciatura em linguística.

Felizmente ainda é vivo. Teve uma carreira universitária, tornou-se um especialista na sua língua materna, o sardo, e publicou livros, nomeadamente poesia. "Padre Padrone" o livro que ele escreveu poucos anos depois, o primeiro, funcionou como um exorcismo, a rejeição, o esquecimento possível do inferno do seu crescimento.

O filme. Começa a ouvir-se uma litania, uma cantiga infantil. Depois uma percussão cadenciada anuncia a ficção. É Gavino Leda (ele próprio ) então com trinta e cinco anos que se apresenta. Com uma navalha corta os ramos de um pau, uma potencial arma de agressão. A câmara movimenta-se elegantemente para o alto onde está o pai (o actor Omero Antonutti) a quem ele entrega o pau. Distanciamento total. Estamos a contar uma história (real).

Entramos na ficção com o actor a entrar na escola. Vai buscar o filho, arrancá-lo do espaço público, da hipótese de educação. "É meu", diz, reivindicando a propriedade do filho como quem o diz referindo-se à camisa ou às calças. Dele pode fazer o que quiser, deduz-se. E faz. Durante anos o miúdo vai crescendo isolado da família, lá no campo, só em contacto com o pai. É a natureza pura. As cabras e as ovelhas. A sua vida é ritualizada dentro dos usos e costumes milenares do lugar. O primitivismo, a rudeza e até a animalidade. Tenta imigrar para a Alemanha mas não consegue por falta de autorização do pai. Depois é o milagre da tropa. No entanto, o retorno faz-se como se tudo continuasse na mesma. Até à fuga, à ruptura. É a libertação. Durou quase vinte e cinco anos aquela ligação visceral a um mundo que era de outro tempo. No fim, volta Gavino Leda como que a avalizar a história. Foi ali que tudo aconteceu.

Irmãos Taviani. Um duo com uma obra relevante. Infelizmente um deles, Vittorio, já partiu (1929-2018). O outro, Paolo, um bocadinho menos velho, ainda é vivo. Começaram a fazer cinema influenciados pelo neo-realismo e particularmente pelos filmes de Rossellini. O seu cinema só passou a ter reconhecimento de mercado muito tarde. Na verdade, foi o sucesso de "Padre Padrone" que lhes abriu as portas de visibilidade internacional e até lhes proporcionou concretizar projectos fora de Itália.

Alguns dos filmes de referência do duo que passaram por cá, quase todos no "Quarteto" de boa memória, templo de cinema lamentavelmente já passado à história:

"São Miguel tinha um galo" (1972), o movimento anarquista no século XIX italiano, a partir de uma novela de Tolstoi.

"Que viva a revolução" (1974) uma ficção no quadro da unificação italiana no século XIX, com Marcello Mastroianni.

"A noite de São Lourenço" (1982) deu-lhes o Grande Prémio do júri de Cannes.

Em 1987 fizeram um filme muito bonito sobre o cinema, no princípio. "Bom dia Babilónia" é Hollywood em 1916, e o Griffith a filmar a obra-prima "Intolerância". Joaquim de Almeida entra.

"César deve morrer" (2012) teve o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Uma obra meio documental meio ficcional, filmada numa prisão em Roma, com os prisioneiros a ensaiar "Júlio César" de Shakespeare.

Uma pequena curiosidade. O colega que, durante o serviço militar, apoia e orienta Gavino Leda no estudo, é representado por Nanni Moretti, que por essa altura estava a dar os primeiros passos como realizador, ele que desde os anos 80 tem feito alguns dos filmes mais interessantes no cinema europeu - "Palombella Rossa", "Querido Diário", "Temos Papa", "O Caimão", "O Quarto do Filho".

Bird - O fim do sonho " - Clint Eastwood

C/Forest Whitaker, Diane Venora...2H41M. 1988

USA. Anos 40 e 50. O jazz. A "revolução " do bebop. Charlie Parker, o "deus" do saxofone. Clint Eastwood. Música e cinema.

Como se estivéssemos numa jam session (sessão de música de jazz, normalmente pela madrugada fora com os músicos a tocarem para eles, com muita liberdade criativa e desafios mútuos, a competirem em contínua improvisação, a procurarem novos sons) vamos começar pelo Clint Eastwood.

Começou como actor em pequenos papéis em Hollywood, depois de alguma relevância na televisão americana a fazer de cowboy, andou pela Europa, onde criou uma identidade artística forte a partir dos filmes de Sergio Leone, "western spaghetti", a chamada trilogia dos dólares - "Por um punhado de dólares" (1964), "Por mais alguns dólares" (1965) e "O bom, o mau e o vilão" (1966), todos com música de Ennio Morricone.

No regresso à América, gradualmente começou a desenvolver projectos pessoais de realização e actuação. Nos anos 70 e 80 foi o inspetor "Dirty" Harry (um polícia dúbio, parafascista, na altura muito controverso) em vários filmes de sucesso. Gradualmente criou uma "máquina" de produção paralela ao sistema de estúdios (a produtora Malpaso, sua imagem identitária) que deu origem a um leque de filmes incontornáveis, como realizador. De tantos filmes que merecem o nosso entusiasmo, relembro alguns: "Imperdoável", "As pontes de Madison County", "Mystic River", "Million Dollar Baby", " Cartas de Iwo Juma", "Gran Torino".

Clint Eastwood, que já vai nos 95 anos (o último abencerragem do cinema clássico americano), é um amante de jazz (um dos seus oito filhos, Kyle Eastwood, é um belíssimo contrabaixista, que já atuou em Lisboa) e incluiu música de jazz nas bandas sonoras de algumas das suas ficções. Não é, pois, de admirar que ele se tenha empenhado na realização deste filme.

A história da vida de Charlie Parker, o incontornável músico de jazz americano com uma vida curta - apenas 34 anos (1920-1955) - trágica, intensa, caótica, patética. Toxicodependente desde jovem (heroína), suicidário, alcoólico, sujeito a depressões e roçando o descalabro mental, andou sempre pela marginalidade social. Morreu de ataque cardíaco. Foi um dos grandes virtuosos do saxofone. Deixou alguns dos registos fonográficos mais impressionantes da música dos anos 40 e 50. Tocou e gravou muito para o pouco tempo que viveu.

Juntamente com Dizzy Gillespie, trompetista, e outros grandes músicos - Theolonius Monk, Bud Powell, Max Roach, entre outros - Charlie Parker foi um dos "pais" criadores do som bebop - um som novo - ponto fronteira entre o jazz clássico (swing) - do Sidney Bechet (clarinetista ), Louis Armstrong (trompetista), Duke Ellington (pianista) e das big bands dos anos 30 e 40 - e o jazz moderno. Naqueles tempos, ainda de guerra, o bebop foi uma revolução formal do som, com mudanças rítmicas, melódicas e harmónicas. O jazz deixou de ser música para dançar e passou a ser música para ouvir.

Eram tempos em que uma América moralista, preconceituosa e racista (continua, de outras formas) não aceitava aquelas músicas disruptivas, quase todas compostas e tocadas por músicos negros. Só pequenas minorias brancas, artistas e intelectuais, faziam parte daquele universo polarizado no Harlem (bairro negro de Nova York) essencialmente centrado em clubes, alguns dos quais ganharam, ao longo do tempo, estatuto de locais sagrados do jazz - Blue Note, Village Vanguard, Downbeat, Three Deuces, Birdland (sim, precisamente a partir do nome de guerra do Charlie Parker - Bird - e por ele inaugurado).

Um drama biográfico. Clint Eastwood criou uma bela história a partir de dados relevantes da vida do músico. As suas crises, as suas angústias, as suas tragédias, as suas fragilidades, os seus falhanços; mas também momentos de euforia, de realização, de satisfação, de êxito. Um puzzle fascinante, uma matriz fragmentada em flashbacks, um vaivém entre o passado e o presente. Um universo sombrio, muitas vezes ampliado por jogos de luz a insinuar mais do que a mostrar (silhuetas).

Um filme a cores que mais parece a preto e branco, opção do cineasta para nos imergir naquela atmosfera pesada, dramática, de contrastes luminosos difusos, como a alma do Charlie Parker.

O filme centra-se nos últimos anos do músico com toda a sua vida ancorada na última mulher, Chan Parker (Diane Venora), que tudo lhe aturava e tudo lhe perdoava, as bebedeiras, as incongruências, as irresponsabilidades, mesmo as traições amorosas. Apesar de se conhecerem há muito, só viveram juntos uma relação amorosa nos últimos cinco anos da vida dele e tiveram em conjunto dois filhos, um dos quais morreu aos três anos. Era uma apaixonada da música de jazz e sempre viveu nesse ambiente. Após a morte de Charlie Parker casou com outro saxofonista, nada desprezável, pelo contrário, na história do jazz - Phill Woods.

Se Diane Venora (uma actriz de referência nos palcos americanos, nomeadamente no universo shakespeariano) foi merecidamente premiada com um Globo de Ouro, Forest Whitaker transfigurou-se no corpo e alma do Charlie Parker. Foi merecidamente agraciado com o prémio de melhor actor no Festival de Cannes.

E a música. Ao longo das quase três horas de filme, muita da música que ele compôs e tocou inunda o ecrã, para nosso redobrado prazer.

04 janeiro 2026

A Ponte do Rio Kway - David Lean (1957)

C/ Alec Guiness, William Holden, Jack Hawkins, Sessile Hayakawa. 2h 41m

Drama fictício inspirado em factos reais. Segunda Guerra Mundial, frente do Pacífico. Os japoneses, que tinham tomado toda aquela extensa área geográfica, começaram em 1940, e terminaram três anos depois, a construção de uma via férrea a unir Tailândia e Birmânia, actual Myanmar - designada a Linha Férrea de Burma, com cerca de 415 Km, fundamental para o projecto, não concretizado, de invasão da Índia, então colónia privilegiada do império britânico.

A informação histórica sobre essa obra é dramática. Terão morrido cerca de cem mil trabalhadores asiáticos, escravos na verdade, e dezasseis mil prisioneiros de guerra, tratados abaixo de cão. Não foi por acaso que ficou também conhecida por linha férrea da morte.

Pierre Boyle, escritor francês - viveu, jovem, na Indochina e Malásia, então parte do império colonial francês - lançou em 1952, um romance centrado na construção de uma ponte nessa via férrea e nos problemas que o exército nipónico enfrentou na sua construção. Grande êxito no mercado literário que despertou obviamente o interesse da produção cinematográfica internacional. O projecto cruzou-se com muitos nomes e hipóteses. John Ford e Howard Hawks estiveram na corrida. E até o Orson Welles. Acabou por sair do circuito interno de Hollywood e ser apropriado (mas com produção americana da Columbia) por David Lean, o realizador inglês que, nessa altura, já tinha uma obra muito interessante e um prestígio (europeu) acumulado. Mas com este filme entrou num patamar muito elevado, recordem o que se seguiu: "Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago", "A filha de Ryan" (já vimos) e "Passagem para a Índia" (já vimos).

Um campo de prisioneiros de guerra, ingleses, canadianos, australianos e alguns americanos. A sua organização, a hierarquização das relações, as suas regras. Um cenário tropical, floresta densa, muito calor, humidade, chuvas intensas.

Grande história.

A construção de uma ponte pelo exército japonês com mão-de-obra inimiga. Os conflitos e ódios em "diálogo" com o inimigo. Um campo de prisioneiros que, como disse um dos personagens, era "uma ilha na selva". O desejo da fuga e os códigos de honra. A tensão constante entre dois mundos muito distintos. O afastamento e a aproximação. Um "jogo" desequilibrado que, a pouco e pouco, tende para os ocidentais. A ponte deixa de ser japonesa e passa a ser inglesa, com direito a placa identificadora e tudo.

A partir do romance foi escrito o argumento, a dois, Carl Foreman e Michael Wilson, mas quem recebeu o Oscar em Hollywood (um dos sete) foi o autor francês do romance. Desfaça-se o equívoco. Os dois argumentistas trabalharam clandestinamente. Estavam expulsos de Hollywood (faziam parte da lista negra dos excluídos) na sequência da caça às bruxas dos anos 50. Só no ano de 1984 foi reposta a justiça em termos públicos. Na entrega dos Óscares desse ano foi oficialmente reconhecida a sua autoria e foram homenageados pelos seus pares - trinta e muitos anos depois. Infelizmente tarde. Wilson já tinha morrido nos anos 70 e Foreman morreu nesse ano.

Grandes actores.

Alec Guiness. A essência do actor inglês. Aqui a fazer de coronel Nicholson. Irritantemente chauvinista, petulante, obcecado, corajoso e, no fim orgulhoso, em contradição com a essência da seus princípios militares e os seus valores nacionalistas. Para ele, depois de construir a ponte não era admissível destruí-la. Deveria continuar pelo tempo como manifesto da superioridade inglesa. Oscar de melhor actor principal.

William Holden, capitão Shears, americano. A fuga é o sentido único da sua vida de prisioneiro, coveiro dos colegas que vão morrendo. Prisioneiro quase que por acidente, falso capitão, é um fura-vidas que só quer fugir do mundo militar. Vai conseguir fugir, mas acabará por voltar (por mais que tente safar-se) num grupo especial para a destruição da ponte.

Sessile Hayakawa, o chefe do campo de prisioneiros. Um japonês culto, que andou pela Europa, fala inglês. Vive num equilíbrio instável entre a intransigência do dominador com um sentido de missão forte e a aderência aos comportamentos ocidentais.

Grande realização.

David Lean já tinha uma carreira bem sustentada. Tinha feito "Breve Encontro" em 1945, ainda hoje uma referência (já vimos) e também duas adaptações de sucesso de Charles Dickens, também com Alec Guiness - "Grandes Esperanças" (1946) e "Oliver Twist" (1948).

Uma realização de grande eficácia. A câmara a servir a história de forma fluida e elegante. A montagem paralela com um sentido dramático. O grande ecrã a fazer justiça ao espaço alargado e húmido da selva.

A música.

É um daqueles casos em que a banda sonora está intrinsecamente colada ao filme. Meia dúzia de notas e está feita a associação. Como se fora uma pele do filme. Há uma pequena história associada. Aquando das filmagens o realizador estava a ter algumas dificuldades na gestão dos movimentos sincopados dos figurantes a representar militares (nas sequências com marcha) e houve alguém que sugeriu que se pudesse uma marcha militar como som de fundo. Foi escolhida uma marcha que já tinha também uma história associada - "Marcha do Coronel Bogley" - composta em 1914. Durante a Primeira Guerra Mundial era tocada e assobiada pelos soldados ingleses e na Segunda Guerra Mundial era cantada com uma letra picante e risível com o título sugestivo "Hitler has only got one ball" (excusa-se tradução).

A partir daí tudo estava definido. A banda sonora do filme foi elaborada, com variantes, a partir daquela marcha. Óscar da música.

Óscares.

Sete. Grande consagração, neste caso, com justiça. Passa o tempo e o filme continua a ser uma referência. Continuamos a ser perturbados com as dúvidas que ele levanta, com a ausência de maniqueísmo. Não há verdades absolutas.

Em todas as classificações aparece sempre, com toda a justiça, como um dos grandes filmes da história do cinema.

Ah, o filme dura quase 3 horas, portanto quem quiser traga pipocas!

Até 4ª feira!...
Jorge Barata Preto

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...