Drama fictício inspirado em factos reais. Segunda Guerra Mundial, frente do Pacífico. Os japoneses, que tinham tomado toda aquela extensa área geográfica, começaram em 1940, e terminaram três anos depois, a construção de uma via férrea a unir Tailândia e Birmânia, actual Myanmar - designada a Linha Férrea de Burma, com cerca de 415 Km, fundamental para o projecto, não concretizado, de invasão da Índia, então colónia privilegiada do império britânico.
A informação histórica sobre essa obra é dramática. Terão morrido cerca de cem mil trabalhadores asiáticos, escravos na verdade, e dezasseis mil prisioneiros de guerra, tratados abaixo de cão. Não foi por acaso que ficou também conhecida por linha férrea da morte.
Pierre Boyle, escritor francês - viveu, jovem, na Indochina e Malásia, então parte do império colonial francês - lançou em 1952, um romance centrado na construção de uma ponte nessa via férrea e nos problemas que o exército nipónico enfrentou na sua construção. Grande êxito no mercado literário que despertou obviamente o interesse da produção cinematográfica internacional. O projecto cruzou-se com muitos nomes e hipóteses. John Ford e Howard Hawks estiveram na corrida. E até o Orson Welles. Acabou por sair do circuito interno de Hollywood e ser apropriado (mas com produção americana da Columbia) por David Lean, o realizador inglês que, nessa altura, já tinha uma obra muito interessante e um prestígio (europeu) acumulado. Mas com este filme entrou num patamar muito elevado, recordem o que se seguiu: "Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago", "A filha de Ryan" (já vimos) e "Passagem para a Índia" (já vimos).
Um campo de prisioneiros de guerra, ingleses, canadianos, australianos e alguns americanos. A sua organização, a hierarquização das relações, as suas regras. Um cenário tropical, floresta densa, muito calor, humidade, chuvas intensas.
Grande história.
A construção de uma ponte pelo exército japonês com mão-de-obra inimiga. Os conflitos e ódios em "diálogo" com o inimigo. Um campo de prisioneiros que, como disse um dos personagens, era "uma ilha na selva". O desejo da fuga e os códigos de honra. A tensão constante entre dois mundos muito distintos. O afastamento e a aproximação. Um "jogo" desequilibrado que, a pouco e pouco, tende para os ocidentais. A ponte deixa de ser japonesa e passa a ser inglesa, com direito a placa identificadora e tudo.
A partir do romance foi escrito o argumento, a dois, Carl Foreman e Michael Wilson, mas quem recebeu o Oscar em Hollywood (um dos sete) foi o autor francês do romance. Desfaça-se o equívoco. Os dois argumentistas trabalharam clandestinamente. Estavam expulsos de Hollywood (faziam parte da lista negra dos excluídos) na sequência da caça às bruxas dos anos 50. Só no ano de 1984 foi reposta a justiça em termos públicos. Na entrega dos Óscares desse ano foi oficialmente reconhecida a sua autoria e foram homenageados pelos seus pares - trinta e muitos anos depois. Infelizmente tarde. Wilson já tinha morrido nos anos 70 e Foreman morreu nesse ano.
Grandes actores.
Alec Guiness. A essência do actor inglês. Aqui a fazer de coronel Nicholson. Irritantemente chauvinista, petulante, obcecado, corajoso e, no fim orgulhoso, em contradição com a essência da seus princípios militares e os seus valores nacionalistas. Para ele, depois de construir a ponte não era admissível destruí-la. Deveria continuar pelo tempo como manifesto da superioridade inglesa. Oscar de melhor actor principal.
William Holden, capitão Shears, americano. A fuga é o sentido único da sua vida de prisioneiro, coveiro dos colegas que vão morrendo. Prisioneiro quase que por acidente, falso capitão, é um fura-vidas que só quer fugir do mundo militar. Vai conseguir fugir, mas acabará por voltar (por mais que tente safar-se) num grupo especial para a destruição da ponte.
Sessile Hayakawa, o chefe do campo de prisioneiros. Um japonês culto, que andou pela Europa, fala inglês. Vive num equilíbrio instável entre a intransigência do dominador com um sentido de missão forte e a aderência aos comportamentos ocidentais.
Grande realização.
David Lean já tinha uma carreira bem sustentada. Tinha feito "Breve Encontro" em 1945, ainda hoje uma referência (já vimos) e também duas adaptações de sucesso de Charles Dickens, também com Alec Guiness - "Grandes Esperanças" (1946) e "Oliver Twist" (1948).
Uma realização de grande eficácia. A câmara a servir a história de forma fluida e elegante. A montagem paralela com um sentido dramático. O grande ecrã a fazer justiça ao espaço alargado e húmido da selva.
A música.
É um daqueles casos em que a banda sonora está intrinsecamente colada ao filme. Meia dúzia de notas e está feita a associação. Como se fora uma pele do filme. Há uma pequena história associada. Aquando das filmagens o realizador estava a ter algumas dificuldades na gestão dos movimentos sincopados dos figurantes a representar militares (nas sequências com marcha) e houve alguém que sugeriu que se pudesse uma marcha militar como som de fundo. Foi escolhida uma marcha que já tinha também uma história associada - "Marcha do Coronel Bogley" - composta em 1914. Durante a Primeira Guerra Mundial era tocada e assobiada pelos soldados ingleses e na Segunda Guerra Mundial era cantada com uma letra picante e risível com o título sugestivo "Hitler has only got one ball" (excusa-se tradução).A partir daí tudo estava definido. A banda sonora do filme foi elaborada, com variantes, a partir daquela marcha. Óscar da música.
Óscares.
Sete. Grande consagração, neste caso, com justiça. Passa o tempo e o filme continua a ser uma referência. Continuamos a ser perturbados com as dúvidas que ele levanta, com a ausência de maniqueísmo. Não há verdades absolutas.
Em todas as classificações aparece sempre, com toda a justiça, como um dos grandes filmes da história do cinema.
Ah, o filme dura quase 3 horas, portanto quem quiser traga pipocas!
Até 4ª feira!...Jorge Barata Preto

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