27 abril 2022

Vício de matar, de Arthur Penn (1958)

Com Paul Newman, John Dehner
Duração: 102 min

"Billy the Kid, foi assim que passou para a história americana o jovem William Bonney. 1859-1881foi o tempo de vida que os deuses lhe atribuíram. Pistoleiro e ladrão de gado. Matou quatro pessoas (chegaram a atribuir-lhe 21 mortes) e foi morto pelo xerife Pat Garrett - outro nome incontornável da história do Oeste americano da segunda metade do século XIX. Qualquer deles, juntos ou separados, alimentaram umas dezenas de argumentos de ficção em Hollywood. Esta é mais uma, mas... No fim dos anos 50 alguns argumentistas e realizadores começaram a questionar algumas coisas da história americana do oeste tal como ela se tinha consolidado no imaginário coletivo. É esse o caso deste filme. A matriz ficcional obedece à verdade histórica. Aquelas personagens existiram, os dados foram (mais ou menos) respeitados e as situações igualmente. Mérito para o Gore Vidal (esse grande escritor) que investigou e escreveu a matriz factual de base. Mérito igualmente para o realizador Arthur Penn que, vindo do universo da televisão (então em consolidação no imaginário e nos hábitos) conseguiu fazer com esse material o seu primeiro filme em Hollywood. Penn, que era um intelectual fascinado pelo cinema europeu, fez uns anos depois (1967) Bonnye & Clyde e a abordagem é similar. Personagens reais da história americana. Jovens (just kids) desenquadrados, socialmente à deriva na América profunda. Marginais fascinados com o eco das suas façanhas junto do público através de notícias ampliadas e romanceadas por jornalistas pouco escrupulosos - o Billy diz para si que é uma figura de glória.

A forma com o Penn põe o Newman a representar o pequeno bandido dá essa dimensão de uma certa inocência, o desejo de brincar, fruir a vida. Há uma clara ampliação do perfil psicológico do jovem, apanhado nas armadilhas da vida, com uma falsa história contada e editada. Não tinha futuro. Penn filmou claramente num registo fluído, prático e barato - os decors eram naturais. Obviamente que a sua margem de liberdade era restrita. Um miúdo que foi morto com 22 anos era representado pelo Paul Newman que já ia nos 38 anos. Mal menor ou, se quisermos, uma prenda especial para nosso prazer cinéfilo.

20 abril 2022

Shane - George Steven (1952)

Com Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin
Duração: 113 min

Dois planos sequência - um no princípio e outro no fim. O personagem solitário que chega e que parte. No meio fica a história. Similar a tantas outras que alimentaram o nosso imaginário juvenil. E tudo se joga nos pormenores. O olhar dos personagens campo. A matriz ficcional ancorada na história do oeste americano. O jogo desigual entre um latifundiário e meia dúzia de famílias de colonos (do norte da Europa, percebe-se pelos nomes). A paisagem deslumbrante recentemente colonizada - os índios já estavam mortos ou empacotados em reservas. O sulista claramente deslocado (certamente fugido ao ajustamento de contas pós guerra civil) aceite mas desprezado/gozado pelos outros. A família feliz mas claramente perturbada pela chegada do estranho (o outro que foge completamente aos padrões de normalidade na sobrevivência pela terra). Shane - o outro - vai gradualmente entrando na comunidade e o desejo acontece (não é preciso muitas palavras. A mulher do colono procura nos seus braços a proteção para não pecar) . E as lutas. Violência está sempre associada com o western. Grande pancadaria no saloon, luta entre os dois amigos para "escolher" quem vai lutar com o pistoleiro contratado pelo outro lado e, finalmente, o duelo final para repor a justiça. Shane, vindo de um passado sombrio só adivinhável por pequenos indícios, repõe a normalidade, mas não pode ficar. Marcado pelo passado não pode ficar no céu reconquistado. Sangrando afasta-se definitivamente. Se calhar vai lavar a alma numa praia do Pacífico ou eventualmente cairá na próxima esquia morto à traição por um qualquer pistoleiro. Who cares?

Sendo muito mais denso do que parece, Shane é um daqueles filmes que, de uma forma brilhante, encenou o mito do western e agora cito o Manuel Cintra Ferreira um dos bons malucos da Cinemateca (infelizmente já desaparecido)... trata-se da única mitologia criada pelo cinema, como representação imaginária de uma sociedade primitiva, ao longo dos territórios virgens abertos à colonização....

Estejam atentos. Para lá da trama ficcional repetitiva há outros sentidos a descobrir. Já agora, e mais uma vez, a música quase como um personagem a obrigar-nos a ir para onde o realizador George Stevens queria. A manipular-nos. Mas nós gostamos.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...