Com Leonardo Di Caprio, Cate Blanchett, Alan Alda. 2004. 169 min
Scorsese dixit
- "A história atraía-me porque contava coisas sobre Howard Hughes que eu
desconhecia. Tinha todo o dinheiro do mundo e podia, por isso, fazer o que bem
entendesse. Visionário, obcecado pela velocidade, era um homem com uma maldição
trágica que acabou por o devorar... Eu queria recriar a excitação de Hollywood
dos anos vinte, trinta e quarenta. Adoro os velhos filmes americanos e
alimentava o desejo de fazer alguma coisa que mostrasse como eram feitos os
filmes e que falasse dos reis de Hollywood daquele tempo."
O resultado
esplendoroso foi este" O Aviador". Howard Hughes um personagem maior
do que o mundo, a viver numa época em que tudo era possível, num país em que o
carrossel da vida rapidamente passa das alturas vertiginosas do sucesso para o
chão raso da miséria e desolação. Hughes não está assim tão longe de nós.
Morreu em 1976 e a sua vida está nublada de situações pouco claras mas de
feitos espantosos. Maluquinho dos aviões no tempo em que tudo estava a
acontecer em termos tecnológicos e de mercado. A ele se devem alguns feitos
heróicos na aviação, o desenvolvimento industrial da aviação e a concepção do
negócio da aviação comercial (TWA). Fascinado pelo imaginário de Hollywood -
fez dois filmes que ficaran na história do cinema, por razões diferentes - vivia
a vida como se fosse um filme do George Cuckor ou do Howard Hawks. O seu
sucesso pessoal (suportado pela riqueza herdada do pai) era factor de atração
das estrelas femininas. Catharine Hepburn, Ava Gardner, Ginger Rogers, Bette
Davis, Lana Turner, Jane Russell, etc, etc. (um pacote de "who is the
who" das estrelas femininas de Hollywood andaram envolvidas com ele.)
Mas... Havia alguma coisa na cabeça dele que
não funcionava bem. A fobia aos germes (atenção à primeira sequência). A pouco
e pouco revela-se um maníaco obsessivo, cada vez mais excêntrico e errático. Um
"freak". A história do Scorsese termina em quarenta e tal, mas ele
viveu ainda trinta anos num processo desequilibrado de esgotamentos nervosos,
recidivas e alienação por drogas e medicamentos.
A partir desta
matéria-prima real Scorsese criou mais um um filme incrível. Sequências
espantosas (só um exemplo: a sala de montagem e o movimento alucinado que nela
acontece), a utilização dramática das cores, os universos exuberantes dos
clubes e cabarets, a montagem incrível de algumas sequências (com os aviões) -
a nossa conhecida T. Schoomaker ganhou mais um Oscar. Não mais sairíamos daqui
se fossemos aos detalhes.
Entre o
sussurro da mãe logo no início "Não estás em segurança" e o desvario
compulsivo e repetitivo de H. Hughes no final - "The way of the
future" - chaves de leitura da sua bizarra personalidade, preparemo-nos
para esta jornada incrível de cinema.
Atenção: A
viagem é longa. Apertem os cintos, respirem fundo e deixem-se apanhar pela
magia do voo cinematográfico.