30 outubro 2022

O aviador - Martin Scorsese (2004)

Com Leonardo Di Caprio, Cate Blanchett, Alan Alda. 2004. 169 min

Scorsese dixit - "A história atraía-me porque contava coisas sobre Howard Hughes que eu desconhecia. Tinha todo o dinheiro do mundo e podia, por isso, fazer o que bem entendesse. Visionário, obcecado pela velocidade, era um homem com uma maldição trágica que acabou por o devorar... Eu queria recriar a excitação de Hollywood dos anos vinte, trinta e quarenta. Adoro os velhos filmes americanos e alimentava o desejo de fazer alguma coisa que mostrasse como eram feitos os filmes e que falasse dos reis de Hollywood daquele tempo."

O resultado esplendoroso foi este" O Aviador". Howard Hughes um personagem maior do que o mundo, a viver numa época em que tudo era possível, num país em que o carrossel da vida rapidamente passa das alturas vertiginosas do sucesso para o chão raso da miséria e desolação. Hughes não está assim tão longe de nós. Morreu em 1976 e a sua vida está nublada de situações pouco claras mas de feitos espantosos. Maluquinho dos aviões no tempo em que tudo estava a acontecer em termos tecnológicos e de mercado. A ele se devem alguns feitos heróicos na aviação, o desenvolvimento industrial da aviação e a concepção do negócio da aviação comercial (TWA). Fascinado pelo imaginário de Hollywood - fez dois filmes que ficaran na história do cinema, por razões diferentes - vivia a vida como se fosse um filme do George Cuckor ou do Howard Hawks. O seu sucesso pessoal (suportado pela riqueza herdada do pai) era factor de atração das estrelas femininas. Catharine Hepburn, Ava Gardner, Ginger Rogers, Bette Davis, Lana Turner, Jane Russell, etc, etc. (um pacote de "who is the who" das estrelas femininas de Hollywood andaram envolvidas com ele.)

 Mas... Havia alguma coisa na cabeça dele que não funcionava bem. A fobia aos germes (atenção à primeira sequência). A pouco e pouco revela-se um maníaco obsessivo, cada vez mais excêntrico e errático. Um "freak". A história do Scorsese termina em quarenta e tal, mas ele viveu ainda trinta anos num processo desequilibrado de esgotamentos nervosos, recidivas e alienação por drogas e medicamentos.

A partir desta matéria-prima real  Scorsese  criou mais um um filme incrível. Sequências espantosas (só um exemplo: a sala de montagem e o movimento alucinado que nela acontece), a utilização dramática das cores, os universos exuberantes dos clubes e cabarets, a montagem incrível de algumas sequências (com os aviões) - a nossa conhecida T. Schoomaker ganhou mais um Oscar. Não mais sairíamos daqui se fossemos aos detalhes.

Entre o sussurro da mãe logo no início "Não estás em segurança" e o desvario compulsivo e repetitivo de H. Hughes no final - "The way of the future" - chaves de leitura da sua bizarra personalidade, preparemo-nos para esta jornada incrível de cinema.

Atenção: A viagem é longa. Apertem os cintos, respirem fundo e deixem-se apanhar pela magia do voo cinematográfico.

19 outubro 2022

O colosso de Rodes - Sergio Leone (1961)

Com Rory Calhoun, Lea Massari
Duração: 118 min

Os últimos dias de Pompeia terminou com a erupção do vulcão. O Colosso de Rodes termina com um grande terramoto. Verdades históricas, servidas com matrizes ficcionais muito convincentes. Mais convincente é a essência cinematográfica destas catástrofes naturais. A Cinnecitá tinha meios e práticas muito elaborados e, passados estes anos todos, bem podemos dizer que aquele terramoto é bem conseguido como o tinha sido a erupção do Vesúvio. O profissionalismo dos estúdios era conciliável com a espectacularidade procurada. Aliás nesta altura estava em curso um processo de deslocalização de Hollywood para Roma. Quo Vadis, Helena de Troia e Ben Hur, grandes produções americanas, foram filmados na Cinnecita nestes anos. Gente para encher o ecrã como nos dois filmes que estamos a analisar era o que não faltava - uma escolha ilimitada a preços baratos. Eram os italianos do sul a subirem para Roma e Milão à procura de uma vida melhor no capitalismo industrial.

Em o Colosso de Rodes temos uma ficção aventureira-amorosa mais uma vez suportada pela verdade factual. Em Rodes, no Mediterrâneo oriental, há uma situação política de ditadura. As populações são escravizadas. Há corrupção e tortura e um grupo de resistência. Um general ateniense, em férias, é o sujeito da mudança. Ora dentro ora fora. Quando tudo termina com a queda do Colosso, para ele é o princípio. Não retorna a Atenas e fica com a mulher bonita que até ali praticamente nao se tinha cruzado com ele. Mas isso é o lado fascinante da ficção. Visualmente há coisas brilhantes no filme. Algumas sequências dentro e fora do Colosso. Belíssimas imagens em exteriores rochosos de grande impacto visual. Pelo meio há uns duelos quase risíveis na sua encenação. Mas recuem uma dezenas de anos e imaginem-se crianças a ver aquilo...

Colosso de Rodes. Não é imaginação. Existiu mesmo. De 288 A.C. até 226 A. C. Estrabão e Plínio, o Velho referem-se a ele nas suas crónicas que chegaram até nós. Erigido em honra do deus Hélios, era uma grande estátua em bronze, cerca de 33 metros de altura. Até ficou para a história o nome do arquiteto: Carés de Lindos. A localização é que não é consentânea. Os restos da estátua ficaram depositados no fundo do mar até ao ano 653 quando Rodes foi conquistada por uma força árabe que recuperou todo o metal e o vendeu a... adivinhem: um mercador judeu.

O gozo é enorme e é espantoso o engenho com que foram filmadas as sequências no colosso - dentro e fora. Umas dezenas de anos depois, o Spielberg não faria melhor. Só mais sofisticado porque os instrumentos cinematográficos atuais são de uma dimensão tecnológica incomparável.

02 outubro 2022

Os últimos dias de Pompeia - Sergio Leone (1959)

Com Steve Reeves, Fernando Rey
Duração: 94 min

Sergio Leone é um cineasta desvalorizado. E, no entanto, fez três filmes que gravaram o seu nome nos anais da história do cinema -" Por um punhado de dólares", "Por mais alguns dólares" e "O bom, o mau e o vilão".

Com a personagem que criou, o Clint Eastwood reentrou pela porta grande em Hollywood e certamente aprendeu muito, se nos lembrarmos da obra dele como realizador. Mas depois ainda houve "Era uma vez no Oeste" e "Era uma vez na América" , para mim um dos mais espantosos filmes do nosso tempo.

Mas... há um antes. Sergio Leone quase nasceu na Cinnecita - os grandes estúdios de cinema italianos. O pai e a mãe trabalhavam lá. Desde muito novo foi assistente de realização de muitos filmes. Vitorio de Sica, Luigi Commencini, etc. foram mestres dele.

E é aí que começa tudo. Um realizador medíocre que ficou enterrado na história do cinema (Mario Bonnard) ficou doente e o jovem tomou o seu lugar. Uma história encaixada na História. A erupção do Vesúvio, a destruição de Pompeia (ano 79 DC). A perseguição dos cristãos pelo Império Romano. Uma ficção amorosa bem engendrada, os decors credivelmente elaborados. O álcool e as orgias. O exotismo do Império Romano no seu auge. Ecos do Oriente, a Palestina e a Judeia. Ahh. E os actores. Naqueles tempos a Cinnecita era polo de atração de actores europeus e americanos. Não havia problema com a língua. E assim temos o Steve Reeves a fazer de Glaucus, um centurião, falando italiano de gema.

Naqueles anos o modo de produção do cinema italiano era bizarro - os diálogos e o som eram feitos em pós produção. O Felinni dizia aos actores para irem contando... 1,2,3. Quem era este personagem? Fraquinho actor americano cujos atributos eram físicos. Tinha sido Mr. América e Mr. Universo. Em Itália fez de Golias, Hércules, Sandokan... Mas, para compensar temos o Fernando Rey, esse grande actor espanhol que iria ser nossa visita habitual (às vezes na companhia da Catherine Deneuve) uns anos mais tarde nos filmes do Bunuel. Mas há tantas pequenas pérolas espalhadas pelo filme. A música exoticamente adequada, a exuberância do vestuário, a montagem extremamente económica e rigorosa (não há devaneios), a eficácia narrativa nas sequências da erupção do vulcão, com alguns planos incrivelmente belos, provavelmente filmados por acidente... veja-se o menino louro perdido naquela confusão de cartão... O naif fazia parceria com o sofisticado, mesmo  contra a História - aquele coro dos prisioneiros cristãos com música religiosa para aí do século XVII ou XVIII...

O prazer visual associado ao prazer da memória. Os manuais do cinema chamam a este tipo/género "sword and sandal film". Eu, na inocência da minha idade chamava-lhes os filmes dos romanos. Que grande gozo.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...