07 maio 2023

A difícil arte de amar - Mike Nichols (1986)

Com Meryl Streep, Jack Nicholson
Duração: 108 min

A coisa está difícil. Agora foi um feriado a interferir com os nossos pequenos prazeres cinéfilos. Retomemos o fio à meada. Um salto de quase 10 anos após a estreia da Meryl Streep em "Julia" e ei-la em grande a enfrentar o Jack Nicholson. Nesse tempo fez um percurso ascendente rapidíssimo e empolgado para o céu de Hollywood. Para nosso enorme prazer. 

Não é preciso recordar todos os filmes que ela fez nesse interim. Só meia dúzia: "O caçador" (M. Cimino), "Manhattan" (W. Allen), "Kramer versus Kramer" (R. Benton), "A amante do tenente francês" (K. Reisz), "A escolha de Sofia" (A. J. Pakula), "Out of Africa" (Sidney Pollack).

Quando Meryl Streep era já a incontornável estrela do cinema americano, aceitou o convite do Mike Nichols (com quem já tinha feito, três anos antes, "Silkwood") para esta história elaborada por Nora Ephron - um best seller autobiográfico - a partir da sua experiência pessoal do casamento com Carl Bernstein (1976-1980). Situemo-nos perante os personagens. 

Carl Bernstein. Foi um dos dois jornalistas do Washington Post (o outro foi Bob Woodward) que desencadearam o processo de Watergate que levou à renúncia de Nixon (1972). Naqueles anos tornaram-se estrelas mundiais. O cinema deu a versão dos acontecimentos com o filme "Os homens do presidente" do A. J. Pakula, e os jornalistas foram interpretados por Robert Redford e o Dustin Hoffman. 

Nora Ephron, uma intelectual proveniente da burguesia esclarecida de Nova York. Jornalista e escritora. Mais tarde escreveu argumentos (nomeadamente este) e dirigiu alguns filmes interessantes. 

A essência do filme é muito simples: O percurso de ajustamento/desajustamento entre duas personagens muito díspares. Ela, algo ingénua e romântica, com o sentido da maternidade, a procurar criar uma família. Ele em derivas de traição (caso com uma socialite inglesa, filha do antigo primeiro-ministro James Callaghan). Entre Nova York e  Washington vamos acompanhando os 4 anos que durou o casamento, num registo que às vezes remete para o universo filmico de Woody Allen, as discussões intelectuais, os encontros, os jantares... 

No fim, o inevitável acontece. A mulher, com o peso de dois filhos às costas, abandona tudo e regressa a casa dos pais em Nova York. Filme amargo e azedo onde a raiva anda a par da hipocrisia (quem melhor do que Jack Nicholson para aquele papel em que o Carl Bernstein se revela uma besta quadrada, independentemente do bem que uns anos antes tenha feito em prol da ética política nos EUA?). 

Para nossa referência: nunca em nenhuma situação são identificados os personagens reais. Apesar de toda a gente saber. Restrições jurídicas certamente. 

Pelo meio só coisas interessantes: Música da Carly Simon, uma das grandes musas da música americana daqueles tempos, mais a Joan Baez, a Carole King e a Joni Michelle...

O Milos Forman anda por lá como actor, ele que foi um dos maiores cineastas da nossa contemporaneidade - "Voando sobre um ninho de cucos", "Amadeus", "Larry Flint" e ficamos por aqui. 

A fotografia é só do Nestor Almendros, um dos maiores diretores de fotografia do cinema contemporâneo - saiu da Europa (François Truffaut, Éric Rohmer e muitos mais) para Hollywood onde foi altamente valorizado e premiado. 

Já agora o Mike Nichols. Foi ele que realizou, por exemplo, "A primeira noite", "Quem tem medo de Virgínia Wolf?" , "Iniciação carnal" e "Catch 22". 

Portanto, só bons motivos para retomar os pequenos prazeres que o bom cinema proporciona.

01 maio 2023

Florence, uma diva fora de tom - Stephen Frears (2016)

Com Meryl Streep, Hugh Grant
Duração: 111 min

Florence Foster Jenkins (1868-1944). Uma mulher rica de Nova York, frequentadora assídua dos círculos sociais da grande burguesia americana produzida pela revolução industrial, mais os condes, os marqueses e os duques vindos da Europa, nomeadamente exportados pela Rússia após 1917. O canto lírico é a sua grande obsessão. O universo operático é o seu quotidiano. Melómana. Megalómana. A sua generosidade financeira tem eco nos círculos dos músicos e cantores, como o comprovou o grande maestro Toscanini que dela beneficiava.

Com a sua fortuna criou o Clube Verdi, uma sala de espectáculos para os seus amigos e convidados, onde ela ousava cantar, revelando o mais desastroso talento lírico, mas usando o mais incrível vestuário . Era designada a diva do grito. "The world's worst opera singer" como escreveu um musicólogo. Mas tudo era em circuito fechado. Puro divertimento. Bravo!!!

St. Claire Bayfield (1875-1967). Actor inglês, de origem aristocrata, pouco dotado artisticamente, mas muito devotado à senhora Florence, com quem foi casado de 1909 a 1944. Diferença substancial de idades mas uma forte parceria pública (em privado eram duas vidas separadas e muito distintas). Tinha direito a uns monólogos de Shakespeare no Clube Verdi e a vidinha corria mais que bem. Até que tudo começou a ficar mais dramático assim como uma ópera de Verdi, de Puccini ou um lied de Mahler.

Florence - que tinha começado a ter aulas de canto com o melhor professor de Nova York, com o apoio de um jovem músico, de seu nome Cosmé McMoon (1901-1980) a procurar sobreviver (I am a serious pianist) - ousa dar um enorme passo em frente. Aproveitando umas férias do seu parceiro, fora de Nova York, aluga a célebre sala de espectáculos Carnegie Hall para uma apresentação sua, em grande, de consagração.

O caldo entornado. O pânico instalado. Há que controlar os riscos. Gerir a situação. Pagar aos críticos para não dizerem mal, vender os lugares aos habitués do Clube Verdi, oferecer bilhetes à tropa numa altura em que o exército americano está a atravessar o Atlântico para nos salvar da besta hitleriana.

As coisas até podiam ter corrido pior. Florence atingiu o zénite da sua não carreira. Passado um mês morreu (recorde-se que ela tinha 76 anos, que é uma idade em que nenhuma cantora de ópera ainda está no activo).

Neste quadro de obsessão e absurdo, em que a farsa é o embrulho adequado, saliente-se que as personagens têm alma. Não são bonecos. Tudo aquilo acontecia na especificidade do meio em que eles viviam. E nesse sentido temos mais uma grande composição da Meryl Streep numa personagem fake mas sem disso nunca ter consciência. Era assim e pronto. E é delicioso o seu canto desarmónico.

Hugh Grant, que tem tanto de cabotino como de bom actor, neste caso ficou do lado bom. No dualismo entre o marido devotado, protetor  e gestor e o outro, com uma vida jovem, afetiva e sexual,  dá-nos uma belíssima prestação, mesmo com algumas situações comoventes.

Já agora o Simon Helbey, o actor que faz de Cosmé, um grande papel, de quem está dentro e fora ao mesmo tempo. E com a consciência disso. O músico que ele representa ficou pelo caminho. Certamente esgotou-se com a energia transferida para a Florence.

E o realizador? O Stephen Frears fez alguns dos mais importantes filmes dos últimos vinte anos. Disso falaremos.

Há histórias que não precisam ser inventadas, por mais bizarras que sejam. Estes personagens existiram, as situações estão documentadas e um disco de árias de ópera que a Florence gravou é parte respeitada do património cultural americano.

Só nos resta dizer: E esta, hem?

Um dia nas corridas - Sam Wood (1937)

Com Irmãos Marx, Maureen O'Sullivan, Margaret Dumont. 1937. 111 min

Ponto de ordem ao e-mail: eu sou marxista. Não, não, não. Ninguém faça juízos de valor. O outro Marx, Karl de seu nome, não é para aqui chamado, independentemente do seu papel inapagável na história do mundo nos últimos 150 anos. Eu sou marxista enquanto fã incondicional dos irmãos Marx, que nasceram, ainda no século XIX, duas gerações depois do senhor das barbas imponentes. Judeus, nova-iorquinos, filhos de um casal franco-alemão. Três irmãos, (mais um no início, mas que mais para a frente se deixou de comédias) que desde o fim dos anos 20  fizeram algumas das comédias mais loucas (no bom sentido) da história do cinema.

Iniciaram-se como artistas de variedades, circulando pela América em espectáculos de vaudeville e burlesco. Mais para a frente têm a afirmação na Broadway e não resistiram ao fascínio de Hollywood. Em 1929, fizeram o primeiro filme "The Cocoanuts" a partir de uma comédia que eles representavam com sucesso em Nova York.

"Um dia nas corridas" é já da fase madura (sétimo filme) , dirigido por um realizador respeitável (Sam Wood) e a história é bem normal dentro dos padrões mais ou menos tipificados daquela altura: um sanatório com dívidas, na Flórida, em vias de ser abocanhando por especuladores imobiliários. Corridas de cavalos como hipótese de salvação do sanatório se os bons ganharem. Um médico que, na verdade, é veterinário, um jogo de equívocos muito próprio dos Marx. Um jovem casal, muito bonzinho a lutar pelo bem. Etc. e tal.

Obviamente tudo acaba bem para nosso gáudio depois de largas gargalhadas perante as múltiplas situações burlescas, surreais, bizarras e satíricas. O ritmo é delirante, frenético. E o fim é apoteótico de música e dança negra, algo quase irreal, se pensarmos na história da segregação racial nos EUA, fortíssima naquela altura. Quase revolucionário, se usássemos as referências do outro Marx. Ou isto anda tudo ligado?

Cada um dos Marx é uma personagem identificável desde o primeiro filme. O nome de guerra de cada um não era o seu nome civil.

Groucho - civilmente chamava-se Julius - óculos redondos, bigode enorme pintado e sobrancelhas maiores que um telhado, era o pinga-amor, com o andar projetado para a frente. Grandes citações, frases retóricas. Sempre à procura da mulher rica.

Chico. O charmoso de chapéu tirolês, falava inglês à italiana e tocava piano. Atenção ao dedinho.

Harpo. O mudo que não era mudo e que se fazia entender pelos seus códigos especiais - as cornetas, os assobios e o que mais necessário. Era o mimo, o artista da pantomima, um exímio tocador de harpa que experimentava sempre que o pretexto se apresentava. Então se fosse com uma orquestra era ouro sobre azul.

Perante isto, ouso escrever, vamos ver e recuar umas boas décadas até aquele tempo em que tudo era possível, com a poética desbragada dos Marx.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...