A coisa está difícil. Agora foi um feriado a interferir com os nossos pequenos prazeres cinéfilos. Retomemos o fio à meada. Um salto de quase 10 anos após a estreia da Meryl Streep em "Julia" e ei-la em grande a enfrentar o Jack Nicholson. Nesse tempo fez um percurso ascendente rapidíssimo e empolgado para o céu de Hollywood. Para nosso enorme prazer.
Não é preciso recordar todos os filmes que ela fez nesse interim. Só meia dúzia: "O caçador" (M. Cimino), "Manhattan" (W. Allen), "Kramer versus Kramer" (R. Benton), "A amante do tenente francês" (K. Reisz), "A escolha de Sofia" (A. J. Pakula), "Out of Africa" (Sidney Pollack).
Quando Meryl Streep era já a incontornável estrela do cinema americano, aceitou o convite do Mike Nichols (com quem já tinha feito, três anos antes, "Silkwood") para esta história elaborada por Nora Ephron - um best seller autobiográfico - a partir da sua experiência pessoal do casamento com Carl Bernstein (1976-1980). Situemo-nos perante os personagens.
Carl Bernstein. Foi um dos dois jornalistas do Washington Post (o outro foi Bob Woodward) que desencadearam o processo de Watergate que levou à renúncia de Nixon (1972). Naqueles anos tornaram-se estrelas mundiais. O cinema deu a versão dos acontecimentos com o filme "Os homens do presidente" do A. J. Pakula, e os jornalistas foram interpretados por Robert Redford e o Dustin Hoffman.
Nora Ephron, uma intelectual proveniente da burguesia esclarecida de Nova York. Jornalista e escritora. Mais tarde escreveu argumentos (nomeadamente este) e dirigiu alguns filmes interessantes.
A essência do filme é muito simples: O percurso de ajustamento/desajustamento entre duas personagens muito díspares. Ela, algo ingénua e romântica, com o sentido da maternidade, a procurar criar uma família. Ele em derivas de traição (caso com uma socialite inglesa, filha do antigo primeiro-ministro James Callaghan). Entre Nova York e Washington vamos acompanhando os 4 anos que durou o casamento, num registo que às vezes remete para o universo filmico de Woody Allen, as discussões intelectuais, os encontros, os jantares...
No fim, o inevitável acontece. A mulher, com o peso de dois filhos às costas, abandona tudo e regressa a casa dos pais em Nova York. Filme amargo e azedo onde a raiva anda a par da hipocrisia (quem melhor do que Jack Nicholson para aquele papel em que o Carl Bernstein se revela uma besta quadrada, independentemente do bem que uns anos antes tenha feito em prol da ética política nos EUA?).
Para nossa referência: nunca em nenhuma situação são identificados os
personagens reais. Apesar de toda a gente saber. Restrições jurídicas
certamente.
Pelo meio só coisas interessantes: Música da Carly Simon, uma das grandes musas da música americana daqueles tempos, mais a Joan Baez, a Carole King e a Joni Michelle...
O Milos Forman anda por lá como actor, ele que foi um dos maiores
cineastas da nossa contemporaneidade - "Voando sobre um ninho de
cucos", "Amadeus", "Larry Flint" e ficamos por
aqui.
A fotografia é só do Nestor Almendros, um dos maiores diretores de
fotografia do cinema contemporâneo - saiu da Europa (François Truffaut, Éric
Rohmer e muitos mais) para Hollywood onde foi altamente valorizado e
premiado.
Já agora o Mike Nichols. Foi ele que realizou, por exemplo, "A
primeira noite", "Quem tem medo de Virgínia Wolf?" ,
"Iniciação carnal" e "Catch 22".
Portanto, só bons motivos para retomar os pequenos prazeres que o bom cinema proporciona.