Com Meryl Streep, Hugh Grant
Florence Foster Jenkins
(1868-1944). Uma mulher rica de Nova York, frequentadora assídua dos círculos
sociais da grande burguesia americana produzida pela revolução industrial, mais
os condes, os marqueses e os duques vindos da Europa, nomeadamente exportados
pela Rússia após 1917. O canto lírico é a sua grande obsessão. O universo
operático é o seu quotidiano. Melómana. Megalómana. A sua generosidade
financeira tem eco nos círculos dos músicos e cantores, como o comprovou o
grande maestro Toscanini que dela beneficiava.
Com a sua fortuna criou o Clube
Verdi, uma sala de espectáculos para os seus amigos e convidados, onde ela
ousava cantar, revelando o mais desastroso talento lírico, mas usando o mais
incrível vestuário . Era designada a diva do grito. "The world's worst
opera singer" como escreveu um musicólogo. Mas tudo era em circuito
fechado. Puro divertimento. Bravo!!!
St. Claire Bayfield (1875-1967).
Actor inglês, de origem aristocrata, pouco dotado artisticamente, mas muito
devotado à senhora Florence, com quem foi casado de 1909 a 1944. Diferença
substancial de idades mas uma forte parceria pública (em privado eram duas
vidas separadas e muito distintas). Tinha direito a uns monólogos de
Shakespeare no Clube Verdi e a vidinha corria mais que bem. Até que tudo
começou a ficar mais dramático assim como uma ópera de Verdi, de Puccini ou um
lied de Mahler.
Florence - que tinha começado a
ter aulas de canto com o melhor professor de Nova York, com o apoio de um jovem
músico, de seu nome Cosmé McMoon (1901-1980) a procurar sobreviver (I am a
serious pianist) - ousa dar um enorme passo em frente. Aproveitando umas férias
do seu parceiro, fora de Nova York, aluga a célebre sala de espectáculos
Carnegie Hall para uma apresentação sua, em grande, de consagração.
O caldo entornado. O pânico
instalado. Há que controlar os riscos. Gerir a situação. Pagar aos críticos
para não dizerem mal, vender os lugares aos habitués do Clube Verdi, oferecer
bilhetes à tropa numa altura em que o exército americano está a atravessar o
Atlântico para nos salvar da besta hitleriana.
As coisas até podiam ter corrido
pior. Florence atingiu o zénite da sua não carreira. Passado um mês morreu
(recorde-se que ela tinha 76 anos, que é uma idade em que nenhuma cantora de
ópera ainda está no activo).
Neste quadro de obsessão e
absurdo, em que a farsa é o embrulho adequado, saliente-se que as personagens
têm alma. Não são bonecos. Tudo aquilo acontecia na especificidade do meio em
que eles viviam. E nesse sentido temos mais uma grande composição da Meryl
Streep numa personagem fake mas sem disso nunca ter consciência. Era assim e
pronto. E é delicioso o seu canto desarmónico.
Hugh Grant, que tem tanto de
cabotino como de bom actor, neste caso ficou do lado bom. No dualismo entre o
marido devotado, protetor e gestor e o
outro, com uma vida jovem, afetiva e sexual,
dá-nos uma belíssima prestação, mesmo com algumas situações comoventes.
Já agora o Simon Helbey, o actor
que faz de Cosmé, um grande papel, de quem está dentro e fora ao mesmo tempo. E
com a consciência disso. O músico que ele representa ficou pelo caminho.
Certamente esgotou-se com a energia transferida para a Florence.
E o realizador? O Stephen Frears
fez alguns dos mais importantes filmes dos últimos vinte anos. Disso falaremos.
Há histórias que não precisam ser
inventadas, por mais bizarras que sejam. Estes personagens existiram, as
situações estão documentadas e um disco de árias de ópera que a Florence gravou
é parte respeitada do património cultural americano.
Só nos resta dizer: E esta, hem?
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.