01 maio 2023

Florence, uma diva fora de tom - Stephen Frears (2016)

Com Meryl Streep, Hugh Grant
Duração: 111 min

Florence Foster Jenkins (1868-1944). Uma mulher rica de Nova York, frequentadora assídua dos círculos sociais da grande burguesia americana produzida pela revolução industrial, mais os condes, os marqueses e os duques vindos da Europa, nomeadamente exportados pela Rússia após 1917. O canto lírico é a sua grande obsessão. O universo operático é o seu quotidiano. Melómana. Megalómana. A sua generosidade financeira tem eco nos círculos dos músicos e cantores, como o comprovou o grande maestro Toscanini que dela beneficiava.

Com a sua fortuna criou o Clube Verdi, uma sala de espectáculos para os seus amigos e convidados, onde ela ousava cantar, revelando o mais desastroso talento lírico, mas usando o mais incrível vestuário . Era designada a diva do grito. "The world's worst opera singer" como escreveu um musicólogo. Mas tudo era em circuito fechado. Puro divertimento. Bravo!!!

St. Claire Bayfield (1875-1967). Actor inglês, de origem aristocrata, pouco dotado artisticamente, mas muito devotado à senhora Florence, com quem foi casado de 1909 a 1944. Diferença substancial de idades mas uma forte parceria pública (em privado eram duas vidas separadas e muito distintas). Tinha direito a uns monólogos de Shakespeare no Clube Verdi e a vidinha corria mais que bem. Até que tudo começou a ficar mais dramático assim como uma ópera de Verdi, de Puccini ou um lied de Mahler.

Florence - que tinha começado a ter aulas de canto com o melhor professor de Nova York, com o apoio de um jovem músico, de seu nome Cosmé McMoon (1901-1980) a procurar sobreviver (I am a serious pianist) - ousa dar um enorme passo em frente. Aproveitando umas férias do seu parceiro, fora de Nova York, aluga a célebre sala de espectáculos Carnegie Hall para uma apresentação sua, em grande, de consagração.

O caldo entornado. O pânico instalado. Há que controlar os riscos. Gerir a situação. Pagar aos críticos para não dizerem mal, vender os lugares aos habitués do Clube Verdi, oferecer bilhetes à tropa numa altura em que o exército americano está a atravessar o Atlântico para nos salvar da besta hitleriana.

As coisas até podiam ter corrido pior. Florence atingiu o zénite da sua não carreira. Passado um mês morreu (recorde-se que ela tinha 76 anos, que é uma idade em que nenhuma cantora de ópera ainda está no activo).

Neste quadro de obsessão e absurdo, em que a farsa é o embrulho adequado, saliente-se que as personagens têm alma. Não são bonecos. Tudo aquilo acontecia na especificidade do meio em que eles viviam. E nesse sentido temos mais uma grande composição da Meryl Streep numa personagem fake mas sem disso nunca ter consciência. Era assim e pronto. E é delicioso o seu canto desarmónico.

Hugh Grant, que tem tanto de cabotino como de bom actor, neste caso ficou do lado bom. No dualismo entre o marido devotado, protetor  e gestor e o outro, com uma vida jovem, afetiva e sexual,  dá-nos uma belíssima prestação, mesmo com algumas situações comoventes.

Já agora o Simon Helbey, o actor que faz de Cosmé, um grande papel, de quem está dentro e fora ao mesmo tempo. E com a consciência disso. O músico que ele representa ficou pelo caminho. Certamente esgotou-se com a energia transferida para a Florence.

E o realizador? O Stephen Frears fez alguns dos mais importantes filmes dos últimos vinte anos. Disso falaremos.

Há histórias que não precisam ser inventadas, por mais bizarras que sejam. Estes personagens existiram, as situações estão documentadas e um disco de árias de ópera que a Florence gravou é parte respeitada do património cultural americano.

Só nos resta dizer: E esta, hem?

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