Apogeu do
Império Britânico na Índia do fim do século XlX. Dois soldados
ingleses (Sean Connery e Michael Caine) expulsos do exército imperial -
pequenos aldrabōes, ladrões rascas, miseráveis traficantes de armas - metem-se
a caminho de um lugar longínquo, inóspito e de difícil acesso, o Kafiristão,
algures nos contornos montanhosos do Afeganistão.
É um deles (Michael Caine),
perturbado e em sofrimento, que conta a bizarra aventura na redacção de um
jornal na Índia, a um jornalista (Christopher Plummer), Rudyard Kipling
himself.
Em flashback, o espectador vai
acompanhando o percurso daqueles degenerados até às terras onde dominou
Alexandre da Macedónia (século IV AC). Quando lá chegam - brancos e com
espingardas - são endeusados pela população com todos os benefícios adequados. É
o paraíso, nas terras do fim do mundo. Um acidente feliz altera para melhor as
expectativas. Numa guerra com um povo vizinho um deles é atingido por uma
flecha, bloqueada pela bandoleira em volta do corpo. Não é ferido, não há
sangue. É divino. É associado a Alexandre, o grande. Tudo corre pelo melhor,
com uns "milagres" maçónicos pelo meio...até ao inevitável confronto
com a realidade comezinha. Afinal, ele sangra. É um impostor. A justiça
religiosa local é radical. Em ritual sádico, é executado pela população.
Miraculosamente o seu amigo consegue safar-se para contar para as gerações
futuras aquela incrível história.
Sob o fundo de uma aventura
exótica onde tudo é diferente dos usos e costumes ocidentais - atenção à
sequência inicial onde somos confrontados com as diferenças oriente/ocidente -
uma bela ficção sobre a ganância, o poder, a religião e os contrastes
civilizacionais, de uma forma risível, mas encantatória.
Argumento, escrito pelo
próprio John Huston em colaboração, a partir de
uma short story, com o mesmo título, de Rudyard Kipling. Tudo
na ficção remete para o universo daquele escritor inglês, nascido na Índia, que
viveu na época de maior fausto e extensão do império colonial inglês
(1865-1936).
O homem é ele e as
suas circunstâncias como escreveu o filósofo espanhol Ortega y
Gasset. Totalmente adequado a Kipling e à sua obra. À distância dos anos
pode-se compreender, mas não esquecer. Toda a sua obra enfatiza, mesmo que
implicitamente, a grandeza dominadora e assumidamente superior dos ingleses
face aos povos colonizados. Mesmo nos livros para os adolescentes que o
tornaram célebre - "O livro da selva", "O novo livro da
selva" - está sempre subjacente a superioridade do homem branco
(inglês), bem como em "Kim", romance de referência.
Prémio Nobel da Literatura
em 1907, a ele se deve o célebre poema If que, jovens, líamos com enlevo
e certamente alguns de vocês encaixilharam lá no quarto onde
estudavam. Se...isto, se aquilo... (exaltações moralistas, um manual de boas
maneiras)... cujo final
apoteótico é
Yours is the Earth and everything that’s in
it,
And—which is more—you’ll be
a Man, my son!
Se calhar vale a pena reler.
Recordar é viver.
John Huston (1906-1987) era
um homem das Arábias. Filho de um dos grandes actores dos tempos de
consolidação de Hollywood (Walter Huston), teve uma adolescência de
estoira-vergas. Andou pelo México envolvido nos conflitos da guerra civil dos
anos 20. Uns anos depois andou a absorver a cultura da Europa - Inglaterra,
França. Com talento para a escrita e a representação, estacionou naturalmente
em Hollywood, com o apoio do pai e seus amigos dos estúdios. Escreveu
argumentos, foi actor e, quando chegou a sua vez aproveitou-a de mãos
cheias. Em 1942, pegou no livro policial de Dashiell Hammett, "O Falcão de
Malta" e entrou directamente pela porta grande de Hollywood. O
filme chamou-se "Relíquia Macabra", com Humphrey Bogart a vestir a
pele do detective Sam Spade. É um filme de culto, daqueles sempre à
mão para rever com prazer.
John Huston, que estava a
criar uma imagem que não mais o abandonou - impulsivo, imprevisível, provocador
- interrompeu uma carreira que praticamente não iniciara, para participar no
esforço de guerra contra os nazis e os japoneses. A ele se devem três
documentários filmados na Europa e no Pacífico, considerados importantes
documentos históricos.
Regressado a Hollywood,
retomou uma carreira de realizador com muitos filmes brilhantes, outros
assim-assim e outros "alimentares" meramente para pagar as contas
elevadas de charutos e whisky. Já no fim da carreira fez patetices como "Annie"
e " Fuga para a vitória", onde até entrava o Pelé e o Bobby Moore -
quem gosta de futebol sabe quem eram.
Mas isso não apaga o seu
inquestionável lugar na história de Hollywood com filmes tão marcantes e
incontornáveis como: "Quando a cidade dorme", "A rainha
africana", "Moby Dick", "Os Inadaptados", "O Tesouro
de Sierra Madre", "A Honra dos Padrinhos". Fiquemos por aqui,
mas há mais uns títulos.
Além do mais ainda fazia com
regularidade uma perninha como actor em filmes de outros. Só um caso de
referência: "Chinatown" do Romain Polanski.
Mais um dado importante
para situar John Huston do lado decente da história. Em 1947 foi,
juntamente com Humphrey Bogart, um dos mais activos e
esclarecidos opositores às perseguições do senador McCarthy, excrescência
fascista em Hollywood e na política americana.
Já agora, foi o pai da actriz da
nossa geração Angelica Huston.
Acompanhar aquele par de
pequenos aldrabões, mas simpáticos, na procura do céu na terra é um prazer
anunciado. Preparem-se porque a viagem é dura, mas bela. Além do mais,
divertida.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.