21 maio 2025

O homem que queria ser rei - John Huston (1975)

Com Sean Connery, Michael Caine, Christopher Plummer
Duração: 123m

Apogeu do Império Britânico na Índia do fim do século XlX. Dois soldados ingleses (Sean Connery e Michael Caine) expulsos do exército imperial - pequenos aldrabōes, ladrões rascas, miseráveis traficantes de armas - metem-se a caminho de um lugar longínquo, inóspito e de difícil acesso, o Kafiristão, algures nos contornos montanhosos do Afeganistão.

É um deles (Michael Caine), perturbado e em sofrimento, que conta a bizarra aventura na redacção de um jornal na Índia, a um jornalista (Christopher Plummer), Rudyard Kipling himself.

Em flashback, o espectador vai acompanhando o percurso daqueles degenerados até às terras onde dominou Alexandre da Macedónia (século IV AC). Quando lá chegam - brancos e com espingardas - são endeusados pela população com todos os benefícios adequados. É o paraíso, nas terras do fim do mundo. Um acidente feliz altera para melhor as expectativas. Numa guerra com um povo vizinho um deles é atingido por uma flecha, bloqueada pela bandoleira em volta do corpo. Não é ferido, não há sangue. É divino. É associado a Alexandre, o grande. Tudo corre pelo melhor, com uns "milagres" maçónicos pelo meio...até ao inevitável confronto com a realidade comezinha. Afinal, ele sangra. É um impostor. A justiça religiosa local é radical. Em ritual sádico, é executado pela população. Miraculosamente o seu amigo consegue safar-se para contar para as gerações futuras aquela incrível história.

Sob o fundo de uma aventura exótica onde tudo é diferente dos usos e costumes ocidentais - atenção à sequência inicial onde somos confrontados com as diferenças oriente/ocidente - uma bela ficção sobre a ganância, o poder, a religião e os contrastes civilizacionais, de uma forma risível, mas encantatória.

Argumento, escrito pelo próprio John Huston em colaboração, a partir de uma short story,  com o mesmo título, de Rudyard Kipling. Tudo na ficção remete para o universo daquele escritor inglês, nascido na Índia, que viveu na época de maior fausto e extensão do império colonial inglês (1865-1936).

O homem é ele e as suas circunstâncias como escreveu o filósofo espanhol Ortega y Gasset. Totalmente adequado a Kipling e à sua obra. À distância dos anos pode-se compreender, mas não esquecer. Toda a sua obra enfatiza, mesmo que implicitamente, a grandeza dominadora e assumidamente superior dos ingleses face aos povos colonizados. Mesmo nos livros para os adolescentes que o tornaram célebre - "O livro da selva", "O novo livro da selva" - está sempre subjacente a superioridade do homem branco (inglês), bem como em "Kim", romance de referência.

 Prémio Nobel da Literatura em 1907, a ele se deve o célebre poema If que,  jovens, líamos com enlevo e certamente alguns de vocês encaixilharam lá no quarto onde estudavam. Se...isto, se aquilo... (exaltações moralistas, um manual de boas maneiras)...  cujo final apoteótico é

Yours is the Earth and everything that’s in it,  

    And—which is more—you’ll be a Man, my son!

 Se calhar vale a pena reler. Recordar é viver.

 John Huston (1906-1987) era um homem das Arábias. Filho de um dos grandes actores dos tempos de consolidação de Hollywood (Walter Huston), teve uma adolescência de estoira-vergas. Andou pelo México envolvido nos conflitos da guerra civil dos anos 20. Uns anos depois andou a absorver a cultura da Europa - Inglaterra, França. Com talento para a escrita e a representação, estacionou naturalmente em Hollywood, com o apoio do pai e seus amigos dos estúdios. Escreveu argumentos, foi actor e, quando chegou a sua vez aproveitou-a de mãos cheias. Em 1942, pegou no livro policial de Dashiell Hammett, "O Falcão de Malta" e entrou directamente pela porta grande de Hollywood. O filme chamou-se "Relíquia Macabra", com Humphrey Bogart a vestir a pele do detective Sam Spade. É um filme de culto, daqueles sempre à mão para rever com prazer.

 John Huston, que estava a criar uma imagem que não mais o abandonou - impulsivo, imprevisível, provocador - interrompeu uma carreira que praticamente não iniciara, para participar no esforço de guerra contra os nazis e os japoneses. A ele se devem três documentários filmados na Europa e no Pacífico, considerados importantes documentos históricos.

 Regressado a Hollywood, retomou uma carreira de realizador com muitos filmes brilhantes, outros assim-assim e outros "alimentares" meramente para pagar as contas elevadas de charutos e whisky. Já no fim da carreira fez patetices como "Annie" e " Fuga para a vitória", onde até entrava o Pelé e o Bobby Moore - quem gosta de futebol sabe quem eram.

 Mas isso não apaga o seu inquestionável lugar na história de Hollywood com filmes tão marcantes e incontornáveis como: "Quando a cidade dorme", "A rainha africana", "Moby Dick", "Os Inadaptados", "O Tesouro de Sierra Madre", "A Honra dos Padrinhos". Fiquemos por aqui, mas há mais uns títulos.

Além do mais ainda fazia com regularidade uma perninha como actor em filmes de outros. Só um caso de referência: "Chinatown" do Romain Polanski.

 Mais um dado importante para situar  John Huston do lado decente da história. Em 1947 foi, juntamente com  Humphrey Bogart, um dos mais activos e esclarecidos opositores às perseguições do senador McCarthy, excrescência fascista em Hollywood e na política americana.

Já agora, foi o pai da actriz da nossa geração Angelica Huston.

 Acompanhar aquele par de pequenos aldrabões, mas simpáticos, na procura do céu na terra é um prazer anunciado. Preparem-se porque a viagem é dura, mas bela. Além do mais, divertida.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...