Com Cate Blanchett, Rooney Mara
Um, dois, três. Primeiro foi
"O Desconhecido do Norte Expresso" via Hitchcock. Depois conhecemos o
perverso e amoral Tom Ripley em "O Talentoso Mr. Ripley". Agora
encontramo-nos com "Carol". Todos estes filmes têm como matéria-prima
base a escrita ficcional de Patricia Highsmith.
Após o sucesso espectacular com o
seu primeiro romance, precisamente "O Desconhecido do Norte
Expresso", superiormente alavancado pelo filme que o mestre Hitchcock dele
fez, Patricia Highsmith escreveu "The Price of Salt", editado em 1952.
Mas o processo foi enviesado. Um livro, com aquela história, com aquele
conteúdo (lesbianismo), não passava naqueles tempos sem graves consequências
reputacionais. Mesmo com a fama adquirida, do pé para a mão, ela não podia
espatifar sem mais nem menos a sua adquirida respeitabilidade no mundo das
letras.
Como mal menor, o livro foi
publicado por uma editora marginal, com autoria de uma tal Claire Morgan,
pseudónimo. Para grande surpresa da escritora e da editora foi grande sucesso
de mercado, consolidado durante anos, e ganhou o estatuto de obra de culto nos
meios homossexuais internacionais. Ainda que a sua autoria fosse mais ou menos
conhecida nos meios literários, só em 1990 o livro foi publicado com o nome de
Patricia Highsmith, ainda que com a mudança de título para "Carol". A
matriz da ficção e a personagem Carol, foram construídas a partir de uma
história real vivida, uns anos antes, pela autora com uma socialite.
Anos 50. Duas mulheres,
diferentes idades, backgrounds sociais e económicos distintos. Dois mundos,
duas vivências pouco miscíveis.
Carol (Cate Blanchett), uma
mulher madura, rica, sofisticada, com uma filha pequena, em processo de
divórcio. Casamento de aparências, na sociedade da alta burguesia de Nova
Iorque. Vem-se a saber que, naquele universo "normal", ela já tinha
traído o marido com outra mulher. Viviam na mesma casa, respeitando as regras
do jogo social, mas cada um para seu lado, aguardando as derivas judiciais.
Therese Belivet (Rooney Mara),
uma jovem empregada num grande armazém. Frequenta um grupo de malta nova, com
as preocupações políticas (era o tempo do anticomunismo alucinado do
mcCartismo), os prazeres e divertimentos normais da sua idade. Tinha um namorado
candidato a escritor, fascinado pela Europa. A ela fascinava-a a fotografia,
augurando um dia dar o salto para outro patamar. Sonhos de juventude.
Um encontro acidental no grande
armazém, departamento de brinquedos. Um comboio eléctrico de prenda de Natal
para a filha de Carol. Um esquecimento normal (ou provocado?).
O começo de uma relação entre duas mulheres fugindo da normalidade social, num
percurso de afirmação de Carol e de revelação de Therese. Da amizade ao amor,
muitos quilómetros percorridos de Nova Iorque para o Oeste, muitos motéis de
passagem. Algures no centro dos EUA (onde o conservadorismo é a normalidade) a
epifania erótica acontece. A cumplicidade tecida durante a viagem passa para
outro limiar. E agora?
A resistência interior (veja-se
como as duas mulheres são muitas vezes enquadradas, meio tapadas pelas portas e
janelas, como se estivessem a esconder-se do mundo ou à procura de um lugar
para elas), a pressão familiar (o marido tinha apresentado uma providência
cautelar para ficar com a custódia da filha), se calhar a descrença no futuro a
duas, leva Carol a abandonar a situação que ela desencadeara. "Eu
liberto-te" disse ela.
Demasiado requintada, demasiado
habituada a que lhe resolvessem os problemas, deixa à amiga (antiga parceira
sexual) a incumbência de resolver a separação. Retorno à normalidade. O noivo
de Therese reaparece, a casa é pintada (vão casar?) e ela até consegue entrar
no universo profissional da fotografia. Futuro convencional previsível. Ou não?
A última sequência (que tinha
sido a primeira sequência - efeito de flashback) ajuda a resolver a situação, a
clarificar opções, a forçar as consciências conservadoras e trogloditas. Aquele
plano final, com a câmara parada sobre Carol enuncia, promete, outra vida. É a
ruptura com o mundo antigo, o fim da hipocrisia. Como escreveu um crítico
literário sobre "Carol" - "The only lesbian novel with a happy
ending."
Patricia Highsmith num prólogo à
edição do livro, já sem o peso da contestação das boas consciências, escreveu
sobre aquele tempo e lugar: "Eram tempos em que os bares gay eram portas
escuras algures em Manhattan, e as pessoas que queriam ir a um certo bar saíam
na estação de metro antes ou depois da sua localização para não serem acusadas
de ser homossexuais."
O filme teve consagração
imediata. Foi considerado o melhor filme LGBT de todos os tempos. Foi candidato
a 6 Óscares, além de muitos outros prémios que foi recolhendo.
Já agora, prestem atenção à banda
sonora. Uma música belíssima, envolvente, com recorrência a uma melodia
delicada, um som a fazer lembrar a melhor música de Philip Glass. Carter
Burwell é o compositor, autor da maioria das bandas sonoras dos filmes dos irmãos
Coen, o que é um crédito adicional.
Quem pôs a história de Carol em
filme foi Todd Haynes. Cineasta com uma obra pouco extensa, mas com uma
identidade artística de valor. Realizador e produtor homossexual. Sem esconder
nada, como uma alma aberta.
É caracterizado pela sua grande
sensibilidade na exploração dos mundos interiores dos marginais e das mulheres,
bem como pelo seu fascinante mergulho nas questões do género e identidade.
Pioneiro do new queer cinema, em
Fevereiro passado foi o Presidente do Júri do Festival de Cinema de Berlim. É
um cineasta com uma obra estilisticamente versátil mas muito pessoal. Um dos
seus cineastas clássicos referência é o grande Douglas Sirk que já nos deu aqui
alguns momentos de prazer (e eventualmente umas lágrimas ao canto do olho) com
os seus melodramas.
A sua obra começou numa altura
catastrófica da nossa geração. A eclosão da sida como epidemia que nos obrigou
a repensar a fragilidade humana.
"Veneno" (1991) uma
ficção que se cruza com esse quadro apocalíptico, três histórias entrelaçadas,
a partir de Jean Genet.
Em 1998 fez " Velvet
Goldmine", o universo rock& roll pelo lado menos apelativo e mais
underground.
Em 2002 fez "Longe do
Paraíso", clara e assumida homenagem a Douglas Sirk, com Julianne Moore.
Já em 1995 tinha feito "Safe" e em 2023 fez "Segredos de um
Escândalo", também com a Julianne More, claramente a actriz fétiche do
Todd Haynes. Não é por acaso que ela faz de Bob Dylan (e a Cate Blanchett
também) num filme algo bizarro na proposta ficcional de transfigurar em seis
corpos o corpo do Bob Dylan em "Não estou aí" (2007).
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