Pois é nesse
grande universo que foi a Índia inglesa, o "Raj Britânico" (1858-1947) que se passa esta ficção. "Passagem para a Índia", o livro que
lhe deu origem, foi publicado em 1924 e foi o último romance de E. M. Forster.
Viveu até 1970 e escreveu muito, mas a sua escrita nunca mais se encontrou com
o romance. A sua obra ficcional foi capturada pelo cinema nos anos 80/90. Para
além deste filme, do hiper consagrado David Lean, outro realizador muito
interessante, James Ivory, apesar de americano, apropriou-se do espólio
ficcional muito british do escritor e fez três filmes muito interessantes:
"Quarto com vista sobre a cidade", "Regresso a Howards
End" e "Maurice".
Mas
"Passagem para a Índia" foi o único dos seus romances que tomou como
objecto primordial o Império Britânico, com uma leitura não muito positiva,
(apesar de amenizada pela versão fílmica). George Orwell, o autor de
"1984", que escreveu também sobre a guerra civil espanhola, fez um
magnífico romance sobre a hipocrisia dos ingleses no quadro colonial nos anos
30, a partir da sua própria experiência como jovem polícia - "Dias da
Birmânia".
Mas estes dois
autores foram excepção. A regra foi Rudyard Kipling (que até nasceu na Índia) e
foi o mais consagrado escritor daquele universo que os ingleses cultivaram
requintadamente. George Orwell escreveu dele o retrato exato: "o profeta
do imperialismo britânico". Já agora, a meio termo podemos lembrar o
Somerset Maugham que muito viveu e escreveu sobre aquele universo exótico e
arrogante das colónias inglesas do Pacífico.
Estamos
situados. Voltemos ao cerne da questão. O filme.
Nos anos 20,
ainda muito longe das ruturas (a independência da Índia ocorreu em 1947, com a
separação do território em dois países: a Índia e o Paquistão), duas mulheres
inglesas vão à Índia passar uma temporada. A mais velha (Peggy Ashcroft, grande
dama do teatro) para visitar o filho e a mais nova para com ele combinar o
casamento. Da sociedade inglesa, cheia de códigos, cânones e rituais sociais
para a sociedade indiana onde os códigos eram de outra ordem, mas nivelados
pela arrogância e prepotência inglesa...O choque cultural e vivencial é forte
(oriente é oriente), mas as duas mulheres eram de espírito aberto e muito
disponíveis para aceitar a diferença.
Conhecem um
jovem médico indiano (Victor Banerjee), a circular nas franjas dos ingleses,
servindo-os com subserviência. Aculturado, ocidentalizado, em última instância,
despersonalizado. Com ele empreendem uma aventura inimaginável. Exótica. Fora do controle da boa sociedade colonial.
Uma incursão pela "verdadeira Índia". Visita às grutas de Marabar.
Quase uma epopeia. O jovem médico faz o possível e o impossível para lhes
proporcionar uma aventura cultural com todo o luxo possível. Mas as coisas não
correm bem. Tudo é demasiado diferente. Estranho. São os ecos perturbadores nas
cavernas. A fuga. O pavor. O regresso à cidade marca o ponto de fronteira para
outra história. A partir de uma mentira. Nunca mais aquela sociedade será a
mesma.
Mas antes, uma
pequena deriva pela personagem feminina central (Judy Davis). A jovem inglesa
candidata a casamento (que obviamente não acontecerá). Sexualidade reprimida,
mas disponível mentalmente. As suas pulsões são erróneas. Claramente não sabe o
que quer. Mixed feelings de fascínio e repulsa quando encontra as ruínas de um
templo com múltiplas esculturas do universo do Kamasutra. Erroneamente
inebriada e com medo. Os macacos são os deuses da castidade? A cabeça em
delírio, com perguntas perversas e perturbadoras ao jovem médico nas grutas,
leva-a ao desvario. Alucinação. Acusa o indiano de estupro, violação. Mentira.
O processo
judicial é uma grande encenação da máquina colonial. Mas a verdade virá acima
com a assunção da contradição por parte da acusadora (mal menor), contra toda a
lógica do sistema. Escândalo. Como era possível que um reles indiano se safasse
à eficácia profissional do brilhante e distinto acusador?
Múltiplas
pistas de desenvolvimento. O jovem médico regressou à sua identidade de origem,
no traje, nas festas de rua, na afirmação do seu passado (os mongóis) e da sua
língua (urdu) de que muito se orgulhava. O espírito da independência mais
desperto. Certamente estará ao lado do Gandhi nos anos 40.
A jovem
regressa a Inglaterra para o expectável cinzentismo e ordem burguesa, com peso
na consciência, mas nunca foi perdoada.
Mais dois
personagens são dignos de referência neste tecido denso de situações e
sensibilidades. Fielding (James Fox), um inglês cheio de tarimba colonial, mas
sem acreditar já nos seus. Acredita no jovem médico indiano, e defende-o,
contra o seu próprio estatuto de privilégio. Notável. E, finalmente, Godbole um
excêntrico brâmane, casta sacerdotal, assim como que um filósofo das
evidências, tão ingénuo como divertido. Uma espécie de bobo para os colonos.
Mas com a sabedoria do fundo dos tempos. Alec Guinness faz um inesquecível
papel.
David Lean
terminou com este filme a sua obra, tão cheia de filmes que moldaram o nosso
imaginário ("A ponte do rio Kwai", "Lawrence da Arábia",
"Doutor Jivago"). Mas passaram 14 anos desde o falhanço comercial de
"A filha de Ryan". Vocês acham isso? Lembrem-se do gozo que tivemos
há uns meses, quando o vimos aqui. A vida tem muitas injustiças. E o business
do cinema também. "Passagem para a Índia" até teve Óscares. Melhor
música (Maurice Jarre) e melhor atriz secundária (Peggy Ashcroft).
E está tudo dito. Já é muito. Mas é só um poucochinho do muito que o filme nos dará. Vamos vê-lo, preparados para a longa jornada. Não esqueçam: são 3 horas, mais ou menos. Quem quiser traga lanche. Ou batatas fritas ou bolachas. Também podem ser umas chamuças ou outros acepipes indianos.
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