James M. Cain. Escritor de
policiais. Já o conhecemos através do Jack Nicholson e da Jessica Lange
em "O carteiro toca sempre duas vezes". Voltamos ao local do crime,
passe a analogia. Uma história perversamente simples, aliás com a mesma
estrutura matricial de "O carteiro toca sempre duas vezes". A
envolvente é que é diferente. O mesmo tempo (anos 30). Outras personagens.
Outro enredo. Mas o mesmo fim. Os deuses a fazer justiça pelos humanos. Nem foi
preciso a polícia.
1938. Walter (Fred MacMurray), um
corrector de seguros, com uma carreira estabilizada, dedicado e exemplar, é
seduzido por Phyllis (Barbara Stanwyck) - "femme fatale", madura,
bela e manipuladora - e convencido a matar o seu marido, de forma "encenada"
como se fora um acidente. Objectivo muito preciso - que o seu seguro de vida
(forjado) seja pago pelo dobro, 100 mil dólares, de acordo com o especificado
na apólice (na altura uma pipa de massa), e eles (amantes) passarem a beneficiar
dos prazeres associados.
Ele assassinou o marido e, em
conjunto, construíram o álibi. Aparentemente sólido, intocável.Tudo apontava
para resultar. Um plano perfeito, não fora o "faro" para fraudes do
director da companhia de seguros (Edward G. Robinson). Quando as expectativas
estavam no alto, o plano começa a inclinar-se.
O futuro radioso não acontece.
Tudo vai por água abaixo, ou se quisermos, tudo se dilui em sangue. A traição
da mulher põe o homem em guarda. A justiça acontece. Sem interferência de
terceiros. Ele mata-a, ela fere-o (ou mata-o?). De certeza não tem futuro. A
cadeira eléctrica espera-o. E, no entanto, era um tipo porreiro, como é vulgo
dizer-se.
Resta-lhe, no plano final, fumar
um cigarro, já sem a capacidade para o acender que foi exibindo artisticamente
ao longo da história. Fim do filme, metáfora óbvia - quem brinca com o fogo,
queima-se.
James M. Cain escreveu o livro em
1936, mas só foi publicado em 1943. "O carteiro toca sempre duas
vezes" foi publicado em 1934. Os factos foram retirados de um caso real,
acontecido em 1927. Os culpados foram condenados e executados na penitenciária
de Sing Sing.
Em flashback -
ditando para o magnetofone, uma mensagem para o seu chefe Keyes (Edward G.
Robinson), Fred faz a narrativa na primeira pessoa, concisa, seca, mordaz
- vamos acompanhado aquele duelo a três onde o cinismo impera e o calculismo
marca as relações. A ambição, quando desenfreada, seca toda a clarividência. A
mulher esconde de todos a sua alma perversa. Misoginia? Talvez.
O livro, tal como os outros de
James M. Cain, tinha linguagem, personagens e situações difíceis de enquadrar
nas restrições éticas e comportamentais do Código Hays, que durante décadas
condicionou ridiculamente o imaginário de Hollywood, risíveis no quadro
civilizacional do nosso tempo. Mas essas condicionantes não restringiram Billy
Wilder (1906-2002). Ele que tinha ludibriado o Hitler e a pandilha nazi, quando
se safou da sua Áustria natal para a América (1933), por que não enfrentar a
cretinice moral americana?
Pois o Billy Wilder, ainda com
poucos créditos acumulados em Hollywood, conseguiu pegar no projecto e, apesar
das restrições, levá-lo a bom termo. Ele, que era um argumentista talentoso,
conseguiu ter do estúdio a contribuição do Raymond Chandler (1888-1959), esse
grande escritor que criou no imaginário do nosso tempo a figura paradigmática
do detective - Philip Marlowe.
A dois - colaboração que ficou
registada nos anais da pequena história do cinema como complicada -
recriaram a ficção escrita, sem traírem o original, fizeram ajustamentos de
situações e diálogos no sentido de maior eficácia dramática e de contornar a
censura com inteligência. Se não podiam mostrar, sugeriam, induziam o
espectador por elipse (não vemos a morte do marido, ouvimo-la), omissão com
significação, isto é, mostrar e significar por via indirecta. E o argumento
acabou por passar pelas estreitas malhas da censura.
Com trunfos tão importantes como
uma história densa e dramática, actores de referência no star system (Barbara
Stanwyck como arquétipo da mulher fatal) e uma realização de grande qualidade e
eficácia, o filme foi um sucesso na altura. Com o tempo ganhou a patine do
classicismo. É um dos grandes filmes americanos dos anos 40. Já cheguei a ler
que é "o melhor filme negro jamais feito." Se calhar é um bocado
exagerado, mas evidencia que é um filme incontornável.
A propósito de actores, refira-se
que os dois actores principais se chamavam respectivamente Ruby Stevens
(Barbara Stanwyck) e Emanuel Goldenberg (Edward G. Robinson). No caso
dela porque era necessário encontrar um nome que fosse apelativo ao grande
público; no caso dele, porque um nome judeu não vendia (ironia, ou hipocrisia?:
os donos e os big bosses dos estúdios eram quase todos
judeus). A história do cinema americano tem centenas de casos destes.
Billy Wilder. Já muito falámos
deste grande realizador. Incontestavelmente faz parte do grupo de topo. Mas
antes de começar a realizar filmes em Hollywood (fez o primeiro em 1942) teve
uma carreira muito sólida e ascendente como argumentista. Em jovem tinha sido
jornalista. Mas já antes tinha dado provas como argumentista na Alemanha e em
França. Foi ele que escreveu em co-autoria o célebre filme
"Ninotchka", uma farsa arrasadora sobre o confronto
comunismo/capitalismo, do grande (outro incontornável) Ernest Lubitsch, com a
Greta Garbo, muito pouco tempo antes de se retirar do cinema muito
precocemente.
Depois, quando começou a realizar
fez uma carreira absolutamente genial. Só meia dúzia de filmes para além deste,
para comprovar: "Sunset Boulevard", "Stalag 17", "O
pecado mora ao lado", "Quanto mais quente melhor", "Irma la
Douce", "Fedora". E etc. Etc..
E os actores? Barbara Stanwyck
foi uma das divas de Hollywood, não propriamente pelos dotes de beleza, mas
pela sua qualidade superior como actriz. Começou no ponto fronteira entre o
mudo e o sonoro e filmou com os melhores realizadores - Frank Capra, Howard
Hawks, King Vidor, Fritz Lang, Anthony Mann e Samuel Fuller.
Fred MacMurray. Actor sólido e
consistente, este filme é um caso paradigmático dos seus atributos, fazendo um
papel de mau por equívoco, ele quase sempre o bom da fita. Mas foi um actor de
segunda linha. Começou no cinema mudo. Trabalhou com muitos mestres e fez
muitos filmes "comestíveis", alimentares, nomeadamente
"coboiadas".
Dizem os registos que era um bom
saxofonista.
O pequeno grande Edward G. Robinson. Foi um actor que veio do cinema mudo e ganhou o estatuto de estrela logo no início do sonoro, interpretando papéis de gangster e mau em filmes que ficaram na história do cinema. Também ele filmou com os melhores - Fritz Lang, John Huston, John Ford, Orson Welles, Joseph Mankiewicz.
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