Com Rock Hudson, Jane Wyman
Pode dizer-se que os filmes são como as cerejas, puxa-se por um e vêm outros atrás. Recordem. Em Pulp Fiction, do Tarantino, havia um "steak" Douglas Sirk. Bom pretexto para agarrarmos a oportunidade e viajar no tempo até ao ponto fronteira do início das nossas vidas. Sirk foi a essência do melodrama em Hollywood da década de 50. Depois de, fugido ao Hitler, ter feito variados filmes de variados géneros (era o quadro normal de Hollywood nesses tempos a que nem os melhores fugiam) Sirk encontrou a parceria privilegiada com um produtor dos estúdios Universal, Ross Hunter de seu nome.
Sirk, sofisticado, profundo conhecedor do teatro e da música nos palcos
do centro europeu. Hunter, o americano típico com o sentido do negócio. Filmes
para mulheres era a sua especialidade. E assim foi. Desse tandem resultou um
conjunto de obras-primas que só anos mais tarde iriam ser redescobertas e
incensadas. Mas lá iremos. Agora só estamos em Sublime Expiação.
História de aceitação/rejeição, culpa/expiação. Começa com um acidente
marítimo e termina num "milagre" médico. Entre estes dois momentos
determinantes passam anos, afastamentos e aproximações, equívocos e delírios. É
a história da ceguinha que dança sempre com os olhos fechados ao jeito da
literatura popular e das "soap operas".
Tudo se passa num mundo sofisticado, belo, com um toque
"kitsch", com a inverosimilhança a roçar perigosamente pela matriz
das situações. Mas quem se importa, se o que vemos tem uma espécie de sentido
religioso? Sim, há um anjo da guarda, um pintor que vai religando as partes
quando parece terem-se separado para sempre. Na verdade, ele é o demiurgo da
ficção.
Muito azul, cores excessivas, numa narrativa desvairada num mundo
etéreo, assumidamente antinaturalista. As cores exuberantes conjugam
admiravelmente com a música - assim uma espécie de pechisbeque romântico. E as
coisas resultam. Se nos descuidarmos um bocadinho, ficamos com uma lagrimazita
no canto do olho.
Uma boa síntese feita num texto da Cinematexa Portuguesa: "Eros
triunfa de Thanatos no contexto da mais óbvia manipulação das emoções dos
espectadores, na total inverosimilhanca de uma narrativa onírica e impossível.
Rock Hudson com este filme passou de mais um actor pau para toda a obra para vedeta de Hollywood (e naquele tempo as coisas funcionavam em grande). Curiosidade: a Jane Wyman, uma das grandes estrelas do firmamento cinematógrafo americano (já tinha tido um Óscar), era nesta altura casada com um dos grandes canastrões de Hollywood que, muito mais tarde, andou por aventuras mais sérias - Ronald Reagan.
Falar de Douglas Sirk é automaticamente falar de melodrama. Para nosso apoio,
para hoje e as próximas semanas, eis o que ele uma vez disse: "Creio que o
melodrama deve produzir sobretudo emoções e não ações. Mas a emoção é uma
espécie de ação. É uma ação no interior de uma pessoa."
Vamos alinhar no jogo proposto. Libertem as emoções. Podem trazer uns
lenços de papel. Para o que der e vier. Sem vergonha.
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