Duração: 159 min
América antes da Guerra Civil. Um caçador de recompensas, alemão, dentista; um escravo negro à procura da mulher entre as fazendas de algodão; um fazendeiro cruel, de maldades requintadas; um escravo negro racista (no sentido normal do sul). Está engatilhada uma história cheia de histórias. Tragicomédia. Entre o dramatismo e o hilariante. A beleza e o excesso gore (grande cena de sangue e tripas lá para a frente). O requinte dos serões sulistas a arremedar a Europa e a rasquice daquela gente esclavagista.
Oscar de melhor argumento em Hollywood para Tarantino. Está lá toda a
parafernália de sinais identitários do seu universo. A verossimilhança a roçar
pelo seu oposto (Samuel J. Jackson envelhecido a fazer de escravo anti-escravo.
Grande interpretação). Os flashback recorrentes para nos irmos
reposicionando no desenvolvimento da ficção. A risibilidade das citações da
cultura centro europeia e dos pândegos do Ku Klux Klan. O desajustamento entre
personagens e a sua envolvente (o caçador de recompensas, exímio pistoleiro sem
escrúpulos de qualquer ordem, é um requintado conhecedor da mitologia germânica
que alimentou tematicamente as obras de Wagner, cheio de escolástica e
dialética). Christoph Waltz brilhante. Podia utilizar-se para este filme uma
citação do grande e rotundo Hitchcock: "A lógica é aborrecida."
Mais uma vez o Tarantino pediu emprestados contributos à sua memória
cinéfila e às suas pancadas e fixações. Sergio Corbucci foi um de muitos
realizadores italianos que nos anos 60 e 70 fizeram ali em Espanha carradas de
filmes de 'cóbois', os western spaghetty como passaram para a
história. Pois o Tarantino tomou-se de amores pelos seus filmes e internalizou
algumas ideias. "Django" é o título de um desses filmes do Corbucci,
de 1966, onde ele foi beber. Franco Nero, um dos actores italianos de
referência na altura era o Django. Pois o nosso amigo homenageia-o,
convidando-o para fazer uma perninha no seu filme.
Já agora diga-se que ele, Tarantino, também lá aparece a fazer um papel
como mauzinho, mas resolve fazer justiça (o tal lado ético de que falámos nos
filmes anteriores) e acabar consigo num grande arraial pirotécnico. Digno de
ver-se. Depois disso, finalmente, o casal negro reencontrado pode fugir. Do
ecrã foge, mas para onde? São escravos e negros, lembrem-se.
A ficção fica sempre em défice face à realidade. Mas é a vida. Criemos prazer com o que temos. Hoje e agora é só um filme. Um grande filme.
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