30 outubro 2024

Passagem para a Índia - David Lean (1984)

Com Farley Granger, Allida Valli
Duração: 122 min

O Reino Unido tem tido uma resistência hipócrita em reconhecer a violência e perversão do seu passado colonial. A história do lmpério Britânico está cheia de sangue, fede de porcaria. O racismo incontestável e assumido. A justiça uma aldrabice. A separação entre os locais e os colonizadores era a forma normal de impor a superioridade britânica. A arrogância institucional era exasperante num mundo fechado sobre si - os clubes, o chá das cinco, o polo, o críquete...O que é mais espantoso é que os ingleses, apesar do ajustamento obrigatório aos ventos da história mundial a partir dos anos 50, ainda continuam, com a cumplicidade dos antigos colonizados (é de espantar), a alimentar esse passado com os encontros rituais da Commonwealth e os beijinhos e abraços ao reizinho inglês.

Pois é nesse grande universo que foi a Índia inglesa, o "Raj Britânico" (1858-1947) que se passa esta ficção. "Passagem para a Índia", o livro que lhe deu origem, foi publicado em 1924 e foi o último romance de E. M. Forster. Viveu até 1970 e escreveu muito, mas a sua escrita nunca mais se encontrou com o romance. A sua obra ficcional foi capturada pelo cinema nos anos 80/90. Para além deste filme, do hiper consagrado David Lean, outro realizador muito interessante, James Ivory, apesar de americano, apropriou-se do espólio ficcional muito british do escritor e fez três filmes muito interessantes: "Quarto com vista sobre a cidade", "Regresso a Howards End" e "Maurice".

Mas "Passagem para a Índia" foi o único dos seus romances que tomou como objecto primordial o Império Britânico, com uma leitura não muito positiva, (apesar de amenizada pela versão fílmica). George Orwell, o autor de "1984", que escreveu também sobre a guerra civil espanhola, fez um magnífico romance sobre a hipocrisia dos ingleses no quadro colonial nos anos 30, a partir da sua própria experiência como jovem polícia - "Dias da Birmânia".

Mas estes dois autores foram excepção. A regra foi Rudyard Kipling (que até nasceu na Índia) e foi o mais consagrado escritor daquele universo que os ingleses cultivaram requintadamente. George Orwell escreveu dele o retrato exato: "o profeta do imperialismo britânico". Já agora, a meio termo podemos lembrar o Somerset Maugham que muito viveu e escreveu sobre aquele universo exótico e arrogante das colónias inglesas do Pacífico.

Estamos situados. Voltemos ao cerne da questão. O filme.

Nos anos 20, ainda muito longe das ruturas (a independência da Índia ocorreu em 1947, com a separação do território em dois países: a Índia e o Paquistão), duas mulheres inglesas vão à Índia passar uma temporada. A mais velha (Peggy Ashcroft, grande dama do teatro) para visitar o filho e a mais nova para com ele combinar o casamento. Da sociedade inglesa, cheia de códigos, cânones e rituais sociais para a sociedade indiana onde os códigos eram de outra ordem, mas nivelados pela arrogância e prepotência inglesa...O choque cultural e vivencial é forte (oriente é oriente), mas as duas mulheres eram de espírito aberto e muito disponíveis para aceitar a diferença.

Conhecem um jovem médico indiano (Victor Banerjee), a circular nas franjas dos ingleses, servindo-os com subserviência. Aculturado, ocidentalizado, em última instância, despersonalizado. Com ele empreendem uma aventura inimaginável. Exótica.  Fora do controle da boa sociedade colonial. Uma incursão pela "verdadeira Índia". Visita às grutas de Marabar. Quase uma epopeia. O jovem médico faz o possível e o impossível para lhes proporcionar uma aventura cultural com todo o luxo possível. Mas as coisas não correm bem. Tudo é demasiado diferente. Estranho. São os ecos perturbadores nas cavernas. A fuga. O pavor. O regresso à cidade marca o ponto de fronteira para outra história. A partir de uma mentira. Nunca mais aquela sociedade será a mesma.

Mas antes, uma pequena deriva pela personagem feminina central (Judy Davis). A jovem inglesa candidata a casamento (que obviamente não acontecerá). Sexualidade reprimida, mas disponível mentalmente. As suas pulsões são erróneas. Claramente não sabe o que quer. Mixed feelings de fascínio e repulsa quando encontra as ruínas de um templo com múltiplas esculturas do universo do Kamasutra. Erroneamente inebriada e com medo. Os macacos são os deuses da castidade? A cabeça em delírio, com perguntas perversas e perturbadoras ao jovem médico nas grutas, leva-a ao desvario. Alucinação. Acusa o indiano de estupro, violação. Mentira.

O processo judicial é uma grande encenação da máquina colonial. Mas a verdade virá acima com a assunção da contradição por parte da acusadora (mal menor), contra toda a lógica do sistema. Escândalo. Como era possível que um reles indiano se safasse à eficácia profissional do brilhante e distinto acusador?

Múltiplas pistas de desenvolvimento. O jovem médico regressou à sua identidade de origem, no traje, nas festas de rua, na afirmação do seu passado (os mongóis) e da sua língua (urdu) de que muito se orgulhava. O espírito da independência mais desperto. Certamente estará ao lado do Gandhi nos anos 40.

A jovem regressa a Inglaterra para o expectável cinzentismo e ordem burguesa, com peso na consciência, mas nunca foi perdoada.

Mais dois personagens são dignos de referência neste tecido denso de situações e sensibilidades. Fielding (James Fox), um inglês cheio de tarimba colonial, mas sem acreditar já nos seus. Acredita no jovem médico indiano, e defende-o, contra o seu próprio estatuto de privilégio. Notável. E, finalmente, Godbole um excêntrico brâmane, casta sacerdotal, assim como que um filósofo das evidências, tão ingénuo como divertido. Uma espécie de bobo para os colonos. Mas com a sabedoria do fundo dos tempos. Alec Guinness faz um inesquecível papel.

David Lean terminou com este filme a sua obra, tão cheia de filmes que moldaram o nosso imaginário ("A ponte do rio Kwai", "Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago"). Mas passaram 14 anos desde o falhanço comercial de "A filha de Ryan". Vocês acham isso? Lembrem-se do gozo que tivemos há uns meses, quando o vimos aqui. A vida tem muitas injustiças. E o business do cinema também. "Passagem para a Índia" até teve Óscares. Melhor música (Maurice Jarre) e melhor atriz secundária (Peggy Ashcroft).

E está tudo dito. Já é muito. Mas é só um poucochinho do muito que o filme nos dará. Vamos vê-lo, preparados para a longa jornada. Não esqueçam: são 3 horas, mais ou menos. Quem quiser traga lanche. Ou batatas fritas ou bolachas. Também podem ser umas chamuças ou outros acepipes indianos.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...