"Johnny Guitar" - Nicholas Ray. C/Joan Crawford, Mercedes McCambridge, Sterling Hayden, Ward Bond. 110 M. 1954.
Johnny - How many men have you forgotten?
Vienna - As many women as you remember.
J - Don't go away...
V - I haven't moved.
J - Tell me something nice.
V - Sure. What do you want to hear?
J - Lie to me. Tell me all these years you have waited, tell me.
V - All these years I have waited.
J - Tell me you would have died if I hadn't come back.
V - I would have died if you hadn't come back.
J - Tell me you still love me like I love you.
V - I still love you like you love me."
Passaram cinco anos. Vienna e Johnny, antigos amantes, reencontram-se no saloon dela. A amargura do passado - as mágoas e as dores - está reflectida no diálogo. Agora há um problema a resolver com os outros. Haverá ainda lugar para o amor?
Nicholas Ray (1911-1979). Cineasta americano. Opus 9. O primeiro filme, "Filhos da Noite", tinha-o feito em 1949 e não é nada de deitar para o lixo da memória. Depois ainda fez mais 13 filmes, até 1963. Intelectual assumidamente liberal, teve problemas com o poder. Andou pela área da música, conviveu com "perigosos esquerdistas" como os músicos Woody Guthrie, Pete Seeger e Leadbelly. Chegou a ser considerado pelo FBI como um "perigo potencial ". Os estúdios foram-lhe cortando as vazas, envolveu-se em diferentes projectos e todos falharam. Veio para a Europa e nada de especial aconteceu. De volta aos EUA, tornou-se professor de cinema.
No fim da sua vida, dizimado por um cancro terminal, Wim Wenders, admirador confesso, fez com ele um filme meio documental, meio ficcional - "Lightning over water" (1980). Já não viveu o tempo suficiente para vê-lo. Já em 1977 tinha entrado em "O Amigo Americano" (uma das aventuras do Ripley da Patricia Highsmith) do cineasta alemão, fazendo uma perninha como actor.
Ao longo da sua actividade realizou um conjunto de filmes de referência, para além de "Filhos da Noite". Só alguns: "O Crime não compensa" (1949) com Humphrey Bogart, ""Matar ou não Matar " (1950), igualmente com Bogart, "Fúria de Viver " (1955), com James Dean, "Cruel Vitória " (1957), "A Floresta Interdita" (1958), já aqui vimos.
"Johnny Guitar ". Arizona. Meio do século XIX. Os caminhos-de-ferro a abrir o espaço amplo e virgem da América à civilização do leste. Conflitos de interesses e de grupos. A confusão indistinta entre a lei e o poder. A lei do poder a fazer de lei.
Vienna (Joan Crawford), uma mulher madura, com requintes vivenciais, dona de um saloon na envolvente de uma prevista linha de comboio. Alimenta o sonho de criar aí uma cidade, enriquecer. Obstinada. Uma mulher forte entre homens, em conflito com Emma (Mercedes McCambridge) e com o xerife local.
Emma, outra mulher forte, filha de um grande fazendeiro, solteirona, condutora de homens, com interesses antagónicos. Algo histérica, é inimiga mortal de Vienna, a quem acusa de ter morto o seu irmão e de proteger "Dancing Kid", um marginal, por quem ela tem uma paixão violenta mas inconfessável. Este ama Vienna e vive isolado com os seus capangas. Desencontros afectivos. Conflitos sanguíneos. Neurose.
Enlouquecida pelo desejo frustrado, Emma, vestida de negro, vingativa, sedenta de sangue, alicia uma multidão com a cumplicidade do xerife para incendiar o saloon e enforcar "Dancing Kid" e Vienna.
Vienna, perante a situação de violência que a cerca e ameaça (primeiro querem expulsá-la do bar, o centro da sua vida; depois querem enforcá-la), apela a Johnny Guitar, ex-pistoleiro e ex-amante. Com um passado complicado (foge-lhe a mão para o revólver), desapareceu há cinco anos (nunca percebemos por que foi embora) e regressa convertido em músico ambulante, trovador.
Entre mal-entendidos, equívocos e traições, o conflito vai-se aprofundando num jogo ritualizado entre as duas partes.
A discórdia feminina é resolvida radicalmente num duelo entre Vienna e Emma. Duas mulheres, inversão das convenções do género. Vienna venceu. E o amor volta a acontecer.
Naqueles tempos exultantes dos estúdios da Hollywood dos anos 50, o consumo do mercado absorvia a multiplicidade e diversidade de produções cinematográficas e até havia lugar para os pequenos estúdios. Foi o caso deste filme. Uma história a priori semelhante a muitas outras histórias que alimentavam o "western", género cinematográfico geneticamente americano.
Joan Crawford - uma das maiores estrelas do cinema mudo dos anos 20 e 30 - comprou os direitos de autor do livro com o mesmo título e colocou o projecto num pequeno estúdio, "Republic Pictures", especializado em filmes B, apelativos, rápidos e baratos.
Nicholas Ray foi o mestre que pôs em ordem a máquina. Joan Crawford (dona dos direitos do livro) atribuiu-se obviamente o papel marcante da amante abandonada, que vive uma vida fora do tempo e do lugar.
O resto veio por acréscimo. Actores experientes (alguns do clã fordista, John Ford, entenda-se), argumento bem engendrado a partir do romance original, música à maneira, com uma banda sonora com efeitos de redundância dramática (a canção-título pela Peggy Lee, uma das divas da música na América).
O resultado foi surpreendente. Nicholas Ray transmutou um argumento banal num quadro barroco, operático, excessivo. Cores garridas, vibrantes, fortes, e deliberadamente falsas. Décors espantosos, como o casino ou a cascata. Um delírio romântico, servido por sublimes e poéticos diálogos. Com o tempo o filme ganhou o estatuto de cult movie.
Como escreveu João Bénard da Costa, muitos anos Director da Cinemateca - o gongórico e ditirâmbico cultor do filme ("o meu filme de cabeceira", "o meu filme mais amado", "só vi 'Johnny Guitar' 68 vezes entre 1957 e 1988" - ele desapareceu em 2009, imagine-se quantas mais vezes o viu) - "Johnny Guitar" é "tecnicamente um western, cenário de western e narrativa de western. Depois é um labirinto emocional que dinamita o género".
Noutro contexto JBC escreveu: " Como as maiores obras, "Johnny Guitar" não se explica. Conta-se (vê-se) outra, outra e outra vez, como as histórias que se contam às crianças, até que tudo se saiba de cor e se aprenda que tudo está nelas. É a "Imitação de Cristo" dos cinéfilos. Basta abrir-se ao acaso e encontra-se a prece certa."
Martin Scorsese também não foi modesto: "0 público americano da época não sabia o que pensar do filme. O público europeu viu Johnny Guitar pelo que ele era - um filme intenso, não convencional e estilizado, cheio de ambiguidades e sub-textos que o tornaram extremamente moderno."
Que todos consigam tirar do filme o que ele tem para dar. Prazer absoluto. Visual e espiritual.
Em memória de João Bénard da Costa, para quem o cinema era o vício. Um bom vício.

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