Com John Wray, Slim Summerville
Intróito: Uma
história pessoal de 1970 ou 1971, por aí. Eu, um jovem intelectualmente
curioso, era frequentador habitual da Biblioteca Itinerante da Fundação
Calouste Gulbenkian. O bibliotecário (um poeta), ia percebendo os meus
interesses e curiosidade e começou a passar-me para as mãos livros que ele
considerava especiais (o teatro do Bertolt Brecht, por exemplo, mas ainda era
cedo demais; uns anos depois lá voltaria e até com prazer redobrado -
Mário Viegas a fazer o "Baal" foi um must).
Foi assim que
me chegou o livro "A Oeste Nada de Novo" de Erich Maria Remarque.
Lembro-me que o li de um fôlego, que fiquei muito impressionado e... prometi a
mim mesmo que fugiria à tropa se fosse mobilizado para o que agora chamamos
guerra colonial. Felizmente para mim, o 25 de Abril resolveu a minha angústia.
Erich
Maria Remarque, jovem alemão, esteve lá, na frente da I Guerra Mundial, na
loucura das trincheiras, dos bombardeamentos, dos gases, das cargas de
baioneta, da carnificina, da insanidade de um lado e do outro. E sobreviveu. A
partir das memórias da sua experiência, publicou em 1928 um romance, que se
transformou num grande sucesso editorial com impacto na consciência de muita
gente. Um eloquente manifesto pacifista, anti bélico. Obviamente, uns anos
depois o livro foi banido pelos nazis, queimado em fogueiras públicas e o
autor perseguido e acusado de anti patriotismo.
Hollywood,
que por essa altura já funcionava em pleno como uma espantosa máquina de
fabricar sonhos, não perdeu a oportunidade, ainda que, no caso, se tratasse de
um pesadelo. Comprou os direitos de autor e pôs cá fora o filme logo em 1930. E
que filme!
A
matriz ficcional é quase minimalista. Jovens estudantes alemães doutrinados
pelos professores para se alistarem no exército, atitude nacionalista de
exaltação da identidade e do orgulho alemães. A pátria, a honra, os heróis.
Um conjunto
de amigos, colegas da escola, vai para a frente de guerra à procura da glória e
da heroicidade.
Ao
entusiasmo adolescente, permeado com humor e galhofa, segue-se gradualmente a
evidência dramática do absurdo da guerra. Carne para canhão, acorrentada pelas
peias disciplinares do militarismo, gradualmente o grupo vai desaparecendo. A
morte estava à espreita a todas as horas e em todas as circunstâncias. A
prosápia do voluntarismo rapidamente cede lugar à depressão e à loucura.
Paul é o
jovem que acompanhamos no vaivém pelo pesadelo e na sua descoberta da
hipocrisia da guerra. Não se safou. Praticamente quando o Armistício estava
para ser anunciado, foi apanhado. A sua juvenilidade veio ao de cima. Em
vigília na trincheira, foi desperto por uma borboleta (como aquelas que ele
tinha encaixilhadas em casa no seu quarto) no exterior. Ao procurar
contemplá-la, com a atenção despreocupada das crianças, ficou desprotegido e
foi apanhado por um atirador aliado. No plano final, o seu braço, apontando
para nós (ou para o vazio?), é como que a acusação de uma culpa colectiva:
foram vocês que conduziram a isto.
Mas o homem
não tem vergonha. Menos de vinte anos depois, tudo voltou ao mesmo. E,
infelizmente, vai continuar.
Erich Maria
Remarque (1898-1970) foi um escritor, dramaturgo e argumentista nascido na
Alemanha. Apesar de ter dado com os costados na I Guerra Mundial, onde foi
ferido, teve que fugir aos nazis perseguido pelo Goebbels. Safou-se para a
América em 1939. Não se pode dizer que foi escritor de uma obra só, mas "A
Oeste Nada de Novo" teve um brutal efeito identitário e de sucção.
Escreveu outros romances relativamente bem considerados pela crítica, mas será
sempre o autor daquele livro especial.
Em Portugal
há um leque de traduções de outros livros dele, inclusivamente um que reflecte
a experiência pessoal da sua fuga para a América : "Uma noite em
Lisboa".
Lewis
Milestone (1895-1980), um bem sonante nome anglo-saxónico, foi capa do nome
judaico (Lev Milstein) com que nasceu perto de Odessa, Ucrânia, filho de um
empresário têxtil judeu. Boa educação juvenil no centro da Europa (Alemanha) e
deriva para os EUA antes do início da guerra. Fuga à loucura suicidária
europeia, procura do sonho americano. Vida de esquemas e subsistência e volta à
Europa (1917) já integrado no exército americano - unidade de fotografia do
Signal Corps (especialização em sistemas de comunicação e informação) - a sua
"universidade" de cinema. Quando regressa procura o sonho de
Hollywood. Nós primeiros anos foi pau para toda a obra. Escreveu argumentos,
foi montador, assistente de realização e, finalmente, realizador. O sucesso
bateu-lhe à porta com "Dois cavaleiros árabes" em 1927, que ganhou o
Oscar, no primeiro ano da sua atribuição, ainda cinema mudo. Passados três anos
foi "A Oeste Nada de Novo". Foi o seu primeiro filme sonoro.
Novamente
a consagração. Teve o Óscar de melhor filme e melhor realizador. Depois foi uma
longa carreira até ao início dos anos 60, dentro do sistema dos estúdios e com
extensão à televisão. Nunca atingiu o apogeu daquele filme (o mesmo aconteceu
com o escritor), mas fez alguns outros referenciados pelos historiadores e
cinéfilos, nomeadamente "O general morreu ao amanhecer" (aventuras na
China antes de Mao), "Carícia fatal", a partir de "Of Mice and
Man" de John Steinbeck, "A Primeira Página" (uma história
sobre o poder da imprensa; Billy Wilder fez em 1974 uma outra versão muito
boa), "Um passeio ao sol" (II Guerra Mundial), "Revolta na
Bounty" (o ego do Marlon Brando a fazer mossa, segundo as crónicas da
altura)
Uma pequena
história edificante: durante as filmagens, o produtor Carl Laemmle Jr., big
boss do estúdio Universal ( "criou" o género horror com os filmes de
Drácula, Frankenstein e outros monstros) manifestou um peculiar sentido de
humor quando sugeriu um happy ending para o filme. Em resposta, Milestone telefonou-lhe:
"I've got your happy ending. We'll let the Germans win the
war."
Só
ridicularizando a ideia era possível responder de uma forma decente como fez
Milestone. Mas a história de Hollywood está cheia de situações em que a verdade
histórica é invertida, estropiada, amarfanhada, assassinada... sempre as
razões de mercado a mandar.
Business is business. Ética?
Bulshit.