25 janeiro 2025

A oeste nada de novo - Lewis Milestone (1930)


Com John Wray, Slim Summerville
Duração: 128 min

Intróito: Uma história pessoal de 1970 ou 1971, por aí. Eu, um jovem intelectualmente curioso, era frequentador habitual da Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian. O bibliotecário (um poeta), ia percebendo os meus interesses e curiosidade e começou a passar-me para as mãos livros que ele considerava especiais (o teatro do Bertolt Brecht, por exemplo, mas ainda era cedo demais; uns anos depois lá voltaria e até com prazer redobrado -  Mário Viegas a fazer o "Baal" foi um must).

Foi assim que me chegou o livro "A Oeste Nada de Novo" de Erich Maria Remarque. Lembro-me que o li de um fôlego, que fiquei muito impressionado e... prometi a mim mesmo que fugiria à tropa se fosse mobilizado para o que agora chamamos guerra colonial. Felizmente para mim, o 25 de Abril resolveu a minha angústia.

 Erich Maria Remarque, jovem alemão, esteve lá, na frente da I Guerra Mundial, na loucura das trincheiras, dos bombardeamentos, dos gases, das cargas de baioneta, da carnificina, da insanidade de um lado e do outro. E sobreviveu. A partir das memórias da sua experiência, publicou em 1928 um romance, que se transformou num grande sucesso editorial com impacto na consciência de muita gente. Um eloquente manifesto pacifista, anti bélico. Obviamente, uns anos depois o livro foi banido pelos nazis, queimado em fogueiras públicas  e o autor perseguido e acusado de anti patriotismo.

 Hollywood, que por essa altura já funcionava em pleno como uma espantosa máquina de fabricar sonhos, não perdeu a oportunidade, ainda que, no caso, se tratasse de um pesadelo. Comprou os direitos de autor e pôs cá fora o filme logo em 1930. E que filme!

 A matriz ficcional é quase minimalista. Jovens estudantes alemães doutrinados pelos professores para se alistarem no exército, atitude nacionalista de exaltação da identidade e do orgulho alemães. A pátria, a honra, os heróis.

Um conjunto de amigos, colegas da escola, vai para a frente de guerra à procura da glória e da heroicidade.

 Ao entusiasmo adolescente, permeado com humor e galhofa, segue-se gradualmente a evidência dramática do absurdo da guerra. Carne para canhão, acorrentada pelas peias disciplinares do militarismo, gradualmente o grupo vai desaparecendo. A morte estava à espreita a todas as horas e em todas as  circunstâncias. A prosápia do voluntarismo rapidamente cede lugar à depressão e à loucura.

Paul é o jovem que acompanhamos no vaivém pelo pesadelo e na sua descoberta da hipocrisia da guerra. Não se safou. Praticamente quando o Armistício estava para ser anunciado, foi apanhado. A sua juvenilidade veio ao de cima. Em vigília na trincheira, foi desperto por uma borboleta (como aquelas que ele tinha encaixilhadas em casa no seu quarto) no exterior. Ao procurar contemplá-la, com a atenção despreocupada das crianças, ficou desprotegido e foi apanhado por um atirador aliado. No plano final, o seu braço, apontando para nós (ou para o vazio?), é como que a acusação de uma culpa colectiva: foram vocês que conduziram a isto.

Mas o homem não tem vergonha. Menos de vinte anos depois, tudo voltou ao mesmo. E, infelizmente, vai continuar.

Erich Maria Remarque (1898-1970) foi um escritor, dramaturgo e argumentista nascido na Alemanha. Apesar de ter dado com os costados na I Guerra Mundial, onde foi ferido, teve que fugir aos nazis perseguido pelo Goebbels. Safou-se para a América em 1939. Não se pode dizer que foi escritor de uma obra só, mas "A Oeste Nada de Novo" teve um brutal efeito identitário e de sucção. Escreveu outros romances relativamente bem considerados pela crítica, mas será sempre o autor daquele livro especial.

Em Portugal há um leque de traduções de outros livros dele, inclusivamente um que reflecte a experiência pessoal da sua fuga para a América : "Uma noite em Lisboa".

 Lewis Milestone (1895-1980), um bem sonante nome anglo-saxónico, foi capa do nome judaico (Lev Milstein) com que nasceu perto de Odessa, Ucrânia, filho de um empresário têxtil judeu. Boa educação juvenil no centro da Europa (Alemanha) e deriva para os EUA antes do início da guerra. Fuga à loucura suicidária europeia, procura do sonho americano. Vida de esquemas e subsistência e volta à Europa (1917) já integrado no exército americano - unidade de fotografia do Signal Corps (especialização em sistemas de comunicação e informação) - a sua "universidade" de cinema. Quando regressa procura o sonho de Hollywood. Nós primeiros anos foi pau para toda a obra. Escreveu argumentos, foi montador, assistente de realização e, finalmente, realizador. O sucesso bateu-lhe à porta com "Dois cavaleiros árabes" em 1927, que ganhou o Oscar, no primeiro ano da sua atribuição, ainda cinema mudo. Passados três anos foi "A Oeste Nada de Novo". Foi o seu primeiro filme sonoro.

 Novamente a consagração. Teve o Óscar de melhor filme e melhor realizador. Depois foi uma longa carreira até ao início dos anos 60, dentro do sistema dos estúdios e com extensão à televisão. Nunca atingiu o apogeu daquele filme (o mesmo aconteceu com o escritor), mas fez alguns outros referenciados pelos historiadores e cinéfilos, nomeadamente "O general morreu ao amanhecer" (aventuras na China antes de Mao), "Carícia fatal", a partir de "Of Mice and Man" de John Steinbeck,  "A Primeira Página" (uma história sobre o poder da imprensa; Billy Wilder fez em 1974 uma outra versão muito boa), "Um passeio ao sol" (II Guerra Mundial), "Revolta na Bounty" (o ego do Marlon Brando a fazer mossa, segundo as crónicas da altura)

Uma pequena história edificante: durante as filmagens, o produtor Carl Laemmle Jr., big boss do estúdio Universal ( "criou" o género horror com os filmes de Drácula, Frankenstein e outros monstros) manifestou um peculiar sentido de humor quando sugeriu um happy ending para o filme. Em resposta, Milestone telefonou-lhe:  "I've got your happy ending. We'll let the Germans win the war."

 Só ridicularizando a ideia era possível responder de uma forma decente como fez Milestone. Mas a história de Hollywood está cheia de situações em que a verdade histórica é invertida,  estropiada, amarfanhada, assassinada... sempre as razões de mercado a mandar.

Business is business. Ética? Bulshit.

03 janeiro 2025

Santa Joana - Otto Preminger (1957)

Com Jean Seberg, Richard Widmark, John Gielgud
Duração: 1h50m

Dois escritores e um realizador para Joana d'Arc, heroína, mártir e santa - foi isso tudo em dezanove anos de vida. É o que fica para a História.

Vamos primeiro aos artistas (terrenos) e depois subimos de patamar (projectados pelas chamas da fogueira) para as alturas celestes.

George Bernard Shaw (1856-1950). Irlandês. Foi romancista, contista, ensaísta e dramaturgo. Prémio Nobel da Literatura em 1925, mas a passagem do tempo enferrujou a sua escrita. Salvam-se provavelmente as peças de teatro. Acontece. Espírito irreverente e inconformista.

Ao contrário de Rudyard Kipling ("O homem que queria ser rei"), seu contemporâneo, foi um homem de esquerda, socialista e um agitador, contra o establishment inglês, comprometido e militante de causas sociais - a desqualificação social e política das mulheres, a exploração aviltante do trabalho infantil, os abusos sobre as classes trabalhadoras...(lembremos que ele nasceu na segunda metade do século XIX, auge da Revolução Industrial).

Pois uma das peças de teatro que lhe deu projecção foi "Santa Joana", de 1923, em que ele, membro da elite intelectual do Império Britânico, escolheu a heroína francesa, Joana d'Arc, para seu sujeito. Ironia. Contradições, tanto mais fortes quanto aborda um quadro histórico em que os franceses vencem os ingleses (Guerra dos Cem Anos).

Outra peça de teatro da sua autoria - "Pygmalion" - foi passada a filme e, em 1938, ganhou um Oscar. Passados vinte e tal anos voltaria a ser adaptada ao cinema e deu origem a "My Fair Lady" de George Cukor, certamente de boas lembranças para muitos de vocês. Em 1965 ganhou só 8 Óscares.

 A partir do texto original de George Bernard Shaw,  o trabalho de outro escritor, Graham Greene, que nos deixou alguns livros tão brilhantes como amargos, onde o sentido ético atravessava as ficções, cruzado com  as grandes interrogações religiosas sobre a vida, a existência, os grandes dilemas morais e espirituais. Foi um autor prolífico, com muitas histórias ecoando a sua vivência pessoal no contexto do Império Britânico - pertenceu aos serviços secretos. E se tivesse tido o Prémio Nobel era capaz de ser mais justo do que a atribuição a George Bernard Shaw.

Títulos como "O poder e a glória", "O nosso agente em Havana", "O factor humano", "A inocência e o pecado" e "O americano tranquilo" deram-lhe fama e segurança. Muitos desses livros deram origem a filmes, alguns importantes como é o caso de "O terceiro homem", com o Orson Welles, que já aqui vimos.

Pois Graham Greene também andou por Hollywood como argumentista. Aqui, a partir da peça de teatro, reescreveu a ficção com algumas condensações e reformulações do texto original, usual na passagem da escrita teatral para a cinematográfica.

Quem deu consistência a tudo foi Otto Preminger, realizador americano, mas nascido na Áustria (1905-1986). Um cineasta de muitos filmes e bastantes sucessos, sendo dos primeiros realizadores a desafiar com sucesso o Código Hays (a cartilha de bons costumes e hipocrisia auto-infligida pelos Estúdios de Hollywood).

Ousou abordar temas tabu como racismo (fez dois filmes com histórias e elenco negro - "Porgy and Bess" e "Carmem Jones"), a homossexualidade e a toxicodependência ("O homem do braço de ouro", com Frank Sinatra, um baterista "agarrado" pela heroína).

O último filme que ele fez foi a partir de um livro do Graham Greene - "O factor humano".

Joana D'Arc foi, ao longo do tempo, objecto de algumas ficções cinematográficas de que é fundamental salientar, pelo menos, duas  que fazem parte da história do cinema.

"A paixão de Joana d'Arc" (1928) de Carl Dreyer, ainda mudo, é uma obra-prima incontestável, absoluta, da história do cinema.

"O processo de Joana d'Arc" (1962) de Robert Bresson, francês, um homem de fé, católico jansenista, cujos temas da maioria dos seus filmes passavam pelo pecado original, o mal, a predestinação, a redenção, a graça divina.

Em 1954, Roberto Rossellini também abordou a religiosidade da Joana d'Arc com Ingrid Bergman na pele da heroína, num filme que fez a partir de uma encenação teatral.

Pode dizer-se que Otto Preminger foi demasiado respeitador do texto e da retórica teatral, com a acção a desenvolver-se em longos flashbacks. Mas, nessa altura, eram as regras. Nos anos 40/50 Lawrence Olivier passou para o ecrã "Hamlet", "Henrique V" e "Ricardo III", de Shakespeare, com a mesma artificialidade respeitadora do texto e só lhe devemos agradecer.

A essência da ficção é criada a partir dos registos da História. França. Joana nasce em Domrémy, em 1412, numa família camponesa. Tem uma vida de austeridade, contemplação e devoção a Deus. Rapariga embrenhada em profundo misticismo, ouve vozes, acaba a comandar o exército de França, em assumida missão divina, com várias vitórias sobre os ingleses, que tinham invadido França em 1420.

Recupera Reims onde o rei francês - Carlos VII (O Delfim),  um pateta, imbecil, uma espécie de bobo - foi coroado, como era uso. Quando tudo parecia que o papel da jovem na História estava acabado em glória, começa a tragédia dela. Tão religiosa, tão temente a Deus, ela que tinha cumprido heroicamente uma missão divina em benefício da França.

Aprisionada por clérigos favoráveis aos ingleses, foi completamente triturada pela máquina religiosa, conduzida pelo bispo Pierre Cauchon. Acusada, entre outras coisas, de bruxaria e heresia, foi queimada na praça pública a 30 de Maio de 1431. Pobre Joana.

Em 1456, a Igreja Católica, de má consciência, reabriu o processo e Joana d'Arc foi proclamada inocente pelo Tribunal Inquisitorial. Valeu-lhe de muito! Símbolo do nacionalismo francês, foi beatificada em 1909 e canonizada em 1920. A culpa da Igreja foi transformada em acto mágico de santificação, mas a coisa durou séculos.

 Joana d'Arc no corpo e voz de Jean Seberg. Primeiro papel da actriz americana então com 18 anos, muito criticado na altura. Escolhida entre oito mil candidatas, começou ali uma carreira algo atípica. Vinda da América profunda, acabou por ter uma vida pessoal e artística bastante ligada à Europa. Foi ela a heroína trágica (juntamente com Jean Paul Belmondo) de "O Acossado", de Jean-Luc Godard, ícone da nouvelle vague, que revolucionou, no início da década de 60, o cinema um pouco por todo o mundo.

Foi uma activista política  dos direitos civis nos EUA nos anos 60 e 70. Apoiante pública dos movimentos negros de contestação, nomeadamente os Panteras Negras, foi vigiada e perseguida pelo FBI. Do ponto de vista pessoal, a sua vida foi uma confusão. Alcoólica, psicologicamente frágil, acabou por se suicidar, aos quarenta anos, quando era casada com Romain Gary, um reconhecido romancista francês. O processo foi algo nebuloso e  nunca ficou esclarecido.

Entremos, pois, de corpo e alma na história trágica de uma das muitas vítimas  da iniquidade da Igreja Católica e da hierarquia de Roma ao longo da sua história.

Papas como Francisco houve poucos. E, infelizmente, os auspícios não lhe são nada favoráveis. Que recupere e viva ainda por muito tempo. A Igreja precisa dele. E a sociedade também.

01 janeiro 2025

O homem na pele da serpente - Sidney Lumet (1960)

Com Marlon Brando, Anna Magnani, Joanne Woodward, Maureen Stapleton
Duração: 116 m

Já aqui nos encontrámos com Sidney Lumet. Dele vimos "Um Dia De Cão" (1975) com o Al Pacino. História densa, dramática, do assalto a um banco em Nova Iorque, a partir de um caso real. 

Mas agora recuamos uns anos, para o princípio da década de 60.

Uma peça teatral de Tennessee Williams (mais uma) transplantada para o cinema, com um percurso atribulado. Tinha sido um falhanço de palco em 1939 e ficou esquecida no limbo da estante. Em 1957, o dramaturgo voltou ao texto, reformulou-o e densificou-o. "Orpheus Descending", assim se chama a peça, foi a primeira da sua obra ímpar. Tennessee Williams deu-lhe uma alma nova, com uma história suficientemente atractiva para despertar o interesse de Hollywood.

Foi Sidney Lumet que pôs a coisa de pé, ele que estava há poucos anos no cinema, mas tinha entrado pela porta grande. O seu primeiro filme foi logo um sucesso crítico e de mercado. "Doze Homens em Fúria". Foi uma prenda que lhe foi oferecida por Henry Fonda, que  liderou um elenco de grandes actores. Ficção densa, quase reduzida ao espaço de uma sala, os problemas de consciência pessoal, subjetividade  e ética nas decisões de um júri colectivo de um tribunal. 

Mas vamos então a "O Homem na Pele da Serpente".

Mississippi, o sul dos EUA, o racismo, o subdesenvolvimento, o analfabetismo, o primarismo comportamental.

Valentine Xavier (Marlon Brando), um músico vagabundo vindo de New Orleans, saindo de uma situação tumultuosa,  complicada. Teve um ataque de violência destruidora numa festa onde terá sido aliciado para prostituição masculina (mais intuição nossa do que assunção dele). Músico com um passado pouco claro e um presente de sobrevivência, que procura tornar decente. Cansado daquela vida, quer virar a página. Tem os seus fetiches. Usa um blusão de pele de cobra, imagem de marca. A guitarra é a sua companheira - foi-lhe oferecida por Leadbelly, diz ele (se calhar aldrabice). Leadbelly foi um dos mais míticos e enigmáticos bluesmen da América dos  anos 30 e 40 (negro, como é óbvio).

A deriva leva-o até Two Rivers, Mississippi. De uma cela de New Orleans para a cela do xerife Talbot, primeiro encontro. Meio pequeno, toda a gente se conhece, toda a gente se cruza. Toda a gente tem que ver com toda a gente. Nada de relevante acontece. O tédio. A solidão acompanhada. 

A sua boa presença física é factor de curiosidade, atracção. Em pouco tempo o dia-a-dia daquele lugar ganha uma certa turbulência. Um homem e duas mulheres. Um (falso) triângulo amoroso. E muitos fantasmas escondidos nos armários.

Carol (Joanne Woodward), uma mulher bonita, jovem, alcoólica, lasciva, depravada segundo ela mesma. Exibicionista e ninfomaníaca. Persegue Xavier, anseia-o. Ficará com o que vai restar dele - o seu blusão.

Vee (Maureen Stapleton), a mulher do xerife Talbot, sensível, pintora, a sua história não devia pertencer ali. 

Lady Torrance (Anna Magnani), a mulher de Jabe - o dono da loja onde Val começou a trabalhar - já não é jovem, algo exótica, com uma história familiar dramática, tem fome de sexo. Jabe está a morrer de cancro, mas o seu perfil é o de um sádico que sabe que está acabado. Mas antes, acabará com os outros - a mulher  e o amante.

Pela lógica das coisas - atracção sexual, desejos reprimidos, pulsão dos sentidos - Lady Torrance e Xavier, envolvem-se numa relação adúltera. Uma situação adormecida, amorfa, transforma-se num barril de pólvora. O machismo à solta, as cumplicidades labregas a funcionar. A terra obscura a levar a melhor. Não há salvação. O amor não é permitido naquele sítio de ninguém.

Uma tragédia a acontecer.

Três grandes actrizes e um enorme actor. 

Nessa altura a espantosa Anna Magnani, italiana, força da natureza, tinha atravessado o Atlântico para dar o seu contributo ao cinema americano. Com frutos visíveis. No ano anterior  tinha feito com sucesso "A Rosa Tatuada", a partir de (mais) uma peça do Tennessee Williams, onde ganhou o Óscar da melhor actriz.

Joanne Woodward estava em grande. Mais tarde fez uma carreira mais contida assumir  o "papel" de mãe dos  filhos com o marido, o Paul Newman. Mesmo assim teve um Óscar e muitos prémios de representação, sem desfazer o casamento.

A Maureen Stapleton foi uma grande dama do teatro e do cinema. Por exemplo, filmou com o Woody Allen e fez o "Reds" com o Warren Beatty.

De Marlon Brando já aqui falámos suficientemente. É sempre um prazer refinado vê-lo representar. Já tinha feito, também  a partir do Tennessee Williams, "Um Eléctrico Chamado Desejo" (1951) de Elia Kazan. 

No filme que vamos ver, segundo as crónicas da altura, o Brando e a Magnani odiaram-se profundamente. Egos à solta. Na representação não parece. A magia do cinema a funcionar.

O escritor. Tennessee Williams (1911-1987). Nasceu no Mississippi, no sul. Grande dramaturgo que passou para a sua obra os seus desajustamentos de personalidade. Saúde frágil, introspectivo. A escrita como fuga ao real, subversão do real. O álcool, mais as anfetaminas e os barbitúricos. A pressão social sobre a sua condição de homossexual também não ajudava. 

Mas apesar disto (ou por causa disto) a sua obra é incontornável. As suas peças continuam a ser representadas por todo o lado em todo o mundo. E a maioria dos filmes que se basearam nelas têm lugar cativo nos manuais do cinema.

Falámos do baptismo brilhante de Sidney Lumet com "Doze Homens em Fúria" que foi nomeado para Óscares. A sua carreira começou no fim do apogeu de Hollywood, mas criou uma obra extensa (mais de 50 filmes)  de grande qualidade que lhe garante um lugar na galeria dos melhores. 

Basta só enumerar, para além dos dois já citados: "Longa Jornada para a noite" (1962), a partir de Eugene O'Neill; "O Agiota" (1964), a memória do Holocausto, com Rod Steiger; "A Colina Maldita" (1965), uma ficção sobre o sadismo militar, com o Sean Connery. "Serpico" (1973), uma história real sobre a corrupção policial, com Al Pacino;  "Escândalo na TV" (1976), quase uma história antecipada do papel perverso da televisão no nosso mundo actual; "O Príncipe da Cidade" (1981), outra vez a corrupção policial; "O Veredicto" (1982), Paul  Newman, em grande, a lutar contra a maquinaria perversa do sistema judicial americano.

O cinema de Sidney Lumet era suportado por narrativas vigorosas, com actores de topo, ficções quase sempre localizadas em Nova Iorque. David Thompson, provavelmente o mais reconhecido crítico de cinema contemporâneo sintetizou bem o universo do cinema dele: "... a fragilidade da justiça e da política e a sua corrupção."

Neste filme era da corrupção das almas que Sidney Lumet tratava, da podridão de uma cidade enfeudada, numa América que era assim nos anos trinta do século passado e, lamentavelmente, continua assim nos nossos dias.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...