Já aqui nos encontrámos com
Sidney Lumet. Dele vimos "Um Dia De Cão" (1975) com o Al Pacino.
História densa, dramática, do assalto a um banco em Nova Iorque, a partir de um
caso real.
Mas agora recuamos uns anos, para
o princípio da década de 60.
Uma peça teatral de Tennessee
Williams (mais uma) transplantada para o cinema, com um percurso atribulado.
Tinha sido um falhanço de palco em 1939 e ficou esquecida no limbo da estante.
Em 1957, o dramaturgo voltou ao texto, reformulou-o e densificou-o. "Orpheus
Descending", assim se chama a peça, foi a primeira da sua obra ímpar.
Tennessee Williams deu-lhe uma alma nova, com uma história suficientemente
atractiva para despertar o interesse de Hollywood.
Foi Sidney Lumet que pôs a coisa
de pé, ele que estava há poucos anos no cinema, mas tinha entrado pela porta
grande. O seu primeiro filme foi logo um sucesso crítico e de mercado.
"Doze Homens em Fúria". Foi uma prenda que lhe foi oferecida por
Henry Fonda, que liderou um elenco de grandes actores. Ficção densa,
quase reduzida ao espaço de uma sala, os problemas de consciência pessoal,
subjetividade e ética nas decisões de um júri colectivo de um
tribunal.
Mas vamos então a "O Homem
na Pele da Serpente".
Mississippi, o sul dos EUA, o
racismo, o subdesenvolvimento, o analfabetismo, o primarismo comportamental.
Valentine Xavier (Marlon Brando),
um músico vagabundo vindo de New Orleans, saindo de uma situação
tumultuosa, complicada. Teve um ataque de violência destruidora numa
festa onde terá sido aliciado para prostituição masculina (mais intuição nossa
do que assunção dele). Músico com um passado pouco claro e um presente de
sobrevivência, que procura tornar decente. Cansado daquela vida, quer virar a
página. Tem os seus fetiches. Usa um blusão de pele de cobra, imagem de marca.
A guitarra é a sua companheira - foi-lhe oferecida por Leadbelly, diz ele (se
calhar aldrabice). Leadbelly foi um dos mais míticos e enigmáticos bluesmen da
América dos anos 30 e 40 (negro, como é óbvio).
A deriva leva-o até Two Rivers,
Mississippi. De uma cela de New Orleans para a cela do xerife Talbot, primeiro
encontro. Meio pequeno, toda a gente se conhece, toda a gente se cruza. Toda a
gente tem que ver com toda a gente. Nada de relevante acontece. O tédio. A
solidão acompanhada.
A sua boa presença física é
factor de curiosidade, atracção. Em pouco tempo o dia-a-dia daquele lugar ganha
uma certa turbulência. Um homem e duas mulheres. Um (falso) triângulo amoroso.
E muitos fantasmas escondidos nos armários.
Carol (Joanne Woodward), uma
mulher bonita, jovem, alcoólica, lasciva, depravada segundo ela mesma.
Exibicionista e ninfomaníaca. Persegue Xavier, anseia-o. Ficará com o que vai
restar dele - o seu blusão.
Vee (Maureen Stapleton), a mulher
do xerife Talbot, sensível, pintora, a sua história não devia pertencer
ali.
Lady Torrance (Anna Magnani), a
mulher de Jabe - o dono da loja onde Val começou a trabalhar - já não é jovem,
algo exótica, com uma história familiar dramática, tem fome de sexo. Jabe está
a morrer de cancro, mas o seu perfil é o de um sádico que sabe que está
acabado. Mas antes, acabará com os outros - a mulher e o amante.
Pela lógica das coisas - atracção
sexual, desejos reprimidos, pulsão dos sentidos - Lady Torrance e Xavier,
envolvem-se numa relação adúltera. Uma situação adormecida, amorfa,
transforma-se num barril de pólvora. O machismo à solta, as cumplicidades labregas
a funcionar. A terra obscura a levar a melhor. Não há salvação. O amor não é
permitido naquele sítio de ninguém.
Uma tragédia a acontecer.
Três grandes actrizes e um enorme
actor.
Nessa altura a espantosa Anna
Magnani, italiana, força da natureza, tinha atravessado o Atlântico para dar o
seu contributo ao cinema americano. Com frutos visíveis. No ano anterior
tinha feito com sucesso "A Rosa Tatuada", a partir de (mais) uma peça
do Tennessee Williams, onde ganhou o Óscar da melhor actriz.
Joanne Woodward estava em grande.
Mais tarde fez uma carreira mais contida assumir o "papel" de
mãe dos filhos com o marido, o Paul Newman. Mesmo assim teve um Óscar e
muitos prémios de representação, sem desfazer o casamento.
A Maureen Stapleton foi uma
grande dama do teatro e do cinema. Por exemplo, filmou com o Woody Allen e fez
o "Reds" com o Warren Beatty.
De Marlon Brando já aqui falámos
suficientemente. É sempre um prazer refinado vê-lo representar. Já tinha feito,
também a partir do Tennessee Williams, "Um Eléctrico Chamado
Desejo" (1951) de Elia Kazan.
No filme que vamos ver, segundo
as crónicas da altura, o Brando e a Magnani odiaram-se profundamente. Egos à
solta. Na representação não parece. A magia do cinema a funcionar.
O escritor. Tennessee Williams
(1911-1987). Nasceu no Mississippi, no sul. Grande dramaturgo que passou para a
sua obra os seus desajustamentos de personalidade. Saúde frágil, introspectivo.
A escrita como fuga ao real, subversão do real. O álcool, mais as anfetaminas e
os barbitúricos. A pressão social sobre a sua condição de homossexual também
não ajudava.
Mas apesar disto (ou por causa
disto) a sua obra é incontornável. As suas peças continuam a ser representadas
por todo o lado em todo o mundo. E a maioria dos filmes que se basearam nelas
têm lugar cativo nos manuais do cinema.
Falámos do baptismo brilhante de
Sidney Lumet com "Doze Homens em Fúria" que foi nomeado para Óscares.
A sua carreira começou no fim do apogeu de Hollywood, mas criou uma obra
extensa (mais de 50 filmes) de grande qualidade que lhe garante um lugar
na galeria dos melhores.
Basta só enumerar, para além dos
dois já citados: "Longa Jornada para a noite" (1962), a partir de
Eugene O'Neill; "O Agiota" (1964), a memória do Holocausto, com Rod
Steiger; "A Colina Maldita" (1965), uma ficção sobre o sadismo
militar, com o Sean Connery. "Serpico" (1973), uma história real
sobre a corrupção policial, com Al Pacino; "Escândalo na TV"
(1976), quase uma história antecipada do papel perverso da televisão no nosso
mundo actual; "O Príncipe da Cidade" (1981), outra vez a corrupção
policial; "O Veredicto" (1982), Paul Newman, em grande, a lutar
contra a maquinaria perversa do sistema judicial americano.
O cinema de Sidney Lumet era
suportado por narrativas vigorosas, com actores de topo, ficções quase sempre
localizadas em Nova Iorque. David Thompson, provavelmente o mais reconhecido
crítico de cinema contemporâneo sintetizou bem o universo do cinema dele:
"... a fragilidade da justiça e da política e a sua corrupção."
Neste filme era da corrupção das
almas que Sidney Lumet tratava, da podridão de uma cidade enfeudada, numa
América que era assim nos anos trinta do século passado e, lamentavelmente,
continua assim nos nossos dias.
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