Com Jean Seberg, Richard Widmark, John Gielgud
Dois escritores e um realizador
para Joana d'Arc, heroína, mártir e santa - foi isso tudo em dezanove anos de
vida. É o que fica para a História.
Vamos primeiro aos artistas
(terrenos) e depois subimos de patamar (projectados pelas chamas da fogueira)
para as alturas celestes.
George Bernard Shaw (1856-1950).
Irlandês. Foi romancista, contista, ensaísta e dramaturgo. Prémio Nobel da
Literatura em 1925, mas a passagem do tempo enferrujou a sua escrita. Salvam-se
provavelmente as peças de teatro. Acontece. Espírito irreverente e
inconformista.
Ao contrário de Rudyard Kipling
("O homem que queria ser rei"), seu contemporâneo, foi um homem de
esquerda, socialista e um agitador, contra o establishment inglês, comprometido
e militante de causas sociais - a desqualificação social e política das
mulheres, a exploração aviltante do trabalho infantil, os abusos sobre as
classes trabalhadoras...(lembremos que ele nasceu na segunda metade do século
XIX, auge da Revolução Industrial).
Pois uma das peças de teatro que
lhe deu projecção foi "Santa Joana", de 1923, em que ele, membro da
elite intelectual do Império Britânico, escolheu a heroína francesa, Joana
d'Arc, para seu sujeito. Ironia. Contradições, tanto mais fortes quanto aborda
um quadro histórico em que os franceses vencem os ingleses (Guerra dos Cem
Anos).
Outra peça de teatro da sua
autoria - "Pygmalion" - foi passada a filme e, em 1938, ganhou um
Oscar. Passados vinte e tal anos voltaria a ser adaptada ao cinema e deu origem
a "My Fair Lady" de George Cukor, certamente de boas lembranças para
muitos de vocês. Em 1965 ganhou só 8 Óscares.
A partir do texto original
de George Bernard Shaw, o trabalho de outro escritor, Graham Greene, que
nos deixou alguns livros tão brilhantes como amargos, onde o sentido ético
atravessava as ficções, cruzado com as grandes interrogações religiosas
sobre a vida, a existência, os grandes dilemas morais e espirituais. Foi um
autor prolífico, com muitas histórias ecoando a sua vivência pessoal no
contexto do Império Britânico - pertenceu aos serviços secretos. E se tivesse
tido o Prémio Nobel era capaz de ser mais justo do que a atribuição a George
Bernard Shaw.
Títulos como "O poder e a
glória", "O nosso agente em Havana", "O factor
humano", "A inocência e o pecado" e "O americano
tranquilo" deram-lhe fama e segurança. Muitos desses livros deram origem a
filmes, alguns importantes como é o caso de "O terceiro homem", com o
Orson Welles, que já aqui vimos.
Pois Graham Greene também andou
por Hollywood como argumentista. Aqui, a partir da peça de teatro, reescreveu a
ficção com algumas condensações e reformulações do texto original, usual na
passagem da escrita teatral para a cinematográfica.
Quem deu consistência a tudo foi
Otto Preminger, realizador americano, mas nascido na Áustria (1905-1986). Um
cineasta de muitos filmes e bastantes sucessos, sendo dos primeiros
realizadores a desafiar com sucesso o Código Hays (a cartilha de bons costumes
e hipocrisia auto-infligida pelos Estúdios de Hollywood).
Ousou abordar temas tabu como
racismo (fez dois filmes com histórias e elenco negro - "Porgy and
Bess" e "Carmem Jones"), a homossexualidade e a
toxicodependência ("O homem do braço de ouro", com Frank Sinatra, um
baterista "agarrado" pela heroína).
O último filme que ele fez foi a
partir de um livro do Graham Greene - "O factor humano".
Joana D'Arc foi, ao longo do
tempo, objecto de algumas ficções cinematográficas de que é fundamental
salientar, pelo menos, duas que fazem parte da história do cinema.
"A paixão de Joana
d'Arc" (1928) de Carl Dreyer, ainda mudo, é uma obra-prima incontestável,
absoluta, da história do cinema.
"O processo de Joana
d'Arc" (1962) de Robert Bresson, francês, um homem de fé, católico
jansenista, cujos temas da maioria dos seus filmes passavam pelo pecado
original, o mal, a predestinação, a redenção, a graça divina.
Em 1954, Roberto Rossellini
também abordou a religiosidade da Joana d'Arc com Ingrid Bergman na pele da
heroína, num filme que fez a partir de uma encenação teatral.
Pode dizer-se que Otto Preminger
foi demasiado respeitador do texto e da retórica teatral, com a acção a
desenvolver-se em longos flashbacks. Mas, nessa altura, eram as regras. Nos
anos 40/50 Lawrence Olivier passou para o ecrã "Hamlet", "Henrique
V" e "Ricardo III", de Shakespeare, com a mesma artificialidade
respeitadora do texto e só lhe devemos agradecer.
A essência da ficção é criada a
partir dos registos da História. França. Joana nasce em Domrémy, em 1412, numa
família camponesa. Tem uma vida de austeridade, contemplação e devoção a Deus.
Rapariga embrenhada em profundo misticismo, ouve vozes, acaba a comandar o
exército de França, em assumida missão divina, com várias vitórias sobre os
ingleses, que tinham invadido França em 1420.
Recupera Reims onde o rei francês
- Carlos VII (O Delfim), um pateta, imbecil, uma espécie de bobo - foi
coroado, como era uso. Quando tudo parecia que o papel da jovem na História
estava acabado em glória, começa a tragédia dela. Tão religiosa, tão temente a
Deus, ela que tinha cumprido heroicamente uma missão divina em benefício da
França.
Aprisionada por clérigos
favoráveis aos ingleses, foi completamente triturada pela máquina religiosa,
conduzida pelo bispo Pierre Cauchon. Acusada, entre outras coisas, de bruxaria
e heresia, foi queimada na praça pública a 30 de Maio de 1431. Pobre Joana.
Em 1456, a Igreja Católica, de má
consciência, reabriu o processo e Joana d'Arc foi proclamada inocente pelo
Tribunal Inquisitorial. Valeu-lhe de muito! Símbolo do nacionalismo francês,
foi beatificada em 1909 e canonizada em 1920. A culpa da Igreja foi transformada
em acto mágico de santificação, mas a coisa durou séculos.
Joana d'Arc no corpo e voz
de Jean Seberg. Primeiro papel da actriz americana então com 18 anos, muito
criticado na altura. Escolhida entre oito mil candidatas, começou ali uma
carreira algo atípica. Vinda da América profunda, acabou por ter uma vida
pessoal e artística bastante ligada à Europa. Foi ela a heroína trágica
(juntamente com Jean Paul Belmondo) de "O Acossado", de Jean-Luc
Godard, ícone da nouvelle vague, que revolucionou, no início da década de 60, o
cinema um pouco por todo o mundo.
Foi uma activista política
dos direitos civis nos EUA nos anos 60 e 70. Apoiante pública dos movimentos
negros de contestação, nomeadamente os Panteras Negras, foi vigiada e
perseguida pelo FBI. Do ponto de vista pessoal, a sua vida foi uma confusão.
Alcoólica, psicologicamente frágil, acabou por se suicidar, aos quarenta anos,
quando era casada com Romain Gary, um reconhecido romancista francês. O
processo foi algo nebuloso e nunca ficou esclarecido.
Entremos, pois, de corpo e alma
na história trágica de uma das muitas vítimas da iniquidade da Igreja
Católica e da hierarquia de Roma ao longo da sua história.
Papas como Francisco houve
poucos. E, infelizmente, os auspícios não lhe são nada favoráveis. Que recupere
e viva ainda por muito tempo. A Igreja precisa dele. E a sociedade também.
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