08 fevereiro 2025

Pagos a dobrar - Billy Wilder (1944)

Com Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson, Fred MacMurray
Duração: 1h 47m

James M. Cain. Escritor de policiais. Já o conhecemos através do Jack Nicholson  e da Jessica Lange em "O carteiro toca sempre duas vezes". Voltamos ao local do crime, passe a analogia. Uma história perversamente simples, aliás com a mesma estrutura matricial de "O carteiro toca sempre duas vezes". A envolvente é que é diferente. O mesmo tempo (anos 30). Outras personagens. Outro enredo. Mas o mesmo fim. Os deuses a fazer justiça pelos humanos. Nem foi preciso a polícia.

1938. Walter (Fred MacMurray), um corrector de seguros, com uma carreira estabilizada, dedicado e exemplar, é seduzido por Phyllis (Barbara Stanwyck) - "femme fatale", madura, bela e manipuladora - e convencido a matar o seu marido, de forma "encenada" como se fora um acidente. Objectivo muito preciso - que o seu seguro de vida (forjado) seja pago pelo dobro, 100 mil dólares, de acordo com o especificado na apólice (na altura uma pipa de massa), e eles (amantes) passarem a beneficiar dos prazeres associados. 

Ele assassinou o marido e, em conjunto, construíram o álibi. Aparentemente sólido, intocável.Tudo apontava para resultar. Um plano perfeito, não fora o "faro" para fraudes do director da companhia de seguros (Edward G. Robinson). Quando as expectativas estavam no alto, o plano começa a inclinar-se.

O futuro radioso não acontece. Tudo vai por água abaixo, ou se quisermos, tudo se dilui em sangue. A traição da mulher põe o homem em guarda. A justiça acontece. Sem interferência de terceiros. Ele mata-a, ela fere-o (ou mata-o?). De certeza não tem futuro. A cadeira eléctrica espera-o. E, no entanto, era um tipo porreiro, como é vulgo dizer-se. 

Resta-lhe, no plano final, fumar um cigarro, já sem a capacidade para o acender que foi exibindo artisticamente ao longo da história. Fim do filme, metáfora óbvia - quem brinca com o fogo, queima-se.

James M. Cain escreveu o livro em 1936, mas só foi publicado em 1943. "O carteiro toca sempre duas vezes" foi publicado em 1934. Os factos foram retirados de um caso real, acontecido em 1927. Os culpados foram condenados e executados na penitenciária de Sing Sing.

Em flashback - ditando para o magnetofone, uma mensagem para o seu chefe Keyes (Edward G. Robinson), Fred faz a  narrativa na primeira pessoa, concisa, seca, mordaz - vamos acompanhado aquele duelo a três onde o cinismo impera e o calculismo marca as relações. A ambição, quando desenfreada, seca toda a clarividência. A mulher esconde de todos a sua alma perversa. Misoginia? Talvez.

O livro, tal como os outros de James M. Cain, tinha linguagem, personagens e situações difíceis de enquadrar nas restrições éticas e comportamentais do Código Hays, que durante décadas condicionou ridiculamente o imaginário de Hollywood, risíveis no quadro civilizacional do nosso tempo. Mas essas condicionantes não restringiram Billy Wilder (1906-2002). Ele que tinha ludibriado o Hitler e a pandilha nazi, quando se safou da sua Áustria natal para a América (1933), por que não enfrentar a cretinice moral americana?

Pois o Billy Wilder, ainda com poucos créditos acumulados em Hollywood, conseguiu pegar no projecto e, apesar das restrições, levá-lo a bom termo. Ele, que era um argumentista talentoso, conseguiu ter do estúdio a contribuição do Raymond Chandler (1888-1959), esse grande escritor que criou no imaginário do nosso tempo a figura paradigmática do detective - Philip Marlowe. 

A dois - colaboração que ficou registada  nos anais da pequena história do cinema como complicada - recriaram a ficção escrita, sem traírem o original, fizeram ajustamentos de situações e diálogos no sentido de maior eficácia dramática e de contornar a censura com inteligência. Se não podiam mostrar, sugeriam, induziam o espectador por elipse (não vemos a morte do marido, ouvimo-la), omissão com significação, isto é, mostrar e significar por via indirecta. E o argumento acabou por passar pelas estreitas malhas da censura.

Com trunfos tão importantes como uma história densa e dramática, actores de referência no star system (Barbara Stanwyck como arquétipo da mulher fatal) e uma realização de grande qualidade e eficácia, o filme foi um sucesso na altura. Com o tempo ganhou a patine do classicismo. É um dos grandes filmes americanos dos anos 40. Já cheguei a ler que é "o melhor filme negro jamais feito." Se calhar é um bocado exagerado, mas evidencia que é um filme incontornável.

A propósito de actores, refira-se que os dois actores principais se chamavam respectivamente Ruby Stevens (Barbara  Stanwyck) e Emanuel Goldenberg (Edward G. Robinson). No caso dela porque era necessário encontrar um nome que fosse apelativo ao grande público; no caso dele, porque um nome judeu não vendia (ironia, ou hipocrisia?: os donos e os big bosses dos estúdios eram quase todos judeus). A história do cinema americano tem centenas de casos destes.

Billy Wilder. Já muito falámos deste grande realizador. Incontestavelmente faz parte do grupo de topo. Mas antes de começar a realizar filmes em Hollywood (fez o primeiro em 1942) teve uma carreira muito sólida e ascendente como argumentista. Em jovem tinha sido jornalista. Mas já antes tinha dado provas como argumentista na Alemanha e em França. Foi ele que escreveu em co-autoria o célebre filme "Ninotchka", uma farsa arrasadora sobre o confronto comunismo/capitalismo, do grande (outro incontornável) Ernest Lubitsch, com a Greta Garbo, muito pouco tempo antes de se retirar do cinema muito precocemente.

Depois, quando começou a realizar fez uma carreira absolutamente genial. Só meia dúzia de filmes para além deste, para comprovar: "Sunset Boulevard", "Stalag 17", "O pecado mora ao lado", "Quanto mais quente melhor", "Irma la Douce",  "Fedora". E etc. Etc..

E os actores? Barbara Stanwyck foi uma das divas de Hollywood, não propriamente pelos dotes de beleza, mas pela sua qualidade superior como actriz. Começou no ponto fronteira entre o mudo e o sonoro e filmou com os melhores realizadores - Frank Capra, Howard Hawks, King Vidor, Fritz Lang, Anthony Mann e Samuel Fuller.

Fred MacMurray. Actor sólido e consistente, este filme é um caso paradigmático dos seus atributos, fazendo um papel de mau por equívoco, ele quase sempre o bom da fita. Mas foi um actor de segunda linha. Começou no cinema mudo. Trabalhou com muitos mestres e fez muitos filmes "comestíveis", alimentares, nomeadamente "coboiadas".

Dizem os registos que era um bom saxofonista.

O pequeno grande Edward G. Robinson. Foi um actor que veio do cinema mudo e ganhou o estatuto de estrela logo no início do sonoro, interpretando papéis de gangster e mau em filmes que ficaram na história do cinema. Também ele filmou com os melhores - Fritz Lang, John Huston, John Ford, Orson Welles, Joseph Mankiewicz. 

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