23 novembro 2025
Gloria - John Cassavetes (1980)
19 novembro 2025
Pollock - Ed Harris (2000)
Agosto de 1949. EUA. A respeitável e popular revista semanal "Life". Artigo de fundo, com reprodução de vários quadros. Título: "Is he the greatest living painter in the United States?" O he era Jackson Pollock.Os quadros eram o resultado do seu trabalho. O artigo é uma peça altamente entusiástica e eufórica sobre o pintor que, naquele tempo, aos trinta e tal anos, estava a abrir e consolidar um caminho próprio. Os críticos de arte e especialistas dariam à sua pintura (e de mais uns tantos pintores) a designação de expressionismo abstracto, o primeiro movimento consolidado de origem norte americana nas artes plásticas.
O segundo (com contribuição relevante de pintores ingleses) ocorreria uns dez anos mais tarde com a pop arte, precisamente em reacção ao expressionismo abstracto - a recuperação do corpo no espaço da tela, a recorrência temática à cultura popular, a afirmação da publicidade e da banda desenhada como matéria prima nuclear do quadro - com nomes tão relevantes como Andy Warhol, Richard Hamilton, Roy Lichtenstein ou Jasper Jones.
Vamos por partes. No fim dos anos 40, vivia-se uma certa efervescência no universo da pintura e escultura na América. Paris estava longe (e em repouso) e as coisas interessantes aconteciam em Nova York (epicentro da vanguarda da pintura) e arredores. Quatro pintores americanos ficaram para a história. Mark Rothko, Willem de Kooning, Arshile Gorky e Jackson Pollock. Americanos é um modo de dizer. Na verdade, só Pollock tinha nascido nos EUA, algures no Arizona. Rothko, na Letónia, Kooning, na Holanda e Gorky, na Arménia. Na diversidade da obra, a identidade estética (a mesma camisola) - o expressionismo abstracto, a negação da figuração, a libertação do gesto, a mancha como forma de afirmação visual.
Jackson Pollock (1912-1956) foi, de todos, o que mais fundo e visceralmente penetrou nesse processo de procura e desnudamento da alma. Obviamente as coisas não lhe correram bem. Como a maioria dos grandes criadores, durante muitos anos andou à procura. Falsos caminhos e atalhos curtos. Muitos tropeções. Retornos. Insistências. Até que vislumbrou uma luz. Fim dos anos 40, princípio dos anos 50, o sucesso bate à porta, o reconhecimento dos pares (e dos críticos) dá-lhe um prazer especial e alguma paz na sua alma atormentada.
A sua pintura era impulsiva. A sua técnica, na verdade, não era técnica. Drip painting (pintura por gotejamento) ou action painting, as tintas projectadas sobre as telas estendidas no chão, camada atrás de camada, o informalismo levado às últimas consequências. E a epifania aconteceu. A revelação assumiu forma. O resultado foram umas dezenas de telas que marcaram o imaginário cultural do nosso tempo. E perduram.
Mas a felicidade não estava lá.
Em 1945 Jackson Pollock casou com Lee Krasner, uma colega pintora que meteu a sua própria carreira entre parêntesis para o apoiar, e de que maneira. Era uma pintora abstracta. Morreu em 1984, com a obra em crescimento de reconhecimento. Apesar da segurança e orientação proporcionadas pela parceira (que acreditava nele e assumiu um sentido de missão), a vida não lhe era fácil. Os fantasmas pessoais assombravam-no. O álcool era o seu conforto, paliativo das dores da alma. A alienação o seu estado tendencial. Ia de um extremo ao outro facilmente. Da euforia à depressão. Da agitação à paralisia. Bipolaridade. Recorria à psicanálise, mas não ajudava muito.
Ed Harris pegou nos dados reais dos últimos anos da vida de Pollock, do anonimato à consagração, com a decadência final. Um drama biográfico.
Os últimos anos da vida passou-os o pintor numa propriedade rural que comprou com o apoio de Peggy Guggenheim (a brilhante e riquíssima marchand e mecenas, que foi casada com Max Ernst e adquiriu uma enorme colecção de arte do Século XX, inclusive muitos Pollock) junto de Springs, uma cidadezinha na grande envolvente de Nova York (Long Island), onde naqueles anos vivia uma alargada colónia de artistas, escritores e intelectuais americanos, nomeadamente o grande escritor Philip Roth, leitura imprescindível para percebermos melhor o tempo actual na América.
Ed Harris é um óptimo actor americano, sólido, consistente. Tem uma longa carreira , associada a alguns êxitos. Foi nomeado quatro vezes para o Oscar (lembrem-se de "As Horas", com a Meryl Streep, que já aqui vimos). Conseguiu obter meios financeiros e apoios para este filme que foi claramente um projecto de empenho pessoal, que ele abraçou na totalidade, como produtor, realizador e actor (ele faz de Jackson Pollock com claros efeitos miméticos). E as coisas correram muito bem.
Um filme sereno sobre uma personalidade angustiada, selvagem, em conflito, com o mundo, consigo próprio. A mulher, por mais militante e apoiante da sua causa, foi perdendo a capacidade de acompanhar e encaixar a sua deriva pessoal. Ele arranjou uma amante, naturalmente. Ela foi para a Europa. A morte precoce aconteceu da forma mais natural. Bêbado, a conduzir o seu Oldsmobile convertível, com a amante e uma amiga, espatifou-se contra uma árvore, capotou, a um quilómetro e meio de casa. Tinha 44 anos. Morreu ele e a amiga. A amante escapou e, no futuro, foi fazendo render o peixe nas televisões e nos jornais e revistas contando a sua história com Pollock. É a vida! Suicídio? Mero acidente? Provavelmente a constatação de que a sua energia vital se tinha esgotado, de que a traição à sua mulher tinha ultrapassado os limites da decência.
Do ponto de vista cinematográfico pode dizer-se que, para primeiro filme como realizador, Ed Harris não se saiu nada mal. Bem desenvolvido o perfil do pintor entre a sua juventude em Greenwich Village (já alcoolizado, amante do jazz, fanático do Gene Krupa, baterista espalhafatoso mas de grande talento) e a sua maturidade em Long Island, os seus excessos alcoólicos, as suas manifestações escabrosas mesmo junto da high society bem pensante nova iorquina, potencial compradora dos seus quadros.
Belas sequências do pintor ante a tela vazia (angústia) ou na rota da descoberta da sua identidade pictórica, o gesto, a projecção da tinta.
Com muitos actores de referência a fazerem uma perninha (certamente por amizade), o filme é centrado no casal, no vaivém de afectos, violência e inconsistência do pintor e infinita paciência da mulher. Ed Harris a reproduzir gestos e acções de Pollock como se fosse ele, Marcia Gay Harden a ser a alavanca de suporte e projecção do talento do marido.
Como este filme tão bem demonstra, o mundo ficou mais rico com a obra que Jackson Pollock deixou.
09 novembro 2025
À volta da meia noite - Bertrand Tavernier (1986)
Duração: 133 min
Fim dos anos 50. Dale Turner (Dexter Gordon), um músico americano de jazz, talentoso saxofonista, negro, segue o caminho de muitos colegas seus no pós-guerra. Foge à pressão social e política na América. Na verdade, foge do racismo. Muda-se para Paris, onde consegue (sobre)viver tocando em "caveaux" e clubes de jazz. Alcoolizado ("please, one more verre de vin rouge"), pedrado, vai espalhando o seu talento pela noite fora, à deriva, sem eira nem beira.
Francis (François Cluzet) aparece do vazio da noite escura. Jovem francês, designer gráfico, autor de cartazes de filmes, completamente apaixonado pela música e o som incantatório de Turner, mas com problemas de dinheiro, ouve o seu astro da rua em frente ao "caveau" "Blue Note" (o mesmo nome do célebre clube de Nova York, que ainda existe), o som a sair pelas janelas. À chuva. A pura militância. Após um primeiro encontro, na rua, a aproximação transforma-se gradualmente em amizade.
A adoração torna-se proteção. Também à custa da sua filha, adolescente, um bocado abandonada. O jovem, procura ajudar o músico a controlar os excessos alcoólicos (e outros), trata dele como se fora o seu pai.
A proteção que o jovem francês proporciona ao músico, o universo familiar com que o envolve, ajuda-o gradualmente a controlar os excessos.
A passagem do tempo faz os seus milagres. Recuperado e reequilibrado, Dale Turner regressa às origens. Nova York, onde deixou uma filha, e onde sonha retomar a carreira, reencontrar os seus parceiros músicos no universo frenético da noite, nas jam sessions dos clubes mais emblemáticos - "Village Vanguard", "Birdland", "Blue Note" e outros mais. Do sonho ao pesadelo, um percurso curto. O jovem francês regressa a Paris, mas Dale já não. Elipse. Provavelmente o apelo das drogas e do álcool foi mais forte. Passado pouco tempo Francis recebe um telegrama de Nova York. Dale tinha falecido. Cansado da vida. Fim do ciclo.
Já desde a I Guerra Mundial que o jazz tinha ganho alguma expressão na Europa, particularmente Paris. Com o fim da II Guerra Mundial, muitos músicos, que tinham chegado incorporados no exército americano, acabaram por ficar pela Europa.
Nos anos 50 muitos dos músicos que já tinham uma história nos EUA, acabaram por vir e fixar-se no velho continente. Auto expatriados. Aqui tinham liberdade, a indiferença à cor da pele (a larga maioria era negra), o respeito e admiração dos fãs. Grandes músicos como Dexter Gordon (sim, o nosso "herói", viveu na Europa 15 anos, entre Paris e Copenhaga), Thad Jones, Kenny Drew, Ben Webster e Stuff Smith fixaram-se na Escandinávia, Stan Getz e Don Byas, em Espanha, Bill Coleman, Bud Powell, Kenny Clarke, Sidney Bechet, Steve Lacy, Johnny Griffin, Archie Shepp, em França, Art Farmer, na Áustria.
"Round Midnight" é o título original do filme. E é, também, uma das músicas mais conhecidas e tocadas da história do jazz. É um standard com milhentas interpretações, reinterpretações, reformulações e variações. Saiu da imaginação do Theolonius Monk, em 1943, um pianista genial com um som próprio, sua imagem de marca, como se a música soasse desafinada, dissonante, com falta de técnica. Pura ilusão.
No filme, "Round Midnight" é, juntamente com toda a outra música (e é muita), arranjada e produzida por Herbie Hancock, grande pianista do quinteto de Miles Davis nos anos 60. Hancock também faz uma perninha como actor (Eddie) aliás como outros músicos de topo (John McLaughlin - guitarra, Wayne Shorter - saxofones, Ron Carter - contrabaixo, Tony Williams - bateria) e muitos mais.
E, para nossa surpresa, temos o Martin Scorsese (para mim, juntamente com o Francis Ford Coppola, o maior realizador nosso contemporâneo) a fazer uma perninha como ator - o manager de Dale na América, que o vai buscar ao aeroporto e trata de tudo para ele voltar a tocar em Nova York.
Sendo uma ficção, o filme foi feito a partir das memórias de um outro personagem francês (Francis Paudras), da sua relação com outro grande músico da história do jazz, o pianista Bud Powell, um virtuoso, com mais uns episódios da vida do Lester Young, outro saxofonista seminal, que fez as gravações de referência com a enorme Billie Holliday.
Bud Powell foi, com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Theolonius Monk e alguns outros, um dos que fez a revolução sonora no jazz dos anos 50, a que se convencionou chamar Bebop.
Este revolucionário pianista era algo instável, sofria de problemas mentais (foi sujeito a internamentos hospitalares e à terapia dos eletrochoques) e era "agarrado" à heroína, quadro pesado de vida, com comportamentos erráticos.
Pois nos anos 50, também ele se mudou para Paris e foi aí que se tornou amigo de Francis Paudras, um amante de jazz que o ajudou na sua reabilitação. Este fã francês escreveu um livro "La danse des Infidèles", onde registou a história que constituiu a matriz base para a ficção de Bertrand Tavernier.
Bertrand Tavernier (1941-2021), um bom cineasta francês, acertou na mouche com o filme. Mais do que tudo, um gesto de amor pelo jazz e certamente de recuperação de memórias da sua juventude em Paris. As cores pesadas, saturadas muitas vezes cinzentas ou negras, são o enquadramento adequado da atmosfera onde circulam os seus personagens , um certo mal-estar com a vida, uma fuga para a frente, uma tragédia previsível. Mas uma grande obra de cinema.
05 novembro 2025
Dia Mundial do Cinema
02 novembro 2025
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