31 dezembro 2025

Cinema às Quartas - Programação para o 2º trimestre

Caros amigos:

Aqui vai a programação para o segundo trimestre:

"A Ponte do Rio Kway" (1957) - David Lean.
Segunda Guerra Mundial. Frente Pacífico (Birmânia). Prisioneiros ingleses e americanos são obrigados pelo exército japonês a construir uma ponte, vital para o esforço de guerra nipónico. Resistência passiva - invocados os códigos de honra. Finalmente, após cedências, começa a construção. Nesse processo vão-se revelando os sonhos, as aspirações, as frustrações, as contradições e a resistência dos prisioneiros. Uma história de pequenos heroísmos e afirmações de orgulho. Foi recheada, merecidamente, de Óscares. Com uma música (marcha militar) que entrou no nosso imaginário e que uma cadeia nacional de supermercados resolveu há uns tempos inserir na sua publicidade televisiva - lamentável é o mínimo que se pode dizer.

"Bird - O Fim do Sonho" (1988) - Clint Eastwood.
O jazz. A essência do Jazz. Charlie Parker. Morreu aos 35 anos - em 1955 - mas teve uma vida intensa, caótica, apaixonante, delirante e... trágica. Morreu de overdose de heroína, consumido pelo álcool.
Saxofonista genial, a sua música marcou o seu tempo dentro da (quase) marginalidade da música negra . O Be Bop era o som do jazz (que ele reinventou), a alma da improvisação pela noite dentro, em frenéticas jam sessions, em total liberdade criativa. Clint Eastwood pegou na história da vida do músico como se fora um puzzle, pouco a pouco harmonizando  peças separadas, no tempo e na vida, completando um retrato comovente do grande músico, com  a contribuição esplêndida de Forest Whitaker.

"Padre Padrone" (1977). Paolo e Vittorio Taviani.
A Sardenha antiga, fora do tempo e das conquistas civilizacionais do Século XX. Sim. Ainda há disso. Um menino de seis anos, pastor de ovelhas e um pai para quem ele é mão-de-obra escrava, sua extensão natural na economia primitiva da casa. A ignorância e a violência como situações normais. O jovem foi lutando contra o pai e contra tudo até aos vinte anos. Finalmente a liberdade. Comovente até às lágrimas. Grande obra, a partir do livro autobiográfico do miúdo (Gavino Ledda), que mereceu todos os encómios na altura, tendo ganho a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

"O Deserto dos Tártaros" (1976). Valerio Zurlini.
O romance com o mesmo título é de 1940 e considerado uma obra-prima da literatura italiana do século XX, obra suprema de Dino Buzzati, um jornalista e escritor italiano de créditos superiores. Uma remota fortaleza num deserto (não há precisão geográfica), um corpo militar em contínua vigilância de uma hipotética invasão. O inimigo são os Tártaros (das estepes da Ásia Central, como poderia ser outro povo). A espera torna-se modo de vida ad infinitum, as regras militares são aplicadas com  o rigor institucional. O jovem oficial Giovanni Frigo vai para lá na expectativa da glória, das medalhas e louvores. A passagem do tempo. A monotonia. A claustrofobia. O envelhecimento. Nada acontece. A espera vã. Quando os Tártaros atacam já Frigo é velho. É dispensado. Vida em vão, sonhos inúteis. Metáfora poderosa.

"A Estrada do Tabaco" (1941). John Ford.
John Ford outra vez a dissecar a América profunda sua contemporânea. Aqui foi buscar a história ao Erskine Caldwell, escritor profundamente conhecedor das idiossincrasias sulistas, ele que escreveu um conjunto de ficções sobre os brancos pobres do sul americano. "A Estrada do Tabaco", escrito em 1932, no contexto da grande depressão, tornou-se um clássico da literatura americana. Lá, nos confins da Geórgia, os camponeses empobrecidos abandonados pelo sistema político e financeiro, em crise profunda de identidade. Truculento e sórdido quanto baste. O código de moralidade de Hollywood obrigou a limpar muito o argumento. Mas, mesmo assim, é um John Ford de primeira água.

"Johnny Guitar" (1955). Nicholas Ray.
Um dos filmes míticos da história do cinema. Um western. Uma produção barata (Série B) como os estúdios faziam em quantidades industriais nesses tempos empolgantes de Hollywood, para manter ocupados actores e técnicos. O mercado absorvia tudo. A Europa e o fascínio da sua intelligentsia pelo cinema americano, criaram gradualmente a adesão e o culto do filme. Cinema-ópera, a utilização da elipse, a originalidade de duas mulheres inimigas no western (tradicionalmente coisa de homens), algumas das mais belas peças de diálogo da história do cinema, um lirismo arrebatador, etc. etc.
O cinema moderno estava lá. O Nicholas Ray contribuiria com outros filmes para esse movimento. Imperdível.

"Umberto D" (1952). Vittorio De Sica.
Uma leitura nada meiga da Itália a seguir à guerra. Neo-realismo em estado puro. Quase todos actores não profissionais. Uma história de miséria encapotada. Um homem reformado, já idoso, tenta desesperadamente manter o seu quarto alugado que compartilha com o seu cão. As rendas estão atrasadas. Vamos acompanhando o duo pelas ruas da cidade. A poesia da sobrevivência. A dignidade não se perde. O poder político de Itália da altura zangou-se. O filme fez sangue. Mostrou demasiado da porcaria que acompanhou o pós guerra na Itália democrata cristã.

"Rocco e Seus Irmãos" (1960). Luchino Visconti.
O aristocrata Visconti a fazer jus às suas posições políticas (andou pelo PC italiano), com uma leitura muito crua da bipolaridade italiana. Sul, campo, atrasado. Norte, fábricas, desenvolvido.
Uma família procura em Milão o que não tem lá na terrinha meridional. Cinco irmãos e os seus destinos. Drama realista onde raia o pessimismo. Não é fácil o ajustamento a novos padrões sociais. Na verdade é a emigração no quadro do mesmo país. O desenraizamento cultural gera os pequenos e grandes dramas. Alain Delon a consolidar o seu papel de grande actor do cinema europeu.

"Uma Vida Difícil" (1961). Dino Risi.
A comédia italiana. Nua e crua. O modo de ser italiano, requintadamente mostrado, nos anos 50 e 60 do século passado, por uma plêiade notável de cineastas. Dino Riso foi dos maiores e melhores. 
Um homem com valores, idealismo, ética. Esteve na resistência italiana a lutar contra Hitler e Mussolini. Por não abdicar dos seus valores, foi perdendo tudo na vida, incluindo a sua mulher. Depois tenta reajustar-se à realidade mais comezinha da vida. Alberto Sordi, entre o sério e o jocoso numa bela história trágico-cómica. 

"O Homem a Quem Chamaram Cavalo" (1970). Elliot Silverstein. 
Os índios do lado de lá. Retrato realista da vida e cultura da tribo Sioux, no início do século XIX. Um aristocrata inglês numa expedição no Dakota é capturado pelos índios e escravizado. Gradualmente vai perdendo a sua identidade e vai-se aculturando. Apaixona-se pela irmã do chefe. Os afectos também contam. É de cá ou é de lá? Vai ter que provar sujeitando-se aos rituais da tribo. Que futuro lhe reserva a vida? Bela e comovente história com o enorme actor Richard Harris.

"E Deram-lhe uma Espingarda" (1971). Dalton Trumbo.
Dalton Trumbo foi uma das personalidades mais marcantes de Hollywood nos bons velhos tempos. Como argumentista o cinema deve-lhe  obras-primas. Foi um dos que foi perseguido e marginalizado nos anos 50 no processo miserável de caça às bruxas (Hollywood Ten). Paralelamente à sua actividade de argumentista foi romancista de mérito. Em 1939  escreveu um romance pacifista "Johnny Got his Gun" que trinta e tal anos depois deu origem a este filme, que ele próprio realizou (o único na sua vida). Um soldado que perdeu os braços, as pernas e o rosto (um destroço humano), mas que não perdeu a lucidez. O que lhe resta? Lembranças, memórias e desejos num vazio amargo, sem futuro. Terrível e comovente.

O critério da escolha foi qualidade na diferença. Alguns clássicos e outros assim-assim, mas todos filmes muito interessantes. As expectativas estão criadas -  lá estaremos no início do ano.

Um Bom Natal e um Bom Ano!
Jorge Barata Preto 

08 dezembro 2025

Artigo 22 ("Catch 22") - Mike Nichols (1970)

Artigo 22 ("Catch 22") - Mike Nichols. C/Alan Arkin, Orson Welles, Art Garfunkel, Anthony Perkins. 117 M. 1970

Mike Nichols entrou no mundo do cinema pela porta grande, com fanfarra, foguetes e reconhecimento dos pares. E Óscares. E logo com os dois primeiros filmes que fez na vida.

" Quem tem medo de Virginia Woolf?" (1966), com Elizabeth Taylor e Richard Burton, foi o primeiro. O filme quebrou alguns dos tabus do hipócrita código de moralidade de Hollywood - o célebre Código Hays. Vimo-lo aqui.

"A primeira noite" (1967), foi o segundo, e projectou para o universo da fama (e do proveito) o Dustin Hoffman, a fazer de jovem universitário na descoberta da sua sexualidade, quando já tinha 30 anos na vida real. Na verdade, foi o primeiro papel dele no cinema. Além disso o filme teve como banda sonora algumas das mais belas músicas de Paul Simon, com as harmonias vocais de Art Garfunkel (v.g. "The Sound of Silence ", "Mrs. Robinson"...).

O terceiro filme, foi "Artigo 22". Grande aposta do estúdio Paramount. Investimento substancial. Filme de guerra (sobre a guerra). Do ponto de vista do estúdio e da produção, isto é, do business, um falhanço, porque o mercado não respondeu, mas a passagem do tempo tem vindo a repor justiça na sua avaliação artística. É um filme que saiu na mesma altura de "MASH", de Robert Altman, com o mesmo registo crítico da loucura da guerra (neste caso a guerra da Coreia). Também já vimos.

Em 1961 saiu nos EUA um romance satírico de Joseph Heller, um escritor americano que tinha batido com os costados na segunda guerra mundial. Filho de emigrantes russos, fez missões de bombardeamento na força aérea americana, em Itália.

O tema central circulava em redor dos comportamentos bizarros, desajustados e lunáticos de um conjunto de membros do 256° Esquadrão da força aérea americana, estacionado numa ilha de Itália (Pianosa) em 1944.

A ficção, sátira anti-bélica disruptiva, a partir de memórias pessoais do escritor, ganhou um impacto tremendo nos EUA naqueles anos em que o país estava em vias de mergulhar na tragédia do Vietname. Em poucos anos, tornou-se obra de culto da juventude universitária contestatária do Vietname e obra de referência da literatura americana do século XX. Foi o primeiro livro do autor. Uns anos depois, já na década de noventa, Joseph Heller escreveu a continuação (e o desfecho) de "Artigo 22" com o mesmo humor mordaz, mas lúcido, gloriosamente louco. Os mesmos personagens mais velhos (os que não tinham morrido), mas a mesma leitura satírica, de humor negro, do militarismo. Está traduzido em português - "Hora de fechar".

Catch 22. Jargão militar. Uma situação sem saída, uma armadilha. Um paradoxo.

O capitão John Yossarian (Alan Arkin), piloto de bombardeiros B-25 da Força Aérea Americana, quer ser dispensado pela hierarquia militar de realizar mais combates aéreos. Mas para ser proibido deve ser avaliado pelo médico do esquadrão e declarado inapto para voar - o que seria um diagnóstico automático da insanidade de qualquer piloto, pois só uma pessoa louca aceitaria missões devido ao elevado perigo

Mas...para conseguir o diagnóstico e evitar missões o piloto deve solicitar a avaliação médica...e isso provaria a sua sanidade mental.

A circularidade do paradoxo é a continuidade da situação. A loucura, a insanidade e o absurdo a tomar conta do quartel. Desde o general ao praça. Personagens-tipo, qual delas a mais estranha, a mais apanhada da cabeça. Nuts. O capitão Yossarian, obcecado, não quer voar mais; o coronel Cathcart, outro obcecado, quanto mais missões mais medalhas e louvores na caderneta; o Milo, da intendência, aproveita a guerra em benefício próprio, criando uma verdadeira (e extensa) organização de negócios incluindo a prostituição - ao espírito trumpista; o Major Major, a confusão em pessoa. Com o nome que tinha acabou a comandar a base. Etc. Etc.

A matriz ficcional do filme foi transferida do livro, obviamente com o sentido da medida (o livro é muito extenso, muito denso e com muitas personagens). Da multidão de alienados e lunáticos foram seleccionados alguns, num processo de condensação dramaticamente relevante. O próprio autor do livro teceu rasgados elogios ao argumento.

Mike Nichols (1931-2014), de nome original Michael Igor Peschkowsky (origem russa) fugido da Alemanha nazi com os pais (cada americano é um emigrante ou descendente de emigrantes (independentemente do que o cretino do Trump diga).

Foi sempre um homem de Nova York e do teatro da Broadway (começou como actor de teatro de improvisação, um sucesso, e ao longo da vida fez encenações de referência e teve os maiores prémios na sua carreira) era conhecido como um encenador com o toque de Midas. Onde tocava saía sucesso crítico, popular e financeiro, e com regularidade atravessava a América para fazer uma perninha em Hollywood.

Mike Nichols como cineasta nunca cortou com a sua identidade original como encenador. A essência da palavra e do diálogo e a qualidade suprema dos actores eram determinantes. Para ele, o actor era o centro do filme, era a cola da ficção.

Em "Catch 22" temos um leque substancial de grandes actores, a maioria deles são referência da nossa vivência cultural. Orson Welles, não é preciso dizer nada (é sempre um prazer), aquele general... Martin Balsam, já vindo dos anos 40, fez "12 homens em fúria" de Sidney Lumet. Anthony Perkins, de "Psico" do Hitchcock. Martin Sheen, uns anos depois o soldado do pesadelo de "Apocalypse Now" de Francis Ford Coppola. Jon Voight, em 1969 fez " Cowboy da meia-noite " de John Schlesinger, com Dustin Hoffman.

Para além dos três filmes já citados, Mike Nichols fez mais alguns interessantes (quase sempre a partir de textos teatrais com sucesso na Broadway) e sempre com actores de topo do universo hollywoodiano.

"Conhecimento carnal" (1971) com Jack Nicholson e Candice Bergen. Mais uma vez Mike Nichols irrompeu contra os códigos sexuais hipócritas. O filme foi acusado em muitos sítios de obscenidade.

"Silkwood" (1983), os riscos mortais para a humanidade dos programas nucleares. Meryl Streep em grande.

"Uma mulher de sucesso" (1988), Harrison Ford e Melanie Griffith numa história sobre as questões do feminismo num tempo em que ainda eram mais ou menos marginais.

"A difícil arte de amar" (1986) - já aqui o vimos - com o tandem Meryl Streep /Jack Nicholson.

"Casa de doidas" (1996), uma versão de uma célebre comédia teatral francesa sobre os equívocos da sexualidade. O filme francês "La cage aux folles", de 1978, tinha sido um grande sucesso e a versão americana do Mike Nichols, quase vinte anos depois, não lhe ficou atrás com Robin Williams e Nathan Lane, outro grande actor da Broadway.

"Anjos na América" (2004), uma mini-série filmada a partir de uma peça de teatro de Tony Kushner. Uma ficção espantosa sobre a sida, com Meryl Streep e Al Pacino, onde a matriz teatral não é deliberadamente eliminada.

Voltando ao "Catch 22". Uma ficção paródica, verrinosa, sobre a "sagrada " instituição militar, quixotesca, com algo de cadavre exquis surrealista e de clownesco, a remeter para Jerry Lewis nos seus melhores momentos. A fuga do anti-herói em direcção ao mar (numa ridícula jangada) é a salvação possível. Ou não. Voltará certamente para a base, para fazer mais uns bombardeamentos desnecessários.

A tropa manda!

Johnny Guitar - Nicholas Ray (1954)

"Johnny Guitar" - Nicholas Ray. C/Joan Crawford, Mercedes McCambridge, Sterling Hayden, Ward Bond. 110 M. 1954. Johnny - How many ...