Caros amigos:
Aqui vai a programação para o segundo trimestre:
Segunda Guerra Mundial. Frente Pacífico (Birmânia). Prisioneiros ingleses e americanos são obrigados pelo exército japonês a construir uma ponte, vital para o esforço de guerra nipónico. Resistência passiva - invocados os códigos de honra. Finalmente, após cedências, começa a construção. Nesse processo vão-se revelando os sonhos, as aspirações, as frustrações, as contradições e a resistência dos prisioneiros. Uma história de pequenos heroísmos e afirmações de orgulho. Foi recheada, merecidamente, de Óscares. Com uma música (marcha militar) que entrou no nosso imaginário e que uma cadeia nacional de supermercados resolveu há uns tempos inserir na sua publicidade televisiva - lamentável é o mínimo que se pode dizer.
"Bird - O Fim do Sonho" (1988) - Clint Eastwood.
O jazz. A essência do Jazz. Charlie Parker. Morreu aos 35 anos - em 1955 - mas teve uma vida intensa, caótica, apaixonante, delirante e... trágica. Morreu de overdose de heroína, consumido pelo álcool.
Saxofonista genial, a sua música marcou o seu tempo dentro da (quase) marginalidade da música negra . O Be Bop era o som do jazz (que ele reinventou), a alma da improvisação pela noite dentro, em frenéticas jam sessions, em total liberdade criativa. Clint Eastwood pegou na história da vida do músico como se fora um puzzle, pouco a pouco harmonizando peças separadas, no tempo e na vida, completando um retrato comovente do grande músico, com a contribuição esplêndida de Forest Whitaker.
"Padre Padrone" (1977). Paolo e Vittorio Taviani.
A Sardenha antiga, fora do tempo e das conquistas civilizacionais do Século XX. Sim. Ainda há disso. Um menino de seis anos, pastor de ovelhas e um pai para quem ele é mão-de-obra escrava, sua extensão natural na economia primitiva da casa. A ignorância e a violência como situações normais. O jovem foi lutando contra o pai e contra tudo até aos vinte anos. Finalmente a liberdade. Comovente até às lágrimas. Grande obra, a partir do livro autobiográfico do miúdo (Gavino Ledda), que mereceu todos os encómios na altura, tendo ganho a Palma de Ouro do Festival de Cannes.
"O Deserto dos Tártaros" (1976). Valerio Zurlini.
O romance com o mesmo título é de 1940 e considerado uma obra-prima da literatura italiana do século XX, obra suprema de Dino Buzzati, um jornalista e escritor italiano de créditos superiores. Uma remota fortaleza num deserto (não há precisão geográfica), um corpo militar em contínua vigilância de uma hipotética invasão. O inimigo são os Tártaros (das estepes da Ásia Central, como poderia ser outro povo). A espera torna-se modo de vida ad infinitum, as regras militares são aplicadas com o rigor institucional. O jovem oficial Giovanni Frigo vai para lá na expectativa da glória, das medalhas e louvores. A passagem do tempo. A monotonia. A claustrofobia. O envelhecimento. Nada acontece. A espera vã. Quando os Tártaros atacam já Frigo é velho. É dispensado. Vida em vão, sonhos inúteis. Metáfora poderosa.
"A Estrada do Tabaco" (1941). John Ford.
John Ford outra vez a dissecar a América profunda sua contemporânea. Aqui foi buscar a história ao Erskine Caldwell, escritor profundamente conhecedor das idiossincrasias sulistas, ele que escreveu um conjunto de ficções sobre os brancos pobres do sul americano. "A Estrada do Tabaco", escrito em 1932, no contexto da grande depressão, tornou-se um clássico da literatura americana. Lá, nos confins da Geórgia, os camponeses empobrecidos abandonados pelo sistema político e financeiro, em crise profunda de identidade. Truculento e sórdido quanto baste. O código de moralidade de Hollywood obrigou a limpar muito o argumento. Mas, mesmo assim, é um John Ford de primeira água.
"Johnny Guitar" (1955). Nicholas Ray.
Um dos filmes míticos da história do cinema. Um western. Uma produção barata (Série B) como os estúdios faziam em quantidades industriais nesses tempos empolgantes de Hollywood, para manter ocupados actores e técnicos. O mercado absorvia tudo. A Europa e o fascínio da sua intelligentsia pelo cinema americano, criaram gradualmente a adesão e o culto do filme. Cinema-ópera, a utilização da elipse, a originalidade de duas mulheres inimigas no western (tradicionalmente coisa de homens), algumas das mais belas peças de diálogo da história do cinema, um lirismo arrebatador, etc. etc.
O cinema moderno estava lá. O Nicholas Ray contribuiria com outros filmes para esse movimento. Imperdível.
"Umberto D" (1952). Vittorio De Sica.
Uma leitura nada meiga da Itália a seguir à guerra. Neo-realismo em estado puro. Quase todos actores não profissionais. Uma história de miséria encapotada. Um homem reformado, já idoso, tenta desesperadamente manter o seu quarto alugado que compartilha com o seu cão. As rendas estão atrasadas. Vamos acompanhando o duo pelas ruas da cidade. A poesia da sobrevivência. A dignidade não se perde. O poder político de Itália da altura zangou-se. O filme fez sangue. Mostrou demasiado da porcaria que acompanhou o pós guerra na Itália democrata cristã.
"Rocco e Seus Irmãos" (1960). Luchino Visconti.
O aristocrata Visconti a fazer jus às suas posições políticas (andou pelo PC italiano), com uma leitura muito crua da bipolaridade italiana. Sul, campo, atrasado. Norte, fábricas, desenvolvido.
Uma família procura em Milão o que não tem lá na terrinha meridional. Cinco irmãos e os seus destinos. Drama realista onde raia o pessimismo. Não é fácil o ajustamento a novos padrões sociais. Na verdade é a emigração no quadro do mesmo país. O desenraizamento cultural gera os pequenos e grandes dramas. Alain Delon a consolidar o seu papel de grande actor do cinema europeu.
"Uma Vida Difícil" (1961). Dino Risi.
A comédia italiana. Nua e crua. O modo de ser italiano, requintadamente mostrado, nos anos 50 e 60 do século passado, por uma plêiade notável de cineastas. Dino Riso foi dos maiores e melhores.
Um homem com valores, idealismo, ética. Esteve na resistência italiana a lutar contra Hitler e Mussolini. Por não abdicar dos seus valores, foi perdendo tudo na vida, incluindo a sua mulher. Depois tenta reajustar-se à realidade mais comezinha da vida. Alberto Sordi, entre o sério e o jocoso numa bela história trágico-cómica.
"O Homem a Quem Chamaram Cavalo" (1970). Elliot Silverstein.
Os índios do lado de lá. Retrato realista da vida e cultura da tribo Sioux, no início do século XIX. Um aristocrata inglês numa expedição no Dakota é capturado pelos índios e escravizado. Gradualmente vai perdendo a sua identidade e vai-se aculturando. Apaixona-se pela irmã do chefe. Os afectos também contam. É de cá ou é de lá? Vai ter que provar sujeitando-se aos rituais da tribo. Que futuro lhe reserva a vida? Bela e comovente história com o enorme actor Richard Harris.
"E Deram-lhe uma Espingarda" (1971). Dalton Trumbo.
Dalton Trumbo foi uma das personalidades mais marcantes de Hollywood nos bons velhos tempos. Como argumentista o cinema deve-lhe obras-primas. Foi um dos que foi perseguido e marginalizado nos anos 50 no processo miserável de caça às bruxas (Hollywood Ten). Paralelamente à sua actividade de argumentista foi romancista de mérito. Em 1939 escreveu um romance pacifista "Johnny Got his Gun" que trinta e tal anos depois deu origem a este filme, que ele próprio realizou (o único na sua vida). Um soldado que perdeu os braços, as pernas e o rosto (um destroço humano), mas que não perdeu a lucidez. O que lhe resta? Lembranças, memórias e desejos num vazio amargo, sem futuro. Terrível e comovente.
O critério da escolha foi qualidade na diferença. Alguns clássicos e outros assim-assim, mas todos filmes muito interessantes. As expectativas estão criadas - lá estaremos no início do ano.
Um Bom Natal e um Bom Ano!
Jorge Barata Preto
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