08 fevereiro 2026

Johnny Guitar - Nicholas Ray (1954)

"Johnny Guitar" - Nicholas Ray. C/Joan Crawford, Mercedes McCambridge, Sterling Hayden, Ward Bond. 110 M. 1954.

Johnny - How many men have you forgotten?
Vienna - As many women as you remember.
J - Don't go away...
V - I haven't moved.
J - Tell me something nice.
V - Sure. What do you want to hear?
J - Lie to me. Tell me all these years you have waited, tell me.
V - All these years I have waited.
J - Tell me you would have died if I hadn't come back.
V - I would have died if you hadn't come back.
J - Tell me you still love me like I love you.
V - I still love you like you love me."

Passaram cinco anos. Vienna e Johnny, antigos amantes, reencontram-se no saloon dela. A amargura do passado - as mágoas e as dores - está reflectida no diálogo. Agora há um problema a resolver com os outros. Haverá ainda lugar para o amor?

Nicholas Ray (1911-1979). Cineasta americano. Opus 9. O primeiro filme, "Filhos da Noite", tinha-o feito em 1949 e não é nada de deitar para o lixo da memória. Depois ainda fez mais 13 filmes, até 1963. Intelectual assumidamente liberal, teve problemas com o poder. Andou pela área da música, conviveu com "perigosos esquerdistas" como os músicos Woody Guthrie, Pete Seeger e Leadbelly. Chegou a ser considerado pelo FBI como um "perigo potencial ". Os estúdios foram-lhe cortando as vazas, envolveu-se em diferentes projectos e todos falharam. Veio para a Europa e nada de especial aconteceu. De volta aos EUA, tornou-se professor de cinema. 

No fim da sua vida, dizimado por um cancro terminal, Wim Wenders, admirador confesso, fez com ele um filme meio documental, meio ficcional - "Lightning over water" (1980). Já não viveu o tempo suficiente para vê-lo. Já em 1977 tinha entrado em "O Amigo Americano" (uma das aventuras do Ripley da Patricia Highsmith) do cineasta alemão, fazendo uma perninha como actor.

Ao longo da sua actividade realizou um conjunto de filmes de referência, para além de "Filhos da Noite". Só alguns: "O Crime não compensa" (1949) com Humphrey Bogart, ""Matar ou não Matar " (1950), igualmente com Bogart, "Fúria de Viver " (1955), com James  Dean, "Cruel Vitória " (1957), "A Floresta Interdita" (1958), já aqui vimos.

"Johnny Guitar ". Arizona. Meio do século XIX. Os caminhos-de-ferro a abrir o espaço amplo e virgem da América à civilização do leste. Conflitos de interesses e de grupos. A confusão indistinta entre a lei e o poder. A lei do poder a fazer de lei. 

Vienna (Joan Crawford), uma mulher madura, com requintes vivenciais, dona de um saloon na envolvente de uma prevista linha de comboio. Alimenta o sonho de criar aí uma cidade, enriquecer. Obstinada. Uma mulher forte entre homens, em conflito com Emma (Mercedes McCambridge) e com o xerife local.
Emma, outra mulher forte, filha de um grande fazendeiro, solteirona, condutora de homens, com interesses antagónicos. Algo histérica, é inimiga mortal de Vienna, a quem acusa de ter morto o seu irmão e de proteger "Dancing Kid", um marginal, por quem ela tem uma paixão violenta mas inconfessável. Este ama Vienna e vive isolado com os seus capangas. Desencontros afectivos. Conflitos sanguíneos. Neurose.

Enlouquecida pelo desejo frustrado, Emma, vestida de negro, vingativa, sedenta de sangue, alicia uma multidão com a cumplicidade do xerife para incendiar o saloon e enforcar "Dancing Kid" e Vienna. 

Vienna, perante a situação de violência que  a cerca e ameaça (primeiro querem expulsá-la do bar, o centro da sua vida; depois querem enforcá-la), apela a Johnny Guitar, ex-pistoleiro e ex-amante. Com um passado complicado (foge-lhe a mão para o revólver), desapareceu há cinco anos (nunca percebemos por que foi embora) e regressa convertido em músico ambulante, trovador.

Entre mal-entendidos, equívocos e traições, o conflito vai-se aprofundando num jogo ritualizado entre as duas partes.
A discórdia feminina é resolvida radicalmente num duelo entre Vienna e Emma. Duas mulheres, inversão das convenções do género. Vienna venceu. E o amor volta a acontecer.

Naqueles tempos exultantes dos estúdios da Hollywood dos anos 50, o consumo do mercado absorvia a multiplicidade e diversidade de produções cinematográficas e até havia lugar para os pequenos estúdios. Foi o caso deste filme. Uma história a priori semelhante a muitas outras histórias que alimentavam o "western",  género cinematográfico geneticamente americano. 

Joan Crawford - uma das maiores estrelas do cinema mudo dos anos 20 e 30 - comprou os direitos de autor do livro com o mesmo título e colocou o projecto num pequeno estúdio, "Republic Pictures", especializado em filmes B, apelativos, rápidos e baratos. 

Nicholas Ray foi o mestre que pôs em ordem a máquina. Joan Crawford (dona dos direitos do livro) atribuiu-se obviamente o papel marcante da amante abandonada, que vive uma vida fora do tempo e do lugar. 
O resto veio por acréscimo. Actores experientes (alguns do clã fordista, John Ford, entenda-se), argumento bem engendrado a partir do romance original, música à maneira, com uma banda sonora com efeitos de redundância dramática (a canção-título pela Peggy Lee, uma das divas da música na América).

O resultado foi surpreendente. Nicholas Ray transmutou um argumento banal num quadro barroco, operático, excessivo. Cores garridas, vibrantes, fortes, e deliberadamente falsas. Décors espantosos, como o casino ou a cascata. Um delírio romântico, servido por sublimes e poéticos diálogos. Com o tempo o filme ganhou o estatuto de cult movie.

Como escreveu João Bénard da Costa, muitos anos Director da Cinemateca - o gongórico e ditirâmbico cultor do filme ("o meu filme de cabeceira", "o meu filme mais amado", "só vi 'Johnny Guitar' 68 vezes entre 1957 e 1988" - ele desapareceu em 2009, imagine-se quantas mais vezes o viu) - "Johnny Guitar" é "tecnicamente um western, cenário de western e narrativa de western. Depois é um labirinto emocional que dinamita o género".

Noutro contexto JBC escreveu: " Como as maiores obras, "Johnny Guitar" não se explica. Conta-se (vê-se) outra, outra e outra vez, como as histórias que se contam às crianças, até que tudo se saiba de cor e se aprenda que tudo está nelas. É a "Imitação de Cristo" dos cinéfilos. Basta abrir-se ao acaso e encontra-se a prece certa."

Martin Scorsese também não foi modesto: "0 público americano da época não sabia o que pensar do filme. O público europeu viu Johnny Guitar pelo que ele era - um filme intenso, não convencional e estilizado, cheio de ambiguidades e sub-textos que o tornaram extremamente moderno."

Que todos consigam tirar do filme o que ele tem para dar. Prazer absoluto. Visual e espiritual. 

Em memória de João Bénard da Costa, para quem o cinema era o vício. Um bom vício.

01 fevereiro 2026

Cinema às 4ªs - A Estrada do Tabaco - John Ford

C/ Charley Grapewin, Marjorie Rambeau, Gene Tierney, Dana Andrews. 1H24M. 1941

"As Vinhas da Ira" (1940), John Steinbeck versus John Ford (já vimos). "A Estrada do Tabaco" (1941), Erskine Caldwell versus John Ford. 
Dois escritores e um realizador. Uma mesma realidade politico-social, o sul dos Estados Unidos da América. Um mesmo tempo, anos 30, tempos terríveis da grande depressão.

Erskine Caldwell (1903-1987) nasceu no sudeste, no Estado da Geórgia, filho de um pregador presbiteriano. O universo social e comportamental do sul foi a matriz da sua vivência e educação. Brancos pobres, broncos, a maioria sem saber ler e escrever, conservadores até à medula, machistas, racistas empedernidos. Na gíria, os "rednecks". Negros vivendo uma vida de quase escravos, sujeitos ao desprezo dos brancos, à violência e morte pelo Ku Klux Klan, sem qualquer protecção legal. 

Um mundo arcaico, onde a degenerescência moral é normal, a religião ritualizada e primitiva enforma os actos e comportamentos e a demagogia dos políticos pode desencadear tempestades. Uma economia de sobrevivência, muito focada na produção de tabaco e algodão.

A partir desta matéria-prima explosiva (que, lamentavelmente, continua nos nossos dias com poucas alterações de fundo), Erskine Caldwell construiu uma obra literária relevante, fotográfica, da vivência no sul, o ódio e a segregação racial, o primarismo comportamental, muitas vezes a rondar o animalesco. No seu livro de memórias ele chamou-lhe "o ciclorama da vida sulista".

A sua produção literária, bastante extensa,  espantosamente teve uma grande divulgação no mercado editorial português nas décadas de 40, 50 e 60. A priori a temática, a linguagem (dura, chocante, quase a roçar a pornografia) e a posição ideológica do escritor (liberal), seriam factores bloqueadores face aos critérios censórios vigentes naqueles anos negros em Portugal, reforçados pela intrusão violenta da PIDE (são conhecidas histórias de intervenção da polícia política nas tipografias e editoras e a apreensão de edições de "livros proibidos").

Certamente o que explica a publicação dos livros do Erskine Caldwell sem problemas de maior foi a idiotice institucional das censuras - histórias lá da América, a escumalha dos pretos do sul, e o sexo, pois, mas isso era lá com eles, tudo muito distante, não tem nada que ver com Portugal nem com os nossos pretos de Angola e Moçambique.

Todos os grandes livros do autor foram publicados (obviamente com a intervenção clara dos intelectuais da oposição com ligações muito fortes às editoras e alguns foram tradutores, o Jorge de Sena, por exemplo) : "A Estrada do Tabaco" (1932), "A Jeira de Deus" (1933), foram os livros de início que lhe deram estatuto, visibilidade e dinheiro (e também problemas, foram proibidos em vários Estados americanos e ele chegou a ser preso), mas foi publicando muito ao longo dos anos - romances, contos, poesia. E também fez alguns livros em parceria com a Margareth Bourke-White (com quem foi casado de 1939 a 1942), texto dele, fotografias dela. Muitas traduções são encontráveis na "Bertrand", nos restos  da "Europa-América" e na "Livros do Brasil ".

Erskine Caldwell foi, além de romancista - gradualmente perdendo a faísca, por um certo repetitivismo temático - correspondente de guerra. Esteve na Rússia (Moscovo e Ucrânia). Nesses anos, a mulher andou também pela Europa em guerra (na Rússia e, acompanhando o exército de Patton, fotografou o horror dos campos de concentração) e, em 1948,  fez uma reportagem fotográfica com Ghandi (poucas horas antes do seu assassinato), que a colocou na montra da fotografia do Século XX. O filme "Ghandi" aborda essa relação entre o líder indiano e a fotógrafa.

Vamos ao filme. Mas antes, os  prolegómenos. Apesar do tema quente ou, se calhar, por causa dele, uma adaptação fiel do livro ao teatro fez um sucesso estrondoso e escandaloso na Broadway. A peça manteve-se em cartaz por mais de sete anos, recorde naqueles tempos. Nova York liberal, de cabeça arejada, foi alimentando o sucesso, apesar das regulares imprecações de alguma imprensa e das manifestações das ligas conservadoras.

Hollywood não dormia. Sucesso no teatro, potencial sucesso no cinema. 
O estúdio "20 th Century Fox" comprou os direitos de autor, pôs Nunnally Johnson, um dos grandes escritores da história do cinema americano, a trabalhar no argumento e aconteceu o previsível. Mantendo o argumento fiel ao livro, chocava com quase todas as restrições do Código Hays. Nada a fazer ou, em alternativa, procurar o mal menor. Reescrever o texto, eliminar ou disfarçar as excrescências "imorais" e negociar cada linha de texto com os burocratas censores.
Quando houve acreditação da máfia censória do Código de Hays, John Ford pegou no argumento e o filme aconteceu.

Os Lester (Pai, mãe e dois filhos) uma família branca da Geórgia, apanhada no vórtice da crise naqueles anos dramáticos da grande depressão. O velho casal tinha tido dezassete ou dezoito filhos, nem sabem bem. Os que não morreram safaram-se para as cidades vizinhas para trabalhar nas fábricas. Pequenos agricultores, da sobrevivência à miséria, um passo minúsculo. Há cem anos a família tinha sido importante. Restam mansões degradadas daqueles velhos tempos faustosos.

Toda aquela gente vive numa ignorância indescritível e numa inércia total. Desde há sete anos que não fazem uma colheita. Uma degradação física e moral afunda-os no vazio, o não futuro. Realismo cru. O deixa andar. A recusa em encarar o real. A religião com os seus hinos exaltantes é uma espécie de carapaça alimentadora.  Os bancos não perdoam. Têm uns dias para arranjar cem dólares. Obviamente não conseguem. Resta-lhes o asilo. A não ser que aconteça um pequeno milagre...Mas é apenas o adiamento de um destino impiedoso. Muitos dirão que as coisas são mesmo assim. 

John Ford transformou esta história melodramática numa comédia com um registo truculento, quase slapstick (humor físico, exagerado, barulhento, burlesco) com sequências a deverem muito às comédias do cinema mudo.

O sul e a literatura. Por associação de ideias, lembremos que naqueles anos em que o Erskine Caldwell escreveu sobre o deep south americano, houve, pelo menos, dois outros grandes escritores, na verdade foram duas, que escreveram sobre a essência daquela cultura arrepiante, primária, mórbida e fantasmagórica: Carson McCullers e Flannery O'Connor. Quase toda a sua obra está disponível no mercado editorial português.

E John Ford? Já não há muito a dizer sobre ele. Quando, há poucos meses, passámos "As Vinhas da Ira" escrevemos o essencial sobre ele, os seus filmes e o seu papel incontornável na história do cinema. Já na velhice, entrevistado por Peter Bogdanovich, grande cineasta dos anos 70 e 80, assumiu: "I am John Ford, I make westerns". Claro que era imodéstia. Fez muito mais do que coboiadas. A sua extensa obra é das mais importantes da história do cinema.

Johnny Guitar - Nicholas Ray (1954)

"Johnny Guitar" - Nicholas Ray. C/Joan Crawford, Mercedes McCambridge, Sterling Hayden, Ward Bond. 110 M. 1954. Johnny - How many ...