C/ Charley Grapewin, Marjorie Rambeau, Gene Tierney, Dana Andrews. 1H24M. 1941
"As Vinhas da Ira" (1940), John Steinbeck versus John Ford (já vimos). "A Estrada do Tabaco" (1941), Erskine Caldwell versus John Ford.
Dois escritores e um realizador. Uma mesma realidade politico-social, o sul dos Estados Unidos da América. Um mesmo tempo, anos 30, tempos terríveis da grande depressão.
Erskine Caldwell (1903-1987) nasceu no sudeste, no Estado da Geórgia, filho de um pregador presbiteriano. O universo social e comportamental do sul foi a matriz da sua vivência e educação. Brancos pobres, broncos, a maioria sem saber ler e escrever, conservadores até à medula, machistas, racistas empedernidos. Na gíria, os "rednecks". Negros vivendo uma vida de quase escravos, sujeitos ao desprezo dos brancos, à violência e morte pelo Ku Klux Klan, sem qualquer protecção legal.
Um mundo arcaico, onde a degenerescência moral é normal, a religião ritualizada e primitiva enforma os actos e comportamentos e a demagogia dos políticos pode desencadear tempestades. Uma economia de sobrevivência, muito focada na produção de tabaco e algodão.
A partir desta matéria-prima explosiva (que, lamentavelmente, continua nos nossos dias com poucas alterações de fundo), Erskine Caldwell construiu uma obra literária relevante, fotográfica, da vivência no sul, o ódio e a segregação racial, o primarismo comportamental, muitas vezes a rondar o animalesco. No seu livro de memórias ele chamou-lhe "o ciclorama da vida sulista".
A sua produção literária, bastante extensa, espantosamente teve uma grande divulgação no mercado editorial português nas décadas de 40, 50 e 60. A priori a temática, a linguagem (dura, chocante, quase a roçar a pornografia) e a posição ideológica do escritor (liberal), seriam factores bloqueadores face aos critérios censórios vigentes naqueles anos negros em Portugal, reforçados pela intrusão violenta da PIDE (são conhecidas histórias de intervenção da polícia política nas tipografias e editoras e a apreensão de edições de "livros proibidos").
Certamente o que explica a publicação dos livros do Erskine Caldwell sem problemas de maior foi a idiotice institucional das censuras - histórias lá da América, a escumalha dos pretos do sul, e o sexo, pois, mas isso era lá com eles, tudo muito distante, não tem nada que ver com Portugal nem com os nossos pretos de Angola e Moçambique.
Todos os grandes livros do autor foram publicados (obviamente com a intervenção clara dos intelectuais da oposição com ligações muito fortes às editoras e alguns foram tradutores, o Jorge de Sena, por exemplo) : "A Estrada do Tabaco" (1932), "A Jeira de Deus" (1933), foram os livros de início que lhe deram estatuto, visibilidade e dinheiro (e também problemas, foram proibidos em vários Estados americanos e ele chegou a ser preso), mas foi publicando muito ao longo dos anos - romances, contos, poesia. E também fez alguns livros em parceria com a Margareth Bourke-White (com quem foi casado de 1939 a 1942), texto dele, fotografias dela. Muitas traduções são encontráveis na "Bertrand", nos restos da "Europa-América" e na "Livros do Brasil ".
Erskine Caldwell foi, além de romancista - gradualmente perdendo a faísca, por um certo repetitivismo temático - correspondente de guerra. Esteve na Rússia (Moscovo e Ucrânia). Nesses anos, a mulher andou também pela Europa em guerra (na Rússia e, acompanhando o exército de Patton, fotografou o horror dos campos de concentração) e, em 1948, fez uma reportagem fotográfica com Ghandi (poucas horas antes do seu assassinato), que a colocou na montra da fotografia do Século XX. O filme "Ghandi" aborda essa relação entre o líder indiano e a fotógrafa.
Vamos ao filme. Mas antes, os prolegómenos. Apesar do tema quente ou, se calhar, por causa dele, uma adaptação fiel do livro ao teatro fez um sucesso estrondoso e escandaloso na Broadway. A peça manteve-se em cartaz por mais de sete anos, recorde naqueles tempos. Nova York liberal, de cabeça arejada, foi alimentando o sucesso, apesar das regulares imprecações de alguma imprensa e das manifestações das ligas conservadoras.
Hollywood não dormia. Sucesso no teatro, potencial sucesso no cinema.
O estúdio "20 th Century Fox" comprou os direitos de autor, pôs Nunnally Johnson, um dos grandes escritores da história do cinema americano, a trabalhar no argumento e aconteceu o previsível. Mantendo o argumento fiel ao livro, chocava com quase todas as restrições do Código Hays. Nada a fazer ou, em alternativa, procurar o mal menor. Reescrever o texto, eliminar ou disfarçar as excrescências "imorais" e negociar cada linha de texto com os burocratas censores.
Quando houve acreditação da máfia censória do Código de Hays, John Ford pegou no argumento e o filme aconteceu.
Os Lester (Pai, mãe e dois filhos) uma família branca da Geórgia, apanhada no vórtice da crise naqueles anos dramáticos da grande depressão. O velho casal tinha tido dezassete ou dezoito filhos, nem sabem bem. Os que não morreram safaram-se para as cidades vizinhas para trabalhar nas fábricas. Pequenos agricultores, da sobrevivência à miséria, um passo minúsculo. Há cem anos a família tinha sido importante. Restam mansões degradadas daqueles velhos tempos faustosos.
Toda aquela gente vive numa ignorância indescritível e numa inércia total. Desde há sete anos que não fazem uma colheita. Uma degradação física e moral afunda-os no vazio, o não futuro. Realismo cru. O deixa andar. A recusa em encarar o real. A religião com os seus hinos exaltantes é uma espécie de carapaça alimentadora. Os bancos não perdoam. Têm uns dias para arranjar cem dólares. Obviamente não conseguem. Resta-lhes o asilo. A não ser que aconteça um pequeno milagre...Mas é apenas o adiamento de um destino impiedoso. Muitos dirão que as coisas são mesmo assim.
John Ford transformou esta história melodramática numa comédia com um registo truculento, quase slapstick (humor físico, exagerado, barulhento, burlesco) com sequências a deverem muito às comédias do cinema mudo.
O sul e a literatura. Por associação de ideias, lembremos que naqueles anos em que o Erskine Caldwell escreveu sobre o deep south americano, houve, pelo menos, dois outros grandes escritores, na verdade foram duas, que escreveram sobre a essência daquela cultura arrepiante, primária, mórbida e fantasmagórica: Carson McCullers e Flannery O'Connor. Quase toda a sua obra está disponível no mercado editorial português.
E John Ford? Já não há muito a dizer sobre ele. Quando, há poucos meses, passámos "As Vinhas da Ira" escrevemos o essencial sobre ele, os seus filmes e o seu papel incontornável na história do cinema. Já na velhice, entrevistado por Peter Bogdanovich, grande cineasta dos anos 70 e 80, assumiu: "I am John Ford, I make westerns". Claro que era imodéstia. Fez muito mais do que coboiadas. A sua extensa obra é das mais importantes da história do cinema.

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