16 novembro 2022

Do Fundo do Coração - Francis Ford Coppola (1982)

Com Frederic Forrest, Teri Garr, Nastassia Kinski. 1982. 95 min

A década de 70 foi prodigiosa para F. F. Coppola:  "O Padrinho" I e II e "Apocalipse Now", são três filmes que  fazem parte da história do cinema e referência inquestionável no quadro vivencial e cultural do pessoal daquela geração (na verdade somos nós). Com o prestígio (e os milhões ganhos) Coppola sonhou alto. Concebeu um quadro de produção radicalmente alternativo a Hollywood. Chamou-lhe Zoetrope. Um estúdio baseado nas novas tecnologias que no início dos 80 estavam a dar os primeiros passos (o cinema electrónico), aberto a jovens talentosos e com ideias brilhantes. São Francisco foi o centro daquele mundo.

Mas vai sempre uma longa distância entre o sonho e a realidade. Foi lá que ele fez este filme. Integralmente produzido em estúdio. E espantosamente, num quadro projectado para o futuro - mais 20 anos e se calhar as coisas teriam sido diferentes - Coppola vai fazer o seu primeiro filme no seu espaço autónomo sem interferências dos "big bosses" de Hollywood, recuperando um dos géneros clássicos do cinema americano, o filme musical. História mais do que simples. O beábá. - um homem, uma mulher. A crise do casal. A aparente separação. A traição mútua. E...finalmente o reencontro amoroso (provavelmente até à próxima crise, que já não faz parte do filme). Recuo na história do cinema de uns 40 anos. Mas isto é apenas o pretexto para um exercício (chamemos-lhe assim por respeito e admiração por Coppola) de prestidigitação. A exuberância das cores e das luzes, o artificialismo e o maravilhoso no universo aberrante e desértico de Las Vegas. A mobilidade da câmara em sequências deliciosas, como se aquilo fosse um circo e a magia estivesse ao virar da esquina. É um grande sonho, um devaneio, um desejo de fuga para um distante Pacífico (Bora Bora) ou para Paris ou Roma. Mas como um dos personagens diz, é tarde de mais.

O filme é um brinquedo maravilhoso de tal modo estupidamente caro que o nosso amigo Coppola se afundou com ele. Bancarrota. Dizem as crónicas que foram 27 milhões de U$D derretidos com a megalomania do Francis. A  comunidade de realizadores e argumentistas que ele sonhava para animarem a Zoetrope não passou de uma miragem.

Felizmente que ele ultrapassou a crise (mais uma) e continuou a fazer pequenas obras-primas e, acima de tudo, criou na sua propriedade em Napa Valley algum dos melhores vinhos do mundo. Brindemos a ele.

Já agora,  em casa também podem beber um copo enquanto ouvem o Tom Waits acompanhado pela Crystal  Gayle em toda a banda sonora do filme. Se não tiverem, basta qualquer álbum  do Tom Waits, grande trovador do nosso tempo. Não o conhecem? Ainda estão a tempo.

Tchim tchim...

09 novembro 2022

O cabo do medo - Martin Scorsese (1991)

Com Robert de Niro, Nick Nolte, Jessica Lange
Duração: 128 min

Scorsese e Spielberg. Do outro lado o estúdio Universal. "O Cabo do Medo" estava atribuído a Spielberg e "A Lista de Schindler" a Scorsese. Mas o mundo de Hollywood tem muitas atribulações e tudo acabou da melhor forma possível para os amantes do cinema. E de que maneira!... Neste caso mais um grande projecto para o De Niro numa história terrível, densa e arrepiante. Um psicopata, abjecto e exibicionista liberto da prisão onde passou 14 anos procura o advogado que o defendeu mal (ocultação de provas) e procura a vingança. Ninguém escapa à sua acção psicótica, à sua verdade, à sua justiça. O personagem carrega com ele todo um programa sob a forma de tatuagens. O seu corpo é a sua mensagem. Tal como no início as paredes da sua cela indiciam o que vem aí. Tentem ver atentamente... A verdade e a justiça que ele procura - e também a redenção - estão gravados na sua pele. E a Bíblia como aval. A forma da ficção, como se fosse um thriller clássico dos anos 40 ou 50, é a matriz da enunciação de uma história que cava mais fundo, indo até à essência do ser humano, dos seus medos e fantasmas. Como diz o Cady (De Niro): "Ninguém escapa aos seus demónios" . Na luta final num barco à deriva, a loucura atinge o seu auge e vemos Cady na água entoando uma lengalenga numa língua estranha. Será que dialoga com os seus demónios e eles o acolherão, a ele que diz que vai para a terra prometida? Ou sobreviveu e anda por cá a atormentar-nos?

A intensidade dramática é espantosa. A duplicidade de sentidos e significados vai baralhando as leituras. Os limites  das fronteiras entre o bem e o mal vão-se baralhando. Os limiares da ética são difusos.

Apesar de Scorsese ter apontado algumas resistências para aceitar fazer o filme, acredito que lhe terá dado um prazer especial porque é um "remake" de um filme de 1962 de um género de que ele, como cinéfilo, adora. A versão original foi feita por um cineasta de referência em Hollywood, J. Lee Thompson, que fez por exemplo "Os Canhões de Navarone" e "As Minas de Salomão". Scorsese homenageou a primeira versão do filme convidando para pequenos papéis os dois actores principais, Robert Mitchum e Gregory Peck.

Há que estar atentos a todos os pormenores. Scorsese não  nos deixa descansar. Temos que estar em alerta contínuo porque o medo impregna-se. Resistamos-lhe, mas sejamos cúmplices com o jogo dramático que o Scorsese manipula como um mestre.

02 novembro 2022

O touro enraivecido - Martin Scorsese (1980)

Com Robert de Niro, Joe Pesci, Cathy Moriarty
Duração: 123 min

Martin Scorsese no seu melhor. Uma história real de um personagem vivo. O universo italiano importado há duas ou três gerações para a América. O catolicismo em todas as referências mesmo que só à superfície. O pugilismo como modo de afirmação e poder nas franjas do proletariado da grande New York (Bronx).

Mas quem puxou pela carroça foi o De Niro. Fascinado pelo livro de memórias do pugilista Jake La Motta, o actor conseguiu convencer o amigo a entrar no projecto. Uns anos antes tinham atingido os píncaros com "Taxi Driver" e no ano anterior tinham-se espalhado ao comprido com "New York, New York" (injustamente devo dizer, e a história acredito me dará razão). O Scorsese, com o desgosto e com excesso de cocaína, barbitúricos e outros produtos não recomendáveis, tinha ido parar ao hospital. Mas lá se conseguiu safar e meteu-se até ao tutano no projecto. Mas com dúvidas existenciais. É ele que o escreve: A ideia era fazer um filme o mais sincero possível, sem nenhum compromisso com o "box-office" ou o público. Disse para mim: acabou. A minha carreira terminou. Acabou. É o último". Felizmente não foi assim. O Scorsese continua ainda e sempre a surpreender-nos, para nosso íntimo e intelectual prazer. O resultado foi absolutamente ímpar. A ascensão e queda de um pugilista e do homem que ele era. Um processo de auto-destruição aterrador. Um homem obcecado, orgulhoso, machista, ciumento. Um personagem que se torna patético. Atingiu o sonho americano e destruiu tudo o que conquistou. Termina como  "entertainer" em clubes e cabarés contando umas anedotas porcas e apalpando umas meninas patetas. Tudo isto é contado com imagens espantosas:  as sequências de boxe nos ringues (a linguagem está nos corpos, diz o Scorsese), o interlúdio colorido (Scorsese filmou a preto e branco) de passagem do tempo, casamentos, filhos, como se fossem uns filmezinhos caseiros,  as sequências dos cabarets.... É um não mais acabar. Há que ver com atenção todos os requintes. A montagem, por exemplo. Thelma Schoonmaker, apenas um nome. Mas importante. Ela é a outra parte da parceria criativa com o Scorsese. Há 50 anos que monta os filmes dele. Ganhou três Oscares e o primeiro foi precisamente com O Touro Enraivecido.

E os actores? Robert De Niro ganhou o Oscar, está tudo dito. Mas Joe Pesci não merecia também?

Neste filme, onde a iconografia do corpo é a matriz essencial, em última instância o que se procura é a redenção, o combate com os demónios. Será surpreendente que a ficção termine com uma citação dos Evangelhos? Jake la Motta. Paz à sua alma. Apesar de tantos murros recebidos - reais e figurados - acabou por ter uma vida muito longa.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...