25 janeiro 2023

Cães danados - Quentin Tarantino (1992)

Com Harvey Keitel, Tim Roth, Steve Buscemi
Duração: 95 min

Tarantino chegou ao cinema pela cinefilia pura. Não a dos cineastas europeus da nouvelle vague francesa (Goddard, Truffaut, Rhomer, Rivette, etc.) e todas as adjacências nacionais - italianos, espanhóis, portugueses...para quem a Cinemateca de Paris era, nos anos 60 e 70, um templo sagrado com 3 ou quatro sessões "religiosas" por dia. Tarantino é um filho espiritual do Scorsese, que devorava na sua juventude e em doses cavalares todo o cinema de Hollywood desde as suas origens profundas. Tarantino começou esse prazer quando ainda não tinha idade para isso, na companhia da mãe de extracção hippie da Califórnia. É ele que o conta num livro acabado de sair, "Cinema Speculation" que (por acaso) estou a ler.

Mas vamos ao filme. Com milhares de filmes na cabeça, sem critérios específicos de visão, com jeito para escrever, conseguiu vender argumentos para Hollywood que até deram filmes de sucesso. A partir daí, com apoios de alguns mais velhos (Harvey Keitel e Monte Hellman), conseguiu dinheiro para ele fazer um filme como realizador. Um assalto para roubar diamantes. Um grupo de marginais mutuamente desconhecidos trabalhando para um big boss. Mr. Pink, Mr. Blue, Mr. Orange, e por aí fora. O Tarantino é um dos do bando que vemos morrer a meio. Obviamente as coisas deram para o torto. Nunca vemos o assalto. Só o antes e o depois. É nesta articulação em flashbacks que se desenvolve toda a ficção. Tudo correu mal porque houve traição. Um deles é um infiltrado da polícia.Grande exercício de estilo. O sadismo a par da ética (sim, aquele pessoal tem ética). Uma estilização refinada, com grande elegância da câmera, é compatível com um imaginário gore (sangue é o que não falta). Mas o exibicionismo tem os seus limites. Numa das sequências violentas em que um polícia está a ser violentado por um dos maus há um efeito perverso no bom sentido: quando esperamos o pior, a câmara desvia-se, suspende-se e só apanhamos o horrível resultado já no fim. Isto é cinema ao seu mais alto nível. E o imaginário da época em grande. A música com êxitos da altura e a Madona (Like a Virgin, True Blue) como polo de conversa e discussão. E a cinefilia do nosso amigo Tarantino - Steve McQueen em "A grande evasão" do John Sturges, Lee Marvin (muitos papéis de mau ele fez com grande requinte de sadismo), Charles Bronson (aquela personagem dos anos 70/80, parafascista que ele fez em vários filmes do Michael Winner) e Pam Grier (actriz negra, grande estrela dos filmes negros dos anos 70, designados blackexploitation dos quais o mais conhecido foi "Shaft`). A Pam Grier foi "ressuscitada" pelo Tarantino em 1997 com "Jackie Brown". Grande lição de cinema, ainda que tenha sido a estreia do Tarantino como realizador.

A seguir veremos "Pulp Fiction" e "Django Libertado". A essência do Tarantino. Um cinema exibicionista marcado por uma estética de violência gráfica e sempre com uns argumentos muito fortes. O Tarantino escreve muito bem.

É um desafio. Quem alinha? Estamos cá para descodificar esta abordagem de cinema provocador. Não podemos esperar sempre pela papa feita.

18 janeiro 2023

Despertares - Penny Marshall (1990)

Com Robert de Niro e Robin Williams
Duração: 121 min

Milagre. Tirem-lhe o sentido religioso e fiquemos pelos contornos médicos. E mesmo assim só se atingirá uma falsa esperança. Uma instituição psiquiátrica da grande New York, no Bronx, onde a maioria dos doentes com elevados distúrbios neurológicos, vegeta em estado catatónico - aparentemente uma encefalite letárgica (doença do sono) ocorrida nos anos 20 - admite um jovem médico psiquiatra com ideias e métodos pouco ortodoxos. Gradualmente consegue entrar naquele universo de prostração e apatia, conseguindo convencer o estado maior do hospital a aplicar uma droga a partir de L-Dopa, um medicamento usado para a Doença de Parkinson. Dá-se o "milagre", primeiro com um doente (espantoso Robert de Niro) e depois com outros. Revolução. Transfiguração. Metamorfose. Alguns doentes estavam parados ainda no tempo da lei seca. As estátuas-vivas recuperam a sua vontade. De destroços humanos tornam-se seres com vida e sentido do prazer. Eles que já não esperavam nada. Como diz um deles "I am back". E outro: "A fucking miracle".

Mas o milagre foi apenas transitório, pontual. Pouco a pouco cada um daqueles seres volta ao recolhimento vegetativo. A cura falhou. Os despertares foram curtos, mas certamente valeram para cada um deles uma vida.

Isto não foi ficção. Com os desvios próprios do cinema de Hollywood aconteceu e quem o viveu e contou foi Oliver Saks, um neurologista, psiquiatra e escritor. Este caso está contado em "O tempo de despertar" (1973), tradução portuguesa. Outros livros ele escreveu (alguns traduzidos para português) sobre as suas experiências e vida, nomeadamente o que é mais conhecido - "O homem que confundiu a sua mulher com um chapéu".

Oliver Saks, judeu nascido em Inglaterra, mas desde 1965 a viver em N. York, tal como figurado no filme, era tímido, solitário, reservado, mas... homossexual. Procurava o bem dos seus doentes, mas não conseguiu viver de bem consigo. Como dizia o personagem de "Quanto mais quente melhor": "Nobody is perfect".

11 janeiro 2023

Um dia de cão - Sidney Lumet (1975)

Com Al Pacino, John Cazale
Duração: 125 min

New York. Brooklyn. Verão de 1972. Encadeiam-se planos de ruas e becos. Lixo, dejectos, restos. Porcaria. Muita sujidade. Metáfora da história que vai seguir-se? Provavelmente. História real e muito próxima do filme, feito 3 anos depois dos acontecimentos. A partir do material de imprensa coligido - artigos de jornais, reportagens televisivas, filmagens - e de entrevistas a muitos dos "actores" envolvidos, Sidney Lumet, um dos grandes realizadores americanos dos anos 60, 70 e 80, criou uma ficção forte, vigorosa, cheia de adrenalina. A matriz base é linear: dois zé-ninguém (a princípio três) assaltam um banco. As coisas correm mal. Ficam retidos com reféns (os funcionários - o gerente e algumas mulheres). Processo de negociação com a polícia, posteriormente com o FBI. Depois... Suspense. No fim saberemos. Toda a ficção, uma tragicomédia para não lhe chamar mesmo "opera buffa", vai oscilar entre o dentro e o fora da agência bancária.

Dentro, dois pobres diabos a tentar perceber porque correu tudo mal, os funcionários entre o medo e a excitação, os assaltantes em diálogo de surdos entre a exuberância de um e a quase apatia de outro (coitado, o seu universo de vida não ultrapassava as fronteiras do bairro).

Fora, um aparato policial e militar como se de uma guerra se tratasse. O circo das reportagens das televisões, o público (como se fosse um espectáculo). A excitação como um bónus para a vida vazia do quotidiano. Todo o filme se articula no vaivém entre dentro e fora. Negociação. Partilha de expectativas e desilusões.

A pulsação afectiva ganha expressão. A razão para o assalto foi muito objectiva num quadro de grande confusão vivencial. A personagem encarnada por Al Pacino - casada e com filhos - assaltou o banco por uma boa causa: arranjar dinheiro para pagar a mudança de sexo do/a namorado/a - transexual. Citação da personagem real: "Ninguém faria o que eu fiz. Ninguém roubaria um banco para poder cortar o pénis da namorada."

As coisas não correram bem, como é óbvio.

Al Pacino, na pujança dos seus trinta e tal anos, oferece uma interpretação espantosa, na pele de um homem enredado nas armadilhas bizarras do amor. Patético no seu amadorismo. Mau da fita sem, na verdade, o ser. Um pobre coitado. Com o fantasma do Vietname às costas, sonhando com a Argélia, sabe-se lá porquê.

Sidney Lumet o realizador. Um forte sentido social no seu cinema. Sobre o fenómeno da televisão (central neste filme) e do seu poder cada vez mais determinante nos comportamentos individuais, lembro que ele fez em 1976 "Network", em português "Escândalo na TV" com a Faye Dunaway, o Peter Finch e o William Holden. Um grande filme sobre esse fenómeno cada vez mais presente nas nossas vidas que é a comunicação e suas pornografias sociais de que o Correio da Manhã é um exemplo. Temos que nos proteger. Um apelo à decência.

Venham todos ver esta grande ficção da história do cinema "in loco".

Partilhar o espaço é também sentirmo-nos activos.

04 janeiro 2023

Lilith e o seu destino - Robert Rossen (1964)

Com Warren Beatty, Jean Seberg, Peter Fonda
Duração: 109 min

Nos anos 60 estava já em curso acelerado o processo de implosão dos códigos de censura que, desde os anos 30 cerceava acções, temas, gestos e falas de Hollywood. Obviamente que os comportamentos desviantes, anormais, psiquiatricamente perturbadores não faziam parte das admissões do Código Hays. Esta história não era politicamente correcta nesses tempos. Mas agora estava-se nos alvores dos novos tempos - o fenómeno hippie estava a chegar, o Vietname ia agitar estruturalmente a sociedade americana - e o cinema dos estúdios já conseguia abordar uma história como a de Lilith. Uma clínica psiquiátrica de luxo, para "malucos" ricos. Um jovem terapeuta retornado da guerra da Coreia (Warren Beatty). A atraçcão por uma jovem internada (Jean Seberg). O jogo a três com outro doente (Peter Fonda). Está criado o quadro ficcional explosivo. Entre a norma e a diferença, a sanidade e a esquizofrenia, a realidade e a fantasia.

Um jovem saído de um quadro anormal como é a guerra poderia, aparentemente, recuperar a sua identidade e colar os bocados em que estava partida a sua vida naquele universo de fragilidades afectivas e inconsequências comportamentais. Redondo engano. A esperança quebra-se, o dramatismo acentua-se - o jovem pretendente (Peter Fonda) suicida-se, a bela doente passa definitivamente para o lado de lá - e ao jovem resta-lhe implorar aos médicos do Solar dos Choupos (é assim que se chama a instituição):."Help me"!!!

Lilith é a personagem em torno da qual todo o drama ocorre. Nome e símbolo. Lilith vem lá do fundo da história e faz parte do Antigo Testamento. Das muitas figurações permito-me citar: "Lilith uma deusa muito adorada na Mesopotânia, comparada à lua negra, à sombra do inconsciente, ao mistério, ao poder, ao silêncio, à sedução, à tempestade, à escuridão e à morte." A Lilith da ficção é tudo isso. A beleza e a morte anunciada. Na cultura judaica Lilith é o demónio.

Rossen construiu um belo filme num estilo clássico, mas já com uns pozinhos diferentes - a música com sonoridades de jazz, por exemplo. Foi um grande argumentista da Hollywood clássica, mas conseguiu fazer alguns filmes como realizador. Este foi o último (morreu muito novo), mas o mais conhecido é "A vida é um jogo", um dos melhores filmes do Paul Newman, sobre o mundo do jogo (bilhar). Um quarto de século depois o nosso amigo Scorsese fez uma espécie de continuação com "A cor do dinheiro".

Voltando ao filme do Robert Rossen, recordo que o tempo acelerou muito naqueles tempos. Passados dez anos Hollywood fez "Voando sobre um ninho de cucos", um óptimo e premiado filme do Milos Forman (fugido há pouco tempo do "manicómio" político da Checoslováquia) com uma interpretação notável do Jack Nicholson. O mesmo tema... numa Hollywood totalmente diferente.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...