Tarantino chegou ao cinema pela
cinefilia pura. Não a dos cineastas europeus da nouvelle vague francesa
(Goddard, Truffaut, Rhomer, Rivette, etc.) e todas as adjacências nacionais -
italianos, espanhóis, portugueses...para quem a Cinemateca de Paris era, nos
anos 60 e 70, um templo sagrado com 3 ou quatro sessões "religiosas"
por dia. Tarantino é um filho espiritual do Scorsese, que devorava na sua
juventude e em doses cavalares todo o cinema de Hollywood desde as suas origens
profundas. Tarantino começou esse prazer quando ainda não tinha idade para
isso, na companhia da mãe de extracção hippie da Califórnia. É ele que o conta
num livro acabado de sair, "Cinema Speculation" que (por acaso) estou
a ler.
Mas vamos ao filme. Com milhares de
filmes na cabeça, sem critérios específicos de visão, com jeito para escrever,
conseguiu vender argumentos para Hollywood que até deram filmes de sucesso. A
partir daí, com apoios de alguns mais velhos (Harvey Keitel e Monte Hellman),
conseguiu dinheiro para ele fazer um filme como realizador. Um assalto para
roubar diamantes. Um grupo de marginais mutuamente desconhecidos trabalhando
para um big boss. Mr. Pink, Mr. Blue, Mr. Orange, e por aí fora. O Tarantino é
um dos do bando que vemos morrer a meio. Obviamente as coisas deram para o
torto. Nunca vemos o assalto. Só o antes e o depois. É nesta articulação em
flashbacks que se desenvolve toda a ficção. Tudo correu mal porque houve
traição. Um deles é um infiltrado da polícia.Grande exercício de estilo. O
sadismo a par da ética (sim, aquele pessoal tem ética). Uma estilização
refinada, com grande elegância da câmera, é compatível com um imaginário gore
(sangue é o que não falta). Mas o exibicionismo tem os seus limites. Numa das
sequências violentas em que um polícia está a ser violentado por um dos maus há
um efeito perverso no bom sentido: quando esperamos o pior, a câmara desvia-se,
suspende-se e só apanhamos o horrível resultado já no fim. Isto é cinema ao seu
mais alto nível. E o imaginário da época em grande. A música com êxitos da
altura e a Madona (Like a Virgin, True Blue) como polo de conversa e discussão.
E a cinefilia do nosso amigo Tarantino - Steve McQueen em "A grande
evasão" do John Sturges, Lee Marvin (muitos papéis de mau ele fez com
grande requinte de sadismo), Charles Bronson (aquela personagem dos anos 70/80,
parafascista que ele fez em vários filmes do Michael Winner) e Pam Grier
(actriz negra, grande estrela dos filmes negros dos anos 70, designados blackexploitation
dos quais o mais conhecido foi "Shaft`). A Pam Grier foi
"ressuscitada" pelo Tarantino em 1997 com "Jackie Brown".
Grande lição de cinema, ainda que tenha sido a estreia do Tarantino como
realizador.
A seguir veremos "Pulp
Fiction" e "Django Libertado". A essência do Tarantino. Um
cinema exibicionista marcado por uma estética de violência gráfica e sempre com
uns argumentos muito fortes. O Tarantino escreve muito bem.
É um desafio. Quem alinha? Estamos cá para descodificar esta abordagem de cinema provocador. Não podemos esperar sempre pela papa feita.