11 janeiro 2023

Um dia de cão - Sidney Lumet (1975)

Com Al Pacino, John Cazale
Duração: 125 min

New York. Brooklyn. Verão de 1972. Encadeiam-se planos de ruas e becos. Lixo, dejectos, restos. Porcaria. Muita sujidade. Metáfora da história que vai seguir-se? Provavelmente. História real e muito próxima do filme, feito 3 anos depois dos acontecimentos. A partir do material de imprensa coligido - artigos de jornais, reportagens televisivas, filmagens - e de entrevistas a muitos dos "actores" envolvidos, Sidney Lumet, um dos grandes realizadores americanos dos anos 60, 70 e 80, criou uma ficção forte, vigorosa, cheia de adrenalina. A matriz base é linear: dois zé-ninguém (a princípio três) assaltam um banco. As coisas correm mal. Ficam retidos com reféns (os funcionários - o gerente e algumas mulheres). Processo de negociação com a polícia, posteriormente com o FBI. Depois... Suspense. No fim saberemos. Toda a ficção, uma tragicomédia para não lhe chamar mesmo "opera buffa", vai oscilar entre o dentro e o fora da agência bancária.

Dentro, dois pobres diabos a tentar perceber porque correu tudo mal, os funcionários entre o medo e a excitação, os assaltantes em diálogo de surdos entre a exuberância de um e a quase apatia de outro (coitado, o seu universo de vida não ultrapassava as fronteiras do bairro).

Fora, um aparato policial e militar como se de uma guerra se tratasse. O circo das reportagens das televisões, o público (como se fosse um espectáculo). A excitação como um bónus para a vida vazia do quotidiano. Todo o filme se articula no vaivém entre dentro e fora. Negociação. Partilha de expectativas e desilusões.

A pulsação afectiva ganha expressão. A razão para o assalto foi muito objectiva num quadro de grande confusão vivencial. A personagem encarnada por Al Pacino - casada e com filhos - assaltou o banco por uma boa causa: arranjar dinheiro para pagar a mudança de sexo do/a namorado/a - transexual. Citação da personagem real: "Ninguém faria o que eu fiz. Ninguém roubaria um banco para poder cortar o pénis da namorada."

As coisas não correram bem, como é óbvio.

Al Pacino, na pujança dos seus trinta e tal anos, oferece uma interpretação espantosa, na pele de um homem enredado nas armadilhas bizarras do amor. Patético no seu amadorismo. Mau da fita sem, na verdade, o ser. Um pobre coitado. Com o fantasma do Vietname às costas, sonhando com a Argélia, sabe-se lá porquê.

Sidney Lumet o realizador. Um forte sentido social no seu cinema. Sobre o fenómeno da televisão (central neste filme) e do seu poder cada vez mais determinante nos comportamentos individuais, lembro que ele fez em 1976 "Network", em português "Escândalo na TV" com a Faye Dunaway, o Peter Finch e o William Holden. Um grande filme sobre esse fenómeno cada vez mais presente nas nossas vidas que é a comunicação e suas pornografias sociais de que o Correio da Manhã é um exemplo. Temos que nos proteger. Um apelo à decência.

Venham todos ver esta grande ficção da história do cinema "in loco".

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