New York. Brooklyn. Verão de 1972. Encadeiam-se
planos de ruas e becos. Lixo, dejectos, restos. Porcaria. Muita sujidade.
Metáfora da história que vai seguir-se? Provavelmente. História real e muito
próxima do filme, feito 3 anos depois dos acontecimentos. A partir do material
de imprensa coligido - artigos de jornais, reportagens televisivas, filmagens -
e de entrevistas a muitos dos "actores" envolvidos, Sidney Lumet, um
dos grandes realizadores americanos dos anos 60, 70 e 80, criou uma ficção
forte, vigorosa, cheia de adrenalina. A matriz base é linear: dois zé-ninguém
(a princípio três) assaltam um banco. As coisas correm mal. Ficam retidos com
reféns (os funcionários - o gerente e algumas mulheres). Processo de negociação
com a polícia, posteriormente com o FBI. Depois... Suspense. No fim saberemos.
Toda a ficção, uma tragicomédia para não lhe chamar mesmo "opera
buffa", vai oscilar entre o dentro e o fora da agência bancária.
Dentro, dois
pobres diabos a tentar perceber porque correu tudo mal, os funcionários entre o
medo e a excitação, os assaltantes em diálogo de surdos entre a exuberância de
um e a quase apatia de outro (coitado, o seu universo de vida não ultrapassava
as fronteiras do bairro).
Fora, um
aparato policial e militar como se de uma guerra se tratasse. O circo das
reportagens das televisões, o público (como se fosse um espectáculo). A
excitação como um bónus para a vida vazia do quotidiano. Todo o filme se
articula no vaivém entre dentro e fora. Negociação. Partilha de expectativas e
desilusões.
A pulsação
afectiva ganha expressão. A razão para o assalto foi muito objectiva num quadro
de grande confusão vivencial. A personagem encarnada por Al Pacino - casada e
com filhos - assaltou o banco por uma boa causa: arranjar dinheiro para pagar a
mudança de sexo do/a namorado/a - transexual. Citação da personagem real:
"Ninguém faria o que eu fiz. Ninguém roubaria um banco para poder cortar o
pénis da namorada."
As coisas não
correram bem, como é óbvio.
Al Pacino, na
pujança dos seus trinta e tal anos, oferece uma interpretação espantosa, na
pele de um homem enredado nas armadilhas bizarras do amor. Patético no seu
amadorismo. Mau da fita sem, na verdade, o ser. Um pobre coitado. Com o
fantasma do Vietname às costas, sonhando com a Argélia, sabe-se lá porquê.
Sidney Lumet o
realizador. Um forte sentido social no seu cinema. Sobre o fenómeno da
televisão (central neste filme) e do seu poder cada vez mais determinante nos
comportamentos individuais, lembro que ele fez em 1976 "Network", em
português "Escândalo na TV" com a Faye Dunaway, o Peter Finch e o
William Holden. Um grande filme sobre esse fenómeno cada vez mais presente nas
nossas vidas que é a comunicação e suas pornografias sociais de que o Correio
da Manhã é um exemplo. Temos que nos proteger. Um apelo à decência.
Venham todos
ver esta grande ficção da história do cinema "in loco".
Partilhar o espaço é também sentirmo-nos activos.
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