04 janeiro 2023

Lilith e o seu destino - Robert Rossen (1964)

Com Warren Beatty, Jean Seberg, Peter Fonda
Duração: 109 min

Nos anos 60 estava já em curso acelerado o processo de implosão dos códigos de censura que, desde os anos 30 cerceava acções, temas, gestos e falas de Hollywood. Obviamente que os comportamentos desviantes, anormais, psiquiatricamente perturbadores não faziam parte das admissões do Código Hays. Esta história não era politicamente correcta nesses tempos. Mas agora estava-se nos alvores dos novos tempos - o fenómeno hippie estava a chegar, o Vietname ia agitar estruturalmente a sociedade americana - e o cinema dos estúdios já conseguia abordar uma história como a de Lilith. Uma clínica psiquiátrica de luxo, para "malucos" ricos. Um jovem terapeuta retornado da guerra da Coreia (Warren Beatty). A atraçcão por uma jovem internada (Jean Seberg). O jogo a três com outro doente (Peter Fonda). Está criado o quadro ficcional explosivo. Entre a norma e a diferença, a sanidade e a esquizofrenia, a realidade e a fantasia.

Um jovem saído de um quadro anormal como é a guerra poderia, aparentemente, recuperar a sua identidade e colar os bocados em que estava partida a sua vida naquele universo de fragilidades afectivas e inconsequências comportamentais. Redondo engano. A esperança quebra-se, o dramatismo acentua-se - o jovem pretendente (Peter Fonda) suicida-se, a bela doente passa definitivamente para o lado de lá - e ao jovem resta-lhe implorar aos médicos do Solar dos Choupos (é assim que se chama a instituição):."Help me"!!!

Lilith é a personagem em torno da qual todo o drama ocorre. Nome e símbolo. Lilith vem lá do fundo da história e faz parte do Antigo Testamento. Das muitas figurações permito-me citar: "Lilith uma deusa muito adorada na Mesopotânia, comparada à lua negra, à sombra do inconsciente, ao mistério, ao poder, ao silêncio, à sedução, à tempestade, à escuridão e à morte." A Lilith da ficção é tudo isso. A beleza e a morte anunciada. Na cultura judaica Lilith é o demónio.

Rossen construiu um belo filme num estilo clássico, mas já com uns pozinhos diferentes - a música com sonoridades de jazz, por exemplo. Foi um grande argumentista da Hollywood clássica, mas conseguiu fazer alguns filmes como realizador. Este foi o último (morreu muito novo), mas o mais conhecido é "A vida é um jogo", um dos melhores filmes do Paul Newman, sobre o mundo do jogo (bilhar). Um quarto de século depois o nosso amigo Scorsese fez uma espécie de continuação com "A cor do dinheiro".

Voltando ao filme do Robert Rossen, recordo que o tempo acelerou muito naqueles tempos. Passados dez anos Hollywood fez "Voando sobre um ninho de cucos", um óptimo e premiado filme do Milos Forman (fugido há pouco tempo do "manicómio" político da Checoslováquia) com uma interpretação notável do Jack Nicholson. O mesmo tema... numa Hollywood totalmente diferente.

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