08 março 2023

Lili Marlene – Rainer Werner Fassbinder (1981)

Com Hanna Schygula, Giancarlo Giannini, Mel Ferrer
Duração: 120 min

A Alemanha no coração da ficção (a partir de personagens reais e situações verídicas. Uma história amorosa (falhada) nas teias da história dramática da Europa - a II Guerra Mundial e o nazismo. Dois artistas que se encontram e se amam, se desencontram e não podem voltar a amar-se. Mas não é uma história qualquer. Willie, uma cantora de cabaré alemã, faz pela vida nos clubes noturnos em Zurique. Robert, judeu, um músico e compositor suíço, vive em paixão por ela.

Mas naquele tempo da besta nazi, ainda antes do começo da guerra, já grupos organizados procuravam salvar cidadãos judeus. Era o caso de uma organização liderada pelo pai do Robert (família da alta burguesia) e ele fazia o vaivém entre a Suíça e a Alemanha.

Numa viagem a dois ao lado de lá, a cantora fica retida pela polícia nazi. Ação perpetrada ignobilmente pelo pai do Robert para evitar problemas ao filho e à sua organização. Destinos diferentes a partir daqui. Ele continua a trabalhar para salvar pessoas no grupo do pai. Ela continua a sobreviver no mundo nocturno alemão degradado - música, álcool, sexo, drogas.

Até que... A girândola da vida projetou-a para as estrelas. Uma cantiga cheia de rodriguinhos nostálgicos, com um poema de um soldado alemão da I Guerra Mundial, composta em 1939, é transformada pela máquina de propaganda nazi num veículo fascinante de identidade, nostalgia e resistência. É "Lili Marlene". A partir daqui é o processo de ascensão da jovem cantora no meio da aristocracia nazi. Chega  ao suprassumo. É recebida pelo Hitler (Fassbinder teve respeito por todos nós e faz da sequência uma elipse), anda em digressão pelas frentes de guerra, tem uma vida de luxo, conhece quem é quem do poder. É uma deusa do paganismo nazi.

E, no entanto, "Eu só canto uma canção" como ela dizia.

Mas o amor antigo não está esquecido. Nem por ele nem por ela. Reencontram-se, separam-se. Já nada pode ser como dantes

Quando no fim da guerra se reencontram, já tudo foi passado. O que restou desta bela e triste história? Nem sempre o que queremos é atingido,  pelos obstáculos sociais, políticos, históricos ou, mesmo, pelo acaso.

Lili Marlene, a canção, tornou-se num intervalo de paz (3 minutos). Cada vez que era emitida na rádio (a partir de 1941) os soldados (alemães e aliados) ficavam numa espécie de vazio religioso, indolente. Fassbinder faz muito bem a montagem entre a carnificina e aquela música que ia direto aos corações dos soldados.

Espantosamente os exércitos aliados, apanhados pelo poder da canção, fizeram uma versão cantada por, nem mais nem menos, Marlene Dietricht, e passaram também a emiti-la para a tropa nas suas rádios.

Para nossa referência, os nossos heróis chamavam-se Lale Andersen, que viveu até 1972, continuou na vida artística e participou no Primeiro Festival da Canção da Europa (e esta, heim?) e Rolf Liebermann, que viveu até 1999, como compositor, maestro e administrador de teatros de música e ópera na Suíça, Alemanha e França. Dizem as crónicas que   mantiveram uma bela amizade até ao fim da vida.

O mal menor numa história maior do que a vida.

05 março 2023

O casamento de Maria Braun - Rainer Werner Fassbinder (1978)

Com Hanna Schigulla, Klaus Lowitsch
Duração: 120 min

O medo devora a alma" já lá ia. Depois disso fez mais uma catrefa de filmes. O reconhecimento começava a saltar fronteiras. Os festivais começavam a abrir-lhe portas. Os produtores a fazer propostas. As facilidades orçamentais e organizativas surgiam com naturalidade. E o Fassbinder começou a ganhar estatuto incontornável na Europa. E em 1978 dá-se claramente o salto. Já era impossível ignorar Fassbinder. "O Casamento de Maria Braun" é esse ponto de percussão, o seu trampolim para a história do cinema.

A Alemanha desde o meio da guerra até ao fim dos anos 50. Uma mulher que perdeu o marido uma horas após o casamento e que o recupera duas vezes e duas vezes ele lhe foge. Na última vez é pressuposto ambos irem começar uma vida em comum para o reino dos céus...mas vocês verão. Obviamente um melodrama. A história de uma mulher que sobrevive à guerra, à fome, ao mercado negro. Adapta-se sem escrúpulos. Naquele mundo de compra e venda de corpos e almas, de corrupção material e espiritual, de troca desigual, só quem vive em alerta contínuo e finta sem remorso a moralidade é que sobrevive. E até pode ter sucesso. É o caso da heroína incarnada pela Hanna Schigulla.

Jogos de sedução, primeiro. Jogos de poder, depois. Não há escrúpulos ou condicionantes morais. Desde o soldado americano (negro, para reforçar a ironia) até ao industrial de origem francesa ela ama e usa, mas o seu objetivo é atingir uma inverosímil utopia amorosa.

Naquele percurso ascendente em que ela usa o seu corpo é interessante refletir sobre a alteração dos seus comportamentos à medida que vai ganhando estatuto e poder. Fassbinder como que quer mostrar através dela o nazismo que continuou na Alemanha por baixo da pele de cada alemão.

Fassbinder tinha uma má relação com o seu país como é óbvio nesta ficção como noutras, aliás. A última sequência do filme decorre com o som de fundo do relato da final do Campeonato do Mundo em futebol, vitória da Alemanha sobre a Hungria (quem nunca ouviu falar do Puskas?) por 3 a 2. Este momento exultante para a Alemanha (na verdade, simbolicamente o primeiro desde a derrota do Hitler) corresponde na ficção ao desastre final, à explosão que destrói um sonho de riqueza e abundância.

Hanna Schigulla, a musa de Fassbinder (entrou em cerca de vinte filmes dele) ganhou com este filme o Festival de Berlim como melhor actriz. Com todo o merecimento como certamente concordarão.

Fassbinder disse que procurava um cinema que atinja a perfeição. Com "O Casamento de Maria Braun" não se pode dizer isso. Há por vezes uma rudeza, uma sujidade que está longe disso. Mas que é uma história forte e apelativa não há dúvida.

Um crítico italiano (Enzo Ungary) escreveu isto e é capaz de ter razão: "A partir de O Casamento de Maria Braun, o cinema de Fassbinder torna-se o remake impossível do imaginário de Sirk." Uma bela homenagem ao Fassbinder.

01 março 2023

O que o céu permite - Douglas Sirk (1955)

Com Rock Hudson, Jane Wyman, Agnes Moorhead
Duração: 89 min

Vamos ao Sirk (não ao circo...) por deriva cinéfila. Por portas e travessas. De frente para trás. Rainer Werner Fassbinder. O enorme, alucinado e genial cineasta alemão da nossa contemporaneidade. Vida em corrida tipo Fórmula 1, sempre a acelerar. Espatifou-se, passe a metáfora, aos 37 anos, contra o monstro da sida. Paz à sua alma. Enquanto por cá andou criou uma das obras cinematográficas mais espantosas da nossa geração. Fez quarenta e tal filmes (fora as encenações teatrais) alguns dos quais verdadeiras pedras de cristal. Só para relembrar: "O casamento de Maria Braun", "Lili Marlene", "Querelle".

Pois em 1971 o Fassbinder viu um conjunto de filmes do Sirk e passou-se. Escreveu um texto sobre a experiência que começou a agitar a cinefilia europeia. Como é que tinham deixado passar aquilo, perguntavam-se os franceses? Embora os "Cahiers du Cinéma" tivessem publicado umas coisas uns anos antes. Ao mesmo tempo um maluquinho dos filmes, um irlandês chamado Jon Halliday publicou um livro-entrevista com o Sirk - "Sirk on Sirk". Da conjugação das coisas, renasceu o Sirk como autor, ele que gozava na Suíça a sua reforma de velhice, com pequenas e neutras referências nas enciclopédias de cinema. Isto é história.

Agora vamos a esta preciosidade. Outra vez a parceria Hudson/Wyman. E para nos enquadrar, homenageemos o Fassbinder. É dele esta descrição (o tal texto que ressuscitou o nosso Sirk):

 "... Jane Wyman é uma viúva rica, Rock Hudson é o seu jardineiro. No jardim dela existe uma 'árvore do amor' que só floresce quando alguém se apaixona, que é exatamente o que acontece com a Jane e o Rock. Porém o Rock é quinze anos mais novo que a Jane, que vive totalmente integrada na sociedade de uma pequena cidade americana. O Rock é um homem rústico e a Jane está presa aos seus amigos, às ideias sobre a vida que herdou do falecido marido, e aos seus filhos. No começo, o Rock ama a natureza acima de tudo e a Jane, que já possui tudo, não ama coisa alguma.

Condições nada ideais para o começo de um grande amor. Ela, ele e o mundo que os circunda, eis a situação... Ele é como o tronco de uma árvore. Tem toda a razão em querê-la E o mundo à volta deles é mau. As mulheres são coscuvilheiras... Depois de ver este filme eu jamais terei vontade de ir a uma pequena cidade norte-americana... Na noite de Natal a Jane fica sozinha, pois os filhos vão deixá-la e deixam-lhe uma televisão como prenda. É demais. Isto conta algo sobre o mundo e o mal que ele nos faz. Mais tarde, ela volta para o Rock, com enxaquecas de fundo emocional. Embora ela esteja ali, não se trata de um final feliz, apesar de os dois ficarem juntos. Um amor que traz tantas dificuldades não pode trazer a felicidade mais tarde. "

Depois disto não há mais a dizer. Há que desfrutar do prazer das imagens (o apogeu das cores puras), acompanhar o vaivém atribulado da relação entre o casal, divertir-se com as explicações psicanalíticas de pacotilha da filha, cheia de Freud e adjacências, e indignar-se com a hipocrisia do "country club", fotografia claro-escura de uma sociedade conservadora e balofa. 

O Fassbinder ficou de tal forma condicionado pelos filmes do Sirk que fez um filme com a mesma matriz deste, chamado O Medo Devora a Alma. E os seus últimos filmes são melodramas. E tornou-se amigo do Sirk e uma espécie de divulgador militante dos seus filmes. Ilogicamente Douglas Sirk sobreviveu ao Fassbinder por uns anos. Havia quase cinquenta anos de diferença. 

"Chapeau" por tudo o que aconteceu nesta história de amor. Não fora isso e Douglas Sirk continuaria adormecido nos registos burocráticos dos estúdios de Hollywood. 

Falar de Douglas Sirk é automaticamente falar de melodrama. Para nosso apoio, para hoje e as próximas semanas, eis o que ele uma vez disse: "Creio que o melodrama deve produzir sobretudo emoções e não ações. Mas a emoção é uma espécie de ação. É uma ação no interior de uma pessoa."

Vamos alinhar no jogo proposto. Libertem as emoções. Podem trazer uns lenços de papel. Para o que der e vier. Sem vergonha.


O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...