Duração: 120 min
A Alemanha
no coração da ficção (a partir de personagens reais e situações verídicas. Uma
história amorosa (falhada) nas teias da história dramática da Europa - a II
Guerra Mundial e o nazismo. Dois artistas que se encontram e se amam, se
desencontram e não podem voltar a amar-se. Mas não é uma história qualquer.
Willie, uma cantora de cabaré alemã, faz pela vida nos clubes noturnos em
Zurique. Robert, judeu, um músico e compositor suíço, vive em paixão por ela.
Mas naquele
tempo da besta nazi, ainda antes do começo da guerra, já grupos organizados
procuravam salvar cidadãos judeus. Era o caso de uma organização liderada pelo
pai do Robert (família da alta burguesia) e ele fazia o vaivém entre a Suíça e
a Alemanha.
Numa viagem
a dois ao lado de lá, a cantora fica retida pela polícia nazi. Ação perpetrada
ignobilmente pelo pai do Robert para evitar problemas ao filho e à sua
organização. Destinos diferentes a partir daqui. Ele continua a trabalhar para
salvar pessoas no grupo do pai. Ela continua a sobreviver no mundo nocturno
alemão degradado - música, álcool, sexo, drogas.
Até que... A
girândola da vida projetou-a para as estrelas. Uma cantiga cheia de
rodriguinhos nostálgicos, com um poema de um soldado alemão da I Guerra
Mundial, composta em 1939, é transformada pela máquina de propaganda nazi num
veículo fascinante de identidade, nostalgia e resistência. É "Lili
Marlene". A partir daqui é o processo de ascensão da jovem cantora no meio
da aristocracia nazi. Chega ao
suprassumo. É recebida pelo Hitler (Fassbinder teve respeito por todos nós e
faz da sequência uma elipse), anda em digressão pelas frentes de guerra, tem
uma vida de luxo, conhece quem é quem do poder. É uma deusa do paganismo nazi.
E, no
entanto, "Eu só canto uma canção" como ela dizia.
Mas o amor
antigo não está esquecido. Nem por ele nem por ela. Reencontram-se, separam-se.
Já nada pode ser como dantes
Quando no
fim da guerra se reencontram, já tudo foi passado. O que restou desta bela e
triste história? Nem sempre o que queremos é atingido, pelos obstáculos sociais, políticos,
históricos ou, mesmo, pelo acaso.
Lili
Marlene, a canção, tornou-se num intervalo de paz (3 minutos). Cada vez que era
emitida na rádio (a partir de 1941) os soldados (alemães e aliados) ficavam
numa espécie de vazio religioso, indolente. Fassbinder faz muito bem a montagem
entre a carnificina e aquela música que ia direto aos corações dos soldados.
Espantosamente
os exércitos aliados, apanhados pelo poder da canção, fizeram uma versão
cantada por, nem mais nem menos, Marlene Dietricht, e passaram também a
emiti-la para a tropa nas suas rádios.
Para nossa
referência, os nossos heróis chamavam-se Lale Andersen, que viveu até 1972,
continuou na vida artística e participou no Primeiro Festival da Canção da
Europa (e esta, heim?) e Rolf Liebermann, que viveu até 1999, como compositor,
maestro e administrador de teatros de música e ópera na Suíça, Alemanha e
França. Dizem as crónicas que
mantiveram uma bela amizade até ao fim da vida.
O mal menor numa história maior do que a vida.
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