01 março 2023

O que o céu permite - Douglas Sirk (1955)

Com Rock Hudson, Jane Wyman, Agnes Moorhead
Duração: 89 min

Vamos ao Sirk (não ao circo...) por deriva cinéfila. Por portas e travessas. De frente para trás. Rainer Werner Fassbinder. O enorme, alucinado e genial cineasta alemão da nossa contemporaneidade. Vida em corrida tipo Fórmula 1, sempre a acelerar. Espatifou-se, passe a metáfora, aos 37 anos, contra o monstro da sida. Paz à sua alma. Enquanto por cá andou criou uma das obras cinematográficas mais espantosas da nossa geração. Fez quarenta e tal filmes (fora as encenações teatrais) alguns dos quais verdadeiras pedras de cristal. Só para relembrar: "O casamento de Maria Braun", "Lili Marlene", "Querelle".

Pois em 1971 o Fassbinder viu um conjunto de filmes do Sirk e passou-se. Escreveu um texto sobre a experiência que começou a agitar a cinefilia europeia. Como é que tinham deixado passar aquilo, perguntavam-se os franceses? Embora os "Cahiers du Cinéma" tivessem publicado umas coisas uns anos antes. Ao mesmo tempo um maluquinho dos filmes, um irlandês chamado Jon Halliday publicou um livro-entrevista com o Sirk - "Sirk on Sirk". Da conjugação das coisas, renasceu o Sirk como autor, ele que gozava na Suíça a sua reforma de velhice, com pequenas e neutras referências nas enciclopédias de cinema. Isto é história.

Agora vamos a esta preciosidade. Outra vez a parceria Hudson/Wyman. E para nos enquadrar, homenageemos o Fassbinder. É dele esta descrição (o tal texto que ressuscitou o nosso Sirk):

 "... Jane Wyman é uma viúva rica, Rock Hudson é o seu jardineiro. No jardim dela existe uma 'árvore do amor' que só floresce quando alguém se apaixona, que é exatamente o que acontece com a Jane e o Rock. Porém o Rock é quinze anos mais novo que a Jane, que vive totalmente integrada na sociedade de uma pequena cidade americana. O Rock é um homem rústico e a Jane está presa aos seus amigos, às ideias sobre a vida que herdou do falecido marido, e aos seus filhos. No começo, o Rock ama a natureza acima de tudo e a Jane, que já possui tudo, não ama coisa alguma.

Condições nada ideais para o começo de um grande amor. Ela, ele e o mundo que os circunda, eis a situação... Ele é como o tronco de uma árvore. Tem toda a razão em querê-la E o mundo à volta deles é mau. As mulheres são coscuvilheiras... Depois de ver este filme eu jamais terei vontade de ir a uma pequena cidade norte-americana... Na noite de Natal a Jane fica sozinha, pois os filhos vão deixá-la e deixam-lhe uma televisão como prenda. É demais. Isto conta algo sobre o mundo e o mal que ele nos faz. Mais tarde, ela volta para o Rock, com enxaquecas de fundo emocional. Embora ela esteja ali, não se trata de um final feliz, apesar de os dois ficarem juntos. Um amor que traz tantas dificuldades não pode trazer a felicidade mais tarde. "

Depois disto não há mais a dizer. Há que desfrutar do prazer das imagens (o apogeu das cores puras), acompanhar o vaivém atribulado da relação entre o casal, divertir-se com as explicações psicanalíticas de pacotilha da filha, cheia de Freud e adjacências, e indignar-se com a hipocrisia do "country club", fotografia claro-escura de uma sociedade conservadora e balofa. 

O Fassbinder ficou de tal forma condicionado pelos filmes do Sirk que fez um filme com a mesma matriz deste, chamado O Medo Devora a Alma. E os seus últimos filmes são melodramas. E tornou-se amigo do Sirk e uma espécie de divulgador militante dos seus filmes. Ilogicamente Douglas Sirk sobreviveu ao Fassbinder por uns anos. Havia quase cinquenta anos de diferença. 

"Chapeau" por tudo o que aconteceu nesta história de amor. Não fora isso e Douglas Sirk continuaria adormecido nos registos burocráticos dos estúdios de Hollywood. 

Falar de Douglas Sirk é automaticamente falar de melodrama. Para nosso apoio, para hoje e as próximas semanas, eis o que ele uma vez disse: "Creio que o melodrama deve produzir sobretudo emoções e não ações. Mas a emoção é uma espécie de ação. É uma ação no interior de uma pessoa."

Vamos alinhar no jogo proposto. Libertem as emoções. Podem trazer uns lenços de papel. Para o que der e vier. Sem vergonha.


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