Duração: 89 min
Vamos ao Sirk (não ao circo...) por deriva cinéfila. Por portas e travessas. De frente para trás. Rainer Werner Fassbinder. O enorme, alucinado e genial cineasta alemão da nossa contemporaneidade. Vida em corrida tipo Fórmula 1, sempre a acelerar. Espatifou-se, passe a metáfora, aos 37 anos, contra o monstro da sida. Paz à sua alma. Enquanto por cá andou criou uma das obras cinematográficas mais espantosas da nossa geração. Fez quarenta e tal filmes (fora as encenações teatrais) alguns dos quais verdadeiras pedras de cristal. Só para relembrar: "O casamento de Maria Braun", "Lili Marlene", "Querelle".
Pois em 1971 o Fassbinder viu um conjunto de filmes do Sirk e
passou-se. Escreveu um texto sobre a experiência que começou a agitar a
cinefilia europeia. Como é que tinham deixado passar aquilo, perguntavam-se os
franceses? Embora os "Cahiers du Cinéma" tivessem publicado umas
coisas uns anos antes. Ao mesmo tempo um maluquinho dos filmes, um irlandês
chamado Jon Halliday publicou um livro-entrevista com o Sirk - "Sirk on
Sirk". Da conjugação das coisas, renasceu o Sirk como autor, ele que
gozava na Suíça a sua reforma de velhice, com pequenas e neutras referências
nas enciclopédias de cinema. Isto é história.
Agora vamos a esta preciosidade. Outra vez a parceria Hudson/Wyman. E
para nos enquadrar, homenageemos o Fassbinder. É dele esta descrição (o tal
texto que ressuscitou o nosso Sirk):
"... Jane Wyman é uma viúva rica, Rock Hudson é o seu
jardineiro. No jardim dela existe uma 'árvore do amor' que só floresce quando
alguém se apaixona, que é exatamente o que acontece com a Jane e o Rock. Porém
o Rock é quinze anos mais novo que a Jane, que vive totalmente integrada na
sociedade de uma pequena cidade americana. O Rock é um homem rústico e a Jane
está presa aos seus amigos, às ideias sobre a vida que herdou do falecido
marido, e aos seus filhos. No começo, o Rock ama a natureza acima de tudo e a
Jane, que já possui tudo, não ama coisa alguma.
Condições nada ideais para o começo de um grande amor. Ela, ele e o
mundo que os circunda, eis a situação... Ele é como o tronco de uma árvore. Tem
toda a razão em querê-la E o mundo à volta deles é mau. As mulheres são
coscuvilheiras... Depois de ver este filme eu jamais terei vontade de ir a uma
pequena cidade norte-americana... Na noite de Natal a Jane fica sozinha, pois
os filhos vão deixá-la e deixam-lhe uma televisão como prenda. É demais. Isto
conta algo sobre o mundo e o mal que ele nos faz. Mais tarde, ela volta para o
Rock, com enxaquecas de fundo emocional. Embora ela esteja ali, não se trata de
um final feliz, apesar de os dois ficarem juntos. Um amor que traz tantas
dificuldades não pode trazer a felicidade mais tarde. "
Depois disto não há mais a dizer. Há que desfrutar do prazer das
imagens (o apogeu das cores puras), acompanhar o vaivém atribulado da relação
entre o casal, divertir-se com as explicações psicanalíticas de pacotilha da
filha, cheia de Freud e adjacências, e indignar-se com a hipocrisia do
"country club", fotografia claro-escura de uma sociedade conservadora
e balofa.
O Fassbinder ficou de tal forma condicionado pelos filmes do Sirk que
fez um filme com a mesma matriz deste, chamado O Medo Devora a Alma. E os seus
últimos filmes são melodramas. E tornou-se amigo do Sirk e uma espécie de
divulgador militante dos seus filmes. Ilogicamente Douglas Sirk sobreviveu ao
Fassbinder por uns anos. Havia quase cinquenta anos de diferença.
"Chapeau" por tudo o que aconteceu nesta história de amor.
Não fora isso e Douglas Sirk continuaria adormecido nos registos burocráticos
dos estúdios de Hollywood.
Falar de
Douglas Sirk é automaticamente falar de melodrama. Para nosso apoio, para hoje
e as próximas semanas, eis o que ele uma vez disse: "Creio que o melodrama
deve produzir sobretudo emoções e não ações. Mas a emoção é uma espécie de
ação. É uma ação no interior de uma pessoa."
Vamos
alinhar no jogo proposto. Libertem as emoções. Podem trazer uns lenços de
papel. Para o que der e vier. Sem vergonha.
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