Duração: 120 min
O medo devora a alma" já lá ia. Depois disso fez mais uma catrefa de filmes. O reconhecimento começava a saltar fronteiras. Os festivais começavam a abrir-lhe portas. Os produtores a fazer propostas. As facilidades orçamentais e organizativas surgiam com naturalidade. E o Fassbinder começou a ganhar estatuto incontornável na Europa. E em 1978 dá-se claramente o salto. Já era impossível ignorar Fassbinder. "O Casamento de Maria Braun" é esse ponto de percussão, o seu trampolim para a história do cinema.
A Alemanha desde o meio da guerra até ao fim dos anos 50. Uma mulher que perdeu o marido uma horas após o casamento e que o recupera duas vezes e duas vezes ele lhe foge. Na última vez é pressuposto ambos irem começar uma vida em comum para o reino dos céus...mas vocês verão. Obviamente um melodrama. A história de uma mulher que sobrevive à guerra, à fome, ao mercado negro. Adapta-se sem escrúpulos. Naquele mundo de compra e venda de corpos e almas, de corrupção material e espiritual, de troca desigual, só quem vive em alerta contínuo e finta sem remorso a moralidade é que sobrevive. E até pode ter sucesso. É o caso da heroína incarnada pela Hanna Schigulla.
Jogos de sedução, primeiro. Jogos de poder, depois. Não há escrúpulos ou condicionantes morais. Desde o soldado americano (negro, para reforçar a ironia) até ao industrial de origem francesa ela ama e usa, mas o seu objetivo é atingir uma inverosímil utopia amorosa.
Naquele percurso ascendente em que ela usa o seu corpo é interessante refletir sobre a alteração dos seus comportamentos à medida que vai ganhando estatuto e poder. Fassbinder como que quer mostrar através dela o nazismo que continuou na Alemanha por baixo da pele de cada alemão.
Fassbinder tinha uma má relação com o seu país como é óbvio nesta ficção como noutras, aliás. A última sequência do filme decorre com o som de fundo do relato da final do Campeonato do Mundo em futebol, vitória da Alemanha sobre a Hungria (quem nunca ouviu falar do Puskas?) por 3 a 2. Este momento exultante para a Alemanha (na verdade, simbolicamente o primeiro desde a derrota do Hitler) corresponde na ficção ao desastre final, à explosão que destrói um sonho de riqueza e abundância.
Hanna Schigulla, a musa de Fassbinder (entrou em cerca de vinte filmes dele) ganhou com este filme o Festival de Berlim como melhor actriz. Com todo o merecimento como certamente concordarão.
Fassbinder disse que procurava um cinema que atinja a perfeição. Com "O Casamento de Maria Braun" não se pode dizer isso. Há por vezes uma rudeza, uma sujidade que está longe disso. Mas que é uma história forte e apelativa não há dúvida.
Um crítico italiano (Enzo Ungary) escreveu isto e é capaz de ter razão: "A partir de O Casamento de Maria Braun, o cinema de Fassbinder torna-se o remake impossível do imaginário de Sirk." Uma bela homenagem ao Fassbinder.
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