26 novembro 2023

Frankenstein Junior - Mel Brooks (1974)

Com Gene Wilder, Peter Boyle, Marty Feldman, Terry Garr. 1974. 106 min

Comecemos pelo autor. Mel Brooks, na verdade Kelvin Kaminsky. O nome não engana. Judeu de origem polaca, mas nascido em Brooklyn. Woody Allen também é nome fake. Na origem é bem judeu - Allan Stewart Konigsberg. Isso de muitos actores e outros artistas americanos mudarem de nome não é assim tão neutral ou artificioso. Em muitos casos, como este, era por razões defensivas. Nome judaico? Não. A psicanálise ajudará eventualmente a esclarecer o imbróglio. 

Pois o Mel Brooks fez-se artista como escritor de sketches cómicos para televisão (tal como o Woody Allen) e músico. Deve-se-lhe a criação, juntamente com Buck Henry, da série televisiva cómica de grande sucesso - "Get Smart" (que também passou por cá).

Depois foram as suas aventuras no grande ecrã. Começou com sucesso. "O falhado amoroso" deu-lhe o Oscar do melhor argumento. Já aqui entrava o Gene Wilder, com os seus olhos esbugalhados, membro da pandilha de actores que foram fazendo os filmes do Mel Brooks.

A partir daí (1968), vai fazer um conjunto de filmes que definem a sua obra como um projeto alargado de filmes sobre filmes, ie. uma abordagem paródica, crítica, cínica, por vezes risível, de modelos do cinema clássico americano: o western, o horror, o policial, o épico histórico, a ficção científica, o filme mudo. É neste quadro que nasceu o projecto de "Frankenstein Junior" escrito a meias com o Gene Wilder que faz o papel do neto de Frankenstein.

"Frankenstein" foi um livro escrito por Mary Shelley, em Inglaterra no princípio do século XIX, e tornou-se um êxito como manifestação de um romantismo decadente, algo doentio. Hollywood no início do sonoro (1931) vai pegar no livro e transforma-o num sucesso. Boris Karloff, o actor, atinge o zénite. Depois, Hollywood foi explorando ao longo do tempo, de todas as formas e feitios, o personagem, a par e passo de Drácula  (também um êxito do mesmo ano, a partir de um livro de Bram Stocker -1897).

Pois em 1974 é a vez de Mel Brooks. O neto de Frankenstein, um jovem professor universitário neurocirurgião na América, recebe como herança do seu avô um castelo na Transilvânia (engraçado, é que esta região da Roménia, lá para os Cárpatos, está associada, isso sim, à lenda de Drácula). Vai lá, onde encontra um livro com os textos do avô sobre as suas experiências. A sua curiosidade científica vai lançá-lo num processo perigoso - criar vida a partir da morte. Vamos acompanhá-lo naquele universo barroco, onde a mística judaica e a cabalística se cruzam com a alquimia. Os seus companheiros

na aventura são bizarros, uma menina angélica, um corcunda mais feio que o Frankenstein, uma governanta perversa, etc.

Naquele processo alquímico a lógica é subertida, o excesso nem sempre respeita a verosimilhança. Mas isso interessa?

O gozo é muito neste filme a preto e branco, num estilo visual como se fosse feito nos heróicos anos 30 nos estúdios da Universal, que ganhou para si a identidade e o proveito deste género em Hollywood . Obviamente nesses longínquos tempos a Universal fez mais não sei quantos filmes a partir do original - a noiva de, o filho de, o fantasma de Frankenstein...e por aí fora.

Já agora... Nos anos 50 e 60, em Inglaterra produziram-se carradas de filmes deste universo bizarro. Christopher Lee foi a estrela de bastantes dráculas de dentes afiados e sotaque british.

Este tipo de filmes tem ao longo dos anos criado um imaginário rico que vem de muito de trás. A essência do cinema expressionista alemão das duas primeiras décadas do século XX, o gótico e o sobrenatural, são aqui muito bem reproduzidos. Filmes com "O gabinete do Dr. Caligari" , "O Golem" e "Nosferatu" são referências de topo da história do cinema.

Posto isto, preparemo-nos para acompanhar o Peter Boyle no corpo do homúnculo naquele universo bizarro, mas tudo com bonomia, num filme que é considerado uma das grandes comédias da história do cinema.

05 novembro 2023

Carta de uma desconhecida - Max Ophuls (1948)

Com Joan Fontaine, Louis Jordan
Duração: 87 min

Comecemos pelo realizador. Depois se perceberá melhor o filme. Max Ophuls. Realizador de múltiplas facetas e diferentes línguas.  Nascido na Alemanha, francês por naturalização (fugiu à besta nazi por ser de origem judaica, apesar do prestígio acumulado como jovem encenador nos grandes palcos alemães e austríacos), deambulou pela Europa - França, Holanda, Itália, Suíça - até ao limite. Em 1942, quando o cerco nazi o estrangulava, conseguiu safar-se para a América com passagem (e estadia) em Lisboa.

Suportado pelo prestígio acumulado na Europa e apoiado pelo argumentista e realizador Preston Sturges (que belas e satíricas comédias sociais ele fez) entrou na máquina de sonhos de Hollywood. Fez uns filmes, mas claramente em desajustamento no império dos sonhos. Enquanto, por exemplo, Fritz Lang fez uma brilhante segunda carreira na América, para Ophuls Hollywood foi um limbo, um tempo de passagem. Era talvez demasiado  marcado pela cultura do século XIX do império austro-húngaro, pela sua identidade de mitteleuropeu.

Mas no vazio caem às vezes as pepitas de ouro. Foi o caso deste filme. Considerado pelos anais do cinema um dos mais belos melodramas, é uma história à maneira de um cineasta, da sua identidade e das suas origens. A partir de um livro de Stefan Zweig, escritor de Viena, também ele fugido ao nazismo (foi para o Brasil onde não aguentou o exílio e se suicidou), é uma história intensa de amor (romantismo às avessas, se se pode dizer). Amor, paixão e maldição.

E começa pelo fim. Longos flashbacks. Uma mulher que se suicidou, mas antes escreve uma carta ao equivocado objeto da sua funesta paixão. Depois vamos percebendo o que se passou e apreendendo como naquele mundo de convenções e salamaleques tudo era precário, tirando a paixão assolapada da heroína (é uma forma de dizer, o mais correcto seria chamá-la de pateta). Amar sem ser amada. Amor absoluto versus ausência de amor. A percepção do precipício e a incontrolável fuga para a frente. Ele, jovem génio pianista,  bem falante e elegante perdeu-se no labirinto das aventuras amorosas sem consequência; ela, obsessivamente apaixonada, sem qualquer sentido do real; um marido decente, a essência do militarismo e da honra. Um filho (fruto do pecado, na linguagem novelesca... ah ah ah) apanhado pela foice mortal do tifo. Tudo começa e acaba num duelo entre os homens. O que acontecerá fica para a nossa imaginação.

Depois da aventura americana, Max Ophuls regressou à Europa em 1950 e, em cinco anos, fez quatro filmes que são considerados obras-primas, particularmente o último, "Lola Montes". Um filme incrível, no seu universo barroco, a partir da história real de uma bailarina, actriz e cortesã do século XIX que foi amante de Liszt e de Luis I da Baviera. Ophuls explora até aos limites  a féerie da câmara móvel, da elegância formal e das cores exuberantes em atmosfera circense. Onírico.

François Truffaut, que naqueles anos 50 aprendia cinema - i.e.  vendo filmes - na Cinemateca Francesa, uma espécie de catedral frequentada por todos os jovens candidatos a cineastas, escreveu, e muito bem, que Ophuls - cineasta de cabeceira para a nouvelle vague - era um cineasta balzaquiano.

Para terminar, permitam recorrer a "The Film Enciclopedia" (Ephraim Katz) que assim descreve o cinema de Ophuls, tão bem ilustrado no filme de hoje:

"A sua reputação como um dos grandes realizadores do cinema decorre não propriamente do conteúdo dos seus filmes, que era muitas vezes bastante frágil ou inconsistente, mas da sua forma. Ophuls era um virtuoso do estilo de realização que enfatizava a mise-en-scene. A sua câmera era incrivelmente fluída, movimentando-se constantemente numa matriz de planos em movimento, planos de cima para baixo e inversamente, ângulos estranhos, acariciando sensualmente a textura barroca luxuriante do mundo intemporal em que os seus personagens românticos se movimentam."

O desafio está lançado. Um mundo que já passou (Viena do fim do século XIX ) reproduzido num sistema de produção cinematográfica que já não existe (Hollywood no seu auge) e uma história que, na sua matriz base, poderia ser de agora. A alma humana é muito complexa... 

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...