19 dezembro 2022

Cotton club - Francis Ford Coppola (1984)

Com Richard Gere, Diane Lane, Gregory Hines
Duração: 124 min

Enquanto digeria o "suicídio" do Zoetrope e a falência associada (ainda que com alguma descontração - não era a primeira vez), Coppola ia aceitando encomendas, como foi o caso do filme da semana passada, mas depois conseguia subverter as coisas à sua maneira - de um filme fez dois. Robert Evans, um produtor de estúdio, integrado no sistema de Hollywood, com dezenas de anos de tarimba, que deu as mãos à geração do Coppola, do George Lucas, do Scorsese, do Brian de Palma, do Bogdanovich, etc. os chamados "movie brats", acabou por colocar o Coppola na senda deste projeto que tinha sido escrito pelo Mario Puzzo (autor de "O Padrinho", lembrem-se). No contrato original cabia a Coppola reescrever o argumento, mas acabou por assumir a realização. Consta dos livros a sua habilidade inata para convencer. Muito paleio e sangue italiano... Ainda bem, para nosso prazer.

Cotton Club (1923-1940) era um clube noturno em pleno Harlem, o reino dos negros em NY. Artistas negros, clientes brancos entenda-se. Aparente absurdo. O suprasumo da música negra. O Armstrong e o Ellington, a Lena Horne e a Bessie Smith, nunca mais acabaria a elencagem de quem lá atuou. Pretos. Do outro lado do palco o suprasumo da clientela - os ricos e os famosos. Brancos. Os capitalistas da Wall Street e as estrelas refulgentes de Hollywood. Mas também os gangsters que nessa altura (era a Lei Seca) ganhavam notoriedade e poder - as 5 famílias italianas, fora os irlandeses. Na matriz ficcional que decora o filme, a essência é feita de personagens reais. Owen Madden, o dono, era um gangster e "bootlegger" , que conhecia bem a penitenciária Sing Sing. Dutch Schultz, um facínora impiedoso, executado a mando de Lucky Luciano que também aparece (ajuste de contas lá entre eles). Cab Calloway um dos maiores artistas negros - músico, cantor, bailarino.

Naquele tempo e universo tudo era possível acontecer no Cotton Club. Grande "speakeasy" não intervencionado pela polícia pelas razões óbvias - oleava os bolsos dos magistrados e polícias para não ser chateado. A partir de um livro sobre a história e as estórias do Cotton Club ("whites-only establishment") fez Coppola um belíssimo quadro, com momentos cinematograficamente preciosos. As duas sequências de montagem paralela em que a dança (tap) vai contrapondo a violência são lições de cinema. As homenagens ao cinema daqules anos. Charlie Chaplin (estejam atentos), James Cagney que fez de gangster (mau como as cobras) em alguns dos mais referenciados filmes de Hollywood da década de 30, Gloria Swanson, estrela refulgente do mudo que não aguentou a revolução do som, mas foi recuperada uns largos anos mais tarde para "O Crepúsculo dos Deuses" do Billy Wilder.

Nunca mais acabaria se continuasse aqui a enunciar pormenores preciosos.

E os actores? Richard Gere a fazer de músico, perdido naquele mundo de pecado, tornado vedeta de Hollywood pelos cordelinhos tecidos no Harlem. E a Diane Lane, agora mais crescida, a fazer de adulta para sobreviver protegida pelo Schultz mas, no fundo, boa alma. Vai safar-se. Provavelmente por pouco tempo, mas...

Por aqui ficamos. O apetite está lançado. Venham ver "in loco" e partilhar o prazer em parceria.

Um bom Natal e melhores entradas no próximo ano. Se possível em tap dancing, com a elegância do Gregory Hines, na sala aí de casa.

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