28 maio 2022

O Evangelho Segundo São Mateus - Pier Paolo Pasolini (1964)

Com Enrique Irazaqui e Margherita Caruso
Duração: 131 min

Parece impossível que eu não sendo crente, sendo marxista, possa contar a história do filho de Deus, com a fidelidade, que designarei de prosódica, ao Evangelho Segundo São Mateus...Eu instaurei um diálogo entre mim e os crentes. É essa a razão prática por que eu rodei o Evangelho.

Esta citação do autor numa entrevista aos Cahiers du Cinema (a Bíblia francesa do cinema nos anos 60 e 70) é bem clara quanto ao seu objectivo. Um intelectual engagé, com forte presença nos meios de comunicação italianos e sempre disposto a alimentar polémicas sobre todos os problemas sociais italianos e não só . Poeta, romancista, argumentista e cineasta. Muito mais próximo do Antonioni do que de Fellini, só para nos dar uma referência. Fez poucos filmes, sem uma identidade estilística ou conceptual. Os primeiros filmes têm um húmus neorrealista, outros a densidade formal/ritual das comédias gregas e outros - a Trilogia da Vida (Decameron, Contos de Canterbury e Mil e Uma Noites) - a beleza e as cores da pintura europeia dos séculos XIII e XIV. Mas lá iremos nas próximas semanas. Em "O Evangelho..." vemos a interpretação da palavra de Mateus numa perspectiva dessacralizada. Os locais são desolados, as pessoas são concebidas grosseiramente e o personagem de Cristo como se fosse um de nós. Há um lado hierático que marca a ficção. Os rostos tão duros e de uma beleza intemporal. Há uma simplicidade rough de arte povere (em paralelismo com o que estava a acontecer nas artes plásticas) que nos cativa. Apesar de Pasolini ter uma imagem pública pouco consentânea com os bons costumes burgueses e religiosos - marxista, ateu e homossexual (sim, já naquela altura tinha sido condenado por actos obscenos e corrupção de menores e, obviamente, expulso do PCI) o filme foi fortemente acolhido pela hierarquia de Vaticano e objecto de vários prémios de organizações católicas. Ah... O Pasolini dedicou o filme ao Papa João XXIII.

Contradições? Dialética, direi eu. Quem nunca tenha visto e tenha convicções católicas tem aqui uma bela reflexão sobre os fundamentos da nossa identidade religiosa.

18 maio 2022

Shine - Simplesmente Genial - Robert Scott Hicks (1996)

Com Geoffrey Rush, John Gielgud
Duração: 120 min

A genialidade e a loucura. Ou vice-versa. A história é bem real e é nossa contemporânea. Um pianista australiano de setenta e tal anos que, segundo a Internet, está atualmente a fazer uma digressão de fim de carreira por alguns países da Europa. Parece normal, mas não é. A genialidade foi aprisionada pela loucura e não há saída. Nunca se sabe o que esperar. O filme bem o enuncia. É a história de David Helfgott, menino-prodígio do piano a quem a vida correu mal (a Mozart, com o mesmo percurso inicial, as coisas correram bem, para nosso incomensurável prazer). Quando tudo indiciava que a geração de 60 iria ter um génio pianista como o Glenn Gould foi a debacle. Rotundo breakdown. Transtorno esquizoafectivo dizem os tratados de medicina psiquiátrica. Antipsicóticos e eletrochoques para cima do pobre. E depois, ao fim de muitos anos de tratamentos e reclusão, imprevisivelmente, ressuscita. Começa a tocar num bar e a ganhar fama. Até casa em 1984 e, aparentemente, o apoio da mulher deu-lhe o equilíbrio suficiente para renascer. Até agora. Mas, pelos dados recolhidos na ficção deve ser uma relação muito agitada, imprevisível e marxista (calma, refiro-me ao caos dos Irmãos Marx, lembrem-se) para não exagerar.

Ao som de Rachmaninoff, concerto número 3 (considerado pelos exegetas uma das peças de piano mais difíceis da história da música) vamos acompanhando o crescimento e evolução do pequeno e excêntrico prodígio musical (controlado por um pai ambicioso e ditatorial, marcado pelo trauma do campo de concentração a que conseguiu sobreviver) até que tudo se precipitou dramaticamente. Há um antes e um depois. Como há dois atores para o personagem. Quando adulto aterra no corpo de Geoffrey Rush e é para nós espectadores o prazer absoluto (o cinema permite isto: um enorme prazer a assistir à dor mais profunda e inconcebível). Um ator australiano vindo lá do fundo do deserto, que Hollywood e adjacências não mais deixaram escapar. Não são parvos. Para nosso bem. Deram-lhe logo o Óscar. Com justiça.

Só por associação de ideias cinéfilas... nos anos de consolidação do imaginário cinematográfico, Tod Browning, um cineasta enorme das primícias da história de Hollywood fez um conjunto de filmes sobre este universo de alienados mentais, dos quais se destaca o enorme Freaks, uma espécie de bizarro circo de atracções, mas onde o amor acontece. Como aqui. Entrem em cena e deixem-se possuir pela impetuosidade rachmaninoffiana do nosso pianista e pela sua quase angélica postura.

04 maio 2022

Frida - Julie Taymor (2002)

Com Selma Hayek, Alfred Molina
Duração: 118 min

Vamos recomeçar. México. Primeiras décadas do século XX. Grande agitação política e cultural. Grandes artistas. Fotógrafos (Alvarez Bravo e Tina Modotti). Pintores. Os muralistas - Orozco, Siqueiros e Diego Rivera. Num intervalo desta euforia desregrada mas controlada quanto baste pela vizinha América, emerge Frida Khalo. Associada para o bem e o mal a Diego Rivera (foram casados duas vezes) a sua vida é uma história de dor física e de excelência vivencial. Se quisermos, dor e paixão. Ícone feminista quanto baste, porque não conhecia fronteiras comportamentais. Pintora de excelência? O exotismo, o fantástico, o absurdo ou o simbólico da sua pintura (basicamente autorretratos) estão claramente sobrevalorizados no universo da definição dos valores culturais. Surrealista? As categorias vivenciais dela eram menos intelectuais e mais viscerais. Na essência era uma pintora naif. Mas o seu papel num cantinho da história do século passado está garantido. Foi amante do Trotsky (o nosso recém visto Geoffrey Rush) que viveu na casa dela e nesse contexto foi assassinado por um militante comunista espanhol a mando do Staline. O seu universo pessoal e do Rivera (a Casa Azul) felizmente manteve-se e é visitável com prazer na cidade do México.

Nesta história em que acompanhamos o percurso da Frida até à sua morte é recriado com brilho o imaginário da burguesia esclarecida no México, que sonhava revoluções, mas se dava muito bem com a riqueza do capitalismo americano, como foi o célebre caso do Mural no Rockfeller Center - revisitado no filme. Belíssima fotografia, óptima música e melhores performances de Selma Hayek como Frida e Alfred Molina como Diego Rivera. Passagem meteórica de Antonio Banderas. Vale a pena.

O pequeno grande homem - Arthur Penn (1970)

Com Dustin Hoffman, Faye Dunnaway
Duração: 34m

Shane, pura ficção. Vício de Matar, a verdade histórica mais ou menos... O Pequeno Grande Homem, meio ficção meio mito.

A verdade do Oeste contada pelo último sobrevivente do confronto entre o general Custer e os Cheyennes (uma das poucas vitórias reconhecidas historicamente dos índios sobre os brancos), com 121 anos. Aqui está, logo em termos conceptuais, o distanciamento sobre a verdade histórica. É difícil alguém chegar a esta idade e muito menos com cabeça para recordar corretamente o passado. Assim este épico é passado entre a verdade e a mentira. Entre o sério e o risível. Numa farândula contínua de encontros e desencontros do personagem Crabb (o grande pequeno Dustin Hoffman) - índio, religioso, feirante, pistoleiro, comerciante, batedor, carroceiro e muito mais. Este índio (não índio) ajuda-nos a situar-nos naquele universo do Oeste americano em que tudo mudava à velocidade... pelo menos dos cavalos. Na trepidação da história americana do Oeste tudo avançava numa espécie de circularidade. O personagem ia encontrando e reencontrando outras personagens - os índios, a irmã, a antiga protetora, o aldrabão feirante (este sempre com menos um bocado de corpo), o célebre Wild Bill Hickok (mitificado pela história, mas morto na trafulhice de um jogo de poker) - num rodopio de sobrevivência.

Neste jogo divertido e absurdo vão passando verdades dolorosas para a América. Os índios ("Ganhámos hoje. Não ganhamos amanhã), os heróis fake (General Custer)... É caso para dizer que "Todos morreram Calçados" o título português do filme do Raul Walsh (1941) sobre o Custer e a batalha de Little Big Horn, com o grande, mas desvairado Errol Flinn.

Para um filme de 1970 (Hollywood estava em crise de criatividade), aqui está uma história muito bem esgalhada, comédia amarga, irónica e... muito divertida.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...