01 abril 2023

Julia - Fred Zinneman (1977)

Com Jane Fonda, Vanessa Redgrave, Jason Robards
Duração: 117m

Anos 30. A besta nazi a inchar e a mostrar as garras. Uma história de pura amizade entre duas jovens americanas que que vamos acompanhando em cada "flashback/flashforward" ao longo do tempo. Uma rica (mas de forte consciência social) vem estudar para a Europa (Inglaterra e Viena). É a Julia.

Outra, intelectual, candidata a escritora que fica nos EUA. É a Lillian Hellman. 

A Julia assumiu-se uma combatente pela liberdade na Alemanha. A Lillian tornou-se numa escritora de referência, dramaturga (Broadway) e argumentista (Hollywood).

 Lillian Helman e Dashiell Hammet, um casal de escritores que marcaram a vida intectual americana durante décadas do século passado. Ambos de esquerda (chegaram a pertencer ao Partido Comunista Americano) tiveram uma vivência muito atribulada, como é de imaginar na América. Sofreram as agruras da perseguição do mccarthismo nos anos 50. Dashiell passou seis meses na prisão. Quem foi? Só o maior escritor americano de literatura policial (hard boiled fiction) juntamente com Raymond Chandler. Falaremos disto  na quarta - feira, até porque Hollywood fez alguns filmes clássicos a partir de livros deles. 

Pois toda a história do filme se desenvolve na articulação entre o par Lillian e Dashiell e a amiga Julia. Na essência é como que uma trama policial cruzada com o drama da história moderna da Europa (nazismo, perseguição aos judeus, União Soviética).

A Julia desaparece de Viena (após bárbara agressão nazi) e só passado muito tempo reaparece, "handicapée".

 Quando Lillian vai em visita à União Soviética é interceptada pelos amigos de Julia (resistentes anti-nazis) e passa por Berlim. Propõem-lhe uma missão que aceita. É a última vez que vê a amiga, eliminada mais tarde pelos nazis. As sequências da viagem de comboio são uma espantosa encenação do medo, da dúvida. O que me vai acontecer? Quem são estas - amigas ou inimigas? Vou ser presa? Tudo isto passa pela cabeça da escritora. 

Viagem de uma americana à Rússia de Staline e, ainda por cima, com honras principescas? Pois é. Naqueles tempos a máquina de propaganda soviética investia fortemente nos intelectuais ocidentais. Com regularidade convidavam escritores, artistas e jornalistas para irem ver em directo as conquistas do socialismo (muito bem encenadas e apaparicadas). Só alguns nomes conhecidos de todos: André Gide, Jorge Amado, John Steinbeck, Pablo Neruda, Pablo Picasso...E houve muitos mais. Nalguns casos o efeito foi perverso. Arthur Koestler veio de lá a dizer e escrever o pior da URSS.

Pois foi neste quadro que  Lillian Hellman fez aquela viagem entre novembro de 1944 e janeiro de 1945.

E regressou com a promessa de encontrar o bebé filho da amiga, que aparentemente Julia deixou na Alsácia.  A realidade aqui parece ter sido engolida pela ficção e as memórias da Lillian Hellman provavelmente foram dramatizadas e um bocado aldrabadas. Pelo menos não se livrou de disso ser acusada quando saiu o seu livro de memórias "Pentimento - A Book of Portraits". Chama-se "Pentimento" a  um efeito de diluição na pintura. Na primeira sequência do filme são dadas algumas referências. 

 Ficção temperada pela realidade ou o contrário, Fred Zinnemann (conhecia a realidade centro-europeia, pois tinha nascido em Viena) fez um belíssimo filme já na fase final da sua carreira, ele um cineasta clássico - "O comboio apitou três vezes," "Um homem para a eternidade" são referências incontornáveis.

E que dizer da Jane Fonda como Lillian? E Jason Robards como Dash (era assim que ela o chamava)? E a Julia de Vanessa Redgrave?

Ah... Então a Meryl Streep? Para ela foi o início de tudo no cinema. Um pequeno papel de menina rica de N. York. Mas o filme vale por tudo o mais. E não é pouco. Um clássico. Para nós é um aperitivo para os suculentos bolos que são os outros filmes escolhidos. Não se vão arrepender. 

 Nota marginal: vamos ver uma versão com legendas em espanhol. Não há qualquer problema. Percebe-se tudo.

Nem sempre o óptimo é possível.

Querelle – Rainer Werner Fassbinder (1982)

Com Brad Davis, Jeanne Moreau, Franco Nero
Duração: 108 min

Um cargueiro que chega a um porto. Um bar e bordel ali em frente. Uma chusma de gente pouco recomendável - marginais, assassinos, prostitutos e prostitutas, os trabalhadores das docas.

Um marinheiro que encontra o irmão. Amor/ódio fraternais. Querelle, o marinheiro que tem um pacto com o demónio. O prazer (dar e receber) é o que move todos. A criminalidade é a normalidade naquele mundo anormal. A ética não é para ali chamada. Como canta a dona do bar (Jeanne Moreau): "Todo o homem mata aquilo que ama". 

Encontros e desencontros. Trocas afetivas (Querelle toma a mulher que o irmão possuía, mas que não era sua mulher). Indistinção sexual (Querelle dá - se sexualmente ao dono do bar para chegar à sua mulher?). Assassínios e traições. 

Naquele universo perverso onde a imoralidade é a norma, o capitão do barco (Franco Nero) vai registando num pequeno gravador o seu amor utópico  pelo marinheiro Querelle, confissão simultânea de desejo e impossibilidade.

Fassbinder fez o filme (o último) a partir do romance "Querelle de Brest" do escritor francês Jean Genet. Tal como Fassbinder era de certa maneira um marginal, Genet era um marginal assumido. Vagabundo, ladrão, prostituto, homossexual exuberante e... escritor. Protegido por Jean Cocteau e Jean Paul Sartre, tem uma obra singular mais pelo objeto em si (nos anos 40 e 50 claramente perturbador para os bons costumes) do que pela qualidade literária. 

A partir daquela matéria-prima rude, perversa e pornográfica, Fassbinder constrói um filme como se fosse um manifesto da sua identidade e contradições. Ele foi casado com a grande actriz e cantora alemã Ingrid Caven (participou em vários dos seus filmes iniciais) mas foi essencialmente homossexual. Nesta fase  em que os seus amigos e parceiros do cinema começavam a recear pelo que lhe poderia acontecer - a Hanna Schigulla disse uns anos depois que ele estava cansado da vida e "correu para a morte" - Fassbinder como que se oferece no mais profundo das suas contradições ao seu público. Ele Fassbinder era Querelle.

A opção estética do filme é clara, como projeto radical. A artificialidade como atmosfera. Tudo é exagerado, barroco - as luzes, as sombras, os movimentos (como coreografias em que os corpos se movimentam em jogos despudorados e fingidos), os espaços (internos e externos). É uma espécie de expressionismo, provável homenagem aos seus avós cineastas alemães dos anos 20 (Fritz Lang e companhia). 

Como escreveu na altura um crítico: "O epitáfio perfeito de Fassbinder, uma mostra profundamente pessoal, um retrato despudorado da sensibilidade gay de um grande cineasta." 

Aviso à navegação (cinéfila): Há certas sequências de alguma crueza visual e a linguagem e o texto condutor da ficção (uma voz off que puxa pelos cordelinhos da história) são indecorosamente crus.

Perante isto cada um decida sim ou não.

Escrito no vento - Douglas Sirk (1956)

Com Rock Hudson, Lauren Bacall, Dorothy Malone, Robert Stack
Duração: 99 min

O "Dicionário dos Cineastas" de Georges Sadoul foi durante muito tempo uma. fonte imprescindível para as hostes cinéfilas europeias (está traduzido para português pela Livros Horizonte, 1979). Pois a referência ao nosso Sirk é assim como que um envergonhado 'lá tem que ser' em três linhas: " Não um autor, mas um honestíssimo adaptador, cujos filmes tiveram um valor equivalente aos best-sellers ou argumentos de onde eram tirados. O seu maior êxito: Written on the Wind (1956)".

Bullshit. Estes possidónios franceses... Pelo menos citou o nosso filme de hoje.

Assobiemos para o lado e mergulhemos sem medo nesta grande história familiar. Alguém lhe chamou um melodrama gótico sulista. Quatro personagens jovens num universo de poder financeiro. O petróleo como fonte de riqueza no Texas. O alcoolismo como compensação pelos vazios da alma e os desvios do corpo. Oposição entre pares. Altruísmo e honestidade versus frivolidade, irresponsabilidade e amoralidade (a irmã ninfomaníaca).

O que é mais interessante é que a história foi desenhada, com os necessários reajustamentos ficcionais, (para fugir às malhas da justiça) a partir de um escandaloso caso real ocorrido nos anos 30. Nesse sentido estamos perante um "roman à clef" com as necessárias adjacências ficcionais.
Deixemos para a visão do filme o vaivém das relações entre os personagens, a sua composição e recomposição. O personagem do Rock Hudson, que é exterior à família, funciona como uma espécie de monitor - está dentro, mas com o distanciamento possível de quem é de fora. Na verdade, "self made man", responsável, acaba por ser o centro dos instáveis equilíbrios.

Mais uma vez um irresistível kitsch nos apanha em cada pormenor e uma estética camp que nos faz ligar mentalmente ao nosso vizinho Almodóvar, obviamente um grande cultor do cinema de D. Sirk.
Encontrei uma referência espantosamente acertada sobre o filme: "... um perverso, infame e divertido melodrama onde se podem encontrar as sementes de Dallas, Dynasty e outras novelas do prime time televisivo."
Sim, mas aqui está o requinte, a elegância, a tensão dramática.

Só alguns dados dessa qualidade suprema do D. Sirk:

- A circularidade da história. Um carro desportivo que circula em alta velocidade, um condutor bêbado, a entrada na mansão familiar. Depois o tempo anda para trás. É a trama que nos vai absorver. Tudo vai terminar mal, obviamente. Só o epílogo safa a coisa. O happy end.

- O genérico inicial. Uma cantiga charoposa acompanha o filho alcoólico. O vento projeta as folhas outonais das árvores para dentro da mansão. Está escrito no vento que o sangue jorrará.

- A torre do petróleo, adereço da secretária do pater família que, manipulada perversamente pela filha, ajuda a ler muitas coisas daquele universo.

- A música como elemento dramático fundamental na ficção, ampliando o dramatismo quando necessário, açucarando os ambientes noutras ocasiões. Nunca está lá para encher. Sempre para acrescentar.

Terminemos dando a palavra ao autor:

"Mesmo no teatro, a história não é importante. Pense em todas as histórias tontas de Shakespeare e compare-as com Walter Scott... O que conta é a linguagem. E, no cinema, a linguagem tem de ser assumida pela câmara - e pela montagem. Written on the Wind começa pela conclusão. O espectador é suposto saber aquilo que o espera. É um tipo diferente de suspense ou anti-suspense. O público é forçado a desviar a sua atenção para o como ao invés do quê, para a estrutura ao invés da trama narrativa, para as variações sobre um tema, para os desvios do tema, ao invés do tema propriamente dito. (...) E no final, não há solução nem antítese, só o Deus ex Machina, que hoje é chamado happy end. "

Pois assim seja. Na vida real as coisas são mais complicadas. Quando a Lauren Bacall estava a fazer o filme, estava o Bogart, seu marido a morrer de cancro do esófago. A sua personagem era pressuposta ir para o Irão acompanhando o R. Hudson, a atriz ia para casa apoiar o marido no fim trágico de uma belíssima história de amor, essa sim muito real.

As Pontes de Madison County - Clint Eastwood (1995)

Com Clint Eastwood, Meryl Streep. 1995. 135 min

Encontro abençoado entre duas das referências incontornáveis do cinema americano das últimas décadas.

Uma história de quatro dias de mútua atração e êxtase entre duas pessoas com mundos e vivências muito diferentes.

Verão de 1965. Uma mulher num rancho, casada, com dois filhos, algures no Estado do Iowa (centro/oeste dos EUA entre os rios Missouri e Mississippi). Francesca de seu nome, nascida em Itália. Trazida para os EUA pelo marido, soldado americano na Segunda Guerra Mundial. Tem o mundo truncado pela continuidade indefinida das searas de trigo e dos campos de milho e pelo ritmo anual das colheitas.

Um homem que chega. Fotógrafo profissional da National Geographic. Vai fazer uma reportagem sobre as pontes cobertas em madeira que fazem parte daquele universo rural desde o século XVIII. Robert é o seu nome e tem muito mundo na sua vida.

Do encontro acidental à paixão tórrida foi uma questão de horas. Quatro dias depois tudo estava acabado , como se fosse a canção do Chico Buarque... e tudo acabou na quarta-feira. Mas não. A memória. As recordações. Os sonhos. Tudo isso perdurou no coração dela até ao momento final da sua vida. É disso que é feita esta história contada em flashback através da leitura dos diários deixados pela Francesca aos dois filhos.

Naqueles quatro dias em que o marido e os dois filhos se ausentaram para irem a uma feira agrícola, aquela mulher que tinha uma vida decente, equilibrada, programada pelos usos e costumes lá da terra, como que sai de si. A Itália perdida da sua juventude. Os interesses culturais (a ópera, os blues, a literatura). O corpo mais ou menos entorpecido a ressuscitar o desejo.

À medida que os filhos vão lendo os diários (ambos refletindo as limitações da sua educação naquele universo fechado) vão aceitando a evidência dos factos. A mãe tinha vivido aquilo. Choque e admiração. Da intransigência à aceitação. Cada um deles percebe (mas se calhar nada vai acontecer) que eles próprios têm que agitar os seus quadros de vida familiar, que sabemos não serem nada bons.

Obviamente que a Francesca não foi ter com o Robert. Não era louca. Não teve coragem. Como ela dizia, receava as mudanças.

Retomou a normalidade do dia a dia. Ficou com as memórias e os sonhos. Nós ficamos com uma história belíssima contada a um ritmo lento, pausado, próprio daqueles sítios em que quase nada acontece.

A Streep e o Eastwood dão-nos uma lição de representação e cinema. A contenção dela naquele processo de revivificação e a normalidade daquele fotógrafo que ali encontra o que no fundo de si procurava há décadas. Cinema de excelência na melhor tradição dos clássicos. Quarenta anos antes e esta história poderia ter sido filmada pelo John Ford. Querem melhor elogio?

Johnny Guitar - Nicholas Ray (1954)

"Johnny Guitar" - Nicholas Ray. C/Joan Crawford, Mercedes McCambridge, Sterling Hayden, Ward Bond. 110 M. 1954. Johnny - How many ...