Duração: 108 min
Um cargueiro que chega a um porto. Um bar e bordel ali em frente. Uma chusma de gente pouco recomendável - marginais, assassinos, prostitutos e prostitutas, os trabalhadores das docas.
Um marinheiro que encontra o irmão. Amor/ódio fraternais. Querelle, o
marinheiro que tem um pacto com o demónio. O prazer (dar e receber) é o que
move todos. A criminalidade é a normalidade naquele mundo anormal. A ética não
é para ali chamada. Como canta a dona do bar (Jeanne Moreau): "Todo o
homem mata aquilo que ama".
Encontros e desencontros. Trocas afetivas (Querelle toma a mulher que o irmão possuía, mas que não era sua mulher). Indistinção sexual (Querelle dá - se sexualmente ao dono do bar para chegar à sua mulher?). Assassínios e traições.
Naquele universo perverso onde a imoralidade é a norma, o capitão do
barco (Franco Nero) vai registando num pequeno gravador o seu amor
utópico pelo marinheiro Querelle, confissão simultânea de desejo e
impossibilidade.
Fassbinder fez o filme (o último) a partir do romance "Querelle de Brest" do escritor francês Jean Genet. Tal como Fassbinder era de certa maneira um marginal, Genet era um marginal assumido. Vagabundo, ladrão, prostituto, homossexual exuberante e... escritor. Protegido por Jean Cocteau e Jean Paul Sartre, tem uma obra singular mais pelo objeto em si (nos anos 40 e 50 claramente perturbador para os bons costumes) do que pela qualidade literária.
A partir daquela matéria-prima rude, perversa e pornográfica, Fassbinder constrói um filme como se fosse um manifesto da sua identidade e contradições. Ele foi casado com a grande actriz e cantora alemã Ingrid Caven (participou em vários dos seus filmes iniciais) mas foi essencialmente homossexual. Nesta fase em que os seus amigos e parceiros do cinema começavam a recear pelo que lhe poderia acontecer - a Hanna Schigulla disse uns anos depois que ele estava cansado da vida e "correu para a morte" - Fassbinder como que se oferece no mais profundo das suas contradições ao seu público. Ele Fassbinder era Querelle.
A opção estética do filme é clara, como projeto radical. A artificialidade como atmosfera. Tudo é exagerado, barroco - as luzes, as sombras, os movimentos (como coreografias em que os corpos se movimentam em jogos despudorados e fingidos), os espaços (internos e externos). É uma espécie de expressionismo, provável homenagem aos seus avós cineastas alemães dos anos 20 (Fritz Lang e companhia).
Como escreveu na altura um crítico: "O epitáfio perfeito de Fassbinder, uma mostra profundamente pessoal, um retrato despudorado da sensibilidade gay de um grande cineasta."
Aviso à navegação (cinéfila): Há certas sequências de alguma crueza
visual e a linguagem e o texto condutor da ficção (uma voz off que puxa pelos
cordelinhos da história) são indecorosamente crus.
Perante isto cada um decida sim ou não.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.