01 abril 2023

Escrito no vento - Douglas Sirk (1956)

Com Rock Hudson, Lauren Bacall, Dorothy Malone, Robert Stack
Duração: 99 min

O "Dicionário dos Cineastas" de Georges Sadoul foi durante muito tempo uma. fonte imprescindível para as hostes cinéfilas europeias (está traduzido para português pela Livros Horizonte, 1979). Pois a referência ao nosso Sirk é assim como que um envergonhado 'lá tem que ser' em três linhas: " Não um autor, mas um honestíssimo adaptador, cujos filmes tiveram um valor equivalente aos best-sellers ou argumentos de onde eram tirados. O seu maior êxito: Written on the Wind (1956)".

Bullshit. Estes possidónios franceses... Pelo menos citou o nosso filme de hoje.

Assobiemos para o lado e mergulhemos sem medo nesta grande história familiar. Alguém lhe chamou um melodrama gótico sulista. Quatro personagens jovens num universo de poder financeiro. O petróleo como fonte de riqueza no Texas. O alcoolismo como compensação pelos vazios da alma e os desvios do corpo. Oposição entre pares. Altruísmo e honestidade versus frivolidade, irresponsabilidade e amoralidade (a irmã ninfomaníaca).

O que é mais interessante é que a história foi desenhada, com os necessários reajustamentos ficcionais, (para fugir às malhas da justiça) a partir de um escandaloso caso real ocorrido nos anos 30. Nesse sentido estamos perante um "roman à clef" com as necessárias adjacências ficcionais.
Deixemos para a visão do filme o vaivém das relações entre os personagens, a sua composição e recomposição. O personagem do Rock Hudson, que é exterior à família, funciona como uma espécie de monitor - está dentro, mas com o distanciamento possível de quem é de fora. Na verdade, "self made man", responsável, acaba por ser o centro dos instáveis equilíbrios.

Mais uma vez um irresistível kitsch nos apanha em cada pormenor e uma estética camp que nos faz ligar mentalmente ao nosso vizinho Almodóvar, obviamente um grande cultor do cinema de D. Sirk.
Encontrei uma referência espantosamente acertada sobre o filme: "... um perverso, infame e divertido melodrama onde se podem encontrar as sementes de Dallas, Dynasty e outras novelas do prime time televisivo."
Sim, mas aqui está o requinte, a elegância, a tensão dramática.

Só alguns dados dessa qualidade suprema do D. Sirk:

- A circularidade da história. Um carro desportivo que circula em alta velocidade, um condutor bêbado, a entrada na mansão familiar. Depois o tempo anda para trás. É a trama que nos vai absorver. Tudo vai terminar mal, obviamente. Só o epílogo safa a coisa. O happy end.

- O genérico inicial. Uma cantiga charoposa acompanha o filho alcoólico. O vento projeta as folhas outonais das árvores para dentro da mansão. Está escrito no vento que o sangue jorrará.

- A torre do petróleo, adereço da secretária do pater família que, manipulada perversamente pela filha, ajuda a ler muitas coisas daquele universo.

- A música como elemento dramático fundamental na ficção, ampliando o dramatismo quando necessário, açucarando os ambientes noutras ocasiões. Nunca está lá para encher. Sempre para acrescentar.

Terminemos dando a palavra ao autor:

"Mesmo no teatro, a história não é importante. Pense em todas as histórias tontas de Shakespeare e compare-as com Walter Scott... O que conta é a linguagem. E, no cinema, a linguagem tem de ser assumida pela câmara - e pela montagem. Written on the Wind começa pela conclusão. O espectador é suposto saber aquilo que o espera. É um tipo diferente de suspense ou anti-suspense. O público é forçado a desviar a sua atenção para o como ao invés do quê, para a estrutura ao invés da trama narrativa, para as variações sobre um tema, para os desvios do tema, ao invés do tema propriamente dito. (...) E no final, não há solução nem antítese, só o Deus ex Machina, que hoje é chamado happy end. "

Pois assim seja. Na vida real as coisas são mais complicadas. Quando a Lauren Bacall estava a fazer o filme, estava o Bogart, seu marido a morrer de cancro do esófago. A sua personagem era pressuposta ir para o Irão acompanhando o R. Hudson, a atriz ia para casa apoiar o marido no fim trágico de uma belíssima história de amor, essa sim muito real.

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