Duração: 99 min
O "Dicionário dos
Cineastas" de Georges Sadoul foi durante muito tempo uma. fonte
imprescindível para as hostes cinéfilas europeias (está traduzido para
português pela Livros Horizonte, 1979). Pois a referência ao nosso Sirk é assim
como que um envergonhado 'lá tem que ser' em três linhas: " Não um autor,
mas um honestíssimo adaptador, cujos filmes tiveram um valor equivalente aos
best-sellers ou argumentos de onde eram tirados. O seu maior êxito: Written on
the Wind (1956)".
Bullshit. Estes possidónios
franceses... Pelo menos citou o nosso filme de hoje.
Assobiemos para o lado e
mergulhemos sem medo nesta grande história familiar. Alguém lhe chamou um
melodrama gótico sulista. Quatro personagens jovens num universo de poder
financeiro. O petróleo como fonte de riqueza no Texas. O alcoolismo como
compensação pelos vazios da alma e os desvios do corpo. Oposição entre pares.
Altruísmo e honestidade versus frivolidade, irresponsabilidade e amoralidade (a
irmã ninfomaníaca).
O que é mais interessante é que a
história foi desenhada, com os necessários reajustamentos ficcionais, (para
fugir às malhas da justiça) a partir de um escandaloso caso real ocorrido nos
anos 30. Nesse sentido estamos perante um "roman à clef" com as
necessárias adjacências ficcionais.
Deixemos para a visão do filme o vaivém das relações entre os personagens, a
sua composição e recomposição. O personagem do Rock Hudson, que é exterior à
família, funciona como uma espécie de monitor - está dentro, mas com o
distanciamento possível de quem é de fora. Na verdade, "self made
man", responsável, acaba por ser o centro dos instáveis equilíbrios.
Mais uma vez um irresistível
kitsch nos apanha em cada pormenor e uma estética camp que nos faz ligar
mentalmente ao nosso vizinho Almodóvar, obviamente um grande cultor do cinema
de D. Sirk.
Encontrei uma referência espantosamente acertada sobre o filme: "... um
perverso, infame e divertido melodrama onde se podem encontrar as sementes de
Dallas, Dynasty e outras novelas do prime time televisivo."
Sim, mas aqui está o requinte, a elegância, a tensão dramática.
Só alguns dados dessa qualidade
suprema do D. Sirk:
- A circularidade da história. Um
carro desportivo que circula em alta velocidade, um condutor bêbado, a entrada
na mansão familiar. Depois o tempo anda para trás. É a trama que nos vai
absorver. Tudo vai terminar mal, obviamente. Só o epílogo safa a coisa. O happy
end.
- O genérico inicial. Uma cantiga
charoposa acompanha o filho alcoólico. O vento projeta as folhas outonais das
árvores para dentro da mansão. Está escrito no vento que o sangue jorrará.
- A torre do petróleo, adereço da
secretária do pater família que, manipulada perversamente pela filha, ajuda a
ler muitas coisas daquele universo.
- A música como elemento
dramático fundamental na ficção, ampliando o dramatismo quando necessário,
açucarando os ambientes noutras ocasiões. Nunca está lá para encher. Sempre
para acrescentar.
Terminemos dando a palavra ao
autor:
"Mesmo no teatro, a história
não é importante. Pense em todas as histórias tontas de Shakespeare e
compare-as com Walter Scott... O que conta é a linguagem. E, no cinema, a
linguagem tem de ser assumida pela câmara - e pela montagem. Written on the Wind
começa pela conclusão. O espectador é suposto saber aquilo que o espera. É um
tipo diferente de suspense ou anti-suspense. O público é forçado a desviar a
sua atenção para o como ao invés do quê, para a estrutura ao invés da trama
narrativa, para as variações sobre um tema, para os desvios do tema, ao invés
do tema propriamente dito. (...) E no final, não há solução nem antítese, só o
Deus ex Machina, que hoje é chamado happy end. "
Pois assim seja. Na vida real as coisas são mais complicadas. Quando a
Lauren Bacall estava a fazer o filme, estava o Bogart, seu marido a morrer de
cancro do esófago. A sua personagem era pressuposta ir para o Irão acompanhando
o R. Hudson, a atriz ia para casa apoiar o marido no fim trágico de uma
belíssima história de amor, essa sim muito real.
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