30 abril 2026

Cinema: Programação até ao fim do ano escolar

Depois de passarmos os quatro filmes  ("Rocco e Seus Irmãos", "Uma vida difícil", "O homem a quem chamaram cavalo" e "E deram-lhe uma espingarda") em atraso por demasiadas quartas-feiras "desviadas" para outras actividades - e no pressuposto de que conseguiremos cumprir os objectivos programáticos, eis a lista de continuação até ao fim do ano escolar:

A Noite Americana (1973) - François Truffaut. 
A rodagem de um filme e os pequenos e grandes dramas amorosos dos actores e dos técnicos. Acidentes e incidentes. O cinema por dentro e por fora. Jean-Pierre Léaud, o prolongamento ficcional (Antoine Doinel, alter ego) de François Truffaut e Jacqueline Bisset, esplendorosa na sua juventude.
"Day for night " ou "noite americana", é uma técnica de iluminação cinematográfica que filma a noite durante o dia, por filtros e configurações específicas na câmera. Delicadamente belo. 

Eva (1950) - J. L. Mankiewicz.
Escrito e dirigido por um dos mestres de Hollywood, com um leque de estrelas alargado, desde a rainha Bette Davis até ao fabuloso George Sanders. Pelo meio aparece a Marilyn Monroe, ainda na fase de arranque. Uma história de invejas, traições, oportunismos e conflitos de egos no universo artístico da Broadway. Venceu Óscares e prémios vários. Faz parte do melhor da história do cinema. 

Ultrapassagem (1962) - Dino Risi. 
Um clássico do cinema europeu de um dos maiores mestres da "comédia italiana". Um "road movie" por Itália, guiados Vittorio Gassman, com Jean-Louis Trintignant ao lado. As voltas e voltinhas de dois jovens à descoberta de si, uma análise social pertinente e humor requintado ao som das cantigas de Domenico Modugno e Peppino di Capri. Recordar é viver. A reviver com prazer.

Perfume de mulher (1992) - Martin Brest.
Quase vinte anos antes o mesmo duo de "Ultrapassagem", Dino Risi e Vittorio Gassman, tinham feito esta história com sucesso público. Neste remake a história passou de Itália para os EUA mas manteve o essencial da matriz ficcional. Um militar na reforma, cego, irascível, difícil, com todas as idiossincrasias fora do lugar. Um jovem universitário contratado para o aturar. Mas ...o inesperado aconteceu. Um fim de semana inesquecível em NY. Al Pacino a dominar a situação com direito a Oscar.

A rapariga da mala (1961) - Valerio Zurlini. 
Itália. Princípio da década de 60. Uma aspirante a cantora encontra o falso amor da vida. Um playboy cheio de paleio que, obviamente, a abandona. Reencontra o amor com um parceiro muito mais novo que ousa roubar para  benefício dela. Primícias amorosas. Amores equivocados. Amor, desejo, engano. A história já tem milénios, é da idade do homem. Zurlini realizou uns anos mais tarde "O deserto dos Tártaros" (que vimos aqui) também com o Jacques Perrin. Claudia Cardinale, a jovem amorosa, fez aqui um dos papéis da sua vida.

Cumprimentos,
Jorge Barata Preto 

29 abril 2026

Uma Vida Difícil, de Dino Risi (1961)

Uma Vida Difícil - Dino Risi. C/Alberto Sordi, Léa Massari. 113m. 1961
 
Commedia all'italiana. A comédia italiana. Uma designação, um título, uma marca, que funcionou durante anos - nas décadas de 50, 60 e 70 - como uma espécie de selo de identidade de uma determinada forma de o cinema "ler" a sociedade italiana na multiplicidade das suas facetas, na diversidade dos seus quadros políticos e sociais, nas contradições dramáticas ou risíveis e na variedade dos seus comportamentos. Em múltiplos filmes - muitos deles verdadeiras obras-primas e muitos outros uma chachada - o cinema italiano criou sátiras cruéis sobre os vícios sociais da Itália no processo do milagre económico do pós-guerra, com humor negro e ironia, a farsa e o grotesco a invadirem o ecrã, em tom agridoce e registo tragicómico. Verdadeiras sessões psicanalíticas colectivas sobre a sociedade italiana.

A Itália na montra, em exposição, sem filtros nem cortinas, despida, nua. Um dos filmes de referência da comédia italiana, também feito em 1969 pelo Dino Risi, chamava-se precisamente "Vejo tudo nu". Não houve tema, temática, instituições e ideias que não tenham sido abordados pelo cinema nesta altura: a família, o aborto, a igreja, o Estado, a política, as polícias, a universidade, os tribunais...

O período que vai da guerra até ao fim dos anos 60 é riquíssimo na história contemporânea de Itália: o fim do fascismo, a transição da monarquia para a república após referendo em 1946, o poder continuado da democracia cristã e a instalação do PCI como força política pertinente nas cinturas industriais e intelectualmente poderosa nos círculos culturais.

Este é o contexto de "Uma Vida Difícil".

Libertação da Itália depois da morte de Mussolini. Fim da guerra. Silvio (Alberto Sordi), comunista de alma e coração, idealista,  que tinha sido partiggiani (membro da resistência italiana), regressa a Roma. Consegue emprego, mal pago, como jornalista num jornal do partido. Mais tarde reencontra Elena (Léa Massari) que o tinha salvo de ser fuzilado por um soldado alemão e por quem se tinha apaixonado. Casam, mas tudo corre mal. O dinheiro é curto e a convicção política enorme. Gradualmente começam os conflitos. Obviamente tudo rebenta pelas costuras. Por entre a amargura e a angústia, o casamento entra em ruptura.

Silvio é preso, envolvido num caso dúbio de suborno e difamação por um poderoso Commendatore a partir dos artigos vitriólicos que publica, e acusado por perturbação pública aquando da tentativa de assassinato de Togliatti, o líder do PCI, em 1948. Escreve um romance autobiográfico (que não consegue publicar) que tenta vender para ser passado a filme e aí temos uma das várias sequências antológicas com a visita aos estúdios da Cinecittà onde se vai cruzando com vedetas do cinema, vendedores de sonhos - Vittorio Gassman, Silvana Mangano e Alessandro Blasetti (realizador de referência vindo do cinema mudo) - a prestarem-se ao cameo.

No arco temporal de quinze anos, Silvio vai perdendo a virgindade em relação à vida. A sua fidelidade a princípios morais, políticos e sociais vai-se debatendo com a incompreensão, o fracasso e a infelicidade. A amargura e a dignidade patética vão cedendo o lugar à lucidez e à consciência do eu. Mas não consegue fugir às confusões, trabalhando como secretário faz-tudo para um rico. Recupera o amor de Elena. Uma vitória que a priori não era previsível. O optimismo nem sempre finalizava a comédia italiana. Mas provavelmente os problemas voltam a acontecer logo que o casal sai orgulhoso da festa dos ricos, religiosos e poderosos. 

Com a passagem do tempo e o desenvolvimento da ficção a serem pontuados pelos títulos dos jornais (como em "Rocco e Seus Irmãos" do Visconti a história é organizada pelo nome de cada irmão), no universo superlativo criado por Dino Risi há algumas sequências soberbas. Para além da visita à Cinecittà, lembro mais três. O jantar no dia do referendo, na casa de uma família aristocrática, espelho da Itália velha, podre, bafienta, em vias de ser expulsa da História. O nosso herói, frustrado, bêbado, na estrada cuspindo para os carros, gesto paroxístico de desespero. O funeral da sogra. Silvio aparece num carrão exibindo uma falsa ostentação (o carro era do patrão e tinha sido desviado). O espanto dos aldeões é como se fosse um velho filme cómico mudo.

Alberto Sordi faz um personagem espantoso. Um homem cheio de ideais que não consegue gerir. Peripatético no seu idealismo deslocado. Cómico e trágico ao mesmo tempo.

Dino Risi é um nome incontornável do cinema europeu. Começou em 1950 e filmou até aos anos 90. Teve uma carreira fértil, deixou um conjunto de obras-primas e filmou com os melhores actores e actrizes - só com Vittorio Gassman fez 16 filmes. Alguns analistas escreveram que foi "o pai da comédia italiana".

Mas a comédia italiana teve muitas e diferentes facetas e sensibilidades. A Dino Risi podem acrescentar-se - longe de se ser exaustivo - outros nomes: Mario Monicelli, Luigi Commencini, Pietro Germi, Vittorio de Sica, Ettore Scola...

22 abril 2026

Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti (1960)

Rocco e Seus Irmãos - Luchino Visconti. C/Alain Delon, Renato Salvatore, Annie Girardot, Claudia Cardinale. 1960. 2:54.

Luchino Visconti, o aristocrata comunista, o cineasta operático. Muitos outros selos identitários se lhe podem colar, mas basta considerar que foi um grande artista europeu do Século XX - cineasta e encenador.

Começou no cinema no pós-guerra, com "A Terra Treme" (1947), um espantoso documentário sobre os pescadores, mineiros e camponeses da Sicília, financiado pelo PCI, mas tinha aprendido, nos anos trinta, em França, com o mestre Jean Renoir. Em 1954 tinha feito o belíssimo "Senso" (que já vimos). Em 1963 fez o magnífico "O Leopardo" (também já vimos) e fez outros grandes filmes que são uma referência na nossa memória colectiva.

Em 1960 filmou "Rocco e Seus Irmãos", o seu sexto filme, que constituiu o seu primeiro sucesso de mercado e também crítico. História forte de incidência social e política, um retrato duro da Itália daquele tempo. Contrastes profundos. A Sicília e Milão. O sul e o norte. O campo e a cidade. O sub-desenvolvimento e a industrialização. "Drama realista marcado por um pessimismo dostoievskiano", como se escreve, e bem, num texto da Cinemateca Portuguesa. 

A família Parondi. Rosario, uma viúva recente, e os seus cinco filhos. Com o filho mais velho já "emigrado", chega  em bando lá do fundo miserável, medieval e violento da Itália, a Milão, espelho da dinâmica industrial e desenvolvimentista que o país foi, pouco a pouco, construindo após a guerra (houve quem lhe chamasse 'o milagre italiano'). O movimento migratório aconteceu naturalmente como em Portugal, por essa altura, (também do sul para o norte) com o Alentejo a "invadir" a margem sul do Tejo e a grande Lisboa, a chamada cintura industrial.

A família instala-se e cada membro incarna uma história, com sobreposições, contradições, invejas e conflitos. A procura de mão de obra industrial não era assim tão grande para uma oferta abundante e esfomeada vinda do campo. Nas franjas da sociedade, cada um dos irmãos tenta safar-se. 
O boxe tinha o seu fascínio  no meios proletários e no lumpen (constate-se o paralelismo com Portugal e a história do boxeur Belarmino, sobre quem o Fernando Lopes fez, em 1964, um magnífico documentário). A tragédia acontece naturalmente e a desintegração familiar é o resultado óbvio do choque com a grande cidade.

Dois irmãos e uma mulher, prostituta por necessidade. O amor nas margens da normalidade. A tragédia ao virar da esquina.

Não há direito ao sonho. Só o irmão mais novo, ainda uma criança, ousa pensar voltar às origens. É demasiado jovem. Ele não tem recordações do inferno que a família deixou. E também  não sabe ainda que não há terra prometida.

À época a maioria das críticas ao filme na Europa decorriam de uma leitura excessivamente politizada, muitas vezes remetendo para os textos de teorização marxista de Gramsci em que toda a trama melodramática como que era codificada num âmbito mais alargado da luta de classes. Não é preciso irmos por aí. Fiquemos pelo melodrama no seu excesso épico e na violência dos actos. Mas não podemos alienar a conflitualidade social, as diferenças na condição humana, os desajustamentos vivenciais e a dinâmica social.

João Bénard da Costa, sempre analiticamente pertinente, escreveu num texto da Cinemateca Portuguesa: "A história dos cinco irmãos é a história de diferentes etapas na assunção da luta de classes: a passividade de Vincenzo, a perdição de Simone, o idealismo estéril de Rocco, a consciência crítica de Ciro e, finalmente, a caminhada de Luca para a terra prometida".

História poderosa, de amor e ódio, sobre códigos familiares em que o machismo intercala com o matriarcado, vindos lá do fundo dos tempos. Herança da estética neorealista num melodrama pungente.

Visconti sustentava cada projecto fílmico nos actores. Aqui temos o jovem Alain Delon na magnitude da sua presença, frágil mas convicto na defesa  do espírito familiar e Annie Girardot, a grande actriz francesa, a ser a Nadia por quem os irmãos Simone e Rocco se perdem. Também há a Claudia Cardinale ainda muito nova, com um pequeno papel. Mas quem assume o eixo dramático daquela família em agitação é a mãe, interpretação superior da actriz grega Karina Paxinou, muito mais do teatro mas ganhando visibilidade quando chamada ao cinema. Faz o papel de mãe. Já a tínhamos visto uns anos antes (1943) em "Por Quem os Sinos Dobram", a partir de Ernest Hemingway.

Mas há mais estrelas no filme. Na fotografia o grande Giuseppe Rotunno, que filmou entre a Europa e Hollywood, fez nomeadamente "All that Jazz" para Bob Fosse. Nino Rota na música, valorizando dramaticamente as situações, com uma partitura quase paroxística. Seria o autor da maior parte das bandas sonoras dos filmes do Fellini (igualmente Rotunno foi parceiro criativo de Federico Fellini, para quem fez a fotografia de alguns dos seus clássicos) e fez a banda sonora de "O Padrinho" para o Francis Ford Coppola.

Rever este filme é, para além da fruição da sua inigualável qualidade ficcional e dramática, recordar, em certo sentido, por analogia, o nosso país naquele tempo cinzento e sem esperança. Felizmente houve o 25 de Abril.

Cinema: Programação até ao fim do ano escolar

Depois de passarmos os quatro filmes  ("Rocco e Seus Irmãos", "Uma vida difícil", "O homem a quem chamaram cavalo...