Umberto D - Vittorio de Sica. C/ Carlo Battisti, Lina Gennari. 1:29. 1952
Itália. Princípio da década de 50. Passados meia dúzia de anos sobre o fim da guerra, a vida não era nada fácil. A democracia-cristã tinha-se instalado no poder, onde ficou de 1944 a 1994 (sim ... cinquenta. anos). Naquele tempo, em que a sociedade italiana era muito politizada e o Partido Comunista Italiano tinha prestígio político e intelectual acumulado (pelo papel na resistência anti-nazi e pela militância de personagens culturais relevantes - escritores, cineastas, dramaturgos e outros intelectuais) e força social nos meios operários, o partido democrata-cristão funcionava como uma espécie de tampão de contenção das forças socialistas e comunistas, num equilibrismo contingente, que funcionava. Paz podre. Pobreza, desemprego, dura realidade social, miséria encoberta e envergonhada. A devastação social e política do fascismo e os seus restos perversos ainda incrustados no dia-a-dia das pessoas e nos mecanismos institucionais da sociedade.
O cinema deu uma boa resposta a este estado de coisas. Desceu da pompa burguesa, xaroposa, envernizada, vazia e artificial, de exaltação nacionalista dos filmes alimentados pela máquina ideológica do regime de Mussolini, saiu dos estúdios e instalou-se nas ruas, foi ter com o povo. A intelectualidade chamou-lhe neorealismo. Histórias comoventes de sobrevivência, de luta contra as adversidades. Narrativas simples, não artificiosas. A procura da autenticidade. O espelho do real. O cinema e a vida. Usando maioritariamente actores não actores, "pescados" na rua, cenários reais (muitos ainda espelhando a destruição da guerra), iluminação natural, eram ficções reconhecíveis como suas pelo "zé ninguém". O escapismo anterior foi negado e deitado para o lixo. Era demasiado asséptico.
A novidade e a qualidade associaram-se e foi o sucesso - junto das plateias do grande público e no contexto cultural dos festivais de cinema.
Rossellini com "Roma Cidade Aberta" (1945) e Visconti com "Obsessão" (1943) e "A Terra Treme" (1948) são referências incontornáveis do neorealismo, mas Vittorio de Sica (1901-74) é o nome central, como realizador. A ele se devem quatro filmes que são inapagáveis das enciclopédias do cinema: "Sciuscià" (1946), "Ladrões de Bicicletas" (1948), "Milagre em Milão" (1951) e "Umberto D" (1952).
Todos estes filmes foram escritos (ou co-escritos, nalguns casos a várias mãos) por Cesare Zavattini (1902-1989). Em certo sentido ele é considerado o teórico do neorealismo cinematográfico. Foi um dos criadores do seu léxico, dos seus cânones, da sua identidade. A sua carreira como argumentista cruzou-se muitas vezes com a de Vittorio de Sica desde que se conheceram em 1935 (na verdade em todos os filmes que De Sica fez como realizador, dizem as enciclopédias), mas ele escreveu argumentos para muitos, diversificados e bons realizadores (quase todos) italianos - Roberto Rossellini, Michelangelo Antonioni, Federico Fellini, Pietro Germi, Mario Monicelli, Dino Risi...
"Umberto D", o senhor Umberto Domenico Ferrara, nome de um cidadão sénior, funcionário público reformado do Ministério do Trabalho. Em Roma vive a sua velhice com uma reforma que não consegue esticar até ao fim do mês. A indigência com a dignidade possível, com recorrência a esquemas de sobrevivência e estratagemas ardilosos. Um homem cansado. Há nele uma dignidade melancólica. Uma certa nobreza comportamental.
Um cão, de nome Flike, é o seu parceiro de todas as horas. Fiel como são os cães. Umberto está em vias de ser despejado do quarto onde vive, por não conseguir pagar a renda. O seu universo solitário é partilhado por Maria, a empregada doméstica, também com uma vida miserável e com complicações adicionais - problemas de amor.
Vamos acompanhando o duo homem/cão nas deambulações pela cidade enquanto o homem, qual alma penada, tenta resolver a sua situação. No seu desespero pensa em pedir esmola e até no suicídio. São comoventes a angústia e a tensão quando o cão desaparece. Por fim, que alívio, o Flike lá está, à espera do dono. Recomposta a normalidade, o que resta? O futuro não é nada prometedor. Homem e cão afastam-se de nós, à procura de uma solução. Talvez aconteça um milagre.
Cinema como espelho social. E político. Era aquela a realidade de Itália daqueles tempos. A rua contava todas as histórias. E não eram nada bonitas. Obviamente que os poderes instalados não gostavam. O filme foi perseguido pelo governo democrata-cristão do tempo. Giulio Andreotti (mais tarde primeiro-ministro, por sete vezes) assumiu na imprensa uma posição altamente crítica sobre o filme - "uma má imagem do país" e "lavar a roupa suja em público" escreveu ele em artigos inflamados contra o filme e o neorealismo.
Os democrata-cristãos tentaram, infrutiferamente, bloquear a sua apresentação no Festival de Cannes. Mas "Umberto D" venceu todas as resistências e intrigas, toda a censura moral e política. O filme chegou aos nossos dias com a auréola dos melhores, com uma enorme capacidade de para nos comover. Passou o tempo, alterou-se o contexto, mas mantêm-se os problemas.
Era um dos filmes favoritos de Ingmar Bergman. Chaplin terá chorado ao vê-lo.
Um filme-poema.
Vittorio De Sica. Um artista, duas identidades. Teve uma ampla e reconhecida carreira como actor. Mais de 150 filmes. Muitos europeus (nomeadamente co-produções) e alguns americanos ou produções internacionais.
Como realizador fez muito menos filmes, 25. Mas o seu curriculum está bem recheado de reconhecimento internacional. Foi quatro vezes agraciado por Hollywood - é obra - com o Oscar do Melhor Filme Estrangeiro: "Sciuscià" (1948), "Ladrões de Bicicletas" (1950), "Ontem, Hoje e Amanhã" (1965) e "O Jardim onde vivemos" (1971).
Acompanhemos carinhosamente aquele homem e aquele cão, cuja ligação afectiva é quase do mesmo tipo que a ligação entre os homens. Já agora, deliciemo-nos com as habilidades circenses e de representação do cão.