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31 maio 2026

Ultrapassagem - Dino Risi (1962)

Com Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Catherine Spaak
Duração: 1h45m

Roma, 15 de Agosto, feriado religioso (lá como cá, Dia da Assunção de Nossa Senhora). Cidade deserta.

Bruno (Vittorio Gassman), um quarentão, bem vivido, engatatão, cheio de arrogância. Um fura-vidas. É um tipo superficial, falso, egoísta e vazio. Na verdade, é um infeliz.

Passeia-se pela cidade no seu Lancia Aurelia Sport já um bocado gasto. Não respeita regras. Acelera em grande. Avança pelo sentido proibido com a normalidade do Xico esperto. No seu percurso exibicionista pelas ruas da cidade, conhece Roberto (Jean-Louis Trintignant), um jovem estudante de direito, tímido, ingénuo e complexado.

Com a sua lábia irresistível, Bruno convence (na verdade, força) Roberto a sair da cidade com ele e irem por aí, a acelerar. Saem de Roma para norte, e acabam em Viareggio, na Toscana, trezentos e tal quilómetros depois. Deriva. Uma viagem sem rumo determinado. O carro, centro da vida. Metafórico símbolo de poder. Dino Risi explica: "A Itália da guerra é a terra da bicicleta ou dos que andam a pé; depois veio a 'motorina' (motorizada, a lambreta) e, por fim, 'la machina', o fabuloso automóvel".

Encontros e desencontros acidentais,  com reencontros familiares pelo meio. O distanciamento a partir do discurso interior de Roberto ("O que é que estou aqui a fazer"? Não quero ir."). Mas a resistência inicial gradualmente transformou-se em anuimento e até parceria. Cada um com o seu passado, os equívocos, as contas por ajustar, os fantasmas. Como um road movie, em certo sentido, é a circulação em contínuo pela estrada que liberta os quadros ficcionais - os encontros, as memórias, as famílias, os engates... - e da comédia se vai, em mutação gradual, ao encontro do drama, da tragédia. Pelo meio vamo-nos cruzando com os pequenos e grandes contrastes da sociedade italiana, muitas vezes entre o ridículo e o riso. E o twist e as cantigas italianas do tempo.

O jovem Roberto gradualmente vai perdendo a sua ingenuidade, a sua virgindade. Vai-se tornando, em certo sentido, uma réplica de Bruno. Mas teve pouca sorte. Tudo acabou  dramaticamente na ultrapassagem. Nem os deuses lhe valeram. Teve pouca sorte. Mercúrio não o protegeu. Foi escolhido por Letum.

Não estávamos à espera de um conto moral. Eric Rohmer, contemporâneo de Dino Risi, ali ao lado, em França, naquela década filmou vários que ficaram célebres. Quem não se lembra de "A minha noite em casa de Maud" (1969), precisamente com Jean-Louis Trintignant , um pouco mais velho, e "O Joelho de Claire" (1970)?

Para o espectador actual - nós - o prazer (afectivo) da distância temporal, da memória.

A Brigitte Bardot, sex symbol europeu daquele tempo, emblema identitário do estouvado Bruno. Uma foto bem visível no tablier da máquina desportiva.

Antonioni, o cineasta contemporâneo de Dino Risi, cujo cinema estava nos antípodas da comédia italiana, portanto de Risi, citado pelo Bruno, aliás de uma forma certeira. A certa altura diz ele para o seu jovem companheiro de viagem: "Aquela coisa que está muito na moda hoje, a alienação. Viste 'O Eclipse' de Antonioni? Que seca. Adormeci. Grande realizador, o Antonioni.".

Private joke de  Dino Risi, obviamente. Naqueles tempos a criatividade no cinema italiano era enorme e muito variada, cabia lá tudo - Antonioni e Fellini, Pasolini e Ettore Scola, Sergio Leone e Rossellini, Luigi Visconti e Luigi Commencini, e por aí fora.

Já agora, na despedida da casa da infância do jovem Roberto, uma tia perguntando ansiosa se eles lá em Roma conheciam a Sofia Loren, como se fosse a vizinha do lado.

Revisitação de Dino Risi (1916-2008). Já aqui passou "Uma Vida Difícil" (1961) com Alberto Sordi. Nesta altura (princípio da década de 60) já ele tinha alcançado um estatuto de reconhecimento, com alguns sucessos de mercado. Fazia longas-metragens desde 1955, depois de um período de aprendizagem com curtas-metragens documentais. Acabou por ter uma carreira longa e prolífica.

De origem burguesa da Itália do norte, durante a guerra esteve refugiado na Suiça, licenciou-se em psiquiatria, mas acabou por enveredar pelos filmes. Foi certamente aquele lado da sua formação (chegou a praticar) que acabou por enformar a essência do seu cinema, dos argumentos que escolheu e co-escreveu. Foi um soberbo retratista da sociedade italiana, das suas peculiaridades e estereótipos. Manuseou a "alma italiana" - rindo, sorrindo, com simpatia ou desprezo, com bonomia ou azedume - com um bisturi afiadíssimo que, às vezes, deitava sangue. O seu cinema era um espelho muito cintilante do zeitgeist da Itália do seu tempo.

Dino Risi foi figura maior da commedia all'italiana, "bufão vigoroso despudoradamente explorando a sátira social". Opiniões estudiosas e especializadas põem-no no topo juntamente com Mario Monicelli.

"Ultrapassagem" (tal como "Uma Vida Difícil") figura entre os filmes de referência desse período riquíssimo do cinema italiano que começou nos anos 50 e foi até à década de 70.

29 abril 2026

Uma Vida Difícil - Dino Risi (1961)

Com Alberto Sordi, Léa Massari. Duração: 1h53m
 
Commedia all'italiana. A comédia italiana. Uma designação, um título, uma marca, que funcionou durante anos - nas décadas de 50, 60 e 70 - como uma espécie de selo de identidade de uma determinada forma de o cinema "ler" a sociedade italiana na multiplicidade das suas facetas, na diversidade dos seus quadros políticos e sociais, nas contradições dramáticas ou risíveis e na variedade dos seus comportamentos. Em múltiplos filmes - muitos deles verdadeiras obras-primas e muitos outros uma chachada - o cinema italiano criou sátiras cruéis sobre os vícios sociais da Itália no processo do milagre económico do pós-guerra, com humor negro e ironia, a farsa e o grotesco a invadirem o ecrã, em tom agridoce e registo tragicómico. Verdadeiras sessões psicanalíticas colectivas sobre a sociedade italiana.

A Itália na montra, em exposição, sem filtros nem cortinas, despida, nua. Um dos filmes de referência da comédia italiana, também feito em 1969 pelo Dino Risi, chamava-se precisamente "Vejo tudo nu". Não houve tema, temática, instituições e ideias que não tenham sido abordados pelo cinema nesta altura: a família, o aborto, a igreja, o Estado, a política, as polícias, a universidade, os tribunais...

O período que vai da guerra até ao fim dos anos 60 é riquíssimo na história contemporânea de Itália: o fim do fascismo, a transição da monarquia para a república após referendo em 1946, o poder continuado da democracia cristã e a instalação do PCI como força política pertinente nas cinturas industriais e intelectualmente poderosa nos círculos culturais.

Este é o contexto de "Uma Vida Difícil".

Libertação da Itália depois da morte de Mussolini. Fim da guerra. Silvio (Alberto Sordi), comunista de alma e coração, idealista,  que tinha sido partiggiani (membro da resistência italiana), regressa a Roma. Consegue emprego, mal pago, como jornalista num jornal do partido. Mais tarde reencontra Elena (Léa Massari) que o tinha salvo de ser fuzilado por um soldado alemão e por quem se tinha apaixonado. Casam, mas tudo corre mal. O dinheiro é curto e a convicção política enorme. Gradualmente começam os conflitos. Obviamente tudo rebenta pelas costuras. Por entre a amargura e a angústia, o casamento entra em ruptura.

Silvio é preso, envolvido num caso dúbio de suborno e difamação por um poderoso Commendatore a partir dos artigos vitriólicos que publica, e acusado por perturbação pública aquando da tentativa de assassinato de Togliatti, o líder do PCI, em 1948. Escreve um romance autobiográfico (que não consegue publicar) que tenta vender para ser passado a filme e aí temos uma das várias sequências antológicas com a visita aos estúdios da Cinecittà onde se vai cruzando com vedetas do cinema, vendedores de sonhos - Vittorio Gassman, Silvana Mangano e Alessandro Blasetti (realizador de referência vindo do cinema mudo) - a prestarem-se ao cameo.

No arco temporal de quinze anos, Silvio vai perdendo a virgindade em relação à vida. A sua fidelidade a princípios morais, políticos e sociais vai-se debatendo com a incompreensão, o fracasso e a infelicidade. A amargura e a dignidade patética vão cedendo o lugar à lucidez e à consciência do eu. Mas não consegue fugir às confusões, trabalhando como secretário faz-tudo para um rico. Recupera o amor de Elena. Uma vitória que a priori não era previsível. O optimismo nem sempre finalizava a comédia italiana. Mas provavelmente os problemas voltam a acontecer logo que o casal sai orgulhoso da festa dos ricos, religiosos e poderosos. 

Com a passagem do tempo e o desenvolvimento da ficção a serem pontuados pelos títulos dos jornais (como em "Rocco e Seus Irmãos" do Visconti a história é organizada pelo nome de cada irmão), no universo superlativo criado por Dino Risi há algumas sequências soberbas. Para além da visita à Cinecittà, lembro mais três. O jantar no dia do referendo, na casa de uma família aristocrática, espelho da Itália velha, podre, bafienta, em vias de ser expulsa da História. O nosso herói, frustrado, bêbado, na estrada cuspindo para os carros, gesto paroxístico de desespero. O funeral da sogra. Silvio aparece num carrão exibindo uma falsa ostentação (o carro era do patrão e tinha sido desviado). O espanto dos aldeões é como se fosse um velho filme cómico mudo.

Alberto Sordi faz um personagem espantoso. Um homem cheio de ideais que não consegue gerir. Peripatético no seu idealismo deslocado. Cómico e trágico ao mesmo tempo.

Dino Risi é um nome incontornável do cinema europeu. Começou em 1950 e filmou até aos anos 90. Teve uma carreira fértil, deixou um conjunto de obras-primas e filmou com os melhores actores e actrizes - só com Vittorio Gassman fez 16 filmes. Alguns analistas escreveram que foi "o pai da comédia italiana".

Mas a comédia italiana teve muitas e diferentes facetas e sensibilidades. A Dino Risi podem acrescentar-se - longe de se ser exaustivo - outros nomes: Mario Monicelli, Luigi Commencini, Pietro Germi, Vittorio de Sica, Ettore Scola...

A rapariga da mala - Valerio Zurlini (1961)

Com Claudia Cardinale, Jacques Perrin... Duração: 1h53m "Um drama de amor com fundo de Verdi e de luta de classes numa Itália onde come...